BICENTENARIO DE FRANKENSTEIN

       IMPACTO INDELÉVEL DA OBRA DE MARY SHELLEY NAS MIDIAS E NA ARTE.

  Algumas obras literárias ultrapassam todas as barreiras de espaço e tempo além de inspirar um misto de horror e fascínio no imaginário popular. Uma autora grafou seu nome na eternidade com a mesma ousadia do personagem cujo nome ostenta o título de um dos maiores clássicos da literatura que, duzentos anos depois de sua publicação, ainda nos assombra. A criatura … Frankenstein, a criadora… Mary Shelley… este legado é nosso.

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BORIS KARLOFF: A CARACTERIZAÇÃO DEFINITIVA

 

A CIÊNCIA FRANKENSTEINIANA

          A história nasceu em uma noite de tempestade, depois de uma sugestão do poeta britânico Lord Byron (1788 – 1824), que passava um final de semana junto com o casal Percy & Mary Shelley em uma casa em Genebra, Suiça. Byron sugeriu que cada um escrevesse um conto sobrenatural para passar o tempo. Na mente de Mary povoavam ideias sobre reanimação dos mortos, inflamadas por calorosas discussões ocorridas na casa em que morava com seu pai, William Goodwin, filósofo, escritor e jornalista, que constantemente se reunia com a nata da intelectualidade de sua época.

           Era maio de 1816, e o termo cientista ainda nem existia, quando Frankenstein nasceu na imaginação de Mary Shelley, que revisitou o mito grego de Pigmalião, o escultor que dá vida à estátua de uma bela mulher. Assim, Victor Frankenstein mostra um poder similar vindo de uma ciência hipotética, identificada com as teorias galvanistas que estudavam como uma corrente elétrica se propaga em um corpo. O próprio Dr. Luigi Galvani a chamava de “eletricidade animal” pois acreditava que esta viesse dos corpos. Em 1803, em Londres, Giovanni Aldini (sobrinho de Galvani) realizou experiência similar na prisão londrina de Newgate, com o corpo de George Foster, um notório criminoso que havia sido executado. Mais tarde Alessandro Volta empregou dois arcos de metal para gerar eletricidade e mostrou que o corpo era apenas um condutor e não o gerador da eletricidade.

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CHRISTOPHER LEE : FRANKENSTEIN PELA HAMMER FILMS

A FILOSOFIA DE FRANKENSTEIN

             Mary não entrou em detalhes e imbuiu sua narrativa de divagações filosóficas sobre a vida e a morte. A autora trabalha com o arquétipo do homem da ciência que questiona a natureza com seu intelecto desprovido do freio da moralidade. A história se tornou um precursor da literatura de ficção-científica, muitas décadas à frente de Jules Verne e H.G.Wells, os pais do gênero.

            A história de Mary recebeu o subtítulo “O Moderno Prometeu” , referência ao titã da mitologia grega que roubou o fogo de Héstia para dá-lo aos homens. Como punição Zeus o acorrentou ao cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma ave (águia em algumas versões e corvo em outras) devorava seu fígado, que se regenerava para no dia seguinte ser devorado novamente. Este foi o preço a pagar pela ousadia de ir além dos limites estabelecidos por forças superiores, e Frankenstein encarna esse papel, fascinado pela possibilidade de criar vida.

          Sua falta de um senso de responsabilidade segue o imperativo categórico kantiano. Victor age como se bastasse seu intelecto para justificar suas ações, e nesse sentido suas ações são coerentes com sua postura de que os fins justificam os meio, é sua forma de enxergar o mundo e a si próprio, mas ao perceber o que fez, abandona a criatura. Esta, sendo um ser deformado, desperta o medo e o ódio da sociedade. Nesse momento da história, Mary Shelley bebe da fonte de Jean Jacques Rousseau (1712 / 1778) , que diz que o homem nasce puro, mas é corrompido pela sociedade. O bom selvagem do filósofo francês habita grande parte da história de Mary Shelley sempre que a criatura sofre mal tratos dos homens, o desprezo de seu criador e a incompreensão de sua própria existência. Então, a criatura inominada busca sua vingança e metonimicamente chega mesmo a usurpar o nome de seu criador. Até hoje muitos pensam que o título da obra se refere ao monstro. Quando publicado originalmente o nome da autora foi suprimido, mas a mãe de “Frankenstein” se recusou a usar um pseudônimo masculino que facilitasse sua publicação. Somente na reedição de 1823 seu nome veio a ser creditado como a autora.

