GALERIA DE ESTRELAS : KIRK DOUGLAS

Em “Trumbo” (2015), durante a paranoia Macarthista vários profissionais perdiam espaço de trabalho quando acusados de serem comunistas, entre eles o excelente roteirista Daltom Trumbo. Protagonista e produtor executivo de “Spartacus”, o ator Kirk Douglas ignorou o boicotte e contratou Trumbo como roteirista. Sua força de caráter não esteve só visível diante das câmeras, mas também nos bastidores de Hollywood. Logo, seu centenário coleciona diversos episódios que justificam o valor desse grande astro, um dos últimos durões do cinema, que ganha de 25 de novembro até 11 de dezembro, uma mostra pela cinemateca do MAM reunindo 29 longas de uma carreira prolífica carreira, além do lançamento de um livro “O Ùltimo Durão – Centenário de Kirk Douglas” escrito por Mario Abbade, jornalista, crítico de cinema e curador da mostra.

fuga-do-passado

FUGA DO PASSADO : CONTRACENANDO COM ROBERT MITCHUM

Nascido em Nova York, Issur Danielovitch, em 9 de dezembro de 1916, filho de imigrantes judeus originários da Russia. Adotou o sobrenome Demsky quando criança enquanto sua família se fixava na América, legalmente modificado para Kirk Douglas pouco antes de ingressar na Marinha durante a Segunda Guerra. Lutou boxe desenvolvendo um físico atlético que seria útil na composição de papeis rudes. Para conseguir uma bolsa para a universidade, entrou para um grupo de drama e veio a trabalhar no rádio e em comerciais de Tv. Nesse meio tempo conseguiu papeis pequenos no cinema estreando nas telas em 1946 em “O Tempo Não Apaga” (The Strange Love of Marha Ivers), papel que conseguiu por intermédio da amiga Lauren Bacall. O nobre ator conseguiu chamar a atenção para si no filme seguinte “Fuga do passado” (Out of the Past) no papel de um gangster. Em três anos veio a primeira indicação ao Oscar de melhor ator por “O Invencível” (Champion), no papel de um boxeador que o fez reviver uma fase de sua própria vida. Logo vieram o xerife de “Embrutecido pela violência” (Along The Great Divide), o detetive de “Chaga de Fogo” (Detetctive Story) ambos de 1951, mas apesar do sucesso destes, o obstinado ator tinha muito mais a dar, além de trazer o pão nosso para família formada em 1943 com a também atriz Diana Dill e com quem teve dois filhos: Michael em setembro de 1944 e Joel em janeiro de 1947.

sede-de-viver

SEDE DE VIVER

             Não demoraria para Kirk mostrar seu talento em dramas psicológicos como o papel do repórter Charles Tatum de “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole) de 1951 e no ano seguinte o produtor Jonathan Shields de “ Assim estava escrito” (The Bad & The Beautiful), uma visão crítica dos bastidores de Hollywood dirigida por Vincent Minelli. A versatilidade passou a ser uma marca na carreira de Kirk Douglas, oscilando entre papéis mais físicos e outros mais desafiadores, e sempre sem medo de se arriscar. Logo, interpretou o rebelde marinheiro Ned Land na adaptação da Disney para “20000 Léguas Submarinas” (20000 Leagues Under The Sea) ao passo que incorporou o pintor Vincent Van Gogh na cinebiografia “Sede de Viver” (Lust for Life) dirigida por Vincent Minelli. Por este, o ator levou o prêmio de melhor ator da crítica de Nova York. Filmado no mesmo local de nascimento e morte do pintor pós-impressionista holandês. Apesar de várias indicações ao Oscar, incluindo para Kirk que perdeu para Yul Brinner por “O Rei & Eu” (The King and I). Apesar da excelente atuação de Kirk, do elenco de “Sede de Viver” quem levou a estatueta dourada foi Anthony Quinn como coadjuvante por uma participação de 22 minutos como o também pintor Gauguin. Segundo o site imdb, na cena em que Van Gogh corta sua orelha foi tão impactante que  Michael e Joel, filhos de Kirk choraram em desespero por acharem que seu pai havia se mutilado de verdade. Vários westerns se aproveitaram de seu talento como “Rio da Aventura” (The Big Sky) de 1952 ,  “Homem sem Rumo” (Man without a Star) de 1955 (quando Kirk fundou sua propria produtora, a Bryna Productions, com intenção de obter maior controle sobre sua carreira)  e “Duelo de Titâs” (Last Train From Gun Hill) de 1959. Neste último, travou um acirrado duelo em cena com o igualmente talentoso Anthony Quinn.

