NÓS – OS DOPPLEGANGERS

                  O filósofo alemão Friedrich Nietzche dizia que o inimigo mais perigoso sempre será você mesmo. Na literatura, como no cinema, essa visão pode ser levada ao pé da letra. É assim que Jordan Peele nos assusta em “Nós”, explorando possibilidades narrativas que já despertaram o interesse em áreas tão diversas como a filosofia e a psicologia.

Nós

NÓS – DE JORDAN PEELE, ESTRELANDO LUPITA N’YONGO

                  A noção de uma réplica distorcida de nosso próprio “eu” alimentou a imaginação de Edgar Allan Poe no conto “William Wilson” (1839) onde o protagonista do título, um homem descente e nobre, conhece um homônimo com sua exata aparência e nascido no mesmo dia, 19 de Janeiro (também aniversário de Poe). William fica obcecado não apenas devido à semelhança física, mas também pelo comportamento de seu duplo, com quem antagoniza conduzindo-o pelo caminho da insanidade. Em 1968, a obra de Poe integrou a antologia cinematográfica “Histórias Extraordinárias” dirigida por Roger Vadim, Frederico Fellini e Louis Malle. Foi este último quem transpôs a adaptação do conto de Poe com Alain Delon vivendo o duplo protagonismo do segmento. Histórias sobre o encontro de um sósia perfeito, no entanto, são encontradas em culturas tão distintas quanto os egípcios e os nórdicos. Coube aos alemães a criação do termo “doppleganger”, algo como um “duplo que anda”, assumindo ao longo do tempo uma conotação negativa, como um fantasma ou assombração. Inicialmente a lenda germânica apontava uma criatura capaz de mimetizar quem escolhesse não só na aparência exterior como também em suas características emocionais.

o duplo

JESSE EISENBERG EM “O DUPLO” DE DOSTOIEVSKI

                Duplicatas tornam-se ameaçadoras no campo da ficção, como o escritor russo Fiodor Dostoievski em seu romance “O Duplo” (1866) sobre um funcionário que vê sua identidade, sua vida roubada por um sósia. Na época de sua publicação a obra não foi devidamente compreendida pelo público, mas recentemente Jesse Eisenberg assumiu o papel na adaptação “The Double”, dirigido por Richard Ayoade em 2013. As implicações da existência de um doppleganger são muito apreciadas pelas plateias atuais em diversas formas de mídia. Nos quadrinhos, Superman enfrentou Bizarro, sua cópia distorcida, o Flash já correu contra o Flash Reverso entre outros personagens. O mito do duplo já foi usado em animes (Hunter x Hunter), séries de Tv (Supernatural, Supergirl, The Flash, Arquivos X) e games (Dark Pit, Sonic The Hedgehog, The Legend of Zelda) e a lista é ainda maior se contabilizarmos outros filmes e animações.

               Fora do campo do entretenimento, a própria ciência já debateu acerca da variedade de traços genéticos, se esta é limitada ou não, como forma a justificar cientificamente a incrível semelhança entre pessoas sem nenhum laço sanguíneo. O renomado Sigmund Freud, pai da psicanálise, divagou sobre o assunto e chegou a atribuir ao médico e escritor austríaco Joseph Schnitzer o papel de seu doppleganger dada a incrível proximidade do trabalho de ambos com relação ao inconsciente e o comportamento humano. Freud escreveu cartas para Schnitzer, mas se recusava a encontrá-lo pessoalmente.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO – EPISODIO “MIRROR IMAGE”

            Há uma espécie de mau presságio associado ao encontro de uma pessoa com seu duplo, como se indicasse a personificação da morte, entrelaçando lendas e superstições em um leque infinito de possiblidades para análises filosóficas ou para o mero entretenimento escapista. O prolífico escritor Stephen King se rendeu ao tema em seu livro “A Metade Negra” (The Dark Half) de 1989. Nele, King usa o mito da réplica maligna estimulado por uma experiência pessoal, o período em que usava o pseudônimo de Richard Bachman para escrever anonimamente, o que descoberto algum tempo depois. O autor de “It” e “O Iluminado” provoca calafrios ao estipular que seu pseudônimo ganha “vida” independente e desejos vingativos.

           Impossivel não lembrar também da clássica série de Tv “Alem da Imaginação” (The Twilight Zone) que em “Mirror Image”, seu 21º episodio (1ª temporada) mostrando Vera Miles como uma secretária, presa por uma noite de tempestade em uma rodoviária, sendo atormentada por seu doppleganger, o que só ele vê, fazendo todos duvidarem de sua sanidade. O diretor e autor Jordan Peele, inclusive, está à frente de uma nova versão desse seriado clássico, que estreia em breve.

historias extraordinarias

         Desesperadora e inquietante dicotomia sobre nossa própria natureza, os duplos provocam angustiante análise sobre o que somos e o que gostaríamos de ser, o que trazemos em nossa essência e o que reprimimos. Já advertia Nietzche para que sejamos cautelosos ao combater nossos nêmesis pois ao olhar muito tempo para o abismo, este olha para dentro de você, de mim, de nós mesmos.