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ROBERT DE NIRO NA VERSÃO MAIS FIEL À OBRA DE SHELLEY

OS FOCOS NARRATIVOS

           A narrativa de Mary se divide em três pontos de vista que conduzem o leitor pela história: Começa com o Capitão Robert Walton que encontra Victor Frankenstein à deriva no Ártico, o acolhe e ouve sua história, relatando-a depois à sua irmã Margareth através de cartas. O foco muda da terceira para a primeira pessoa quando um Victor Frankenstein moribundo conta com suas próprias palavras os infortúnios sofridos nos levando de Geneva a Ingolstad na Alemanha a medida que revela sua profana experiência. Nova mudança ocorre quando Mary Shelley dá voz ao monstro, que conta o que se sucedeu desde o momento de seu “nascimento” no laboratório de Frankenstein, quando cria consciência de sua existência e em surpreendente auto-didatismo desenvolve linguagem observando uma família. A autora ainda faz uso da intertextualidade através de “Paradise Lost” de John Milton. Shelley possibilita assim que o leitor crie seu próprio julgamento a respeito dos papeis de criador e criatura, sobre quem é o verdadeiro monstro: o cientista egocêntrico que abandona a sua criação, a sociedade que rejeita o monstro como algo diferente,  ou a criatura abandonada e rejeitada.

             A mesma essência é mais tarde retomada em obras de outros autores que fizeram da obra de Shelley  fonte de inspiração e referência como os replicantes de Phillip K.Dick em “Do the Androids dream of electronic sheep?”, obra que inspirou o filme “Blade Runner”, o protagonista de “Edward Mãos de Tesoura” de Tim Burton, entre outras que exploraram o tema tão recorrente na vida real através da engenharia genética, da clonagem, do emprego das células tronco, do desenvolvimento de inteligência artificial, entre outros avanços discutidos na atualidade sob a luz da ética.

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FRANKENSTEIN NOS QUADRINHOS

AS ADAPTAÇÕES

                A ficção de Shelley foi levado ao cinema ainda no período do cinema mudo, em 1910, produzida pela produtora de Thomas Edison (o inventor da lâmpada), dirigida por J.Searle Dawley e com o ator Charles Ogle no papel do monstro. O filme de 16 minutos é uma raridade que ficou perdida por muito tempo até que uma cópia foi encontrada em Wiscosin em meados da década de 70. A criação do monstro é mostrada de forma atípica: Produtos químicos e poções são misturados para seu nascimento, lembrando que na época em que Mary Shelley escreveu o livro houve avanço notável na química, que foi alçado a um posto de ciência sem nenhuma ligação com a alquimia ou a própria medicina graças ao tratado de Lavosier no final do século XVIII. No filme, o efeito de criação do monstro foi conseguido queimando um boneco e rolando o filme de trás para a frente. Mais curioso ainda é o fim do monstro, que simplesmente desaparece no ar!!

               O choque elétrico gerado por uma noite de tempestade foi liberdade poética tomada pela sua adaptação cinematográfica mais famosa, de 193, estrelada por Boris Karloff. Como a descrição física da criatura é vaga no livro,  coube ao maquiador Jack Perkins elaborar o visual que se fixou no imaginário popular: Corpo descomunal e desajeitado, cabeça achatada com cicatriz enorme na testa, eletrodos nas laterais do pescoço e botas pesadas retardando os movimentos. Outra diferença entre o livro e os filmes, em geral, é que a criatura literária é inteligente e articula bem as palavras, enquanto que o cinema costuma retratá-la como um ser privado de raciocínio, reagindo apenas instintivamente. Karloff interpretou o monstro três vezes.

