IAN FLEMING – O ESPIÃO QUE TODOS AMAM

Ian Fleming

Ian Fleming

Fleming, Ian Lancaster Fleming nasceu em Londres, em 28 de Maio de 1908, o segundo filho , dos quatro, do Major Valentine Fleming,  seguiu uma educação conservadora, tendo estudado no Eton College, tradicional escola britânica, onde também estudaram os príncipes William e Harry, atuais herdeiros da coroa britânica. Depois de Eton, Ian entrou para a Real Academia Militar de Sandhurst, mas, contrariando a vontade da mãe, não seguiu a carreira militar e deixou Sandhurst para estudar idiomas na Suíça, aprendendo a falar, fluentemente, o Francês, o Alemão e o Russo, o que foi fundamental mais tarde para os passos que daria até chegar ao seu sucesso editorial. Fleming viveu – ele próprio – as intrigas do período da guerra fria, já que trabalhou para o Serviço de Informações da Marinha Britânica, durante a Segunda Guerra, onde empregou sua incrível habilidade com idiomas. Fleming chegou a alcançar a patente de Capitão-de-Fragata (Commander). Fleming também foi jornalista, tendo trabalhado na agência Reuters, por três anos, e, depois da guerra, chegou à editoria internacional da Kemsley Newspapers, dos mesmos donos do Sunday Times.

Albert Broccoli, Ian Fleming, Sean Connery e Harry Staltzman (Da direita para a esquerda)

Albert Broccoli, Ian Fleming, Sean Connery e Harry Staltzman (Da direita para a esquerda)

Casou-se, em 1952, com Anne Rothermere e, nesse mesmo ano, tiveram seu único filho, Caspar. Nessa ocasião, já com residência fixada na Jamaica, escreveu a primeira aventura de James Bond, em um período de dois meses. Reza a lenda que Fleming teria batizado seu super agente com o nome de um ornitólogo, cujo livro (Birds of the West Indies), favorito de sua  esposa, era mantido na cabeceira da mesma. Contudo, “Dr. No” não foi o primeiro romance do super espião. Bond nasceu nas páginas de “Cassino Royale”, que veio a ser publicado em 1953 e foi o único livro da série não adquirido pelos produtores Harry Saltzman e Albert Broccoli. Este livro,  que teve uma tiragem inicial de 4 mil exemplares, surpreendeu o editor Jonathan Cape quando, em um ano, alcançou a marca de 10 mil exemplares vendidos, levando –é claro- Fleming a escrever outros romances. Fleming, também, escreveu o livro infantil “Chitty Chitty Bang Bang”, dedicado ao seu filho, e que foi adaptado para o cinema em 1968 (O Calhambeque Mágico), com Dick Van Dyke, Sally Ann Howes e Gert Frobe (o intérprete do vilão Auric Goldfinger, da 7ª história de Bond). Lamentavelmente, o filho de Ian Fleming morreria, em 1974, de uma overdose de drogas.

Sean Connery, Luciana Paluzzi e Adolfo Celi.

Sean Connery, Luciana Paluzzi e Adolfo Celi.

Os fãs mais novos de 007 talvez não saibam mas o novo filme do agente secreto (o 24º da série) coroa a volta de elementos literários que eram proibidos aos filmes. Tudo começou em 1959 quando o produtor Kevin McClory propôs uma história original para um filme de James Bond e que se chamaria “James Bond, Secret Agent” com Richard Burton no papel de 007. Um roteiro foi escrito por McClory, Jack Whittingham em conjunto com Fleming, e uma das ideias era que Bond deveria deixar de lado a SMERSH, a agência de contra-espionagem soviética (que aliás era baseada em uma agência real homônima), de forma a desvincular 007 da guerra-fria. McClory e Whittigham pensaram em uma organização apolítica, sem ligação direta com a antiga União Soviética, o que ampliaria o campo de ação das tramas. Assim nasceu a SPECTRE, como um adversário mais genérico em sua natureza, podendo se ajustar em qualquer contexto político global, mas com potencial destrutivo imenso. Seu líder seria o megalomaníaco Ernest Stravos Brofeld, criado para ser o nêmesis de Bond tal qual o professor Moriarty para Sherlock Holmes. Fleming aceitou a colaboração de McClory e Whittingham e interagiu com ambos durante um bom tempo, mas acabou mudando de ideia, assinando com Harry Saltzman e Albert Broccoli para a adaptação de todos os livros escritos por Fleming, deixando de fora do contrato apenas “Cassino Royale”, justamente o primeiro livro escrito por Fleming, e que havia sido adaptado para a Tv britânica em 1954 com Barry Nelson como 007 e Peter Lorre como o vilão Le Chiffre, um operativo da SMERSH.

