PIRATAS DO CARIBE, DA LITERATURA & DO CINEMA.

        Quando criança adorava histórias de piratas e uma das primeiras que vi foi a adaptação de “Pluft – o Fantasminha” da Maria Clara Machado, que trazia o ator Flavio Migliaccio como o malvado pirata da perna de pau. Histórias desses saqueadores dos mares datam desde a Odisséia de Homero, mas a imagem que mais se popularizou no imaginário popular foi a do bandido com papagaio no ombro e tapa-olho,  que atravessou os mares nos séculos XVII e XVIII.

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A literatura clássica romantizou os feitos dos piratas como donos de um código próprio de camaradagem temperado com a ganância desmedida e a caça ao tesouro. O autor escossês Robert Louis Stevenson (1850-1894) publicou em 1883 “A Ilha do Tesouro” (Treasure Island) , já adaptado para o cinema diversas vezes desde a época do cinema mudo, sendo a versão mais famosa a realizada pela Disney em 1950. No Brasil, tivemos nossa própria versão em “O Trapalhão na Ilha do Tesouro” (1975), divertida paródia com Renato Aragão & Dedé Santana. O livro é narrado pelo menino Jim Hawkins, que conta suas aventuras ao lado do pirata Long John Silver. A obra de Stevenson tornou-se referência no tema, sendo a primeira vez que surgiu a clássica imagem do mapa do tesouro com um “X” marcado.

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CAPITÃO BLOOD

       Durante várias décadas, o cinema Hollywoodiano  fez da pirataria um filão rentável com Douglas Faibanks esbanjando um sorriso provocante em “O Pirata Negro” (The Black Pirate) de 1926, ainda durante o período mudo. Os duelos de espada ensaiados e coreografados pelo mestre Fred Cavens ofereciam o realismo necessário para as plateias ávidas por ação. A chegada do som trouxe Errol Flynn e Tyrone Power como os mais célebres representantes dessa figura sedutora, viril e rebelde, muitas vezes em filmes extraídos dos livros do escritor italiano Rafael Sabatini (1875 – 1950) como “Capitão Blood” (Captain Blood) de 1935, “O Gavião do Mar” (The Sea Hawk) de 1940 e “O Cisne Negro” (Black Swan) de 1941. Os dois últimos, no entanto, foram adaptações nada fieis ao livro adaptado, mas fixaram a imagem de Flynn e Power como os expoentes do filão, modelo para os aventureiros retratados nas telas por atores como Cornel Wilde, Douglas Fairbanks Jr, Louis Hayward e Burt Lancaster, que emprestou ao tipo suas incríveis habilidades atléticas de sua experiência circense em filmes como “O Pirata Sangrento” (The Crimson Pirate) de 1952. Da década de 50, quando o gênero começou a entrar em declínio, alguns exemplares merecem destaque como “Contra Todas as Bandeiras” (Against All Flags) de 1952, com Errol Flynn, Anthony Quinn  e Maureen O’Hara (uma belíssima pirata, aliás).  Aqui, mostra-se uma variedade da pirataria, o “bucaneiro”, que se refugiava em lugares remotos e atacavam qualquer embarcação de forma violenta, agregando a suas fileiras ex-presidiarios, ex-escravos, qualquer um que fosse marginalizado. Estes pilhavam principalmente as embarcações espanholas. Além de Maureen O’Hara, outra pirata mulher que vagou pelos mares caribenhos foi Anne Providence, interpretada pela igualmente bela Jean Peters em “A Vingança dos Piratas” (Anne of the INdies) de 19651. Já a figura do corsário, ou seja, um pirata cuja atividade era tributada em favor de seu reino, teve a figura histórica do Capitão Francis Drake vivido por Rod Taylor em “O Pirata Real” (Seven Seas to Calais) de 1963. O notório Edward Teach ganhou o famoso apelido Barba Negra e apareceu em diversos filmes já vivido por Robert Newton, Peter Uistnov, e mais recentemente Ian McShane em “Piratas do Caribe: Navegando em Aguas Misteriosas” (2011). Curiosa mezcla de gêneros foi feito por Vincent Minnelli em 1948 no musical “O Pirata” (The Pirate ) com Gene Kelly se fazendo passar por um perigoso elemento para conquistar Judy Garland, ao som de canções de Cole Porter.

