ESTREIAS DA SEMANA : 30 DE MAIO – FAROESTE CABOCLO

Canções famosas já se tornaram filmes antes, mas na forma de títulos escolhidos para uma história criada independente da composição original : “My Girl”, por exemplo, clássico dos anos 60 do conjunto americano “ The Temptations” batizou “Meu Primeiro Amor” de 1991, que trazia o hoje esquecido McCauley Culkin. Em 1986, David Lynch empregou a clássica canção “Blue Velvet” dos anos 50 como metáfora das ações vis e cruéis dos habitantes de uma cidade que descortinava sua hipocrisia. No Brasil, podemos encontrar recentemente o filme “À beira do caminho” (2012) que usa a canção homônima de Roberto Carlos & Erasmo Carlos, lançada em 1969, como inspiração para embalar as viagens de um caminhoneiro pelas estradas do país. O caso de “Faroeste Caboclo” da Legião Urbana é atípico, pois a letra composta por Renato Russo (recentemente biografado em “Somos Tão Jovens”, ainda em cartaz) é desde sua composição inicial, feita em 1979, um roteiro cinematográfico completo: Uma narrativa com começo, meio e fim, história com reviravoltas contada com personagens e ambientação que encenam uma tragédia, que poderia muito bem caber numa peça Shakespeariana.

Tragedia Shakespeariana com gosto brasileiro

Tragedia Shakespeariana com gosto brasileiro

Estrofe por estrofe, a jornada de João de Santo Cristo, ao longo de seus 9 minutos de execução, foi um dos grandes sucessos da Legião Urbana em seu terceiro álbum, “Que País é esse”, lançado em 1987.Na época, quando executada nas rádios, toda vez que um palavrão era pronunciado, um ruído sonoro censurava a letra, o que só serviu para torná-la ainda mais popular. Como se fosse um trovador medieval, Renato Russo usou a canção para retratar as agruras da sociedade brasileira : O tráfico de drogas, o crime organizado, a corrupção política (o senhor de alta classe com dinheiro na mão), preconceito (descriminação por causa de sua classe e sua cor) e manipulação da mídia (a gente da tv filmava tudo ali / se a via crucis virou circo estou aqui). João de Santo Cristo torna-se representante de um povo empurrado por caminhos tortuosos, e onde o sistema destitui qualquer chance de redenção em um jogo de cartas marcadas, fazendo de todos vítimas dos próprios medos e preconceitos. Assim, imagem e palavras casam perfeitamente de forma a nos fazer cúmplices dessa sociedade de valores distorcidos à medida que nos identificamos com os personagens a cada acorde da bateria de Marcelo Bonfá, do baixo de Dado e do violão e voz de Renato Russo.

Que País é Esse. O Álbum de 1987

Que País é Esse. O Álbum de 1987

A ideia de filmar Faroeste caboclo já existia quando Renato vivia, mas só foi concretizado agora pela direção de Rene Sampaio e que traz Fabrício Boliveira como o anti-herói João de Santo Cristo, Ísis Valverde como Maria Lúcia e Felipe Abib como Jeremias – os personagens centrais dessa tragédia, que ainda tem o saudoso Marcos Paulo em seu último papel como um senador. A catarse é coletiva na construção e desconstrução da figura do herói que quer se redimir de seus pecados, mas que só consegue ser engolido pelos eventos que ele próprio atraiu para si. Só nos resta a certeza de que, nesse cenário imaginado lá no final dos anos 70, mas ainda incrivelmente atual, nossa gente só sofre e faz sofrer. Agora nos resta esperar por “Eduardo & Mônica” que caberia bem em uma comédia romântica e nos faz lembrar que a música brasileira já foi muito melhor que hoje.

por Adilson Cinema

3 comentários em “ESTREIAS DA SEMANA : 30 DE MAIO – FAROESTE CABOCLO

  1. Muito bom esse filme. Eu vi na estreia e fiquei encantado como o filme é fiel à música. Tem umas partes diferentes, mas foi muito bom ver o filme de minha infância na telinha do cinema.

    Muito bom os comentários.

  2. Quando ouvimos Renato Russo sentimos falta de um tempo onde víamos através das músicas nossa realidade dura sendo descrita com emoção numa canção. Época magnífica onde o cérebro mesmo sem estar exposto e vulgarizado era uma das partes mais importantes do nosso corpo. Mesmo assim confesso que ainda não tinha pensado em ver o filme. Seu texto está tão bom que despertou meu interesse e me animou. Muito legal! Parabéns!

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