O prazer de assistir um filme sempre foi diretamente ligado à expectativa da plateia. Com mais de 100 anos contados desde a histórica invenção dos irmãos Lumiére, essa expectativa mudou com altos e baixos, perdas e ganhos, conquistas e fracassos, numa eterna dicotomia que indica os valores de cada geração diante da magia da sétima arte. Desde o olhar maroto de Carlitos, o eterno vagabundo, até o requinte atual do CGI (computer generated image) que abriu a caixa de Pandora, muita coisa ficou esquecida e merece ser lembrada.

Charles Chaplin : A Emoção é o maior efeito especial.

Charles Chaplin : A Emoção é o maior efeito especial.

A tecnologia deu fôlego renovado para o cinema de animação. A hegemonia da Disney acabou com a cada vez mais frequente presença de outros estúdios no gênero como a Fox, a Dreamworks e a Universal. Mickey Mouse deixou de reinar absoluto na desenholândia e não foi por uma cilada armada mas pelo investimento maior que gerou Ogros, megavilões regenerados e refugos da era glacial. O ganho foi para o público cinéfilo que redescobriu a animação, antigamente pensado ser um gênero só para o público infantil, e hoje ampliado para os pais que despertam para esse belo lado,  antes adormecido, que como Peter Pan, se recusa a crescer.As comédias, por outro lado, perderam seu lado família que a dupla Martin & Lewis sabia fazer e que fizeram sucesso no cinema nos anos 50 e, muito depois, na Tv brasileira nas incontáveis e saudosas tardes dos anos  70 e 80. Jim Carrey nunca escondeu sua admiração por Jerry Lewis e fez do humor careteiro sua marca registrada. Entre atropelos e escorregões, foi todo-poderoso em vários filmes de sucesso mas mesmo assim nunca conseguiu reproduzir a mesma fórmula de sucesso de seu ídolo. Mas, herdou deste o mesmo tratamento preconceituoso recebido pelos acadêmicos que nunca deram o devido valor a Jerry e nunca reconheceram excelentes atuações de Jim Carrey, sempre esnobado pela elite de Hollywood. Mesmo Eddie Murphy viu sua carreira se desmanchar em diversos erros mesmo refilmando Lewis em “O Professor Aloprado” e, assim como este, sendo versátil ao interpretar vários papéis em um mesmo filme. As paródias, então, se voltaram para o público adolescente e ficaram bobas, perdendo aquela criatividade esbanjada por Mel Brooks, Gene Wilder e a antiga geração do Saturday Night Live, que ou envelheceu, ou perdeu seu público ou morreu deixando saudosos nomes como Chevy Chase, Goldie Hawn, Madeline Khan, Dan Acroyd, John Belushi, Richard Pryor, etc.

Clássicos da Sessão da Tarde

Clássicos da Sessão da Tarde

O terror sobrevive nas telas impulsionado pelo requinte dos efeitos digitais mas , em vez de explorar o medo primitivo que habita cada um de nós, se deixa levar pelos sustos fáceis e desprovido de atores que se especializaram em caracterizações assustadoras e que deixavam gravadas no imaginário popular a essência do pavor, como Christopher Lee, Vincent Price, Boris Karloff, Peter Cushing e outros que impressionavam mais que os recursos digitais. Para quem viu, deixaram saudades a ingenuidade de Laurel & Hardy, a poesia Chapliniana, a manipulação Hithcockiana, a ousadia de Wells, a imponência de Ford, a edificação de Capra etc.

O olhar do medo

O olhar do medo

Pode parecer pelo texto, mas não sou avesso à tecnologia e aos avanços técnicos que desde o início do cinema revolucionaram a maneira de fazer e ver filmes, do contrários ainda estaríamos assistindo a filmes mudos que não poderiam explorar a sensação auditiva de diversos gêneros e subgêneros que surgiram. O IMax, o 3D e outras conquistas têm seu valor e graças a eles vivemos de forma intensa a magia do escurinho do cinema. O que discuto é deixar o lado humano e criativo em segundo plano devido a pressões comerciais e clichês óbvios que desprestigiam talentos em favor da forma. Se bastasse uma conversão a 3D, tantos filmes não teriam sido fracassos titânicos porque não conseguiram atingir as necessidades da plateia. Gênios indomáveis ainda conseguem fazer da técnica uma aliada da narrativa como J.J.Abrams, Peter Jackson, Christopher Nolan e veteranos como Steven Spielberg e Martin Scorcese, capazes de nos mostrar que o hábil ilusionista continuará a fazer do cinema a maior diversão e provar para as plateias que o sonho funciona.

 

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