GRANDE ESTREIA : DUMBO

             A Disney vem sendo bem-sucedida em suas transposições da animação para o live-action. Embora já tivesse feito uma tentativa com “101 Dálmatas” (1990) foi mais recentemente que a casa de Mickey Mouse passou a explorar efetivamente o filão. Foram mais de $200 milhões com “Cinderela” em 2015, mais de $300 milhões com “Mogli” em 2016 e mais de $500 milhões com “A Bela & A Fera” em 2017, e isso em termos de bilheteria doméstica (território americano) de acordo com o site “boxoffice mojo”. Só esse ano ainda já temos programado “Aladim”, “Rei Leão” e estreando agora “Dumbo”, reunindo Michael Keaton e Danny DeVito com Tim Burton, além de Eva Green, Colin Farrell e Alan Arkin.

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             A história do filhote de elefante com orelhas enormes se conecta com um mundo onde estamos constantemente debatendo temas como bullying e intolerância com o que é diferente. A história, no entanto, data de um livro infantil publicado em 1939 e escrito pelo casal Helen Aberson e Harold Pearl. Reza a lenda que a história já havia sido usada no formato “rool-a-book”, espécie de livro com slides, mas nenhuma cópia deste existe. O filme de Tim Burton se baseia mais no livro do casal Aberson-Pearl que na clássica animação de 1941, o que significa algumas diferenças serão observadas, como a falta de animais falantes. Assim como Dunga em “Branca de Neve & Os Sete Anões” (1938) ou Gideon o gato de “Pinoquio”, o simpático elefantinho não verbaliza, mas é mais humano em seus sentimentos que os homens que exploram os animais no circo. O pequeno elefante recebe seu nome como um trocadilho de Jumbo com “Dumb”, que em inglês significa “Estúpido”. Mesmo com o dom de vôo graças a suas orelhas, o animal conhece a indiferença e, depois, a ganância do homem que explora os animais do circo e que tem na figura de Michael Keaton a personificação da vilania. Fica claro, à medida que a história segue, que o que nos faz ser atacados também pode ser transformado em superação e força.

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         Quando o próprio Walt Disney tomou conhecimento do livro não se interessou a princípio, mas foi convencido e, assim, viu a oportunidade de transpor para as telas a belíssima mensagem por trás de seu protagonista, além de se recuperar financeiramente dos altos gastos que tivera com “Fantasia” um ano antes. A época de sua realização o mundo estava atravessando a Segunda Guerra e a indústria do entretenimento não poderia arcar com grandes gastos já que o governo pressionava os estúdios em nome do “esforço de guerra”. Com um orçamento inferior, em relação aos outros lançamentos do estúdio, “Dumbo” foi um feliz sucesso de bilheteria com bilheteria acima da alcançada com “Pinoquio” (1940) e “Fantasia” (1940) somados. Percebe-se que o desenho é de fato mais simples, tendo os animadores do estúdio estudado os movimentos dos animais, e o fundo de várias cenas chegou a usar cores de aquarela (sim, computação gráfica não existia na época). Custou cerca de US$ 813 mil dólares e arrecadou US$1,6 milhões, mesmo depois de vários obstáculos para sua realização. O estúdio Disney foi pressionado por uma greve de cinco semanas dos cartunistas, que estourou durante a realização da película, destruindo a atmosfera amistosa que era marca do estúdio. Outra luta de bastidores se deu quando a RKO Radio Pictures, que distribuía as produções do estúdio, tomou conhecimento da metragem de 64 minutos, e forçou Disney a filmar mais material que o aumentasse ou reduzi-lo como um curta, mas ele se recusou a ambos e conseguiu garantir seu lançamento.

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          A animação de “Dumbo” tornou-se o 4º trabalho do estúdio no gênero e foi também o menor em termos de duração, contando apenas 64 minutos de projeção original. O Rato Timotheo rouba as cenas várias vezes como fiel companheiro de Dumbo, e foi criado pelo estúdio já que no livro original é um pássaro quem ajuda o herói de quatro patas. A escolha de um rato funcionou já que a sabedoria popular sempre coloca que elefantes temem ratos.