Telly Savalas, uma das faces de Brofeld

Telly Savalas, uma das faces de Brofeld

Broccoli julgava a história meio parada, sem ação e por isso a ignorou, buscando no 5º livro escrito por Fleming, “Dr.No”, a história para a estreia cinematográfica de 007, ignorando também que o livro fazia menção a eventos ocorridos nos livros anteriores. A estreia de 007 nos cinemas aconteceu em Outubro de 1962 no Reino Unido e, somente sete meses depois nos Estados Unidos. No ano anterior, Fleming, contudo, utilizou as ideias de McClory (a organização SPECTRE substituindo os vilões comunistas e o vilão Brofeld, que foi batizado por Fleming com o sobrenome do pai de um amigo dos tempos de colégio etc…) para a história que passou a se chamar “Thunderball” e que publicou sem dar crédito a McClory e Whittingham.

Sean Connery em "Nunca Mais Outra Vez"

Sean Connery em “Nunca Mais Outra Vez”

A SPECTRE demonstrou-se tão funcional dentro das aventuras de 007 que os filmes de Broccoli passaram a mencioná-la em substituição a SMERSH, mas Brofeld nunca aparece completamente nos filmes, ficando como um manipulador de todos os eventos. Para os fans ele era apenas um vulto com um gato persa no colo (satirizado décadas mais tarde por Mike Myers e seu Dr.Evil) que era feito nos primeiros filmes por Anthony Dawson até que Donald Pleasance, Telly Savalas e Charles Grey vivessem o personagem respectivamente no 5º, 6º e 7º filme da série.

O sucesso de vendas do livro “Thunderball”, com uma tiragem de mais de 50 mil exemplares,  levou Broccoli a adaptá-lo como o quarto filme da série. No Brasil, o livro foi inicialmente batizado de “Operação Relâmpago” e editado pela Civilização Brasileira ainda em 1961, sendo rebatizado a partir de 1965 de “Chantagem Atômica” assim como o filme dirigido por Guy Hamilton. O filme deixaria de fora o passado de Brofeld, explicado no livro e troca o nome de uma das principais assassinas sob suas ordens, Fatima Blush, que no filme tornou-se Fiona, interpretado pela atriz Luciana Paluzzi. Dois anos antes da estreia do filme, um acordo feito fora dos tribunais deu a Fleming os direitos sobre o livro e a McClory o crédito de produtor ( no lugar de Broccoli & Saltzman) e escritor do texto original, além do direito de refilmar a história depois de um período de 10 anos.

Fleming voltou a citar a SPECTRE nos livros escritos na sequência : “O Espião que me Amava” (1962), “A Serviço de Sua Majestade” (1963), e “A Morte no Japão” (You Only Live Twice), mas a saúde do autor havia debilitado muito e o processo judicial movido por McClory lhe garantiu uma indenização de 50 mil libras de indenização. Para Fleming, o desgaste emocional da peleja legal contribuiu para o ataque cardíaco fatal que sofrera em 12 de Agosto de 1964.

James Bond livros

As adaptações de seus livros se seguiram, mas a relação entre McClory e a EON Productions de Albert Broccoli se deteriorou ainda mais com o primeiro vetando qualquer menção a SPECTRE e Brofeld nos filmes que se seguiram após “007 Os Diamantes São Eternos” (Diamonds are Forever)   de 1970, onde Brofeld foi interpretado por Charles Grey. Broccoli, por sua vez, usou de todos os recursos a sua disposição para impugnar os direitos de refilmagem de “Thunderball” concedidos a McClory. Em 1981, como uma resposta a McClory de que 007 era maior que sua contribuição, Broccoli produz “007 Somente Para seus Olhos” (For Your Eyes Only”) onde Bond (Roger Moore) mata Brofeld, sem que seu nome seja mencionado e sem que seu rosto seja visto.

O novo filme: A volta da Spectre

O novo filme: A volta da Spectre

McClory eventualmente conseguiu fazer sua refilmagem em 1984, se associando ao produtor Jack Schwartzman e rebatizando o filme de “Nunca Mais Outra Vez” (Never Say Never Again) trazendo Sean Connery de volta ao personagem e justificando o título escolhido (Connery havia prometido antes nunca mais interpretar Bond) depois que Broccoli conseguiu proibir judicialmente que McClory usasse o nome “James Bond” ou o código famoso 007 no nome de sua versão. Também não poderia usar a célebre sequência em que Bond atira na direção da câmera, nem usar o clássico tema musical de Monty Norman e John Barry. Curiosamente, a EON pictures lançou pouco antes de MacClory seu filme tido como oficial “007 Contra Octopussy” (Octopussy) com Roger Moore que se saiu melhor na bilheteria que a refilmagem de MacClory. Depois de anos sem ouvir falar da SPECTRE ou Brofeld novamente em qualquer filme, todos os fans foram pegos de surpresa quando foi anunciado o nome do novo filme com Daniel Craig, uma vez que MacClory já havia falecido, permitindo a EON Pictures negociar com os herdeiros dele a utilização desses elementos que comprovam a ideia inicial de que Bond deveria estar acima da guerra fria, livre das amarras da contextualização em que foi inicialmente criado, mas ainda a serviço do equilíbrio de forças em um mundo em que, mais de 50 anos depois de sua criação, ainda precisa de 007 para lutar contra as forças do mal.