RETORNO AO PLANETA DOS MACACOS – A SAGA

Primatas, na definição do dicionário, é o grupo de mamíferos que compreende os macacos e os seres humanos. Pela  força dos processos evolutivos, desenvolvemos nosso intelecto, o que nos fez a raça dominante do planeta. Quando o escritor francês Pierre Boulle (1912-1994) – o mesmo autor  do clássico “A Ponte do Rio Kwaii” – lançou o livro “Le Planète des Singes” em 1963, ele inverteu as leis do Darwinismo e deu aos macacos a supremacia global. Mais de 50 anos depois de sua publicação inicial, sua obra continua  perturbadora e instigante. O produtor Arthur P.Jacobs  também ficou fascinado com sua premissa e adquiriu os direitos de filmagem convencendo Richard Zanuck, o chefão da Fox a bancar o projeto que se tornaria um dos maiores exemplares da Ficção Científica no cinema : O Planeta dos Macacos.

O LIVRO ORIGINAL

O LIVRO ORIGINAL

Com orçamento em torno de $5.800.000 e roteiro de Michael Wilson (roteirista que sofreu com a caçada anti-comunista dos anos 50) & Rod Serling (o lendário criador da série de TV “Além da Imaginação”), o filme só conseguiu o sinal verde para sua produção quando Jacobs filmou um teste com Charlton Heston ( escolhido desde o início para o papel principal) e Edward G.Robinson (como o orangotango Zaius). A maquiagem de John Chambers foi crucial para convencer os chefões da Fox a prosseguir com o projeto. Apesar do interesse de Blake Edwards em dirigir o filme, esta tarefa coube ao diretor Franklin J.Schaffner , trazido por Charlton Heston, com quem havia trabalhado antes em “O Senhor da Guerra”. As filmagens foram sofridas pelo intenso verão de 1967 e as dificuldades para o elenco símio que carregava uma maquiagem que levava 4 horas para ficar pronta e mais três horas para retirar, mas cuja perfeição a levou a um Oscar especial, já que na época a Academia não tinha ainda essa categoria de premiação. Edward G.Robinson deixou o elenco logo no início das filmagens pois seu estado de saúde não lhe permitiria suportar todos esse desgaste.

Charlton Heston, Kim Hunter & Rodddy McDowell

Charlton Heston, Kim Hunter & Rodddy McDowell

Algumas modificações, no entanto, foram feitas do livro para o filme: No primeiro, o astronauta humano Ulysse Merou viaja ao espaço e chega a um planeta dominado pelos macacos. Por ser inteligente, Ulysse torna-se uma ameaça para a ordem vigente e é caçado e torturado pelo símios, embora conquiste a confiança dos chimpanzés cientistas Cornelius & Zira que ajudam na fuga de Ulysse e Nova, sua companheira humana. O narrativa do livro é feita através do diário de Ulysse que é lançado no espaço e encontrado por dois astronautas que no final do livro se revelam como sendo macacos que encerram a história dizendo que um humano jamais poderia ser inteligente. No filme, Ulysse torna-se Taylor (Heston). Outra diferença é que no livro a sociedade símia é um espelho do mundo nos anos 50 com toda a tecnologia então a disposição, enquanto que o filme mostra uma sociedade primitiva devido a limitação do orçamento disponível. Diferente do livro, o filme coloca os orangotangos hierarquicamente acima dos gorilas. Além disso, o clássico final com Taylor aos pés da estátua da liberdade não consta no livro, sendo de autoria de Rod Serling.