            No final da década de 50, a produtora inglesa Hammer Films ressucitou o monstro em um ciclo de filmes com Peter Cushing no papel de Victor Frankenstein e, inicialmente com Christopher Lee como o monstro em “A Maldição de Frankenstein” (The Curse of Frankenstein) em 1957. A melhor versão da obra de Shelley, contudo, embora muito subestimada, é “Frankenstein de Mary Shelley” (Mary Shelley’s Frankenstein) de 1995 com Robert De Niro como o monstro e Kenneth Branagah como Victor Frankenstein. O filme foi a primeira adaptação a procurar respeitar a obra original. O filme foi produzido por Francis Ford Coppola, que a principio também o dirigiria assim como fizera poucos anos antes com “Dracula de Bram Stoker”. Branagah assumiu a direção, e foi duramente criticado pela sua pretensão.        Recentemente houve “Victor Frankenstein” que traz James McAvoy e Daniel Radcliff em uma releitura modernizada do livro. Entre 2015 e 2017 houve a série britânica “As Crônicas de Frankenstein” (The Frankenstein Chronicles) reimaginando a obra da autora, que ganhou nova roupagem também na série “Penny Dreadul” (2014 a 2016), na animações “Hotel Transilvania” de 2012 e, “Frankweenie” (2012) de Tim Burton.

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A VERSÃO DE 1910 RECENTEMENTE RESTAURADA

          Tantas adaptações e readaptações mostram que a riqueza da obra continua a refletir  nossos medos como naquela noite de tempestade em Genebra, o sonho de vencer a lei natural tomando para si o poder da vida e a morte, o que nas palavras de sua autora vão além de qualquer limite vivo, ainda vivo !!!

UNIVERSO DE MONSTROS 2: AS MUMIAS -DE KARLOFF A BOUTELLA

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BORIS KARLOFF – 1932

         A cultura egípcia sempre alimentou a curiosidade  de historiadores e arqueólogos na mesma medida que estimulou a imaginação humana acerca de maldições milenares que caem sobre os profanadores de túmulos, o que o cinema logo tratou de se apropriar. Quando Boris Karloff  (1887 – 1969) interpretou o sumo-sacerdote Imhotep no clássico “A Mumia” (1932), haviam passado dez anos desde que os arqueólogos Howard Carter e Lord Carnarvon haviam descoberto a tumba do rei Tutancâmon.

            O roteirista John L.Balderston, a partir da história de Nina Putnam e Richard Schayer, criou um sub-gênero que seria explorado com sucesso pela Universal, o estúdio de Carl Laemmle Jr que alcançara anos antes sucesso com as adaptações literárias de “Dracula” e “Frankenstein” (1931). A política de Laemmle era custo baixo, muita sugestão para despertar sustos. Em “A Mumia” (The Mummy), o diretor Karl Freund, que fora fotografo em clássicos como “Metropolis” (1922) e “Dracula” (1931), usa e abusa das técnicas expressionistas das quais era um mestre. A maquiagem de Jack Pierce (também vindo de “Frankenstein”) demorava cerca de oito horas para transformar Karloff em uma múmia desperta pelas palavras mágicas do livro dos mortos. Contudo, em seu despertar, pouco é mostrado e em um salto no tempo Karloff surge como Ardath Bay, manipulando a descoberta do túmulo de sua amada Aucksonamon. Karloff pouco fala, mas seu olhar ameaçador assusta ainda mais. O nome de Imhotep foi tirado do arquiteto que criou as pirâmides, e muito longe de ser um sacerdote amaldiçoado, gozava de prestígio abaixo apenas dos faraós.

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CHRISTOPHER LEE EM “A MUMIA DE ANANKA”

             Oito anos depois a Universal decidiu fazer outro filme, mas Karloff não retorna como Imhotep. Assim, o estúdio faz a primeira de várias reinvenções da história, trocando Imhotep por Kharis, a múmia guardiã da princesa Ananka em “A Mão da Múmia” (The Mummy’s Hand). Jack Pierce volta como maquiador transformando Tom Tyler (ator de antigos westerns e serials) na nova criatura egipicia. Nesta nova série, a múmia ganha como algoz a figura do arqueólogo John Banning que antagonizará o mal representado por Kharis. A este se seguiram mais três filmes “A Tumba da Mumia” (The Mummy’s Tomb) de 1942,”A Sombra da Mumia” (The Mummy’s Ghost) de 1944 e , no mesmo ano que este, “The Mummy’s Curse”, todos com a múmia sendo interpretado por Lon Chaney Jr, que tornou-se o único ator a ter já interpretado todos os monstros clássicos da Universal : O Lobisomem (1941), o monstro de Frankentein (The Ghost of Frankenstein) e Dracula (The Son of Dracula) de 1943. A máscara usada pelo ator é exibida até hoje na exposição de terror do Museu em Seattle.

