GRANDE ESTREIA: ROCKET MAN

Rocketman

          Mais de 300 milhões de discos vendidos no mundo, sete álbuns consecutivos em primeiro lugar nas paradas americanas, carreira premiada com Grammy, Brit Awards, Tony, Golden Globe, Oscar entre outras honrarias são tantos feitos e tantos sucessos que seu nome certamente há sempre de pairar alto como uma pipa, ou melhor dizendo como um foguete, nascido Reginald Kenneth Dwight mas seu talento o fez renascer como Elton John. O filme que estreia hoje nos cinema é um presente para seus fãs, mas também uma oportunidade para os que não são conhecerem a trajetoria desse ícone da música pop.

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          Depois do sucesso de “Bohemian Rhapsody”,  Dexter Fletcher – que finalizou o filme do Queen depois da saída de Bryan Singer – assumiu adaptar a vida de Elton John em um filme sem concessões, mostrando os baixos na vida pessoal e profissional do cantor, mesmo que com isso a classificação etária restringisse o alcançe do filme. O próprio Elton John garantiu que assim fosse, pois em suas própria palavras “Minha vida não foi aconselhável para menores”. Mesmo com cenas fortes mostrando sexo e drogas, o filme de Dexter Fletcher impressiona pelas cenas que mesclam fantasia e realidade na medida que mostra como um garotinho venceu a timidez, e outros obstáculos pessoais, para se tornar um artista de projeção internacional. No elenco de apoio Jamie Bell (Tintin) é Bernie Taupin, o parceiro de composições de Elton e Bryce Dallas Howard (Jurassic World) interpreta a mãe do músico que trazia um talento prodigio, iniciando sua carreira no final dos anos 60 e tornando-se uma estrelas ao longo da década seguinte, período em que o roteiro se concentra no recorte biográfico. A quantidade de hits preenche a tela e as cenas, assim como “Mamma Mia” fez com as canções do Abba, inserindo-as na representação de diversas passagens da vida do músico.

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         Sua carreira sempre esteve identificada com uma união harmoniosa entre imagem e som, seja nos figurinos extravagantes que usou diversas vezes em suas apresentações nos anos 70, tal qual um Liberace renascido no cenário pop, Capitão Fantástico, Pato Donald ou Mozart, com plumas, paetês, óculos e rock saltando das teclas de seu piano, movido por canções como “Bennie & The Jets”, “Crocodile Rock” ou baladas poéticas como “Don’t Let the Sun Go Down On Me”, ou “Your Song”, esta escolhida como uma das mais belas canções de amor, seu primeiro grande sucesso nos Estados Unidos em 1970, essência de toda uma discografia, grande parte da qual composta junto a Bernie Taupin. Desde o começo Elton na música e Bernie como letrista fizeram o mundo bailar e se apaixonar até mesmo visitando e revisitando a sétima arte como quando criaram “Candle in the Wind”, melodiosa canção que fala da musa Marilyn Monroe, ou quando nos levaram de volta ao mundo de Oz em “Goodbye Yellow Brick Road”, seu sétimo álbum de estúdio lançado em 1973, presente na lista dos maiores álbuns no Rock and Roll Hall of Fame. Em 1975 Elton John fez sua primeira aparição como ator em um filme, parte do elenco da opera rock “Tommy”, dirigido por Ken Russell, transformando-se na figura delirante do Pimball Wizard na canção de mesmo nome composta por Pete Townshend da banda “The Who”.

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        O talento da dupla Taupin & John é tão imagético que seus clips trazem uma identidade cinematográfica como a história de amantes separados pela guerra de “I guess that’s why they call it the blues” (1984), o amor de um ocidental e uma comunista em tempos de guerra fria em “Nikita” (1985) ou a arquitetura retro no cenário de “Believe” (1995). Com um lirismo que evoca o romantismo de Cole Porter, Elton John cria suas melodias separado de seu parceiro de longa data, o letrista Bernie Taupin mostrando que a soma das partes leva a uma resultado admirável em que letra e música criam uma dimensão sonora viva e contagiante como a clássica “Rocketman” (1972), que dá nome a sua cinebiografia, escrita a partir de um conto de Ray Bradbury que integra o livro “The Illustrated Man”, em uma época em que canções com temática espacial eram populares.

