CAÇADORES DOS CLÁSSICOS PERDIDOS: O FINO DA VIGARICE

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             Há filmes que merecem o status de clássico mas que são menos badalados seja pelos críticos ou pelo grande público que desconhece sua existência, principalmente aqui no Brasil, que reprisam exaustivamente alguns filmes em detrimento de outros que não alcançam o mesmo espaço na Tv ou nos lançamentos de home vídeo (dvd, blu ray), desprezados até mesmo pelas plataformas de streaming como Netflix. Em resumo, há verdadeiras pérolas ignoradas por todos mas que ainda possuem seus fãs, aqueles com boa memória, cinéfilos de carteirinha assinada que chamo pelo título da coluna que agora inicio no blog. Periodicamente estarei revendo alguns desses tesouros e trazendo para cá sua lembrança e para começar um exemplar de humor raro nas produções atuais, “O Fino da Vigarice”.

FINO DA VIGARICE

        Foi o primeiro roteiro escrito pelo dramaturgo Neil Simon (O Estranho Casal, Descalços no Parque) que serviu de veículo para a versatilidade insana de Peter Sellers (1925/1980), na época já célebre por suas atuações em filmes como “A Pantera Cor de Rosa” (Pink Panther) de 1963 e “Dr.Fantástico” (Dr.Strangelove) de 1964. O diretor italiano Vittorio De Sica (1901/1974) se interessou pelo projeto que enxergou como um veículo para fazer uma crítica social, lembrando que foi ele um dos que deram o pontapé inicial para o Neo-realismo em 1949 com “Ladrões de Bicicleta” ( Ladri di Biciclette) e pelo qual ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro.

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        A história é sobre Aldo Vanucci, vulgo “A Raposa”, um notório ladrão internacional e mestre nos disfarçes, desafiado a roubar uma grande remessa de ouro que atravessa uma pequena cidade italiana. Para alcançar seu objetivo, Aldo se faz passar por um renomado diretor de cinema (parodiando Fellini) que chega a Sevalio, uma cidade pequena na costa, para rodar um filme, conseguindo atrair Tony Powell (Victor Mature), um famoso galã e até mesmo o apatetado chefe de polícia (Lando Buzzanca). A premissa do filme dentro do filme antecipa a missão diplomática disfarçada no Irã, que aconteceu nos anos 70 e gerou o filme “Argo” (2012).

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BRITT EKLAND & PETER SELLERS

        O papel de Aldo “Raposa” Vanucci caiu como uma luva no camaleônico Peter Sellers que também assumiu a função de co-produtor junto a John Bryan. O astro, no entanto, era uma pessoa muito difícil e coleciona-se histórias de bastidores em que Sellers simplesmente infernizava a vida dos diretores, e com De Sica não foi diferente. Curioso que foi o próprio Sellers quem trouxe o diretor italiano para o projeto, mas durante as filmagens fez de tudo para demiti-lo alegando “Ele pensa em italiano, e eu em inglês”. Também foi Sellers quem convenceu Victor Mature (1913/1999), que estava afastado das telas, a ficar com o papel de Tony Powell. O elenco ainda incluiu Britt Ekland, na época casada com Peter Sellers, como Gina, a irmã de Aldo, Lydia Brazzi, esposa do ator Rozanno Brazzi, como Mama Vanucci, Akim Tamiroff (1899 / 1972), ator de origem russa, como Okra – o chefão do crime, Martin Balsam como Harry – empresário de Tony e a voluptuosa Maria Grazia Bucella, ex miss Italia, como uma das meninas de Okra. O diretor, que enxergava na história uma crítica de como a ambição corrompe a arte,  faz uma aparição no filme rodando uma produção bíblica de onde Aldo rouba os equipamentos de filmagem.

                        O clima de pilantragem do filme seria um mote bem explorado em outras produções de sucesso como “Golpe de Mestre” (The Sting) de 1973 e “Os Safados” (Dirty, Rotten, Scondrels) de 1988. “O Fino da Vigarice”, no entanto, é divertido mas irregular em sua narrativa, resultado dos cortes que desagradaram o roteirista. O montador de confiança do diretor não entendeu o humor do texto de Simon e isso é visível a medida que se aproxima o desfecho e o golpe é descoberto. De acordo com o site imdb, mesmo quando o filme foi remontado a pedido de Simon, por Russell Lloyd – montador de John Houston, várias sequências haviam se perdido como Sellers personificando os Beatles.

