ESTREIA ESPECIAL: BLADE RUNNER 2049

Se imaginássemos que daqui  a dois anos as grandes cidades se tornariam extremamente populosas, com a poluição se alastrando por entre imensos prédios castigados por constante chuva, insuficientes no entanto para lavar a sujeira física e moral desta realidade depreciativa. Se você ainda se pergunta se o homem é realmente a imagem e semelhança de Deus, então o que dizer de sofisticados androides dotados de inteligência artificial buscando o sentido da vida ? Se quiser descobrir o que há nisso tudo, bem vindo ao mundo de “Blade Runner”.

blade-runner-e1488240209399-920x583

Agente K (Ryan Gosling) & Deckard (Harrison Ford)

     Quando lançado em 1982 o filme não causou nenhum furor imediato aos intrigantes questionamentos da história, em que humanos e replicantes estão mergulhados na filosofia Nietzschiniana em que ao olhar para o abismo, este olha de volta para você. Na verdade, a bilheteria da época não correspondeu ao investimento estimado então em torno de US$28,000,000 e o status cult do filme surgiu ao longo dos anos que se seguiram. O público digeriu devagar as implicações desta perceptível dicotomia entre o velho e o moderno, o humano e o inumano, a vida e a morte. Já sua atmosfera distópica remete ao pesadelo orwelliano misturada à fotografia noir que faz de Rick Deckard (Harrisson Ford) herdeiro futurista dos detetives amorais e cafajestes inspirados na literatura de Raymond Chandler e Dashiel Hammet. A personagem Rachael (Sean Young) representa a sedução gélida e fatal das femme fatales e pivô de uma tensão que se estende para além da aparentemente rotineira investigação de Deckard.

20_blade_runner_atari__1_

O Filme de 1982

      O roteiro de Hampton Fancher, reescrito por David Webb Peoples, adapta o romance “Do Androids dream of electric sheep?” do escritor americano Philip K.Dick publicado pela primeira vez em 1968. O filme toma o livro apenas na superfície se concentrando na caçada aos androides fugitivos, que nunca são chamados de replicantes pelo autor. O termo foi sugerido em uma conversa entre o roteirista David Peoples e sua filha que comentara com o pai sobre a capacidade replicante das células clonadas. O livro também toca na extinção dos animais e a ação se desenvolve em uma São Francisco pós apocalíptica em vez da Los Angeles mostrada no filme. O livro mostra a Terra como um planeta sendo evacuado em favor de colônias em outros planetas como Marte e os humanos que ainda residem no planeta seguem uma religião chamada Mercerismo, em que seus membros compartilham habilidades telepáticas, o que não é sequer mencionado no filme.

PhilipDick

Philip K. Dick – O Autor

      O filme veio a ser dirigido por Ridley Scott que foi demitido ao longo das filmagens, e depois readmitido devido a conflitos com os produtores do filme. Também tornou-se notório as constantes desavenças entre o diretor e Harrisson Ford. Este durante muitos anos se recusou a falar do filme em suas entrevistas, e dizia recusar qualquer possibilidade de voltar ao papel, o que acabou eventualmente fazendo este ano. Ford teria gravado a narração em off, não prevista no roteiro original extremamente contrariado, forçado pelos produtores que acharam o filme incompreensível no corte original. Anos depois, dois funcionários da Warner teriam encontrado um arquivo considerado perdido, sem a narração em off e com uma montagem que se achou fosse a pretendida por Ridley Scott. Esta suposta versão original chegou a ser lançada em 1989, mas Scott disse que não era assim que ele pretendia fazer e em 2007 o estúdio fez as pazes com o diretor permitindo que este remontasse o filme como inicialmente pensado, gerando o “Final Cut” e dividindo os fãs com três versões diferentes do clássico.  Curiosamente, muitos acreditaram que o filme carregava uma espécie de maldição pois empresas como a RCA e a Atari, cujos logos são usados no filme faliram tempos depois.