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         Público e crítica apaixonaram-se pela história do elefantinho voador quando sua estreia em outubro de 1941, chegando aos jornais e revistas especializadas como a “Variety” e o “New York Times”.  Meses depois, o personagem chegou a ser escolhido como capa da revista “Time”, que escolhia a cada ano uma foto que representasse o personagem do ano. Contudo, o ataque a Pearl Harbor mudou o rumo dos eventos, levando os Estados Unidos a ingressar no conflito e com Dumbo sendo substituído pelo General McArthur, comandante das forças americanas. A edição da Time, todavia, publicou em suas páginas internas a imagem do elefante. No ano seguinte, a belíssima canção “Baby Mine”, ouvida quando a mãe de Dumbo usa sua tromba através das grades da jaula para ninar o pequeno filhote, perdeu o Oscar de melhor canção, mas ao menos a produção triunfou como melhor trilha sonora para Frank Churchill e Oliver Wallace.

          “Dumbo” está entre os trabalhos mais apreciados pelo estúdio Disney, e o próprio pai de Mickey e Donald dizia que era um de seus favoritos. Na segunda metade dos anos 2000 John Lasseter, homem forte da Disney, chegou a considerar fazer uma sequência da animação, que acabou não acontecendo. O filme de Burton vem com a missão de trazer esta comovente história para a nova geração, e nisso reside o encanto dessas refilmagens. Em 2017, a animação original foi escolhida pela Biblioteca do Congresso Americana para ser preservado como um Tesouro Nacional. O filme de Burton, assim sendo, tem como missão resgatar um espirito nostálgico, reforçado pela ambientação logo após o final da Primeira Guerra, e a inocência de um personagem que voa com suas orelhas mas nos encanta com seu coração.

           Em breve, falarei de “Aladim” !!!

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NÓS – OS DOPPLEGANGERS

                  O filósofo alemão Friedrich Nietzche dizia que o inimigo mais perigoso sempre será você mesmo. Na literatura, como no cinema, essa visão pode ser levada ao pé da letra. É assim que Jordan Peele nos assusta em “Nós”, explorando possibilidades narrativas que já despertaram o interesse em áreas tão diversas como a filosofia e a psicologia.

Nós

NÓS – DE JORDAN PEELE, ESTRELANDO LUPITA N’YONGO

                  A noção de uma réplica distorcida de nosso próprio “eu” alimentou a imaginação de Edgar Allan Poe no conto “William Wilson” (1839) onde o protagonista do título, um homem descente e nobre, conhece um homônimo com sua exata aparência e nascido no mesmo dia, 19 de Janeiro (também aniversário de Poe). William fica obcecado não apenas devido à semelhança física, mas também pelo comportamento de seu duplo, com quem antagoniza conduzindo-o pelo caminho da insanidade. Em 1968, a obra de Poe integrou a antologia cinematográfica “Histórias Extraordinárias” dirigida por Roger Vadim, Frederico Fellini e Louis Malle. Foi este último quem transpôs a adaptação do conto de Poe com Alain Delon vivendo o duplo protagonismo do segmento. Histórias sobre o encontro de um sósia perfeito, no entanto, são encontradas em culturas tão distintas quanto os egípcios e os nórdicos. Coube aos alemães a criação do termo “doppleganger”, algo como um “duplo que anda”, assumindo ao longo do tempo uma conotação negativa, como um fantasma ou assombração. Inicialmente a lenda germânica apontava uma criatura capaz de mimetizar quem escolhesse não só na aparência exterior como também em suas características emocionais.

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JESSE EISENBERG EM “O DUPLO” DE DOSTOIEVSKI

                Duplicatas tornam-se ameaçadoras no campo da ficção, como o escritor russo Fiodor Dostoievski em seu romance “O Duplo” (1866) sobre um funcionário que vê sua identidade, sua vida roubada por um sósia. Na época de sua publicação a obra não foi devidamente compreendida pelo público, mas recentemente Jesse Eisenberg assumiu o papel na adaptação “The Double”, dirigido por Richard Ayoade em 2013. As implicações da existência de um doppleganger são muito apreciadas pelas plateias atuais em diversas formas de mídia. Nos quadrinhos, Superman enfrentou Bizarro, sua cópia distorcida, o Flash já correu contra o Flash Reverso entre outros personagens. O mito do duplo já foi usado em animes (Hunter x Hunter), séries de Tv (Supernatural, Supergirl, The Flash, Arquivos X) e games (Dark Pit, Sonic The Hedgehog, The Legend of Zelda) e a lista é ainda maior se contabilizarmos outros filmes e animações.