Roddy McDowell: Sem e com máscara

Roddy McDowell: Sem e com máscara

O filme foi um sucesso mundial com o poder dos símios servindo de metáfora para a arrogância da raça humana, espelho distorcido de nossa própria prepotência e preconceitos como senhores do mundo. Tal leitura encontrava ecos no medo de aniquilação total produto do auge da guerra fria. Charlton Heston incorporou toda a frustração e revolta aos pés da estátua da liberdade, uma dos desfechos mais impactantes da história do cinema. A novata Linda Harrisson ficou com o papel de Nova. Ex-modelo, Linda na época estava tendo um caso com Richard Zanuck, que se divorciou de sua primeira esposa e casou-se com ela. O elenco símio venceu com louvor todas as limitações para interpretar através das máscaras, especialmente o já experiente Roddy McDowall (o Otavio de Cleopatra) que ajudou a desenvolver os gestos e expressões que poderiam se sobressair por trás da pesada maquiagem. Kim Hunter reclamava de sensação de claustrofobia quando interpretava a chimpanzé Zira, papel que chegou a ser oferecido à consagrada Ingrid Bergman, que primeiro recusou e depois se arrependeu da oportunidade perdida. Maurice Evans era ator de teatro de grande sucesso com passagens pela TV (foi o pai de Elizabeth Montgomery na série “A Feitiçeira) e cinema quando entrou para o elenco substituindo Edward G. Robinson.

AS SEQUÊNCIAS

 A serie de TV de 1974

A serie de TV de 1974

Pìerre Boule chegou a escrever o rascunho de uma sequência que se chamaria “Planet Of The Men”  (Planeta dos Homens) que se passaria 14 anos depois dos eventos do filme original. A história mostraria a retomada da raça humana e a reversão dos macacos ao seu estado primitivo. Rod Serling chegou a escrever um outro roteiro em que os humanos liderados por Taylor e Nova entram em conflito com os macacos e retomam o controle do mundo. Charlton Heston, no entanto, não estava disposto a voltar ao papel de Taylor e só aceitou com a condição de ser uma participação menor e que seu personagem morresse ao final. Com várias mudanças no roteiro estreia em 1970 “De Volta ao Planeta dos Macacos” (Beneath The Planet Of The Apes) dirigido por Ted Post. A história traz o astronauta Brent (James Franciscus) em missão de resgate a Taylor. Com a ajuda de Nova, Cornelius e Zira, Brent vem a descobrir Taylor prisioneiro de humanos mutantes que adoram uma bomba atômica e pretendem detoná-la. O final apocalíptico substituiu a ideia original que era Brent, Taylor e Nova fugindo da Zona Proibida e ajudando Cornelius e Zira instituindo uma nova ordem onde humanos e macacos vivem em harmonia. Roddy McDowall estava na Escócia filmando sua estreia como diretor (The Ballad of Tam Lin) e não estava disponível. Logo, seu personagem foi entregue ao desconhecido David Watson. Curiosamente, todos achavam que era McDowall debaixo da maquiagem de Cornelius.  O interesse pelos símios era enorme e a Fox realiza em 1971 “Fuga do Planeta dos Macacos” (Escape from the Planet of The Apes”) dirigido por Don Taylor que inverte a premissa do primeiro filme e coloca Cornelius (McDowall de volta) e Zira (Kim Hunter) voltando ao passado do planeta acompanhados do chimapanzé Milo , interpretado por Sal Mineo, ator que esteve ao lado do mitológico James Dean no elenco do clássico “Juventude Transviada” em 1955. O terceiro filme dos macacos foi o último trabalho nas telas de Mineo que foi assassinado aos 37 anos cinco anos depois. O final do filme com o Cesar, o filho de Cornelius e Zira sendo salvo às escondidas pelo bondoso Armando (Ricardo Montalban) foi planejado de forma a gerar outra continuação. Em 1972, J.Lee Thompson dirige “A Conquista do Planeta dos Macacos” (Conquest of the Planet of the apes) com Roddy McDowall no papel de Cesar, prestes a liderar a revolta dos símios contra os humanos. A premissa desse filme serviu de ponto de partida para a refilmagem de Rupert Wyatt em 2011. Em 1973, Thomson ainda dirige o capítulo final da saga “A Batalha do Planeta dos Macacos” (Battle of the Planet Of The Apes) com Cesar (McDowall) descobrindo verdades de seu passado em meio a luta entre símios e humanos pela supremacia no mundo, encerrando o ciclo iniciado em 1968. Curiosamente, a atriz Natalie Trundy, que era casada com o produtor Arthur P.Jacobs, apareceu nas 4 sequências do filme original, com personagens diferentes: mutante no segundo filme, veterinária no terceiro e a chimpanzé Lisa nos dois últimos filmes.