blade-runner

         O monologo final de Rutge Hauer (escolhido para o papel de Roy Beatty sem que Ridley Scott o tivesse entrevistado para o papel) foi improvisado pelo ator e a cena previa a principio haveria uma luta entre Roy e Deckard em vez de apenas uma perseguição na chuva. A beleza das palavras “Todos aqueles momentos estarão logo perdidos como lágrimas na chuva” cria um efeito de espelho distorcido entre caça e caçador, homem e replicante (apesar das constantes interpretações de que Deckard seria um replicante também), onde orgânico e inorgânico procuram pelas mesmas perguntas: Quanto tempo ainda temos? Por que existimos? Podemos prolongar nossa vida? Qual o sentido da vida? Uma relação Frankensteniana elevada a uma constrangedora dimensão que nos faz nos perceber de forma diferente. Assim o autor confronta nossa humanidade falha, corrupta, ambiciosa e inconsequente. O novo filme que chega a nossas telas promete prosseguir com as divagações, explorar os mistérios do filme original que reflete para 2019 a insistente e inquietante pergunta que procura saber se realmente somos meras máquinas orgânicas ou uma obra de inspiração divina, sonhando com ovelhas elétricas em nossa vã filosofia.

ESTREIAS DA SEMANA : 05 DE OUTUBRO DE 2017

O PICA PAU

pica pau

(Woody Woodpecker) EUA 2017. Dir: Alex Zamm. Com Thaila Ayala, Timothy Omundson, Graham Verchere. Animação.

Sou de uma geração que assistia, quando criança, os desenhos do Pica-pau pelo SBT. Marcou nossa infância sem dúvida, e fez parte da história já que foi o primeiro desenho exibido na TV brasileira, em 19 de setembro de 1950, na hoje extinta TV Tupi. O personagem nasceu em 1940 no curta “Knock Knock“, criado por Walter Lantz. De coadjuvante no curta protagonizado por Andy Panda, o insano pássaro roubou a cena e se tornou a estrela principal do estudio de Lantz. Reza a lenda que este criou o personagem depois que um pica-pau incomodou sua lua-de-mel. O longa que chega a nossos cinemas é uma tentativa de apresentar a transloucada ave a uma nova geração que não acompanhou as constantes reprises na TV, passando por exibições na Record, Globo e tv por assinatura. No inicio, o pica pau era bem mais malvado, com olhos grandes vesgos, dentuço e barriga vermelha, uma força de caos com penas capaz de enlouquecer um guarda que persegue os rachadores (The Screwdriver, 1941), ou caçar um operário que só queria fazer a barba entoando a clássica ópera de Rossini (The Barber of Seville, 1944). Com o sucesso, o personagem foi domado por seu criador, ganhou traços mais suaves e comportamento anárquico, porém mais contido. Essa versão mais sociável estrela esse filme onde um casal ameaça desmatar uma área natural onde o pica-pau mora e, claro não deixará barato. A atriz brasileira Thalia Ayala está no centro da história dirigida por Alex Hamm (O Fada do Dente 2, Dr. Doolittle 5). Certamente que os adultos se deliciarão mais com o filme, mas não espere ver os coadjuvantes clássicos como Zeca Urubu, Zé Jacaré, Leôncio ou o bandido Dooley. Erro dos roteiristas em não aproveitar o rico elenco que acompanhou o personagem em mais de 200 desenhos (levando-se em conta claro a retomada da série pela Fox no final da década de 90). Se você que lê essa resenha ver um adulto comentar que já teve vontade de descer as cataratas em um barril, é normal. Com tantos anos trabalhando nesta industria vital, não é a primeira vez que isso acontece. Então, como diria a bruxa “E la vamos nós”.

CHOCANTE

chocante

(BRa 2017) Dir: Johnny Araújo & Gustavo Bonafé. Com Bruno Mazzeo, Lúcio Mauro Filho, Marcus Majella, Bruno Garcia, Pedro Neschling, Debora Lamm, Tony Ramos, Klara Castanho. Comédia.

Membros de uma boy band dos anos 90 se reune depois de vinte anos para o funeral de um deles. Com isso decidem voltar a ativa e reconquistar o público.  O filme, co-roteirizado por Bruno Mazzeo, revive a gloria e a decadencia de grupos como Menundo, Tremendo (anos 80), Backstreet Boys (anos 90) etc. O filme, co-produzido pela Globo Filmes, investe no clima de paródia explorado por um bom elenco de comediantes.