HAPPY BIRTHDAY, DORIS DAY

doris-day-ca-1960s-everett                    Foi paixão a primeira vista, essa loira virginal de sorriso maior que a vida sabia cantar e encantar como ninguém. A primeira que a vi foi no papel de Jo MacKenna cantando “Que será será” ao piano no desfecho do clássico de Alfred Hithcock “O Homem que Sabia Demais” (The Man who Knew Too Much) de 1956. Doris estava maravilhosa como a mãe desesperada para salvar a vida do filho sequestrado, com uma canção de ninar.

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                      Doris Mary Ann Kappelholf é uma lenda viva completando 97 anos nesse dia 3 de Abril. Nascida em 1922 em Cincinnati, filha de uma dona de casa e um professor de música. E a música foi sua vida, Doris ingressou na orquestra de Les Brown, nos início dos anos 40, época a que se referiu posteriormente como a melhor de sua vida. Doris tinha sonhos de ser dançarina, mas um acidente de carro aos 14 anos destruiu esse sonho, mas não a derrotou. Doris jamais se sentiu derrotada, ou ao menos jamais se deixou levar por esse sentimento. Fez carreira solo quando deixou a banda de Les Brown e com a gravação, em 1945, de “Sentimental Journey” alcançou a fama,  e nunca mais deixou de fazer brilhar seu nome.

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              Nos anos que se seguiram gravou mais de 600 canções, e foi escolhida para assinar um contrato com a Warner em 1948 para atuar em “Romance em Alto Mar” (Romance on The High Seas). Da Warner, foi mais tarde para a Metro e para a Universal, filmando todos os tipos de filmes. Doris, no entanto, sempre foi muito subestimada, ainda que tenha sido indicada ao Oscar de 1959 por seu papel de Jan Morrow em “Confidências à Meia Noite” (Pillow Talk), primeiro dos três filmes que fez com Rock Hudson, e que deu o pontapé inicial em uma amizade que durou até o fim da vida de Hudson. Doris colecionou apelidos zombeteiros como “senhorita requeijão” ou “virgem profissional” (este último lhe foi atribuido por Groucho Marx), mas Doris sempre foi uma dama, ignorando a zombaria e fazendo papeis diversos embora ficasse marcada como a namoradinha da América Eisenhower, adentrando os anos 60 com uma aura virginal que lhe acompanhou em vários papeis, mesmo que não estivesse interpretando uma senhorita.

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            Foi muito elogiada no papel da cantora Ruth Etting em “Ama-me ou esqueça-me” de 1955, experimentou o suspense não apenas com o filme de Hithcock mas também em “A Teia de Renda Negra” (Midnight Lace) de 1960. Trabalhou ao lado de astros como Clark Gable (Um Amor de Professora), James Garner (Tempero do Amor), Ronald Reagan (Dilema de uma Consciência), Cary Grant (Carícias de Luxo), David Niven (Jamais Fomos Tão Felizes) etc.  Versátil como era se divertiu fazendo um papel de mulher masculina, a lenda do velho oeste Jane Calamidade em “Ardida como Pimenta” (Calamity Jane) em 1953 e conquistou o Oscar de melhor canção por “Secret Love”, hino do romantismo cinquentista, que embalou vários namoros.

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         Doris casou-se quatro vezes e teve um filho, Terry Melcher, e mesmo que nunca tenha tido um “felizes para sempre” digno de alguém que cantou o amor como ela, Doris exerceu o maior amor, o amor pela vida dos animais, causa que a motivou quando deixou Hollywood no final dos anos 60 e a Tv em 1973, quando foi a estrela de sua própria série de tv “The Doris Day Show”. A estrela ainda fez uma mulher atrapalhada confundida com uma espiã no divertido “A espiã de Calçinhas de Renda” (The Glass Bottom Boat) de 1966, do mestre Frank Tashlin. Em 1989, recebeu um prêmio Cecil B.De Mille por sua luta em defesa dos animais.

        Hoje ela vive reclusa, mas ainda apoia a causa dos animais através da “Doris Day Animal Foundation” e sua voz é ainda ouvida nas gravações que deixou, redescoberta sempre como no lançamento em 1º de Abril de “Doris Day Imagination”, mostrando que uma nova geração poderá se encantar com a estrela que gravou em meu coração “Whatever will be will be”. Doris Forever. I, We all love you!!