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VALERIE LEON EM “SANGUE NO SACORFAGO DA MUMIA”

            Apesar da comédia “Abbot & Costello meets the Mummy” de 1955, o público foi perdendo  interesse  no monstro, a medida que os estúdios entraram os anos 50 explorando discos voadores e monstros do espaço. Coube à produtora inglesa Hammer Films trazer de volta o personagem em “A Mumia de Ananka” (The Mummy) de 1959 com Christopher Lee no papel de Kharis. As cores e a presença magnética de Christopher Lee garantiram o êxito dessa retomada inglesa realizada em acordo com a Universal International. Na década de 60 ainda teríamos “A Maldição da Mumia” (The Curse of the Mummy’s Tomb) de 1964, “A Mortalha da Mumia” (The Mummy’s Shroud) de 1967 e “Sangue no Sacorfago da Mumia” (Blood from the Mummy’s Tomb) de 1970, este último adaptado de “The Jewel of the Seven Stars”, de Bram Stoker, com a beldade Valerie Leon no papel de uma rainha egícpica do mal possuindo o corpo (e que corpo) da filha do arqueólogo. Todos esses filmes foram constantemente exibidos na TV brasileira durante as décadas de 70 e 80 perpetuando a atmosfera B dos filmes da Hammer. Na década de 80 tivemos nossa múmia brasileira no terrir “O Segredo da Mumia”, de Ivan Cardoso (1982) que deu a Wilson Grey, ator típico das chanchadas da Atlântida, seu primeiro papel de protagonista depois de décadas de contribuição ao cinema brasileiro.

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IMHOTEP (ARNOLD VOSLOO EM “A MUMIA”) DE 1999

                Quando a Universal decidiu refilmar “A Mumia” em 1999 sabia-se que o público não iria mais se assustar com um monstro enrolado em ataduras, andando devagar atrás das pessoas. Assim, o diretor Stephen Sommers transformou a história de Imhotep em uma aventura movimentada como Indiana Jones. O sucesso, que teve Brendan Fraser, Rachel Weisz e Arnold Vosloo como Imhotep, levou em pouco tempo à sequencia “O Retorno da Mumia” (The Mummy Returns) de 2001 que, alguns não lembram foi o debut cinematográfico do hoje astro Dwayne Johnson, este no papel do escorpião rei. Ainda houve o tardio “A Mumia: A Tumba do Imperador Dragao” (2008), muito fraco e já sem nenhum atrativo para manter o interesse do público com uma incursão pela China (lembrando que os chineses não mumificavam seus mortos). Mesmo com a inclusão do popular astro de artes marciais Jet Li, o filme deixa a desejar.

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SOFIA BOUTELLA

            A nova versão do monstro com Sofia Boutella e Tom Cruise mostra que o antigo Egito continuará a assombrar as telas com suas maldições, mas muito longe de chegar perto da inocente medo que figuras como Karloff, Chaney e Lee conseguiram imprimir na memória do cinema, em preto em branco ou em cores, mas empoeirado com milênios de tradição do que já foi o horror nas telas.

UNIVERSO DE MONSTROS

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         Quando Criança meu universo compartilhado de monstros era assistir a sitcom “The Munsters” (1964-1966) que trazia Fred Gwynne e Yvonne DeCarlo como um simpático casal, ele a criatura de Frankenstein e ela uma vampira, filha do próprio Drácula, um vovô bonachão, interpretado por Al Lewis. Tempos mais inocentes quando os monstros clássicos dos filmes de terror já não assustavam tanto. Nos primórdios do cinema, no entanto, a casa destes era o estúdio da Universal que tornou-se especialista em dar forma aos pesadelos do inconsciente humano.