           Uma das últimas vezes que lembro do filme ter sido exibido na Tv brasileira foi no Corujão da Rede Globo no inicio dos anos 90, quando o impagável Sellers, embalado pela trilha sonora de Hal David e Burt Bacharach, divertiu mais uma vez os cinéfilos que tentaram pegar aquela raposa.

BOND 9 – 007 CONTRA O HOMEM DA PISTOLA DE OURO

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O 9º filme da série 007 é o 13º livro escrito por Ian Fleming, publicado postumamente já que o autor falecera em Agosto de 1964, oito meses antes do lançamento do livro que foi finalizado por um autor fantasma, segundo algumas fontes. A história também foi completamente modificada na adaptação escrita por Richard Maibaum e Tom Mankiewics que praticamente só aproveitaram o nome do livro e o nome dos personagens principais, alterando tudo.

No livro, que dá sequência aos eventos de ” A Morte no Japão ” (o livro que gerou “Com 007 Só Se Vive Duas Vezes”) um Bond desmemoriado sofre lavagem cerebral e é enviado de volta a Londres programado para matar M. Bond é preso e desprogramado, mas perde a confiança de seus superiores. Para provar seu valor, Bond é enviado de volta a Jamaica com a missão de matar Francisco Scaramanga, cuja organização está envolvida com tráfico de drogas, rede de prostituição e um mirabolante plano para desestabilizar a economia ocidental. O tom do livro é extremamente sério com traição, conspiradores e Bond tendo que provar seu valor ao seu governo e  para si mesmo, contando com a ajuda de seu amigo da CIA Felix Leiter (retirado da história na adaptação para o cinema) e a Bond girl Mary Goodnight, que aparece em outros livros de Fleming como a secretária pessoal de Bond.

007 GOLDEN GUN

No filme, o antagonismo entre Bond e Scaramanga se resume a uma rivalidade superficial para saber quem é o melhor em seu ofício: matar. Scaramanga tem um assistente, o pequeno Nick Nack (Herve Villecheize o Tattoo da “Ilha da Fantasia”) que não existe no livro. No filme, os roteiristas ainda inventaram uma fonte de energia solar transformada por Scaramanga em uma arma mortífera. Além de Goodnight, Bond corteja a bela Andrea Anders, amante de Scaramanga, interpretada pela atriz Maud Addams, que seria a principal Bond girl 10 anos depois em “007 Contra Octopussy” . A trama extremamente rasa mesmo se tratando de um filme de ação descamba para um humor forçado com a volta do Xerife Pepper (Clifton James) que aparecera no filme anterior. Outra modificação no filme foi a transferência da ação da Jamaica (no livro) para a Tailândia.

As filmagens foram atribuladas para o diretor Guy Hamilton em seu 3º e último filme da série. Este, segundo o próprio Roger Moore, queira um tom mais sério para a trama e desejava ver um Bond mais seco e frio o que deixava Moore descontente. O papel de Scaramanga (o assassino com três mamilos, anomalia genética rara porém real) foi oferecido inicialmente a Jack Palance (Acredite se quiser, lembram ?) antes de Christopher Lee (recentemente falecido) que obteve fama mundial como Drácula, e que era na vida real primo de Ian Fleming. A sueca Britt Ekland (na época casada com Peter Sellers) foi contratada para o papel que ficou com Maud Addams, mas Guy Hamilton mudou de ideia quando viu fotos de Britt Ekland de bikini. O filme foi a primeira aventura de Bond exibida na Russia e marcou o fim da parceria entre Broccoli & Saltzman, já que este passava por sérios problemas financeiros e precisou vender sua parte na sociedade.

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Embora seja um filme fraco, ainda tem a curiosidade de assistir o sempre ótimo Christopher Lee no papel de vilão. Lamenta-se que os produtores deixaram muita coisa do material original de Fleming de fora e mesmo a questão energética abordada é por demais superficial e não sustenta a trama adaptada. Com todos os problemas das filmagens, Brocolli retardou o inicio do filme seguinte em quase três anos. É claro essa já é outra história.

JAMES BOND RETORNA AO BLOG NA PRÓXIMA SEMANA COM “007 O ESPIÃO QUE ME AMAVA”.