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O PIRATA : GENE KELLY & JUDY GARLAND

              Nas décadas de 70 e 80, o tema foi inutilmente ressucitado resultando em fiascos de bilheteria como “Piratas das Ilhas Selvagens” (Nate & Hayes) de 1983. Roman Polanksi também fracassou com “Piratas” (Pirates) de 1986 chegando ao ponto de construir a fragata “Neptune”, mostrada no filme, e levá-la para a abertura do Festival de Cannes no citado ano, ancorando próximo ao local, uma extravagância promocional que nada ajudou na bilheteria da produção. Desastroso também foi o filme de Renny Harlin “A Ilha da Garganta Cortada” (Cutthroat Island) de 1995. Na verdade, até que Johnny Depp surgisse como o Capitão Jack Sparrow no primeiro “Piratas do Caribe” (Pirates of the Caribbean) de 2003, o gênero parecia extinto. Claro que depois de quatro sequências, sendo a última “A Vingança de Salazar”, parece que ainda teremos tempo para fazer um brinde com rum e dizer HO HO HO.

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PIRATAS DO CARIBE: KEIRA KNIGHTLY, ORLANDO BLOOM & JOHNNY DEPP

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GALERIA DE ESTRELAS : KIRK DOUGLAS

Em “Trumbo” (2015), durante a paranoia Macarthista vários profissionais perdiam espaço de trabalho quando acusados de serem comunistas, entre eles o excelente roteirista Daltom Trumbo. Protagonista e produtor executivo de “Spartacus”, o ator Kirk Douglas ignorou o boicotte e contratou Trumbo como roteirista. Sua força de caráter não esteve só visível diante das câmeras, mas também nos bastidores de Hollywood. Logo, seu centenário coleciona diversos episódios que justificam o valor desse grande astro, um dos últimos durões do cinema, que ganha de 25 de novembro até 11 de dezembro, uma mostra pela cinemateca do MAM reunindo 29 longas de uma carreira prolífica carreira, além do lançamento de um livro “O Ùltimo Durão – Centenário de Kirk Douglas” escrito por Mario Abbade, jornalista, crítico de cinema e curador da mostra.

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FUGA DO PASSADO : CONTRACENANDO COM ROBERT MITCHUM

Nascido em Nova York, Issur Danielovitch, em 9 de dezembro de 1916, filho de imigrantes judeus originários da Russia. Adotou o sobrenome Demsky quando criança enquanto sua família se fixava na América, legalmente modificado para Kirk Douglas pouco antes de ingressar na Marinha durante a Segunda Guerra. Lutou boxe desenvolvendo um físico atlético que seria útil na composição de papeis rudes. Para conseguir uma bolsa para a universidade, entrou para um grupo de drama e veio a trabalhar no rádio e em comerciais de Tv. Nesse meio tempo conseguiu papeis pequenos no cinema estreando nas telas em 1946 em “O Tempo Não Apaga” (The Strange Love of Marha Ivers), papel que conseguiu por intermédio da amiga Lauren Bacall. O nobre ator conseguiu chamar a atenção para si no filme seguinte “Fuga do passado” (Out of the Past) no papel de um gangster. Em três anos veio a primeira indicação ao Oscar de melhor ator por “O Invencível” (Champion), no papel de um boxeador que o fez reviver uma fase de sua própria vida. Logo vieram o xerife de “Embrutecido pela violência” (Along The Great Divide), o detetive de “Chaga de Fogo” (Detetctive Story) ambos de 1951, mas apesar do sucesso destes, o obstinado ator tinha muito mais a dar, além de trazer o pão nosso para família formada em 1943 com a também atriz Diana Dill e com quem teve dois filhos: Michael em setembro de 1944 e Joel em janeiro de 1947.

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SEDE DE VIVER

             Não demoraria para Kirk mostrar seu talento em dramas psicológicos como o papel do repórter Charles Tatum de “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole) de 1951 e no ano seguinte o produtor Jonathan Shields de “ Assim estava escrito” (The Bad & The Beautiful), uma visão crítica dos bastidores de Hollywood dirigida por Vincent Minelli. A versatilidade passou a ser uma marca na carreira de Kirk Douglas, oscilando entre papéis mais físicos e outros mais desafiadores, e sempre sem medo de se arriscar. Logo, interpretou o rebelde marinheiro Ned Land na adaptação da Disney para “20000 Léguas Submarinas” (20000 Leagues Under The Sea) ao passo que incorporou o pintor Vincent Van Gogh na cinebiografia “Sede de Viver” (Lust for Life) dirigida por Vincent Minelli. Por este, o ator levou o prêmio de melhor ator da crítica de Nova York. Filmado no mesmo local de nascimento e morte do pintor pós-impressionista holandês. Apesar de várias indicações ao Oscar, incluindo para Kirk que perdeu para Yul Brinner por “O Rei & Eu” (The King and I). Apesar da excelente atuação de Kirk, do elenco de “Sede de Viver” quem levou a estatueta dourada foi Anthony Quinn como coadjuvante por uma participação de 22 minutos como o também pintor Gauguin. Segundo o site imdb, na cena em que Van Gogh corta sua orelha foi tão impactante que  Michael e Joel, filhos de Kirk choraram em desespero por acharem que seu pai havia se mutilado de verdade. Vários westerns se aproveitaram de seu talento como “Rio da Aventura” (The Big Sky) de 1952 ,  “Homem sem Rumo” (Man without a Star) de 1955 (quando Kirk fundou sua propria produtora, a Bryna Productions, com intenção de obter maior controle sobre sua carreira)  e “Duelo de Titâs” (Last Train From Gun Hill) de 1959. Neste último, travou um acirrado duelo em cena com o igualmente talentoso Anthony Quinn.