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FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEN

            A frase “Bem vindo a um mundo novo de deuses e monstros” que agora anuncia a chegada do “Dark Universe” do estúdio na verdade é uma retomada pois o estúdio, na ativa desde a era do cinema mudo, já investira no passado na ideia de um universo compartilhado. Nomes como Lon Chaney (pai e filho), Boris Karloff e Bela Lugosi formavam um elenco talentoso na arte de explorar o medo, mais sugerido que explicito. Entre 1923, data da primeira filmagem de “O Corcunda de Notre Dame” com Lon Chaney até o final da década de 50, o Universal Studios chefiada por Carl Laemmle soube se especializar em filmes de custo baixo mas que davam grande retorno de bilheteria durante os loucos anos vinte (os chamados roaring twenties) criando uma reputação que continuou a explorara em meio aos difíceis anos da grande depressão que se seguiu. A Universal foi o primeiro estúdio a investir em sequências, muitas das vezes reaproveitando cenários, tomadas e falas, se beneficiando do talento desses atores, diretores como Tod Browning e James Whale e da habilidade do maquiador Jack Pierce para moldar personagens saídos dos pesadelos mais sombrios. A Universal deu vida a Drácula, Frankenstein, lobisomem, múmia e várias outras criaturas que se popularizaram com um público que encontrava deleite nas sombras da alma humana representadas em preto e branco, herdeiros das lições do expressionismo cultivadas por Murnau e Lang.

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A CASA DE FRANKENSTEIN

          A ideia de juntar mais de um monstro em um único filme surgiu quando, depois de 4 filmes de Frankenstein (os três primeiros com a criatura interpretada por Boris Karloff) o roteirista Curt Siodmark sugeriu ao produtor  George Wagner que fizessem “Frankenstein meets the Wolfman”, recebendo sinal verde para o projeto que veio a ser dirigido por Roy William Neill e lançado em 1943. O filme mostra Larry Talbot (Lon Chaney Jr) procurando uma cura para sua maldição e se confrontando a criatura de Frankenstein interpretada por Bela Lugosi, que fica em cena apenas por pouco mais de cinco minutos sendo ocasionalmente substituido por um dublê devido a problemas de saúde. O filme funcionou como uma sequência tanto para os eventos mostrados em “O Lobisomen” de 1941 como em “A Alma de Frankenstein” (The Ghost of Frankenstein) de 1942. Para atrair o público, o estúdio anunciou o nome de Lon Chaney, sem o Jr, para confundir a todos já que o nome de Lon Chaney pai (falecido em 1930) ainda era então extremamente conhecido. A ideia inicial era de ter Chaney filho fazendo tanto o papel do lobisomen como do monstro de Frankenstein, mas deixada de lado já que falamos de décadas anteriores à tecnologia digital. O resultado satisfatório animou a Universal a reunir mais monstros, o que levou à realização de “A Casa de Frankenstein” (The House of Frankenstein) de 1944. Neste novo exemplar, Boris Karloff retorna ao universo de monstros mas como o cientista louco que manipula Dracula (John Carradini), o monstro de Frankenstein (o ex cowboy Glenn Strange) e o Lobisomen (Chaney Jr) para se livrar de seus desafetos. Originalmente, a múmia Kharis seria incluída no filme, mas por motivos de orçamento ficou de fora. Mesmo as cenas com Drácula acabaram sendo filmadas em separado sem que este contracenasse com o lobisomen de Chaney e o Frankenstein de Strange. O filme ainda incluiria a figura do corcunda apaixonado (J.Carrol Nash) por uma dançarina cigana (Elena Verdugo) emulando a narrativa de “O Corcunda de Notre Dame”, embora não sejam os mesmos personagens. A Segunda Guerra se aproximava de seu fim, mas o público vivia a incerteza desta e de suas consequências. O ciclo da Universal oferecia a catarse ideal para esse medo real, palpável e o estúdio soube como tirar proveito disso levando a “A Casa de Drácula” (The House of Dracula) de 1945 reunindo esse “Nightmare Team” uma última vez, desta vez sem Karloff que teve o personagem substituído por outro cientista, o Dr.Edelmann (Onslow Stevens) a quem Drácula e Larry Talbolt procuram em busca de uma cura. O filme incluiu uma novidade na figura de uma mulher corcunda, Nina (Jane Addams). O filme também marcou a última aparição de Lon Chaney Jr sob contrato com a Universal, embora o ator tenha voltado ao papel mas na comedia “Abbot & Costello Meet Frankenstein” (1948) que reuniria além do próprio Bela Lugosi como Dracula e Glenn Morgan como Frankenstein.

