CLÁSSICO REVISITADO : OS 30 ANOS DE “CURTINDO A VIDA ADOIDADO”

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VIVER A ESSÊNCIA DA VIDA ANTES QUE ELA PASSE

Imagine poder viver em um único dia, tudo que talvez levasse a vida inteira para conseguir. Esse imediatismo utópico já passou pela cabeça de qualquer um que já tenha fantasiado fugir da mesmice, se despir do peso das responsabilidades e viver intensamente como se não houvesse amanhã. Pois, há 30 anos um adolescente fez isso por nós e até hoje está em nossa memória afetiva como a realização virtual dessa fuga do lugar comum, da mediocridade e do ordinário. SALVE FERRIS  BUELLER !!

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LIVRES POIS O MUNDO ADULTO É CHATO

Ter sido adolescente nos anos 80, como eu próprio, foi uma benção:  Joguei Atari, ouvi meu walkman, assisti ao primeiro Rock ‘n Rio e tivemos John Hughes. Nenhum outro diretor / roteirista conseguiu se conectar tanto com a juventude quanto ele, revelando talentos novos para o cinema da referida década. Hughes criou o personagem de Ferris Bueller (Mathew Broderick), um adolescente que decide passar um dia inteiro ao lado do melhor amigo, o pessimista Cameron Frye (Alan Ruck) e da namorada Sloane Peterson (Mia Sara), longe da escola, ou como o próprio conta “a vida passa muito depressa e se não paramos para curtí-la, ela escapa por nossas mãos “. Curtir significou sair pela cidade de Ferrari, almoçar em um restaurante cinco estrelas se passando por um figurão, assistir ao jogo de baseball mais sensacional da temporada, ir ao museu, tomar banho de piscina e ainda cantar ao vivo no meio de um desfile. Tudo isso, enganando os pais, a irmã chata, os professores e em especial o diretor da escola que o persegue. Brilhante !

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A AMIZADE VERDADEIRA É ETERNA

Análises já foram feitas apontando a simplicidade do roteiro apontando seus personagens como estereótipos de uma América consumista e superficial. O fato é que Hughes soube como dar voz aos anseios adolescentes: Ferris diz não à vida entediante  e são suas ações irresponsáveis e ousadas que tiram Cameron do marasmo que habita, vindo a dar-lhe o sendo de amor próprio que lhe falta. Na vida real, Broderick tinha 23 anos na época e Alan Ruck, o Cameron tinha 29 e já era um homem casado. Ambos tiveram uma química especial em cena (ambos já haviam trabalhado juntos no teatro na peça de Neil Simon “Biloxi Blues” , que viria a ser filmado dois anos depois com o próprio Mathew Broderick), sendo que seus papeis haviam sido inicialmente para Anthony Michael Hall e Emilio Estevez respectivamente. Mesmo o papel de Sloane Peterson passou perto de ir para Molly Ringwald, antes da belíssima Mia Sara, que tinha então 18 anos. Sara admitiu posteriormente que nos bastidores estava de fato apaixonada por Broderick, mas este namorava Jennifer Grey, a atriz que fazia o papel de sua irmã. Foi, inclusive Jennifer Grey quem conseguiu o papel do jovem drogado na delegacia para Charlie Sheen, com quem jpá havia trabalhado antes em “Amanhecer Violento” (Red Dawn). Sheen revelou que ficou 48 horas sem dormir para ficar com o visual necessário para o papel, curiosamente um papel que viveu intensamente na vida real. Nos bastidores, outro casal se formou entre Lyman Ward e Cindy Pickett, que interpretavam os pais de Ferris. Ao final do filme, ambos se casaram, tiveram dois filhos e ficando juntos por seis anos.

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SE MEXA E GRITE

Várias sequências se fixaram na memória afetiva de quem assistiu o filme, lançado no Brasil em dezembro de 1986 e, exibido na Tv pela primeita vez dois anos depois na Tela Quente da Rede Globo. A mais icônica: Ferris Bueller cantando “Twist and shout” dos Beatles, filmada em um desfile de verdade, um evento anual em Chicago que emprestou várias locações à produção. O tema de John Williams para “Star Wars” caiu como uma luva na sequência em os dois garagistas saem pela cidade com a Ferrari, na verdade um veículo adaptado e não uma Ferrai genuína pois seu valor era muito acima do orçamento do filme. A trilha sonora ainda incluía o tema de “Jeannie é um Gênio” , a banda Sigue Sigue Sputink com Love Missile e, a emblemática Oh Yeah, da banda Yello no final do filme quando o diretor Ed Rooney deixa desolado a vizinhança de Ferris derrotado em seus esforços de provar que o jovem é um trapaceiro. Confesso que, em minha vida de professor, já me deparei com meus momentos de Ed Rooney, mas nunca com um jovem tão carismático quanto o Bueller de Mathew Broderick.