CLÁSSICO REVISITADO: UM CORPO QUE CAI – 60 ANOS

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Clássico cartaz criado pelo designer Saul Bass

Um dos filmes mais celebrados da clássica Hollywood, eleito o #9 entre os melhores filmes de todos os tempos pelo AFI,  #1 entre os 100 maiores eleitos pela revista francesa “Télerama” e pela renomada “Sight & Sound” do Festival de Cinema Britânico. Tantos feitos para um filme que em seu lançamento original, em 1958, tornou-se um embaraço de bilheteria para seu diretor, o mestre do suspense. Hithcock é assim: Ame-o ou odeie-o, não há meio termo.

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            Revisto hoje, sob um olhar clínico, o 52º longa dirigido pelo mestre era um produto muito à frente de seu tempo. Um protagonistsa dominado pelo medo de alturas e pela culpa  (James Stewart) ;  uma mulher misteriosa criada e recriada sob pulsões de sexo e morte (Kim Novak); um crime premeditado e velado conduzido como um quebra cabeças de uma realidade tortuosa, fragmentada, pertubadora e vertiginosa. Este não é um filme convencional desde seu início até sua impactante conclusão que não faz concessões seja aos personagens seja ao seu público.Por isso compreensível que a plateia de 1958 não tenha compreendido o filme ou seu diretor, este um hábil manipulador do medo.

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James Stewart e dose dupla de Kim Novak

          Para quem nunca teve o prazer de assistí-lo, o filme conta a história de Scottie Ferguson (Stewart) ex-policial que por conta de sua acentuada acrofobia (medo de alturas) não conseguiu salvar a vida de um amigo. Ele se aposenta e se torna detetive particular, sendo contratado por um antigo amigo (Tom Helmore) para seguir a esposa deste, Madeleine (Novak) que possui tendências suicidas. Ambos se apaixonam, mas Scotie não consegue salvá-la da morte. Tempos depois, Scotie encontra Judy (Novak), uma sósia de Madeleine. O encontro casual na verdade guarda segredos a medida que Scotie tenta transformar Judy em Madeline.

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              O roteiro foi feito a partir do romance francês  D’entre les morts (Dentre os Mortos), de Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Hitckcock pretendia adaptar o romance anterior da dupla “Celle qui n’étati plus”, mas este veio a ser utilizado para o filme “As Diabólicas” (Les Diaboliques) de 1955. Assim, tendo em mãos o material que Boileau & Narcejac Hithcock fez de “Um Corpo que Cai” um estudo sobre a obsessão, o medo patológioco e a culpa. Os acordes do maestro Bernard Herrman acompanham passo a passo as voltas e reviravoltas da narrativa com a crueldade de um frio destino manipulando a tudo. A escolha de San Francisco como cenário se mostra eficiente poris sua topografia de altos e baixos reforça ainda mais a sensção acrofóbica do protagonista. Hitchcock tecia sua rede sempre querendo impactar mas jamais mostrando profundidade em suas intenções, o que ele sempre rejeitava. Durante as filmagens conta-se que a estrela Kim Novak teria lhe indagado sobre a motivação de sua personagem, o que ele teria supostamente respondido dizendo “É apenas um filme querida”. Kim Novak tinha 24 anos na época e foi escalada para o papel duplo de Madeleine/Judy depois que Vera Miles recusou por estar grávida.

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         Já o pobre James Stewart amargou a responsabilidade que o proóprio diretor lhe imputou para o fracasso do filme. Hitch teria alegado que Stewart estava velho demais (então com 49 anos) para o papel e sem a química adequada para atrair a plateia. Foi a última vez que o ator e diretor trabalharam juntos (esta foi a quarta vez). Após o lançamento do filme, Hitch conseguiu manter os direitos por este e outros 4 filmes (O Terceiro Tiro, A Janela Indiscreta, O Homem que Sabia Demais e Festim Diabólico) que por seu desejo ficaram fora de qualquer exibiçlão, só sendo relançados em 1984, quatro anos depois da morte do diretor. Hitchcock foi um pioneiro com a câmera na forma como reproduziu o efeito de vertigem (aproximando a câmera fisicamente do objeto ao mesmo tempo em que da um zoom no objeto), imitado mais tarde por outros.

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            Por pressão dos censores da época foi filmado uma cena em que Midge (Barbara Bel Geddes) ouve no rádio que a polícia está prestes a capturar o assassino. Hitchcock cortou a cena  da edição final, mas esta foi incluída para lançamento em DVD/Blu Ray. A surpressão da citada cena certamente deve ter incomodado a visão moralista do público de 1958. Hitchcock, contudo, não se preocupava com mensagens moralizantes, nem com redenções ao final. Hoje, sessenta anos depois “Um Corpo que Cai” continua pertubador, envolvente e influenciador como nos trabalhos de Brian dePalma (Duble de Corpo), parodiado por Mel Brooks (Alta Ansiedade), mas acima de tudo isso uma aula de como manipular nossas fobias e obsessões, promover catarse através de nosso instinto primitivo e de nossa percepção do que é real. A sensação de vertigem é inexorável e inevitável diante da vida, mas como o mestre dissera “É só um filme”.