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          Elton John colaborou com a trilha sonora de vários filmes: a balada “Daniel” toca em “Alice Não Mora Mais Aqui” (1974) de Martin Scorcese, “Tiny Dancer” em “Quase Famosos” (2001) de Cameron Crowe, “You Gotta Love Someone” em “Dias de Trovão” (1990) de Tony Scott além de séries de Tv como “Glee” (2010-2013) e “Californication” (2009-2014). O cantor passou por altos e baixos que são facilmente identificáveis em várias das fases de sua carreira, mas sempre apoiou causas humanitárias. Depois da morte de Lady Di, reverteu a canção “Candle in the Wind” para homenagear sua amiga, a princesa a quem chamou de “English Rose”, e que se tornou o single mais vendido da história. Em 1985, mesmo ano em que participou do Live Aid, participou da gravação de “That’s What Friends Are For” junto a Dionne Warwick, Stevie Wonder e Gladys Knight, que teve o lucro revertido para as pesquisas da “American Foundation For AIDS Research”. Sete anos depois o cantor deu seu nome para a criação da “Elton John AIDs Foundation”, organização que apoia além de diversas causas humanitárias.

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        Sempre muito pessoal em suas composições, ele fez sozinho a instrumental “Song for Guy” (1978) para um amigo que morrera tragicamente e em meio a seus acordes desperta uma experiência espiritual encerrada com versos que dizem “Life isn’t everything” ( A Vida não é tudo). Lançou “Empty Garden” dois anos depois da morte de John Lennon, de quem era grande amigo, além de ser padrinho do segundo filho do ex Beatle. O homem foguete da música pop chegou à década de 90 compondo, junto a Tim Rice, as canções “Circle Of Life” e “Can You feel The Love Tonight?” da trilha sonora da animação “O Rei Leão”, um dos maiores triunfos dos Estudios Disney, que lhe deu o Oscar da Academia. Alguns anos depois voltou a trabalhar com Rice para a trilha de “O Caminho para Eldorado” da Dreamworks, em que sua voz também serviu de narrador da história.  Com a própria produtora a “Rocket Pictures”, fez de suas canções o fio condutor da animação “Gnomeu & Julieta” (2011), que ganhou sequência em 2016 embalando uma nova geração com sucessos como “Don’t Go Breaking My Heart” , “Philadelphia Freedom” e “I’m Still Standing”. Em 2017, interpretou a ele mesmo em “Kingsman; Circulo Dourado”, curiosamente protagonizado por Taron Egerton, que interpreta Elton na cinebiografia “Rocketman”.

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             Esse prodígio que aos 4 anos já dedilhava no piano, que já foi dono de um time de futebol inglês, outra de suas paixões, sobreviveu a todos os excessos que um astro atravessa como drogas e álcool, além de ter lutado contra a bulimia durante vários anos. Também sobreviveu a tentativas de suicídio e com conflitos gerados por sua sexualidade, a princípio escondida e depois assumida. Hoje casado e feliz com o empresário David Furnish e com dois filhos, Zachary de 9 anos e Elijah de 6 anos, esse fantástico artista ainda esbanja vitalidade e criatividade, já tendo se apresentado no Brasil três vezes, anuncia sua aposentadoria após o final da atual turnê batizada de “Farewell Yellow Brick Road”. Elton é um sobrevivente, mas ainda de pé, depois de todo esse tempo conquistou uma vida plena com muitos fãs, incluindo este que escreve, que ao aprender inglês, traduziu como primeira canção a melodiosa “Skyline Pidgeon”, que no Brasil foi parte da trilha sonora da novela “Carinhoso” (1973). Foi amor a primeira vista, ou melhor à primeira audição, comprovando o que letra de “Sad Songs” diz, que canções romântica sempre tem muito a dizer, e certamente Elton sempre teve.

 

 

GRANDE ESTREIA: BOHEMIAN RHAPSODY

              Na música, uma rapsódia é uma composição híbrida de diversas unidades rítmicas e temáticas. O cantor Freddie Mercury incorporava esse espírito mesclando notas operísticas com o balanço do rock n’ roll, e uma voz que alcançava vibração impressionante e incomum, de acordo com estudos de pesquisadores e especialistas, publicados no site americano “consequence of sound” em 2016.  Sua carreira como astro vai ainda além, pois Farrokh Bulsara, seu nome real, flertou com a sétima arte em diversos momentos de sua trajetória compondo trilhas para filmes ou desenvolvendo concepções visuais para os clips de sua banda.

