SIMONAL

Muito antes do sucesso de bilheteria alcançado por “Bohemian Raphsody” (2018) e “Rocketman” (2019), nós já estávamos levando nossos grandes nomes da música para as telas como Renato Russo (2013), Tim Maia (2014) e Elis Regina (2016). Nada mais justo que nos voltemos para um dos nomes mais prestigiosos, embora esquecido, de nosso repertório cultural, Wilson Simonal.

SIMONAL

         Uma de nossas grandes vozes parece ressuscitar nas telas graças à atuação de Fabrício Boliveira, dublado nos números musicais. Este consegue transmitir a personalidade complexa deste carioca de origem humilde que superou obstáculos e conquistou seu lugar no cenário artístico de sua geração, marcada pelo auge da ditadura militar e por um racismo muitas vezes velado, o que ninguém sabe o duro que deu, como revela o subtítulo de um premiado documentário sobre o cantor lançado há dez anos.

        Natural que sua trajetória rendesse uma cinebiografia dramatizando sua trajetória artística desde sua participação na banda “Dry Boys” , criada com seu irmão Zé Roberto e mais três amigos, até o lançamento de sua carreira solo com as graças do produtor Carlos Imperial (Leandro Hassum). Além deste, vários nomes do show business nacional passeiam pela tela como Cesar Camargo Mariano (João Guesser), Miéle (João Velho) e Jorge Ben (João Viana). Filmes como esse permitem que o público em geral possa redescobrir um artista de sonoridade singular, que já foi chamado de “Harry Belafonte Brasileiro”, grande nome do ritmo Calipso. Falar em ritmo na arte musical de Simonal é território rico como mostra o roteiro de Victor Atherino. Malandragem, balanço e domínio impressionante da plateia como na noite de julho de 1969 em que Simonal roubou a cena no Maracanãzinho fazendo mais de trinta mil pessoas gritarem seu nome durante apresentação de Sergio Mendes, na qual Simonal era o convidado. Sua vocalidade esteve tanto a serviço de canções espirituosas como “Mamãe passou açúcar em mim” como de letras mais sérias como “Tributo a Martin Luther King”.

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FABRICIO BOLIVEIRA & ISIS VALVERDE

        O diretor estreante Leonardo Domingues reúne Fabricio Boliveira e Isis Valverde (a atriz interpreta Tereza, a esposa do cantor), que atuaram juntos em “Faroeste Caboclo” (2013). Sua câmera recria o Rio de Janeiro das décadas de 60 e 70, período da história, quando Simonal teve seu auge, como o maior cantor negro de sua geração, quando o país mergulhava em uma época de privação de liberdades e ao som da música dos Festivais Internacionais da Canção. Em julho de 1970, o cantor chegou a interpretar a si mesmo na comédia musical “É Simonal” onde vive um romance com uma fã vinda de Minas Gerais. O filme, dirigido pelo saudoso Domingos de Oliveira (1935 – 2019), seguia o filão popular na época como em “Os Reis do Iê Iê Iê” (1964) e ”Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” (1968). O filme não nada bem nas bilheterias, mas não ofuscou sua popularidade.

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WILSON SIMONAL & ELIS

        Todo esse sucesso chegou a um lamentável fim quando Simonal protagonizou o episódio mais polêmico de sua carreira quando descobre irregularidades de sua situação financeira, o que leva ao sequestro de seu contador. O cantor foi acusado de ter sido o mandante do sequestro seguido de tortura do seu contador, levantando acusações de ligação com o DOPS, órgão regulador do governo militar. Logo, toda a classe artística deu as costas ao cantor que ganhou a fama de delator, reduzindo seu espaço, chegando a ser preso, tornando-se praticamente “persona non grata” diante dos olhos do público. O filme de Leonardo Domingues mostra os altos e baixos de uma carreira de valor, que apesar de suas falhas humanas soube colocar diversos hits na boca de todos. Quem nunca cantou “Meu Limão, meu limoeiro”? Quem já ouviu e quem nunca ouviu falar de seu nome tem aqui uma oportunidade de olhar para um pedaço de nossa história, de encontrar uma sonoridade perdida nesse país tropical, abençoado por Deus e palco de ótimas histórias que merecem ser contadas.

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