sem-lei-e-sem-alma

SEM LEI E SEM ALMA: OS DURÕES KIRK DOUGLAS & BURT LANCASTER

Foi ao lado do icônico Burt Lancaster que Kirk Douglas teve diversas atuações impressionantes forjando uma parceria muito bem sucedida diante do público e que duraria quatro décadas, criando uma imagem de amizade que existia na cabeça do grande público. Ainda assim, a química dos dois era inegável, sete vezes em cena em “Estranha Fascinação” (I Walk Alone) 1948, “Sem Lei Sem Alma” (Gunfight at OK Corral) 1957, ”O Discípulo do Diabo” (The Devil’s Disciple) 1959, “A Lista de Adrian Messenger” ( The List of Adrian Messenger) 1963, “Sete Dias de Maio” (Seven Days in May) 1964, “Vitoria em Entebbe” (Victory at Entebbe) 1976 e “Os Últimos Durões” (The Tough Guys) 1986. Dentre estes “Sem Lei & Sem Alma” é certamente um dos mais notáveis, versão romanceada de famoso tiroteio ocorrido no Arizona em 1881, já levado às telas em 1946. Douglas faz o pistoleiro Doc Holliday que vem a auxiliar o xerife Wyatt Earp interpretado por Burt Lancaster. Metódico e detalhista na composição de seus personagens, Kirk teria planejado quantas tossidas e de que intensidade essas seriam em cada cena de forma que quando editado o filme não tivesse erro de continuidade.

VIKINGS.jpg

VIKINGS OS CONQUISTADORES

A credibilidade impressa em cena por Kirk era tamanha que seus papeis pareciam ser feito sob medida não importando que filme fosse. No auge dos épicos, o ator fez o guerreiro grego descrito por Homero na Ilíada em “Ulisses” em 1954  – ano em que se casou pela segunda vez, com Anne Buydens e com quem teria mais dois filhos. Interpretou o príncipe Einar de “Vikings – Os Conquistadores” (The Vikings) de 1958 contracenando com Tony Curtis,  e o escravo rebelde “Spartacus” de 1960, do qual também foi produtor. Este último sagrou-se na história como um dos melhores filmes do gênero, desafiando o status-quo ao contratar o perseguido Dalton Trumbo como roteirista, conforme mencionado, e o talentoso diretor Stanley Kubrick, com quem Kirk já havia trabalhado em “Gloria Feita de Sangue” (Paths of Glory) de 1957, até hoje um dos melhores filmes de guerra, com um discurso anti-belicista em plena era da guerra fria. Durante as décadas de 70 e 80 os bons papeis foram reduzindo e Kirk fez duas tentativas como diretor: “As Aventuras de um Velhaco” (Scalawag) de 1973 e “Ambição Acima da Lei” (Posse) de 1975, Neste escreveu um papel especialmente para o ator James Stacey que havia perdido seu braço esquerdo e sua perna esquerda em um atropelamento, dando-lhe a primeira oportunidade para atuar após o acidente . Em entrevista recente com o crítico Mario Abbade (publicado em O Globo) reconheceria que achou melhor não continuar, se despindo de qualquer vaidade em admitir.

kirk-e-michael-douglas

KIRK E MICHAEL; DUAS GERAÇÕES DE TALENTO

Kirk nunca escondeu a frustração de não ter estrelado a adaptação cinematográfica de “Um Estranho no Ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest), no papel que fizera nos palcos e que no cinema seria vivido por Jack Nicholson. Curiosamente, o filme seria produzido pelo seu filho Michael Douglas e foi premiado com 5 Oscars.  Seguindo sua carreira, Kirk Douglas nunca parou de apoiar causas filantrópicas como uma campanha contra o abuso sofrido por idosos que o levou a ser citado pelo Congresso Nacional e resultou no filme de TV “Amos” de 1985, contracenando com Elizabeth Montgomery (da série “A Feitiçeira”). O sucesso de Michael Douglas, seu filho mais velho, no cinema estabeleceu uma dinastia no cinema. As duas gerações se encontrariam em “Acontece nas melhores Famílias” (It Runs in the Family) de 2003.

furia

FÚRIA

Ator e produtor já consagrado, trabalhou sob a batuta de Brian DePalma em “A Furia” (The Fury) 1978 e Stanley Donen em “Saturno 3” (Saturn 3) 1980 experimentando o cinema fantástico já que o primeiro era um thriller tratando de força telecinética e o outro uma ficção cientifica convencional. Fez trabalhos na Tv e até emprestou sua voz para um dos episódios de “Os Simpsons” em 1996. Sua aposentadoria só ocorreu devido a um derrame que lhe prejudicou a fala. Entre os diversos prêmios e honrarias,  recebeu a “Presidential Medal of Freedom”, a mais alta condecoração civil do Presidente Jimmy Carter, além de um prêmio “Life Achievement Award”pelo AFI em 1998. Embora não tenha vencido um Oscar competitivo nas três vezes que concorrera, recebeu um Oscar honorário pelo conjunto da obra em 1996. Sua tenacidade o levou a superar os revezes como o derrame, a morte de seu filho mais novo Eric em 2004 por overdose e nem o peso da idade lhe tiram aquele olhar altivo, honrado ou diminuem o charme da covinha em seu queixo, marca registrada de uma carreira prolífica e que o torna uma lenda viva.