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             Reza a lenda, no entanto, que o produtor italiano Dino De Laurentis não conhecia a banda quando a contratou para a trilha sonora de “Flash Gordon”, adaptação das hqs de Alex Raymond. Embora o filme tenha envelhecido mal, tornou-se um cult trash, ainda ecoando em nossos ouvidos a voz de Freddie bradando “FLASH…AHAHAH ! KING OF THE UNIVERSE”. O baterista Roger Taylor, em entrevista cedida em Outubro de 2008, declarou que esta foi a primeira vez que uma trilha de Rock n’Roll era composta para um filme não musical. Também foi a primeira vez em que trechos das falas do filme foram inseridas na trilha do álbum, algo comum a partir de então como ouvido, por exemplo, em “Pulp Fiction” (1994) e “Reservoir Dogs” (1992) de Tarantino. O uso de baixo e sintetizadores foi criativo atingindo nossos tímpanos com um efeito onomatopeico que deveria realçar as origens dos quadrinhos de Alex Raymond. Ainda assim o filme, que se tornou o 9° álbum da banda, não conseguiu ser o sucesso de bilheteria pretendido, lembrando que falamos de uma época em que adaptações de quadrinhos não tinham o mesmo prestígio que hoje. Mesmo assim o single com a canção tema chegou a alcançar o 42º lugar pela “Billboard Hot 100”.

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             Melhor resultado foi obtido pela banda quando o diretor australiano Russell Mulcahy, que era fã da banda, contratou o quarteto para assistir as filmagens de “Highlander – O Guerreiro Imortal” (1985) vindo assim o convite para gravar a trilha sonora do filme, 12º álbum da banda. Cada membro do Queen colaborou com uma canção: Roger Taylor compôs a canção tema “A Kind of Magic”, Brian May ficou com a balada épica “Who Wants to Live Forever”, o baixista John Deacon fez “One Year to Love” e Freddie Mercury ficou com o hard-rock de “Princes of the Universe.”. O sucesso foi estrondoso, sendo que a versão de “A Kind of Magic” originalmente composta por Taylor, musicalmente mais pesada, é ouvida nos créditos finais do filme enquanto que o arranjo mais dançante da canção foi gravado por Freddie Mercury para o álbum da banda. Este ainda rendeu a agitada “One Vision” que entrou para a trilha do filme “Águia de Aço” (Iron Eagle) produzido na mesma época.

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            Foi ideia do próprio Mr. Fahrenheit, como o cantor se chamou na letra da canção “Don’t Stop me Now”, usar cenas do clássico “Metropolis” (1926) no clip de “Radio Ga Ga” lançado em 1984. O diretor David Mallet colocou o quarteto em um carro voador planando sobre o cenário expressionista do filme de Fritz Lang. A canção, carro chefe do álbum “The Works” alcançou sucesso mundial, escrita por Roger Taylor como uma crítica aos meios de comunicação em um momento em que a MTV estava atraindo mais atenção que a rádio. O título da canção foi a fonte de inspiração para que Stefani Germanotta se reinventasse como a estrela Lady Gaga. Do mesmo álbum temos “I Want To Break Free”, composta pelo baixista John Deacon, que teve um clip cômico também dirigido por David Mallet, com os músicos transvestidos tal qual Tony Curtis e Jack Lemmon do clássico “Quanto Mais Quente Melhor”, um dos filmes favoritos da Carmen Miranda do Rock n’ roll, como o próprio Freddie Mercury se definiu em uma das raras ocasiões em que cedia entrevista. A canção foi associada ao universo gay, mas foi o próprio Mercury quem explicou que na verdade era uma canção sobre libertação, chegando a ser usada como um hino anti-apartheid na África do Sul, em uma época em que o líder Nelson Mandela ainda era mantido prisioneiro do regime.

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             O legado artístico de Freddie é perpetuado até hoje em várias mídias. A icônica “We are the Champions” de 1977 é tocada em “Coração de Cavaleiro” (2001) além do episódio “The Bat Jar Conjecture” de “The Big Bang Theory”, uma das séries de Tv mais populares na TV. “Radio Ga Ga” está no vídeo game “Grand Theft Auto V”, “Under Pressure” , gravado junto com David Bowie, está em “Doze é Demais 2” (2005) e na animação “Happy Feet 2” (2001), “The Show Must Go On” em “Moulin Rouge – Amor em Vermelho” (2001), além de outras, é claro, o embalo marcante da icônica “Bohemian Rhapsody” , gravada em agosto de 1975, marcou um grupo de nerds balançando a cabeça dentro de um carro em “Quanto Mais Idiota Melhor” com Mike Myers e Dana Carvey.

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          Games, series, filmes, clips, sua voz está presente em várias áreas e a chegada do filme estrelado por Rami Malek certifica que novas gerações venham a sentir a vibração desse artista, mesmo passados mais de 20 anos de sua passagem. Quem quer viver para sempre é a pergunta de um dos sucessos da banda, mas poderia muito bem servir de irônico epitáfio pois é inegável que tanto talento não poderia ser outro coisa além de um tipo de mágica revivida nos espaços midiáticos de ontem e hoje.