MAKE & REMAKE : A MOSCA – 30 ANOS

Uma das invenções do campo da ficção científica que nunca chegou próxima de acontecer foi o teleporte. Como divagar pelos limites da ciência sempre tem sido um mote rico para os autores do gênero, nos deparamos constantemente com histórias que procuram nos alertar para o preço a se pagar pela busca do conhecimento e pela ousadia de se tentar explorar novas fronteiras. Assim em 1958, e vinte seis anos depois, o cinema fez de uma mosca caseira um dos maiores monstros do gênero.

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No final da década de 60 a 20th Century Fox adquiriu os direitos do conto “The Fly” de George Langelaan publicado na Playboy norte americana em 1957. O escritor James Clavell (Shogun, Ao Mestre Com Carinho) ficou encarregado de adaptar o material para um orçamento de US$700.000. A direção coube a Kurt Newman, que também dirigira o clássico “Da Terra à Lua” (Rocketship X-M) em 1950 além de filmes de Tarzan (com Johnny Weissmiller e depois Lex Barker). Lamentavelmente, a adaptação do conto de Langelaan veio a se tornar o último trabalho de Newman, que faleceu pouco depois de terminá-lo. A história mostra o cientista Andre Delambre que entra em uma câmera de teletransporte sem saber que havia dentro uma mosca, e ao sair descobre que agora está com a cabeça e uma pata da mosca, enquanto esta está com seu braço e cabeça. Sob os efeitos da troca, o cientista vai aos poucos perdendo a sanidade, a medida que esgotam as possibilidades de encontrar a mosca reverter o processo. O ator David Hedison, que interpreta Andre, viveria anos depois o Capitão Crane do seriado de TV “Viagem ao Fundo do Mar”.

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FINAL DO CLÁSSICO DE 1958

Sua passagem pelo filme é contida é quase anônima já que o ator não mostra seu rosto, sempre coberta com um manto para esconder o aspecto monstruoso da troca de cabeças. O excelente Vincent Price assume o centro da narrativa como François Delambre, o irmão do cientista que investiga os fatos insólitos que circundam a fantástica invenção de seu irmão. O filme de Newman é um dos melhores exemplares da ficção cientifica cinquentista, quando o gênero era sempre sinônimo de filmes B (baixo orçamento). Muito reprisado na TV durante as décadas de 70 e 80, o filme gravou na mente o desfecho com Price encontrando uma mosca presa a uma teia de aranha, prestes a devorá-la, uma mosca com a cabeça de um homem.

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AS DUAS VERSÕES : 1986 & 1958

Em 1986, a Fox refilmou a história em um filme co-produzido pela Brooksfilms (do comediante Mel Brooks) e dirigido por David Cronemberg. O roteiro do próprio Cronemberg e Charles Edward Pogue atualizou a história agora protagonizada pelo anti-social Seth Brundle (Jeff Goldblum) que cria câmeras de teleporte de matéria sonhando em teletransportar pessoas, revolucionando a ciência. Quando Goldblum inicia um relacionamento com a repórter Verônica Quaife (Geena Davis), o brilhante cientista admite que não consegue teletransportar matéria orgânica. Depois de várias tentativas inclusive com um bife e depois com babuínos, o cientista segue decifrando o código genético de modo a conseguir reproduzi-lo. Enciumado com a relação pré-existente de Veronica com seu chefe Stathis Borans (John Getz), Seth passa pelo transmissor de matéria sem saber que junto leva uma mosca. Diferente do filme de 1958, que era mais fidelíssimo ao conto de George Langellan, o filme de Cronemberg faz uma transformação gradativa de Seth em mosca, desconstruindo sua humanidade em favor de um ser híbrido, mais monstro que homem. Na época, Cronemberg pensou na transformação como uma metáfora para a fragilidade do homem diante do envelhecimento e da morte, mas as plateias e a crítica especializada, na época, enxergaram uma representação da degradação física provocada pela AIDS. Seja qualquer uma destas analogias, estas só foram possíveis graças ao excelente trabalho de maquiagem de Chris Wallas, que demorava cinco horas para preparar Jeff Goldblum.

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A TRANSFORMAÇÃO EM BRUNDLE MOSCA

O trabalho de Walas foi reconhecido e premiado com um Oscar, e Walas conseguiu o feito de dirigir a sequência “A Mosca II” (The Fly II) de 1989. O filme também recebeu o Saturn Awards (renomada premiação para a ficção cientifica) como melhore filme, melhor diretorm ator, atriz e … a maquiagem de Walas. O filme chegou às telas americanas em Agosto de 1986, mas no Brasil só chegou em Abril do ano seguinte já que na época a janela de lançamentos era bem maior que hoje em dia. Lembro bem do impacto causado pelo filme e como as plateias, entre eu, reagimos a cada etapa da transformação de Seth Brundle, conforme um primo meu disse então “consagração do cinema nojo”, no melhor sentido, o de fazer a ficção parecer por um momento que seja a realidade

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