m-douglas-427943

 

GALERIA DAS ESTRELAS : O CENTENÁRIO DE ANTHONY QUINN

ONE- MAN TANGO

Anthony Quinn

Segundo a auto-biografia do ator Anthony Quinn, o ator de diretor Orson Welles (que também completa seu centenário esse ano e de quem falarei aqui em breve) o teria apelidado de “One Man Tango”, pois sua auto confiança era tamanha que ele poderia dançar um tango sozinho e ainda assim impressionaria. A alcunha parece justa pois imaginem um mexicano com uma habilidade camaleônica tamanha capaz de ser convincente como um árabe, um italiano ou um grego. Seu olhar e postura o torna um revolucionário, um papa ou um deus grego. Estou falando de Antonio Rudolfo Oaxaca Quinn, que se vivo estivesse acrescentaria a esse invejável currículo a marca admirável de 100 anos, uma longevidade não alcançada por meros mortais, mas alcançada e superada ao menos pelas estrelas de cinema.

Nascido em 21 de Abril de 1915 em Chihauhua, México, filho de Manuela e Francisco Quinn que trabalhara como assistente de cameraman para um estúdio cinematográfico de Los Angeles naquele início de século. O pai chegou a fazer parte do exercito do revolucionário Pancho Villa. Antonio trazia no sangue o espírito de um guerreiro. Sua infância foi modesta e antes de ser ator, Antonio foi açougueiro e boxeador graças a um físico invejável que ele soube usar para atuar em papéis que o exigiam como de piratas ou gangsters, sempre como um coadjuvante talentoso capaz de roubar a cena. Lembro de Anthony Quinn, por exemplo, aos 25 anos,  como o vilão de “Cisne Negro” (The Black Swan) de 1940 antagonizando Tyrone Power, com quem também trabalhou em “Sangue & Areia” (Blood & Sand) de 1941, embora tenha feito um papel menor.  Havia já ali uma pretensão, uma ambição que instigava o ator a buscar algo mais. Contratado pela Paramount,  ficou um longo tempo colecionando papéis menores em filmes de outros astros, e sempre em papéis que exploravam mais seu biótipo do que suas habilidades interpretativas. Decepcionado, ele trocou Hollywood pelos palcos da Broadway onde teve elogiado desempenho como Stanley Kowalski na adaptação de “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennesse Williams, e ainda estudou arquitetura por um período. Nessa fase de sua vida, Anthony estava casado com Katherine De MIlle,  a filha do mítico diretor Cecil B.De Mille, com quem aliás não nutria um relacionamento muito amistoso.

anthony quinn e esposa

ANTHONY QUINN & A PRIMEIRA ESPOSA KATHERINE DE MILLE

Demorou, mas logo Anthony Quinn foi redescoberto por Hollywood e em 1947 já havia se naturalizado americano. Contudo, quando a peça de Williams foi adaptada para o cinema por Elia Kazan, o papel de Kowalski foi para Marlon Brando. Kazan, no entanto, reconhecia que havia um talento que não deveria ser desencorajado ali, e escalou Anthony Quinn para um outro papel de destaque, curiosamente, o de irmão de Marlon Brando em “Viva Zapata” (1952), cinebiografia do revolucionário mexicano Emiliano Zapata. Esse foi o momento da virada para o ator que conquistou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel que veio a impulsionar sua carreira, e tornando-o o primeiro ator de origem mexicana a ganhar a cobiçada estatueta de ouro da Academia. Repetiu o feito cinco anos depois quando interpretou o pintor francês Gauguin no excelente “ Sede de Viver” (Lust for Life), dirigido por Vincent Minelli, que conta a história de vida do pintor Vincent Van Gogh (Kirk Douglas).