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A CASA DE DRÁCULA

         Quando a década de 50 chegou o interesse dos estúdios passou a ser filmes de monstros do espaço e discos voadores, o que deixou os monstros clássicos de lado mas não esquecidos graças à iniciativa da Universal de levá-los para a Tv como um pacote de filmes  que foi apresentado a uma nova geração de jovens que redescobriu os mestres do pavor sobrenatural. Provando que estes sempre renascem, o estúdio promete novas versões em filmes interligados, reintroduzindo o conceito para uma geração acostumada a jogos de vídeo game e filmes de super heróis. Como promete o slogan, um mundo – não tão novo assim – de deuses, monstros e efeitos digitais modernos.

BEST – SELLERS : VICTOR FRANKENSTEIN : O PROMETEU DE MARY SHELLY REVISITADO

Karloff moves.gif             Uma das obras mais revistas, constantemente adaptadas e readaptadas para diversas  mídias, foi escrita em circunstâncias inusitadas : No verão de 1816, Mary Shelley viajou para o campo com seu marido, o poeta Percy Shelley, e Lord Byron, amigo do casal. Isolados do mundo externo devido a chuva, o trio combinou que cada um escreveria um conto de terror. Assim nasceu a história de “Frankenstein”, que encorajado por Percy, foi de um conto a um romance que viria a ser publicado em 1818.

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FRANKESTEIN DE 1910

A ficção de Shelley sobre um cientista que arrogantemente se coloca como Deus ao recriar a vida possui contornos filosóficos que extrapolam os limites físicos de suas páginas. No romance, Shelley não é detalhista com a criação do monstro, lembrando que a ciência rudimentar do século XIX não trazia elementos suficientes para embasar a reanimação de um corpo. O choque elétrico gerado por uma noite de tempestade foi liberdade poética tomada pela adaptação cinematográfica. Mesmo a descrição física da criatura é vaga no livro e coube ao maquiador Jack Perkins elaborar o visual que se fixou no imaginário popular: Corpo descomunal e desajeitado, cabeça achatada com cicatriz enorme na testa, eletrodos nas laterais do pescoço e botas pesadas retardando os movimentos. Outra diferença entre o livro e os filmes, em geral, é que a criatura literária é inteligente e articula bem as palavras, enquanto que o cinema costuma retratá-la como um ser privado de raciocínio, reagindo apenas instintivamente. De qualquer forma, a essência do personagem do monstro é fundamentada na ideia do bom selvagem conforme escrito pelo filósofo francês Jean Jacques Rosseau. A criatura não “nasce” má, mas a hostilidade da sociedade direciona suas reações em vingança e retaliação, principalmente depois de ser rejeitada pelo próprio criador. Tais questões sempre ficaram em segundo plano nas adaptações em favor da criação de uma dimensão de terror e morbidez. As sub-leituras, no entanto, resistem e perduram, razão pela qual a obra de Shelley já foi tantas vezes levada para outras mídias, principalmente depois de ter caído em domínio público. Mais ainda interessante é que a obra de Mary Shelley ganhou na posteridade um status metonímico já que, apesar de Frankenstein ser o sobrenome do cientista criador, ficou associado eternamente ao monstro, este nunca nomeado pela autora. No livro o cientista se chama Victor e não Henry Frankenstein como retartado no filme de James Whale.

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BORIS KARLOFF

AS ADAPTAÇÕES.

