GRANDE ESTREIA: ALITA ANJO DE COMBATE

ALITA          A nova heroína de Hollywood não é da DC nem da Marvel e já chega causando sensação seja pela impressionante técnica empregada por seus realizadores ou pela mistura de inocência e bravura de sua protagonista, uma cyborg desmemoriada que pode guardar a chave para nos salvar de um futuro distópico. A união dos talentos de James Cameron (Titanic, Avatar) e Robert Rodriguez (Sin City, Pequenos Espiões) nos traz “Alita – Anjo de Combate” (Alita: Battle Angel) baseado no mangá “Gunnm” de Yukito Kishiro.  Foi Guilhermo del Toro quem recomendou a obra para Cameron, que estava ocupado com o projeto que se tornaria “ Avatar”. A princípio o próprio Cameron dirigiria o filme, mas estando ocupado com as sequências do mundo de Pandora não havia espaço livre em sua agenda. Rodriguez enxugou o roteiro, co-escrito pelo próprio Mr. Avatar, ficando com cerca de 125 páginas, assumindo a cadeira de diretor, auxiliado é claro pela supervisão de Cameron que deixou várias anotações.

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            O resultado é uma mistura de ficção científica e ação, seguindo a estética cyberpunk com humor e até romance. O mangá de Kishiro foi originalmente lançado entre 1990 e 1995, e só chegou ao Brasil em 2002 rebatizado “Alita Battle Angel Gunnm”, mas problemas com o licenciamento interromperam sua continuação pela editora Opera Graphica.  No ano seguinte a JBC republicou na íntegra o material, dividido em 9 volumes, rebatizando de “Gunnm – Hyper Future Vision”. Uma vez que os mangás  se tornaram parte da cultura pop mundial, era questão de tempo para que Alita, ou Gunnm , tivesse uma adaptação para o cinema tal qual obras como “Ghost in The Shell”, “Akira” e “Fullmetal Alchemist”, que foram vertidos em animes ou versões live-action, com resultados variados. Não somente na narrativa como também no visual, os mangás carregam uma aura facilmente identificada com a linguagem cinematográfica. Conforme o próprio autor de livros e hqs Scott McCloud observou “os mangás são mestres em combinar os personagens com os ambientes produzindo um efeito bastante realista, destacando a expressividade dos rostos.” Por isso, os personagens sempre são desenhados com olhos grandes, o que Cameron pediu que fosse feito com o rosto da atriz Rosa Salazar, depois que seus traços fossem capturados digitalmente. A Alita do filme é propositalmente um personagem de mangá em 3D, contracenando com os demais personagens em live action, o que inclui atores conhecidos como Jennifer Connelly (Uma Mente Brilhante), Michelle Rodriguez (Velozes & Furiosos)  e Christophe Waltz (Django Livre, Bastardos Inglorios). O personagem de Waltz é o Dr. Dyson Ido, que no mangá original se chama Daisuki Ido. Ele é o cientista especializado em órgãos artificiais e robótica que encontra o corpo de Alita destruído e o recompõe, adotando-a como sua filha adotiva.

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           A personagem Alita é descrita como um robô com cérebro humano, máquina com consciência e valores morais. Em sua jornada ela mantem a inocência em seu coração, mas a bravura para usar sua força e habilidades com violência se necessário na sua luta por justiça. Tais sentimentos contrastam com a frieza do vilão Vector (personagem do ator oscarizado Mahershala Ali) ardiloso na disputa de Motorball, um esporte futurista brutal e desprovido de piedade. No mangá  a passagem pelo Motorball , extraída dos livros 3 e 4,  é essencial para o desenvolvimento de Alita em sua luta. A história ainda abre espaço para um retrato dicotômico da sociedade: Zalem é a cidade suspensa nas nuvens, que possui toda a tecnologia e recursos financeiros, enquanto a Cidade da Sucata (Iron City) na superfície é um imenso ferro velho, desolado e entregue aos desafortunados. O paralelo com a realidade foi propositalmente pensado e, o próprio James Cameron disse em recente entrevista que se inspirou em favelas brasileiras para o visual da Cidade da Sucata.

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          Tanto James Cameron quanto Robert Rodriguez se esforçaram para conceber o filme como um produto híbrido, parte live-action, parte animação digital, fazendo uso convincente da tecnologia de captura de movimento que transforma Rosa Salazar em uma personagem empoderada, bem ao gosto das plateias, traçando a clássica jornada do herói, mas sem grandes surpresas, mas deixando claras pistas de possíveis sequências, até porque o filme só explora a os 4 primeiros livros da obra de Kishiro. Em 2001, o autor decidiu continuar a história e lançou “Gunnm: Last Order” em 19 volumes ignorando alguns dos principais eventos do encerramento da série original. A sequência está nos planos de publicação para esse ano, anunciada em versão reduzida de 12 volumes, tal qual sua reedição posterior.  A criação de Kishiro ainda gerou uma animação lançada diretamente em vídeo em junho de 1993 com dois episódios.

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                  Embora seja possível encontrar referências a filmes como “Mad Max” e “Blade Runner”, a virtude do mangá de Kishiro é ainda mais complexa que a do filme pois faz de sua protagonista um modelo de humanidade que não aceita se extinguir à sombra da máquina. Talvez por isso tenha se projetado com tanto sucesso na Europa e na América, como um lembrete de que a tecnologia deve servir ao homem e não ser servida por ele. A discussão não é nova e nos acompanha a medida que evoluímos, mesmo que muitos nem se lembrem do romance “Cyborg” de Martin Caidin, de 1972, ou de sua adaptação para Tv “O Homem de Seis Milhões de Dólares”. Tanto Caidin quanto Kishiro são defensores de que são os sentimentos que nos diferem da máquina e esse combate travamos o tempo todo.

 

 

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