O SEGUNDO OSCAR, TAMBÉM, COMO COADJUVANTE

O SEGUNDO OSCAR, TAMBÉM, COMO COADJUVANTE

Aparecendo por pouco tempo em cena, Anthony Quinn conseguiu brilhar mesmo contracenando com um visceral Kirk Douglas, em atuação igualmente impactante. Aliás, na vida real Anthony Quinn era um pintor auto-didata, tendo se interessado pela arte durante sua adolescência, e depois de adulto chegou a conquistar elogios do crítico de arte Donald Kuspit e a ter seus quadros exibidos em galerias de arte no México, Los Angeles, Nova York e Paris. Quinn voltou a contracenar com Kirk Douglas como seu antagonista em filme apropriadamente batizado “Duelo de Titãs” (Last Train for Gun Hill) de 1959, faroeste em que Anthony Quinn interpreta um barão do gado que se recusa a entregar seu filho, que cometera um crime, ao homem da lei (Douglas) que já foi um dia seu melhor amigo. Ao longo da década de 50 diversos convites surgiam e o versátil ator foi morar na Itália onde, na época, várias produções internacionais eram rodadas pois os incentivos fiscais barateavam os custos de produção. Nessa época teve a oportunidade de trabalhar com Federico Fellini em “Estrada da Vida” (La Strada) de 1954. Sua figura já havia alcançado prestígio mundial quando apareceu ao lado de nomes de peso como Peter O’Toole e Omar Shariff em “Lawrence da Arábia” (Lawrence of Arabia), de David Lean, e esteve junto de Gregory Peck e, David Niven em “Os Canhões de Navarore” (The Guns of Navarone). Entre esses, me encantei com sua performance em “As Sandálias do Pescador” (The Shoes of The Fisherman), adaptação da obra de Morris West sobre um papa de origem ucraniana eleito em meio a uma crise mundial. Anthony Quinn transmite equilíbrio e uma humanidade tão acima dos padrões normais que, mesmo se tratando de uma história de forte contextualização política, suas ações parecem compor uma fábula moderna. A sabedoria e humildade espelhada nas telas fazem um curioso contraponto com os traços rudes de seu rosto. Este é o meu filme favorito dentre os estrelados por Anthony Quinn, devo dizer.

AS SANDALIAS DO PESCADOR

AS SANDALIAS DO PESCADOR

Em todos esses filmes, mesmo que em meio a  um elenco estelar, Anthony Quinn sempre conseguia se fazer notar, se destacando com notável desembaraço. Ele conseguia transmitir credibilidade não importando em que papel alcançou  impressionante resultado protagonizando “Barrabás” (1961) e “Zorba o Grego” (Zorba the Greek) (1964). No primeiro, uma superprodução realizada no auge dos épicos Hollywoodianos. viveu o atormentado ladrão que foi perdoado e salvo da crucificação no lugar de Jesus Cristo. Do sofrimento pungente de seu personagem no filme de Richard Fleischer, saltamos para uma catarse contagiante como o grego Zorba no filme dirigido por  onde Anthony Quinn ganha a tela com uma atuação maior que a própria vida, dando uma lição de simplicidade e generosidade para um milionário incapaz de perceber o valor da vida. Novamente, a rudeza de seus traços servem de tempero para uma atuação inspirada, capaz de lavar a alma e contagiar o espectador. Foi também um índio (O Intrépido General Custer de 1941 e Bufffalo Bill de 1944), um marinheiro árabe (Simbad o Marujo de 1947), o corcunda Quasímodo da obra de Victor Hugo (O Corcunda de Notre Dame de 1957), um esquimó (Sangue sobre a Neve de 1960), o imperador chinês Kublai Khan (Marco Polo o magnífico de 1965) entre outros.  Todos facetas múltiplas de um ator cuja versatlidade não tinha limites. Na vida pessoal também era um homem de muitos papeis: Estudou arquitetura, casou outras duas vezes, foi pai, escritor, muitos em um único homem.

zORBA O GREGO

zORBA O GREGO

Na década de 60, sua vida pessoal teve grandes mudanças quando ele se divorciou de Katherine, com quem teve cinco filhos e se casou com Jolanda Addolori , uma estilista que Quinn conhecera na Italia e que veio a se tornar sua segunda esposa. Anthony Quinn, em uma entrevista à revista LIFE, dizia que o tempo todo procurava fugir da estereotipação dos papeis que lhe eram oferecidos. Ainda assim aparecia em papéis assim como um milionário grego inspirado na figura de Aristoteles Onassis em “O Magnata Grego” (The Greek Tycoon) de 1978, o profeta mulçumano em “Maomé – o Mensageiro de Deus” (Mohammed – Messenger of God) de 1977. A chegada da idade lhe dificultou o acesso aos bons papeis, mas o ator encontrou na TV novas possibilidades. Na década de 90, veio o papel de Zeus, o senhor do Olimpo em uma série de telefimes estrelados por Kevin Sorbo como o semi deus “Hercules”. Personagens marcantes fizeram sua carreira memorável e este ano celebramos tal multiplicidade com a certeza única de que poucos atores conseguiram marcar sua estirpe tendo contra si tantos estereótipos imputados a si, e a a favor toda essa energia que fez de Anthony Quinn um ídolo como poucos.