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SEM LEI E SEM ALMA: OS DURÕES KIRK DOUGLAS & BURT LANCASTER

Foi ao lado do icônico Burt Lancaster que Kirk Douglas teve diversas atuações impressionantes forjando uma parceria muito bem sucedida diante do público e que duraria quatro décadas, criando uma imagem de amizade que existia na cabeça do grande público. Ainda assim, a química dos dois era inegável, sete vezes em cena em “Estranha Fascinação” (I Walk Alone) 1948, “Sem Lei Sem Alma” (Gunfight at OK Corral) 1957, ”O Discípulo do Diabo” (The Devil’s Disciple) 1959, “A Lista de Adrian Messenger” ( The List of Adrian Messenger) 1963, “Sete Dias de Maio” (Seven Days in May) 1964, “Vitoria em Entebbe” (Victory at Entebbe) 1976 e “Os Últimos Durões” (The Tough Guys) 1986. Dentre estes “Sem Lei & Sem Alma” é certamente um dos mais notáveis, versão romanceada de famoso tiroteio ocorrido no Arizona em 1881, já levado às telas em 1946. Douglas faz o pistoleiro Doc Holliday que vem a auxiliar o xerife Wyatt Earp interpretado por Burt Lancaster. Metódico e detalhista na composição de seus personagens, Kirk teria planejado quantas tossidas e de que intensidade essas seriam em cada cena de forma que quando editado o filme não tivesse erro de continuidade.

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VIKINGS OS CONQUISTADORES

A credibilidade impressa em cena por Kirk era tamanha que seus papeis pareciam ser feito sob medida não importando que filme fosse. No auge dos épicos, o ator fez o guerreiro grego descrito por Homero na Ilíada em “Ulisses” em 1954  – ano em que se casou pela segunda vez, com Anne Buydens e com quem teria mais dois filhos. Interpretou o príncipe Einar de “Vikings – Os Conquistadores” (The Vikings) de 1958 contracenando com Tony Curtis,  e o escravo rebelde “Spartacus” de 1960, do qual também foi produtor. Este último sagrou-se na história como um dos melhores filmes do gênero, desafiando o status-quo ao contratar o perseguido Dalton Trumbo como roteirista, conforme mencionado, e o talentoso diretor Stanley Kubrick, com quem Kirk já havia trabalhado em “Gloria Feita de Sangue” (Paths of Glory) de 1957, até hoje um dos melhores filmes de guerra, com um discurso anti-belicista em plena era da guerra fria. Durante as décadas de 70 e 80 os bons papeis foram reduzindo e Kirk fez duas tentativas como diretor: “As Aventuras de um Velhaco” (Scalawag) de 1973 e “Ambição Acima da Lei” (Posse) de 1975, Neste escreveu um papel especialmente para o ator James Stacey que havia perdido seu braço esquerdo e sua perna esquerda em um atropelamento, dando-lhe a primeira oportunidade para atuar após o acidente . Em entrevista recente com o crítico Mario Abbade (publicado em O Globo) reconheceria que achou melhor não continuar, se despindo de qualquer vaidade em admitir.

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KIRK E MICHAEL; DUAS GERAÇÕES DE TALENTO

Kirk nunca escondeu a frustração de não ter estrelado a adaptação cinematográfica de “Um Estranho no Ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest), no papel que fizera nos palcos e que no cinema seria vivido por Jack Nicholson. Curiosamente, o filme seria produzido pelo seu filho Michael Douglas e foi premiado com 5 Oscars.  Seguindo sua carreira, Kirk Douglas nunca parou de apoiar causas filantrópicas como uma campanha contra o abuso sofrido por idosos que o levou a ser citado pelo Congresso Nacional e resultou no filme de TV “Amos” de 1985, contracenando com Elizabeth Montgomery (da série “A Feitiçeira”). O sucesso de Michael Douglas, seu filho mais velho, no cinema estabeleceu uma dinastia no cinema. As duas gerações se encontrariam em “Acontece nas melhores Famílias” (It Runs in the Family) de 2003.