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ABAIXO O SISTEMA

O personagem chegou a virar uma série de Tv, de curta duração em 1990 e inspirou outra série, a hoje clássica “Parker Lewis”, que inclusive também usava o recurso de por o protagonista conversando diretamente com a câmera, estabelecendo conexão e cumplicidade com o telespectador, que assim como eu não resiste às reprises da Tv, mesmo tendo o filme em DVD para assistir a hora que quiser. Sem duvida que eu continuo curtindo adoidado a visão de uma época em que ser jovem era mais real e divertido que se perder em redes sociais, isolados em máquinas. SAVE FERRIS !

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MEMORIAS DE UM CINÉFILO : A REVISTA SET CINEMA & VIDEO

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PRIMEIRA EDIÇÃO DE JULHO DE 1987. A REVISTA DEIXOU SAUDADES.

Em Julho de 1987, eu estava completando 18 anos quando passei por uma banca de jornal e conheci a revista SET CINEMA & VIDEO. Na capa, o ator Mickey Rourke, apontado como símbolo daquela geração, com um ar contestador que invocava Marlon Brando emulado fosse no papel de rebelde em “O Selvagem da Motocicleta” (Rumble Fish) de Francis Ford Coppola ou como sedutor em “9 Semanas e Meia de Amor” (9 1/2 Weeks). Contudo, Rourke aparecia na revista não apenas por seu promissor currículo mas principalmente por estrelar “Coração Satânico” (Angel Heart) de Alan Parker, ao lado do monstro sagrado Robert DeNiro. Aquela primeira edição era, assim como Rourke, uma grande promessa para aquele final da década de 60. Em uma época em que a Internet não existia, SET trazia informações apuradas de Hollywood: Notícias do que rolava de projetos e filmes vindouros (a seção Takes), os lançamentos nas telas, um elogioso ensaio fotográfico da belíssima Natassja Kinski entre outras surpresas, com texto bem escrito e admirável resolução gráfica. Outro atrativo de SET foi o início de uma coleção de fichas técnicas que traziam de um lado a reprodução de posters de filmes com informações técnicas e curiosidades no verso.

O embrião da revista SET surgiu na verdade como uma seção interna de outra revista que vendia bastante naquela segunda metade da década de 80: BIZZ, voltada para os astros POP da música. Alex Antunes (Hoje blogueiro do Yahoo Brasil) e Marcel Plasse (hoje editor do site “Pipoca Moderna”) foram os editores originais da SET pela Editora Azul (subsidiária da Editora Abril) pela qual circulou mensalmente por 11 anos. Outro mérito da revista foi explorar o BOOM do home video. A primeira edição, por exemplo, trazia uma seleção de 100 videos imperdíveis que foram seguidos, nas edições subsequentes, por seleções de outros gêneros que chegavam às locadoras que se multiplicavam pelo país naquela época em que éramos governados pelo primeiro presidente civil em muitos anos. SET abraçava as novidades na mesma forma que reverenciava o passado com a seção MITOS, mostrando uma breve trajetória dos grandes nomes da Hollywood clássica com uma filmografia nas páginas finais, encerrando as edições com belas fotos de página inteira como Rita Hayworth (que falecera no ano de nascimento da revista) além de Marilyn Monroe, Marlon Brando entre outros.

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Em 1998, a revista passou para a Editora Abril entre 1998 e 1999, passando para a Editora Peixes em seguida, onde foi publicada pelos 10 anos seguintes. Nessa altura, a revista já havia passado para o editor Roberto Sadovsky. A Revista já havia passado por uma reformulação visual por volta de 1991, época do lançamento de “A Familia Addams”, “True Lies” e “O Fugitivo”, mas preservou em sua páginas a seção “Hollywood Boulevard” escrita pela maravilhosa e saudosa jornalista Dulce Damasceno de Britto, que viveu a era de ouro de Hollywood, tendo entrevistado vários mitos do cinema.

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SET foi testemunha de várias mudanças na forma de se assistir filmes: O advento do VHS, a chegada do DVD, da Tv por assinatura, o Blu-Ray, o fim das locadoras com a popularização dos downloads. Quem lia a SET acompanhou todas essas  mudanças em paralelo ao avanço técnico dos filmes com a tecnologia digital. Contudo, o mercado editorial mudou muito ao longo dos anos e SET foi perdendo espaço frente à informação instantânea trazida pelos sites da internet. Os clássico foram reduzindo seu espaço em favor de uma linguagem mais “pop”, mais “teen” na escolha das matérias e entrevistas publicadas. Ainda assim, continuei a ler a revista, mesmo depois que em seu período terminal, a revista passou a ser publicada pela CBM (do Jornal do Brasil) editada por Mario Marques, e finalmente de volta para Roberto Sadovsky pela Editora AVEC. em uma fase de periodicidade irregular que teve seu canto do cisne em Novembro de 2010, quando a revista deixou de circular definitivamente. Lamentável fim para uma publicação de grande importância para o meio.