               Fora do campo do entretenimento, a própria ciência já debateu acerca da variedade de traços genéticos, se esta é limitada ou não, como forma a justificar cientificamente a incrível semelhança entre pessoas sem nenhum laço sanguíneo. O renomado Sigmund Freud, pai da psicanálise, divagou sobre o assunto e chegou a atribuir ao médico e escritor austríaco Joseph Schnitzer o papel de seu doppleganger dada a incrível proximidade do trabalho de ambos com relação ao inconsciente e o comportamento humano. Freud escreveu cartas para Schnitzer, mas se recusava a encontrá-lo pessoalmente.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO – EPISODIO “MIRROR IMAGE”

            Há uma espécie de mau presságio associado ao encontro de uma pessoa com seu duplo, como se indicasse a personificação da morte, entrelaçando lendas e superstições em um leque infinito de possiblidades para análises filosóficas ou para o mero entretenimento escapista. O prolífico escritor Stephen King se rendeu ao tema em seu livro “A Metade Negra” (The Dark Half) de 1989. Nele, King usa o mito da réplica maligna estimulado por uma experiência pessoal, o período em que usava o pseudônimo de Richard Bachman para escrever anonimamente, o que descoberto algum tempo depois. O autor de “It” e “O Iluminado” provoca calafrios ao estipular que seu pseudônimo ganha “vida” independente e desejos vingativos.

           Impossivel não lembrar também da clássica série de Tv “Alem da Imaginação” (The Twilight Zone) que em “Mirror Image”, seu 21º episodio (1ª temporada) mostrando Vera Miles como uma secretária, presa por uma noite de tempestade em uma rodoviária, sendo atormentada por seu doppleganger, o que só ele vê, fazendo todos duvidarem de sua sanidade. O diretor e autor Jordan Peele, inclusive, está à frente de uma nova versão desse seriado clássico, que estreia em breve.

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         Desesperadora e inquietante dicotomia sobre nossa própria natureza, os duplos provocam angustiante análise sobre o que somos e o que gostaríamos de ser, o que trazemos em nossa essência e o que reprimimos. Já advertia Nietzche para que sejamos cautelosos ao combater nossos nêmesis pois ao olhar muito tempo para o abismo, este olha para dentro de você, de mim, de nós mesmos.

GRANDE ESTREIA: CAPITàMARVEL

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       A jornada da heroína Carol Danvers até sua atual posição como principal heroína do universo foi árdua, cheia de altos e baixos, derrotas e trocas de identidade, mas hoje chega aos cinemas com a celebração do dia internacional da mulher, mais do que derrotando vilões, assumindo o papel de símbolo do empoderamento feminino.

               Quando surgiu nos quadrinhos em 1968, já existia a figura do “Capitão Marvel” (Nada a ver com o Shazam da DC, que já usou essa alcunha), um guerreiro de uma raça alienígena que se auto exila na Terra para proteger a humanidade. Foi Stan Lee e o desenhista Gene Colan quem criou o herói Kree Mar-Vell em dezembro de 1967. Um ano depois, Roy Thomas imagina Carol Danvers  como uma piloto da força aérea que foi salva por Mar – Vell da explosão de um artefato alienígena, que fundiu seu DNA humano com o DNA Kree. Foi ideia do roteirista Gerry Conway fazer de Carol uma super heroína que ostentasse o nome da editora. A força sobre humana e o poder de vôo a tornaram a heroína “Ms Marvel”, trazendo em seu nome o título “Ms” que destaca uma mulher independente, solteira, adequado a um mundo que precisa aprender a respeitar a figura da mulher. A personagem então ganha um título próprio a partir de Janeiro de 1977, dois anos depois que a assembleia geral da ONU escolhesse 1975 como o ano internacional da mulher. Carol era a personagem que simbolizaria a editora Marvel na luta feminista concorrendo com a imagem da Mulher Maravilha da Dc Comics, principal rival da Marvel no mercado editorial. Incluindo a renomada revista “Ms”, criada por ativistas dos direitos das mulheres em 1971, havia estampado a imagem da “Mulher Maravilha” em sua icônica primeira edição. Logo, Carol Danvers muda para o papel de editora de uma revista similar publicada por J.Jonah Jameson, o chefe de Peter Parker, o Homem Aranha, herói mais popular da editora.  Essa fase que durou apenas por 25 edições foi publicada no Brasil em revistas da editora Abril como “Capitão América” e “Herois da TV”.