O MACACO ESTÁ CERTO

Os Trapalhões & Os Macacos

Os Trapalhões & Os Macacos

O impacto cultural da obra de Pierre Boulle sobreviveu fora das telas após o quinto filme. Entre 1974 e 1977 houve uma série em quadrinhos da Marvel Comics que veio a ser publicada no Brasil pela Bloch Editores. A década de 90 e o ano de 2012 também tiveram HQs baseadas no livro de Boulle, mas que não chegaram a ser publicadas no Brasil. Em 1975 a Fox produziu o seriado “Planeta dos Macacos” que funcionava como um reboot para a série mostrando os astronautas humanos Alan (Ron Harper) e Peter (James Naughton) chegando à Terra dominada pelos macacos e fazendo amizade com o chimpanzé Galen, mais uma vez na pele de Roddy McDowall. A série modificava a condição dos humanos, de selvagens primitivos para seres inteligentes mas socialmente abaixo dos símios. Apesar de exibida com sucesso no Brasil onde foi exibida inicialmente pela Rede Globo,  o seriado foi cancelado com 14 episódios. No ano seguinte, a Fox em parceria com os estúdios De-Patie Freelang (o mesmo de “A Pantera cor de rosa) produziu a série em animação “Return to the Planet of the Apes” que contabilizou 13 episódios. Esse segundo reboot apresentava a sociedade símia mais próxima à apresentada no livro de Boulle com o uso de carros em vez de cavalos e tecnologia mais avançada. Quem desenvolveu a série animada foi Doug Wildley, o criador do clássico Jonny Quest, dos estúdios Hanna Barbera. Em 1976, os brasileiros riram da ideia de macacos falantes na paródia “O Trapalhão no Planalto dos Macacos” de J.B.Tanko com a trupe de Renato Aragão ainda sem a presença de Zacarias. Na mesma época, a TV Globo se aproveitou do sucesso da saga símia e realizou o programa humorístico “O Planeta dos Homens” que durou de 1976 a 1980 reunindo Jô Soares, Agildo Ribeiro, Milton Carneiro, Paulo Silvino, Berta Loran, Miele e grande elenco que também incluía Orival Pessini como o macaco Sócrates, que sempre tinha um comentário irônico a respeito da realidade brasileira naqueles tempos de ditadura militar. A abertura do programa era icônica com Sócrates descascando uma banana e vendo surgir uma bela mulher de biquíni, que depois foi trocado por um maiô por imposição da censura vigente na época.

A Animação de 1975

A Animação de 1975

 AS REFILMAGENS

            A Fox planejava uma refilmagem do filme de 1968 desde os anos 90 e chegou a ter o diretor Oliver Stone e o ator Arnold Schwarzenegger ligados ao projeto que não foi para frente. Em 2001, Tim Burton dirigiu afinal a  refilmagem do filme original com resultado que desagradou ao público em geral, ainda que se propusesse a se aproximar mais do romance de Pierre Boulle. No elenco, Mark Walbergh, Helena Bohman Carter, Tim Roth, Michael Clarke Duncan e as participações especiais de Charlton Heston e Linda Harrison. O filme foi planejado para ter uma sequência e o elenco chegou a assinar os contratos em antecipação, mas o péssimo resultado fez a Fox desistir. “ O Planeta dos Macacos”  de Burton chegou a ganhar o Framboesa de Ouro de pior Remake ou sequência, contribuindo em muito ao desprestígio do filme.

Os Macacos de Tim Burton

Os Macacos de Tim Burton

Não desistindo de retomar a franquia a Fox teve melhor resultado quando decidiu por uma prequela, ou seja, um prelúdio para o filme de 1968 atualizando a história. Em “Planeta dos Macacos – A Origem” (Rise of the Planet of the Apes” ) sai a ideia de guerra nuclear e entra a engenharia genética como justificativa a evolução dos símios e o fim da espécie humana. O filme de Rupert Wyatt com James Franco e Andy Serkis como o macaco Cesar faz uso da tecnologia digital para dar vida ao romance de Boulle. O resultado foi bem sucedido ao ponto de ter ao menos uma trilogia garantida à frente.

A Origem.

A Origem.

A maior virtude do romance de Boulle é provocar a reflexão de nosso papel como raça dominante. Os símios funcionam como reflexo de nossa prepotência, nosso preconceito e ambições que nos leva a uma triste constatação, já reforçada por Darwin: Somos todos mac

por Adilson Cinema

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