A primeira adaptação de “Frankenstein” para o cinema ocorreu ainda no período do cinema mudo, em 1910, produzida pela produtora de Thomas Edison (o inventor da lâmpada), dirigida por J.Searle Dawley e com o ator Charles Ogle no papel do monstro. O filme de 16 minutos é uma raridade que ficou perdida por muito tempo até que uma cópia foi encontrada em Wiscosin em meados da década de 70. A criação do monstro é mostrada de forma atípica: Produtos químicos e poções são misturados para seu nascimento. O efeito foi conseguido queimando um boneco e rolando o filme de trás para a frente. Mais curioso ainda é o fim do monstro, que simplesmente desaparece no ar!! Cinco anos depois, a obra foi disfarçadamente adaptada em “Life without a soul” de Joseph W. Smiley como forma de burlar os direitos autorais, assim como F.W.Murnau fez com seu “Nosferatu”, adaptação de “Drácula”. A criatura foi uma elogiosa atuação do hoje desconhecido Percy Darrel Standing. Ainda houve no período uma versão em italiano em 1920 chamada “IL Monstro di Frankenstein”. A versão mais prestigiada da obra de Shelley foi realizada pela “Universal”, um estúdio menor na época que havia conseguido grande sucesso com o “Drácula” de Bela Lugosi. Um roteiro preliminar foi planejado para ser dirigido por Robert Florey (Os Assassinos da Rua Morgue) e repetindo Bela Lugosi no papel do monstro, e com roteiro supostamente fiel ao livro. O projeto foi cancelado em favor de uma versão embebida de atmosfera expressionista e conduzida tal qual um pesadelo com direção de James Whale e com Boris Karloff (então um ator de segundo escalão) como o monstro. Na época de sua realização a censura Hollywoodiana caiu pesado em cima do filme de Whale, que chegou aos cinemas com cortes. Sequências como a morte da menina Maria no lago e a morte do irmão de Victor Frankenstein foram retiradas da cópia comercializada e somente muito tempo depois restauradas ao filme de Whale. A reação do público ainda assim foi bastante forte à história de Mary Shelley. Como Whale não aproveitou muitos elementos do livro original, a história tomou um novo rumo quando Whale foi chamado pela Universal para dirigir “A Noiva de Frankenstein” (The Bride of Frankenstein) em 1935. O resultado foi bem melhor e Karloff está mais a vontade no papel. O sucesso ainda gerou um terceiro título “O Filho de Frankenstein” (The Son Of Frankenstein) dirigido por Rowland V.Lee com Basil Rathbone no papel do filho do cientista e Bela Lugosi como Ygor, o pastor que usa a criatura como seu instrumento de vingança. A propósito, nunca existiu nas páginas escritas por Mary Shelley a figura de Ygor, o assistente corcunda do Dr.Frankenstein, popularizado em várias adaptações do livro. A Universal ainda realizaria “O Fantasma de Frankenstein” (The Ghost of Frankenstein) de 1941 com Lon Chaney Jr como o monstro, “Frankenstein Encontra o Lobisomem” (Frankenstein Meets The Wolf Man) de 1943 com Bela Lugosi no lugar de Karloff, “A Casa de Frankenstein” (The House of Frankenstein) de 1944, com o monstro interpretado por Glenn Strange e Boris Karloff aparecendo no papel do cientista. Ainda haveria em 1946 a parodia “Abbot & Costello Encontra Frankenstein” (Abbot & Costello Meet Frankenstein) novamente com Glenn Strange no papel da criatura.

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A NOIVA DE FRANKESTEIN (ELSA LANCHASTER & BORIS KARLOFF)