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                A Marvel demorou a ter uma heroína à frente de um título longevo apesar das tentativas com “Mulher Aranha” e “Mulher Hulk”, mas Carol continuou a ter destaque ingressando na equipe dos Vingadores. Apesar de um promissor início nas mãos de Chris Claremont, que explorava os lapsos de memória que Carol tinha toda vez que se transformava, os roteiristas que se seguiram não souberam explorar a personagem, ainda que incrementassem seu uniforme com uma mudança de cores e forma.  Jim Shooter e David Micheline fragilizaram Carol Danvers como vítima de um estupro por um ser extra dimensional que a engravida como forma de chegar à nossa realidade. Carol é manipulada para se apaixonar por ele e deixar nossa dimensão com ele. Pouco tempo depois, Claremont volta a escrever a personagem trazendo-a de volta ao mundo, fragilizada emocionalmente e tendo os poderes sugados pela mutante Vampira, o que a deixa em coma.

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OS VÁRIOS UNIFORMES & IDENTIDADES

             Nos anos 80, a primeira troca de nome ocorre quando Claremont escrevendo as historias dos X Men mostra Carol, já despertada de seu coma, adquirindo poderes estelares e assumindo o nome “Binária”. Nos anos que seguem, Carol é nada além de uma coadjuvante de luxo nas histórias dos “X Men” ou dos “Vingadores”, mas não demora para perder seus poderes de Binária e voltar a ser a Ms.Marvel. Nesse meio tempo, a editora publicou a emotiva Graphic Novel “A Morte do Capitão Marvel” em 1982. O herói morre de câncer depois de uma longa e dramática batalha e o nome “Capitão Marvel” (Lembrando que em inglês não há flexão de gênero) é adotado por Monica Rambeau, uma mulher negra que consegue transmutar seu corpo em qualquer tipo de energia. Foi na década de 90 que Carol volta a se destacar nos Vingadores assumindo o codinome “Warbird”, mas mergulhada no alcoolismo. Nessa fase, se aproxima de Tony Stark o Homem de Ferro, que havia passado pelo mesmo problema em histórias da década anterior. Foi a partir do evento “Guerra Civil”, que Carol restaura sua importância no status quo do Universo Marvel. A heroína assume agora o nome “Capitã Marvel” superando todos os traumas do passado, as derrotas pessoais e o descaso de maus direcionamentos editoriais.

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               O filme protagonizado por Brie Larson vem como forma de ratificar a heroína como símbolo dessa representatividade e, claro, mistura vários personagens da editora. Maria Rambeau (Lashana Lynch) é a mãe de Monica Rambeau, que substituiu Mar Vell depois de sua morte, e depois mudou sua alcunha para “Foton”. Além de Nick Fury (Samuel L.Jackson) e a Suprema Inteligência (Annete Benning) Jude Law interpreta Yon Rogg, que nos quadrinhos foi inimigo jurado de Mar Vell, e responsável pelo auto exilio do herói na Terra.

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            A expectativa é grande e, depois do sucesso do filme da “Mulher Maravilha”, a Marvel vem com tudo com sua representatividade e inserindo a última peça em seu tabuleiro para o igualmente aguardado fim de jogo de “Vingadores Ultimato” que encerra os 10 anos passados em que o mundo tem estado, filme após filme, vibrando, se redescobrindo criança por se aproximar de super heróis e ao som do brado “EXCELSIOR”, usado pelo mestre Stan Lee e que definiu gerações de fãs saindo das páginas das hqs para as telas do cinema.