GALERIA DAS ESTRELAS: CENTENÁRIO DE VIVIEN LEIGH

Vivien junto a Larry e gatos (sua paixão)

Vivien junto a Larry e gatos (sua paixão)

               Se existe um papel feminino marcante na história do cinema, e cujo impacto persiste até hoje, é o da jovem sulista que perde tudo em meio à guerra de secessão, menos a garra e a atitude indomável com a qual disse “Eu nunca mais passarei fome” ao som da trilha sonora de Max Steiner. Scarlett O`Hara foi e sempre será Vivien Leigh. Nascida Vivian Mary Hartley em Darjeeling, Índia , em 5 de novembro de 1913, pouco antes do início da Primeira Guerra, filha de um bem sucedido homem de negócios. Tendo recebido uma educação rígida, Vivian estudou um longo tempo em um internato católico no Reino Unido, onde – aos oito anos – conheceu e ficou muito amiga de outra futura atriz Hollywoodiana, Maureen O’Sullivan (Jane nos filmes de Tarzan de Johnny Weissmuller e mãe da também atriz Mia Farrow). Vivian, muito cedo, se apaixonou pelo teatro e esse amor a acompanhou pela vida toda, inclusive em 1957 chegou a invadir a Câmara dos Lordes em protesto contra a demolição do Saint James, um dos mais lendários palcos teatrais do Reino Unido.

Reth Butler & Scarlatt

Reth Butler & Scarlatt

Aos 19 anos, casou-se com o advogado Herbert Leigh com quem teria sua única filha, Suzanne, e de quem pegou emprestado o sobrenome para compor seu nome artístico. Na primeira metade dos anos 30 , atuou no teatro e em pequenos papéis no cinema britânico. Se apresentou ao grande ator Laurence Olivier – também casado – com quem começou um longo caso extra conjugal. Em 1938, Olivier foi convidado para viajar aos Estados Unidos para viver Heathcliff em “O Morro dos Ventos Uivantes” (Wuthering Heights). Pouco depois, a própria Vivian – já com seu nome modificado para Vivien, seguindo a sugestão de um produtor teatral londrino – viajou para a América para encontrar seu amado Larry, e para fazer teste para o cobiçado papel de Scarlett O’Hara na adaptação do romance de Margareth Mitchell “E O Vento Levou”, que a atriz leu apaixonadamente anos antes. O papel era disputado por nomes como Katherine Hepburn, Paulette Goddard e até Bette Davis e ficou com Vivien, de 26 anos, depois de um encontro arranjado por Larry (Laurence Olivier) com o irmão de David Selznick, produtor de “E O Vento Levou” (Gone With The Wind, 1939), que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz daquele ano. Reza a lenda que Myron Selznick, irmão de David, a teria apresentado dizendo “Aqui está ! Conheça Scarlett !” Apesar da química nas telas entre Vivien e o Rei Clark Gable, a relação entre os dois nos bastidores não era tão amistosa. Durante sua carreira Vivien adquiriu a fama de um temperamento difícil acentuado por graves problemas de saúde que a atormentariam para o resto de sua vida. Em 31 de Agosto de 1940, mesmo ano em que estrelou “A Ponte de Waterloo” (The Waterloo Bridge) com Robert Taylor, Vivien se tornou oficialmente a senhora Olivier, sendo daí em diante constantemente chamada pela imprensa como Lady Olivier. E com seu amor, Vivien encenou diversas peças no teatro, ocasionalmente assumindo papéis em filmes como em 1945 quando fez a rainha do Nilo em “César & Cleopatra”. Três anos depois foi a vez de “Anna Karenina”, clássico de Leon Tolstoy que foi severamente criticado na época com constantes comparações com a versão filmada com a diva Greta Garbo.

Encontro de lendas

Encontro de lendas

                      Vivien Leigh nunca se achou grande atriz e dizia não se sentir confortável com tais elogios, que dizia significar para ela um enorme peso posto por sobre seus ombros. As inseguranças de Vivien foram intensificadas quando começou a demonstrar comportamento maníaco depressivo, intensificadas quando sofreu o primeiro de dois abortos espontâneos que destruíram sua esperança de dar um filho a Larry. O que houve é que na época pouco era conhecido sobre a bipolaridade e os transtornos psíquicos vividos pela estrela que chegou a ser internada em uma clínica psiquiátrica e submetida a sessões de choque. Apoiada por Larry, a atriz parecia se recuperar quando em 1951 aceitou o papel da perturbada Blanche Dubois na adaptação de “Uma Rua Chamada Pecado”  dirigida por Elia Kazan e que daria a Vivien seu segundo Oscar.
O sucesso que voltou a ter como atriz não se repetiu em sua vida pessoal quando seu casamento com Larry passou a mostrar sinais de desgaste com crises graves e traições de ambas as partes acentuando cada vez mais em Vivien solidão, agressividade e tormentos muito longe da garra demonstrada por sua indomável Scarlet O’Hara. Larry e Vivien se separaram em 1960 quando este veio então a se casar com a também atriz Joan Plowright. Três anos depois, a atriz foi premiada com o Tony (o equivalente do Oscar para o teatro) pela peça “Tovarish”, sendo que sua saúde tanto física como mental já estava seriamente abalada. A Tuberculose que contraíra tempos voltaria a afetá-la gravemente. Apesar de boas atuações em “Em Roma na Primavera” (The Roman Spring of Mrs Stone – 1961) e “A Nau dos Insensatos” (Ship of Fools – 1965) , seu espírito e seu corpo fraquejaram. Em seus últimos anos, Vivien vivia em sua bela propriedade em Londres, cercada de um belo jardim (a atriz também era apaixonada por gatos, em especial gatos siameses). Até o fim de sua vida mantinha uma foto de Larry ao lado de sua cama, mesmo morando com o ator John Merivale. Vivien, que tinha o costume de usar sempre luvas pois se incomodava com as mãos que tinha, não se sentia confortável com os elogios de que era ótima atriz. Dizia que isso significava um grande peso sobre seus ombros. Apesar do pouco juízo que fazia de si mesma, a imortalidade lhe sorriu com a personagem que personificou em “E o Vento Levou”, ao longo de uma filmografia até curta (em torno de 20 filmes) para uma estrela radiante. Foi também a primeira atriz agraciada com o BAFTA (o equivalente inglês do Oscar) por sua Blanche Dubois, papel que ironicamente teceu os contornos dos conflitos internos vividos por Vivien, eternalizada na frase “Amanhã será outro dia”.

por Adilson Cinema

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