GRANDE ESTREIA: BOHEMIAN RHAPSODY

              Na música, uma rapsódia é uma composição híbrida de diversas unidades rítmicas e temáticas. O cantor Freddie Mercury incorporava esse espírito mesclando notas operísticas com o balanço do rock n’ roll, e uma voz que alcançava vibração impressionante e incomum, de acordo com estudos de pesquisadores e especialistas, publicados no site americano “consequence of sound” em 2016.  Sua carreira como astro vai ainda além, pois Farrokh Bulsara, seu nome real, flertou com a sétima arte em diversos momentos de sua trajetória compondo trilhas para filmes ou desenvolvendo concepções visuais para os clips de sua banda.

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             Reza a lenda, no entanto, que o produtor italiano Dino De Laurentis não conhecia a banda quando a contratou para a trilha sonora de “Flash Gordon”, adaptação das hqs de Alex Raymond. Embora o filme tenha envelhecido mal, tornou-se um cult trash, ainda ecoando em nossos ouvidos a voz de Freddie bradando “FLASH…AHAHAH ! KING OF THE UNIVERSE”. O baterista Roger Taylor, em entrevista cedida em Outubro de 2008, declarou que esta foi a primeira vez que uma trilha de Rock n’Roll era composta para um filme não musical. Também foi a primeira vez em que trechos das falas do filme foram inseridas na trilha do álbum, algo comum a partir de então como ouvido, por exemplo, em “Pulp Fiction” (1994) e “Reservoir Dogs” (1992) de Tarantino. O uso de baixo e sintetizadores foi criativo atingindo nossos tímpanos com um efeito onomatopeico que deveria realçar as origens dos quadrinhos de Alex Raymond. Ainda assim o filme, que se tornou o 9° álbum da banda, não conseguiu ser o sucesso de bilheteria pretendido, lembrando que falamos de uma época em que adaptações de quadrinhos não tinham o mesmo prestígio que hoje. Mesmo assim o single com a canção tema chegou a alcançar o 42º lugar pela “Billboard Hot 100”.

Radio Gaga

             Melhor resultado foi obtido pela banda quando o diretor australiano Russell Mulcahy, que era fã da banda, contratou o quarteto para assistir as filmagens de “Highlander – O Guerreiro Imortal” (1985) vindo assim o convite para gravar a trilha sonora do filme, 12º álbum da banda. Cada membro do Queen colaborou com uma canção: Roger Taylor compôs a canção tema “A Kind of Magic”, Brian May ficou com a balada épica “Who Wants to Live Forever”, o baixista John Deacon fez “One Year to Love” e Freddie Mercury ficou com o hard-rock de “Princes of the Universe.”. O sucesso foi estrondoso, sendo que a versão de “A Kind of Magic” originalmente composta por Taylor, musicalmente mais pesada, é ouvida nos créditos finais do filme enquanto que o arranjo mais dançante da canção foi gravado por Freddie Mercury para o álbum da banda. Este ainda rendeu a agitada “One Vision” que entrou para a trilha do filme “Águia de Aço” (Iron Eagle) produzido na mesma época.

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            Foi ideia do próprio Mr. Fahrenheit, como o cantor se chamou na letra da canção “Don’t Stop me Now”, usar cenas do clássico “Metropolis” (1926) no clip de “Radio Ga Ga” lançado em 1984. O diretor David Mallet colocou o quarteto em um carro voador planando sobre o cenário expressionista do filme de Fritz Lang. A canção, carro chefe do álbum “The Works” alcançou sucesso mundial, escrita por Roger Taylor como uma crítica aos meios de comunicação em um momento em que a MTV estava atraindo mais atenção que a rádio. O título da canção foi a fonte de inspiração para que Stefani Germanotta se reinventasse como a estrela Lady Gaga. Do mesmo álbum temos “I Want To Break Free”, composta pelo baixista John Deacon, que teve um clip cômico também dirigido por David Mallet, com os músicos transvestidos tal qual Tony Curtis e Jack Lemmon do clássico “Quanto Mais Quente Melhor”, um dos filmes favoritos da Carmen Miranda do Rock n’ roll, como o próprio Freddie Mercury se definiu em uma das raras ocasiões em que cedia entrevista. A canção foi associada ao universo gay, mas foi o próprio Mercury quem explicou que na verdade era uma canção sobre libertação, chegando a ser usada como um hino anti-apartheid na África do Sul, em uma época em que o líder Nelson Mandela ainda era mantido prisioneiro do regime.

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             O legado artístico de Freddie é perpetuado até hoje em várias mídias. A icônica “We are the Champions” de 1977 é tocada em “Coração de Cavaleiro” (2001) além do episódio “The Bat Jar Conjecture” de “The Big Bang Theory”, uma das séries de Tv mais populares na TV. “Radio Ga Ga” está no vídeo game “Grand Theft Auto V”, “Under Pressure” , gravado junto com David Bowie, está em “Doze é Demais 2” (2005) e na animação “Happy Feet 2” (2001), “The Show Must Go On” em “Moulin Rouge – Amor em Vermelho” (2001), além de outras, é claro, o embalo marcante da icônica “Bohemian Rhapsody” , gravada em agosto de 1975, marcou um grupo de nerds balançando a cabeça dentro de um carro em “Quanto Mais Idiota Melhor” com Mike Myers e Dana Carvey.

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          Games, series, filmes, clips, sua voz está presente em várias áreas e a chegada do filme estrelado por Rami Malek certifica que novas gerações venham a sentir a vibração desse artista, mesmo passados mais de 20 anos de sua passagem. Quem quer viver para sempre é a pergunta de um dos sucessos da banda, mas poderia muito bem servir de irônico epitáfio pois é inegável que tanto talento não poderia ser outro coisa além de um tipo de mágica revivida nos espaços midiáticos de ontem e hoje.

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