ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD

O ano era 1969. Neil Armstrong pisou na lua levando esperança de novas conquistas, erguendo nossos olhares para o céu, enquanto na terra sonhos se transformavam em desilusões. O som do rock n’roll se misturava aos tiros e bombas que ceifavam a vida de centenas de jovens no Vietnã. Quentin Tarantino tinha seis anos então e, sobre esse período, decidiu escrever o roteiro de seu novo filme, evocando já em seu título referência ao cinema de Sergio Leone, diretor de “Era Uma Vez no Oeste” (1968) e “Era Uma Vez na América” (1984).

ERA

           O talentoso diretor de “Pulp Fiction” e “Bastados Inglórios” levou cinco anos para escrever o roteiro de “Era Uma Vez em Hollywood” (Once Upon a Time in Hollywood) transitando entre realidades desde seu início com a chamada de uma suposta série televisiva intitulada “Bounty Law”, seguida de entrevista de bastidores com Rick Dalton (DiCaprio) e Cliff Booth (Brad Pitt) ator e dublê, ficção e realidade, universos distintos cuja intersecção é explorada magistralmente pela câmera de Tarantino. Este costura sua narrativa em torno de personagens reais da Hollywood sessentista misturados com personagens saídos da fértil imaginação do diretor. A dupla Dalton e Booth (comparados por Tarantino à dupla Paul Newman & Robert Redford) interage com nomes do panteão hollywoodiano como Bruce Lee (Mike Moh) e Sharon Tate (Margot Robbie), a jovem estrela casada com Roman Polanski, que foi brutalmente assassinada, prestes a dar a luz, pela quadrilha de fanáticos de Charles Manson.

ERA2

            Para representar Sharon Tate Tarantino não recorreu a Roman Polanski mas a Debra, a irmã mais velha de Sharon que serviu de consultora para retratar a atriz. Já a forma como Bruce Lee foi retratado desagradou muito à filha dele, principalmente na sequência em que Lee enfrenta Cliff Booth. Apesar de também incluir representações do próprio Roman Polanski (Rafal Zawierucha), do astro Steve MacQueen (Damian Lewis) e do próprio Charles Manson (Damon Harriman), o novo filme de Tarantino examina os bastidores da Tv e cinema reexaminando as transformações do mundo em sua volta. Contudo, o filme não se rende aos clichês habituais de gêneros biográficos ou documentais. Seu diretor prefere reinterpretar a realidade, recriá-la a partir de suas lembranças e vivências. Com notável e habitual habilidade de tratar de temas polêmicos como racismo (Django Livre) ou Nazismo (Bastardos Inglórios), o diretor foca na própria indústria cinematográfica, trabalha contrastes como Rick Dalton preparando um drink em uma belíssima mansão, enquanto Cliff assiste a um episódio de “Mannix”, popular série de detetive do período. Em outro momento o filme é pura metalinguagem quando a Sharon Tate de Margot Robbie entra em um cinema que exibe “Arma Secreta contra Matt Helm”, filme que traz a verdadeira Sharon Tate em cena. Enquanto isso Rick Dalton tem dificuldade para filmar sua participação na série de faroeste “Lancer” lutando contra suas próprias fragilidades e inseguranças.

ERA3

           Esse é o primeiro filme estrelado por Leonardo DiCaprio em 4 anos, desde que ganhou o Oscar, e o primeiro de Tarantino sem ligação com a Weinstein Company que esteve ao lado do diretor em sucessos como “Pulp Fiction”, “Django Livre” e “Bastardos Inglórios”. Sua exibição em Cannes foi aplaudida exatos 25 anos depois do diretor ganhar a Palma de Ouro com a exibição de “Pulp Fiction”, que trouxe John Travolta de volta do ostracismo. “Era Uma Vez em Hollywood” abre espaço para nomes do passado como o veterano Bruce Dern, em papel originalmente pensado para Burt Reynolds (falecido recentemente), Al Pacino como o agente de atores, Luke Perry em seu último papel (também falecido), Kurt Russell (de “Os Oito Odiados”) e Nicholas Hammond como o diretor Sam Wanamaker. Hammond foi uma das crianças Von Trapp no clássico “A Noviça Rebelde” e, o primeiro ator a interpretar o Homem Aranha em versão live-action nos anos 70. A nova geração marca presença com as atrizes Maya Hawke e Rumor Willis. Maya, filha de Uma Thurman – musa de Tarantino com quem filmou “Pulp Fiction” e “Kill Bill”, conquistou vários fãs como Robin na série da Netflix “Stranger Things”. Já Rumer é filha de Bruce Willis e Demi Moore.

ERA 4

                A produção é esmerada em reproduzir a Hollywood da época, em todo seu esplendor, com carros, fachadas e paisagens que surgem diante dos olhos ao som de Joe Cocker, Paul Simon, Bob Segar, Aretha Franklin entre outros que nos transportam não para aquela Los Angeles real de fevereiro de 1969, quando o filme começa, mas uma Los Angeles onírica, ajustada aos delírios cinematográficos de um contador de histórias. Isto torna-se mais evidente a medida que o filme avança ao seu desfecho, em agosto daquele ano, quando o assassino Charles Manson (Damon Herriman, que também faz o papel na série “Mindhunter”) envia seus acólitos para matar Sharon Tate (Robbie). Nesse ponto fato e ficção divergem abruptamente, tanto quanto em “Bastardos Inglórios”, ambos moldados pelo diretor como matéria-prima nas mãos de um artesão. A montagem do filme é primorosa mesclando sequências filmadas de “Arma Secreta para Matt Helm” e “Fugindo do Inferno” à presença física de Leonardo DiCaprio e Margot Robbie, um tom farsesco mas perfeitamente conveniente à intenção de seu diretor, que olhou para o passado de uma entre milhares de histórias que aconteceram ou que poderiam ter acontecido em um lugar e tempo míticos, em 1969, aliás o ano em que eu nasci.

 

 

 

 

Anúncios

Um comentário em “ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s