 

CLÁSSICO REVISITADO: 40 ANOS DE “O EXPRESSO DE CHICAGO”

A recente passagem de Gene Wilder ocorreu em um momento em que eu já planejava escrever um artigo sobre essa comédia  de ação a que assisti pela primeira vez pela saudosa Rede Manchete. O filme é uma divertida e movimentada paródia ao estilo hithcockiano, dirigido por Arthur Hiller (falecido poucas semanas antes de Gene Wilder) e roteirizado por Collin Higgins (1941-1988) que faria outro filme nessa mesma linha em “ Golpe Sujo” (Foul Play).

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O FILME EM DVD

Em “Expresso de Chicago” (Silver Streak) Gene Wilder vive George Caldwell, um editor de livros que viaja de trem de Los Angeles para Chicago. Durante a viagem conhece o vendedor de vitaminas Bob Sweet (Ned Beatty) e Hilly Burns (Jill Clayburgh), secretária de um renomado historiador, o Professor Schreiner que está prestes a lançar um livro sobre o pintor holandês Rembrandt. Enquanto se envolve com Hilly, George investiga por conta própria o assassinato do professor cujo corpo foi jogado para fora do trem, embora ninguém acredita em George, nem mesmo Hilly. A bela jovem, na verdade, é refém de Roger Devereaux (Patrick McGoohan), rico negociador de artes que mandou matar o professor pois este tinha posse de provas de que as pinturas de Rembrandt negociadas por Deveaurex eram falsificações.

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GENE WILDER & JILL CLAYBURGH

A principio, George é auxiliado por Bob, que é um agente do FBI disfarçado, mas quando este também é morto pelos capangas de Devearaux (Stefan Gierach, Ray Walston e Richard Kiel) e a culpa recai em George, que é forçado a pular para fora do trem fugindos dos assassinos que querem acabar com ele. Quando o xerife local (Clifton James) se recusa a acreditar em sua inocência, George recebe a ajuda de Grover Muldoon (Richard Pryor), ladrão e trambiqueiro que leva George de volta ao trem de onde é novamente jogado para fora até conseguir voltar com Grover para salvar Hilly.

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WILDER & PRYOR EM UMA DAS CENAS MAIS ENGRAÇADAS DO FILME

O filme explora a ideia do homem comum envolvido inadvertidamente em trama criminosa, papel decalcado de Cary Grant em “Intriga Internacional”. Segundo o próprio Wilder, em entrevista, ele teria sido interpelado pelo próprio Cary Grant, que depois de ter assistido o filme reconhecera várias passagens inspiradas em seu filme dirigido por Hithcock, Com orçamento de US$ 6,5 milhões, o filme foi um grande sucesso de bilheteria com indicações a prêmios como o Golden Globe (para Wilder). Os exteriores do trem foram gravados no Canadá porque a rede ferroviária de Chicago não aprovou. A trilha sonora assinada por Henry Mancini (criador do tema de “A Pantera Cor de Rosa) acentua todas as reviravoltas da história seja acentuando a ação ou o humor criado por várias situações como George passando graxa no rosto para se disfarçar de negro para fugir da perseguição da polícia. Para filmar essa cena, Richard Pryor se irritou porque o fato de George, um branco convencer como negro seria uma caricatura de mal gosto e sem efeito cômico real. Por insistência sua, George caminha com um rádio enorme no ombro, pintado de preto, e sendo olhado sem convencer negros que passam pela estação.

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DUPLA GENIAL: O LADRÃO & O MATADOR

Essa foi a primeira de quatro parcerias entre Gene Wilder e Richard Pryor. Estes deveriam ter filmado juntos “Banze no Oeste” (Blazzing Saddlers) de Mel Brooks dois anos antes, que o próprio Richard Pryor co-roteirizou, mas acabou não acontecendo. Richard Kiel, um dos capangas de Deveareax viveu o assassino Jaws em dois filmes de 007 feitos nos anos seguintes “007 O Espião que me Amava” (The Spy who loved me) e “007 Contra o Foguete da Morte” (Moonraker). Outro dos capangas foi feito por Ray Walston, ator que ficou famoso na década anterior na Tv como o Tio Martin da série  “Meu Marciano Favorito”. A cena final mostrando a locomotiva invadindo a estação foi realizada em um hangar de avião arrumado para parecer uma estação de trem e custou sozinha em torno de US$500,000 sendo o clímax do filme com duração de apenas 14 segundos na tela.