No final da década de 50, a produtora inglesa Hammer Films iniciou um ciclo de filmes ressucitando os monstros do gênero e começou com Peter Cushing no papel de Victor Frankenstein e Christopher Lee como o monstro em “A Maldição de Frankenstein” (The Curse of Frankenstein) em 1957. A adaptação continua a tomar liberdades com o livro de Shelley, mas a caracterização da criatura possui outro visual já que a maquiagem original usada por Karloff nos filmes da Universal era patenteada. Apesar das críticas de que o filme fosse muito violenta, a Hammer obteve grande sucesso de bilheteria, incentivando adaptações de Dracula, Lobisomem, Mumia e outros monstros. A obra de Shelley serviria ainda de fonte inspiradora para várias sequências : “A Vingança de Frankenstein” (The Revenge of Frankenstein) de 1958, “O Monstro de Frankenstein” (The Evil of Frankenstein) de 1958, “E Frankenstein Criou a Mulher” (And Frankenstein Created the Woman) de 1966, “Frankenstein Tem de Ser Destruído” (Frankenstein Must Be Destroyed) de 1969 e “Frankenstein & O Monstro do Inferno” (Frankenstein & The Monster From Hell) de 1974. No mesmo ano em que a Hammer Films encerrou o ciclo, o comediante Mel Brooks dirigiu a melhor paródia do gênero com Gene Wilder fazendo um descendente de Victor Frankenstein que recria a criatura (Peter Boyle). O resultado foi “O Jovem Frankenstein” (Young Frankenstein), uma bela homenagem à versão de James Whale, incluindo utilizando o mesmo maquinário do filme de 1931 que Brooks conseguiu adquirir. Entre o final da década de 60 e a década seguinte, a obra de Shelley foi revivida constantemente na Tv seja pelo desenho da Hanna-Barbera “Frankenstein Jr” , um super herói ou como um simpático pai de família atrapalhado, rebatizado de Herman na sitcom “Os Monstros” (The Munsters), interpretado por Fred Gwynne.

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O MONSTRO DE ROBERT DE NIRO

MARY SHELLEY  NOS ANOS 80 & MAIS

O Brasil teve seu própria versão do monstro na forma de um divertido curta-metragem realizado em 1986 por Eliana Fonseca e Cao Hamburger: “Frankenstein Punk” recria em animação a experiência do cientista e o nascimento da criatura que termina saindo pelas ruas e … imitando Gene Kelly ao som de “Singin in the rain”. O curta foi exibido com sucesso em Gramado e no Festival do Rio em que venceu como melhor curta. A década de 80 ainda teve “A Prometida” (The Bride) de 1985 que trazia o cantor Sting como Victor Frankenstein que refilmava “A Noiva de Frankenstein”, trazendo Jennifer Beals (de “Flashdance”) como a noiva. A melhor versão da obra de Shelley, contudo, embora muito subestimada, é “Frankenstein de Mary Shelley” (Mary Shelley’s Frankenstein) de 1995 com Robert De Niro como o monstro e Kenneth Branagah como Victor Frankenstein. O filme foi a primeira adaptação a respeitar a obra original, incluindo, deixando que a narrativa siga desde o começo em flashback com Victor contando sua profana experiência e suas consequências para o capitão de um barco no ártico, para onde Victor perseguira a criatura para destruí-la. O filme foi produzido por Francis Ford Coppola, que a principio também o dirigiria assim como fizera poucos anos antes com “Dracula de Bram Stoker”. Brannagah assumiu a direção e foi duramente criticado como pretensioso, uma avaliação no mínimo equivocada já que manipular o mecanismo da vida e da morte torna seu personagem pretensioso e arrogante ao extremo e Brannagah conseguiu transmitir adequadamente todas as implicações sugeridas no romance original. Ainda tivemos “Frankenstein O  Monstro das Trevas” (Frankensteion Unbound) de Roger Corman, que mistura viagem no tempo à clássica história.

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A VERSÃO DA HAMMER COM CHRISTOPHER LEE

Recentemente teve o péssimo “Frankenstein Entre Anjos E Demônios” (I Frankenstein) com Aaron Eckhart no papel do monstro em um filme que abusa da liberdade poética colocando a criatura de Mary Shelley em um cenário pós apocalíptico no meio de uma guerra entre duas facções de imortais. Finalmente chegamos a nova versão “Victor Frankenstein” que traz James McAvoy e Daniel Radcliff em uma releitura modernizada do livro. A própria Universal já anunciou para breve que refilmará também a história como parte de um universo compartilhado entre vários monstros do gênero. Não fica dúvida que o delírio do cientista no filme de James Whale ainda é relevante; “IT’S ALIVE !”. A obra de Mary Shelley ainda vive.