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O CLÍMAX APOTEOTICO

É lamentável que apesar de ter sido incluído pelo AFI (American Film Institute) como uma das 100 melhores comédias do cinema (posição nº95), o filme não seja tão conhecido do grande público, até por não ter sido tão reprisado na Tv quanto outros filmes. Fica aqui a sugestão para os que não o conhecem, assistir essa criativa homenagem ao mestre do suspense valorizado pela ,maravilhosa dupla Wilder-Pryor, que poderiam ser cegos, surdos ou loucos de dar nó, artistas que deixaram saudade e um vazio na arte cinematográfica Hollywoodiana.

REBECCA – A MULHER INESQUECÍVEL : A VOLTA DE UM CLÁSSICO.

rebecca             Alfred Hitchcock é sem dúvida uma das personalidades mais influentes do cinemão Hollywoodiano. Alcunhado “O Mestre do Suspense”, o diretor britânico é imitado, parodiado, revisitado, refilmado, mas jamais substituído. Entre várias de suas obras já relançadas ora nas telas ora em formatos digitais, agora chega a vez de uma pérola em sua prolífica filmografia, “Rebecca A Mulher Inesquecível” (Rebecca) que será relançado nessa próxima quinta (11 de Agosto) em cópias restauradas pela distribuidora cearense Celeste.

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O ESPERADO MOMENTO EM QUE HITCH SURGE EM CENA: AQUI ESPERANDO POR GEORGE SANDERS NA FILA DO TELEFONE PÚBLICO

O filme “Rebecca” foi a estreia de Hitch em Hollywood depois de uma carreira admirável na Inglaterra. Foi David O’Selzinick, produtor de “E O Vento Levou”, quem trouxe Hitchcock para a America e lhe entregou uma adaptação do romance da escritora britânica Daphne Du Maurier (1907-1989). Não era inteiramente novidade pois Hitch já havia trabalhado com adaptações da autora antes em “A Estalagem Maldita” (Jamaica Inn) em 1939 e , voltaria muitos anos depois em “Os Passaros” (The Birds) em 1960.

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A história mostra Joan Fontaine como uma jovem humilde e inocente (seu nome nunca é mencionado) que se casa com o milionário Maxim De Winter, interpretado por Laurence Olivier, indo morar em Manderlay, a enorme mansão deste situada em Cornwall, no interior da Inglaterra. Em vez do esperado felizes para sempre, seu tempo na mansão é angustiante pois Maxim se comporta de forma estranha, muitas das vezes distante e misterioso e a governanta da casa, a sisusa Dra Danvers (Judith Anderson) faz de tudo para tornar sua estada em Manderlay um inferno, como se ainda zelasse por Rebecca, a falecida primeira esposa de Maxim cuja presença na mansão parece onipresente e fantasmagórica. A medida que a segunda Sra De Winter se aprofunda nos mistérios de Manderlay e no passado de Maxim, revelam-se verdades que mudarão suas vidas para sempre.

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O filme não é um suspense convencional, mas um romance gótico com abordagem psicológica. Sua fotografia em preto e branco realça o clima soturno e a dualidade dos personagens. Várias atrizes foram pensadas para o principal papel feminino, incluindo Selznick queria Olivia deHavilland que estava indisponível. Curiosamente o papel foi para sua irmã mais nova, Joan Fontaine de 23 anos. Olivier queria Vivian Leigh (a Scarlett O’Hara de “E O Vento Levou”) e , por conta disso, tratava mal Fontaine. Hábil manipulador tanto em cena como fora , Hitchcock teria dito a Fontaine que ninguém no estúdio gostava dela, pedindo a outros que a ignorassem de forma a que o mal estar causado fizesse Fontaine soar mais autêntica como uma pessoa insegura e acuada pelo ambiente hostil. A tortura teve seus resultados já que o filme foi um grande sucesso, rendendo ainda nove indicações ao Oscar, dos quais ganhou melhor filme (único prêmio competitivo rendido ao mestre do suspense em sua gloriosa carreira) e melhor fotografia. Lamentável que o roteiro de Robert E. Sherwood e Joan Harrisson não tenha sido igualmente vitorioso pelo primor com que a obra de Daphne Du Maurier ganha tridimensionalidade.Ou que Hitchock não tenha sido reconhecido por sua habilidade em transformar uma história em algo mais. Sua câmera é envolvente e hipnotizante em cada tomada transformando Manderlay em um personagem vivo, reflexo dos  mistérios da alma humana de seus ocupantes, e sobretudo de Rebecca que como o título justifica estará sempre na memória.