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FÚRIA

Ator e produtor já consagrado, trabalhou sob a batuta de Brian DePalma em “A Furia” (The Fury) 1978 e Stanley Donen em “Saturno 3” (Saturn 3) 1980 experimentando o cinema fantástico já que o primeiro era um thriller tratando de força telecinética e o outro uma ficção cientifica convencional. Fez trabalhos na Tv e até emprestou sua voz para um dos episódios de “Os Simpsons” em 1996. Sua aposentadoria só ocorreu devido a um derrame que lhe prejudicou a fala. Entre os diversos prêmios e honrarias,  recebeu a “Presidential Medal of Freedom”, a mais alta condecoração civil do Presidente Jimmy Carter, além de um prêmio “Life Achievement Award”pelo AFI em 1998. Embora não tenha vencido um Oscar competitivo nas três vezes que concorrera, recebeu um Oscar honorário pelo conjunto da obra em 1996. Sua tenacidade o levou a superar os revezes como o derrame, a morte de seu filho mais novo Eric em 2004 por overdose e nem o peso da idade lhe tiram aquele olhar altivo, honrado ou diminuem o charme da covinha em seu queixo, marca registrada de uma carreira prolífica e que o torna uma lenda viva.

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GALERIA DAS ESTRELAS: MONTGOMERY CLIFF

 

Monty

Em julho desse ano completamos 50 anos da morte de um dos maiores atores da Hollywood clássica, então nada mais justo que lembrarmos da ilustre carreira de Edward Montgomery Cliff, ou simplesmente Monty como foi conhecido durante toda sua vida.

Nascido em 17 de Outubro de 1920 em Omaha, Nebraska, juntamente com sua irmã gêmea Roberta, filhos de Ethel “Sunny” Anderson e William Brooks Cliff. Seu pai havia ganhado muito dinheiro trabalhando em um banco, mas perdera tudo durante o período da grande depressão. Seu pai extremamente austero e de temperamento agressivo teria sido a raiz dos demônios que consumiram Monty durante toda sua vida. Aos 13 anos subiu pela primeira vez nos palcos da Broadway na peça “Fly Away Home”, descobrindo que a atuação lhe permitia se libertar dos grilhões emocionais que o mantinham preso em um inferno íntimo. No inicio dos anos 40 conheceu a atriz de teatro Libby Holman, que influenciaria Monty e o direcionaria tanto sua carreira quanto sua vida pessoal. Libby teria sido, de acordo com o site imdb, o primeira e único relacionamento heterossexual da vida de Montgomery Cliff. Sob sua influência, Monty teria recusado o papel principal de “Crepúsculo dos Deuses” (1950) – que foi para William Holden e o papel de xerife em “Matar ou Morrer” (1952) – que foi para Gary Cooper.

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MONTGOMERY CLIFF & ELIZABETH TAYLOR

Desde o início de sua carreira o ator foi extremamente seletivo com os papéis escolhidos, estreando no cinema aos 28 anos em “Rio Vermelho”  (1948), contracenando com o já renomado John Wayne. Monty tornou-se então um dos seis únicos atores a conseguir uma indicação ao Oscar já no seu primeiro filme, uma seleta lista que inclui entre outros James Dean e Orson Welles. Em 1953, trabalhou sob o olhar intimidador de Alfred Hithcock, o mestre do suspense. Seu papel foi o de um padre que guarda a identidade de um assassino como segredo de confissão e que, por conta disso, vem a questionar a validade de seu voto em “A Tortura do Silêncio” ( I Confess). Sua atuação mostrava a habilidade de encarnar tipos que carregam o peso de um dilema silencioso que refletia sua própria personalidade. Monty trazia esse misto de fragilidade e sedução que envolvia o público, se conectava com a tormenta existencial pela qual muitos passam mas sofrem calados. Montgomery Cliff era um ator intenso, diferente do habitual entre as estrelas do período e , por isso frustrava as tentativas do controlador Hitchcock que não conseguia fazer o ator seguisse suas instruções. Apesar de sempre estar associado a mulheres bonitas, Montgomery Cliff reprimia sua homossexualidade e lutava contra era usando o álcool como arma. Em 1952, foi escolhido pelo diretor Fred Zinnerman para o papel do soldado lutador Robert Prewitt do romance de James Jones “A Um Passo da Eternidade’ (From Here to Eternity) realizado pela Columbia. Harry Cohn, chefão do estúdio, fez de tudo para impedir a escalação de Cliff, que muito queria a oportunidade de fazer o papel de Prewitt. Zinnerman bateu de frente com Cohn e exigiu que sem Cliff não faria o filme.

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A UM PASSO DA ETERNIDADE

A intensidade de Cliff era tamanha que, por exemplo, mesmo sendo dublado nas cenas em que aparecia tocando bongo, o ator treinou e passava horas ensaiando, muitas das vezes despertando estranheza em todos pela sua dedicação. O fato é que o ator projetava nos papeis o perfeccionismo com o qual sentia-se à vontade para lidar com os próprios demônios. A amargura de Prewitt em rejeitar a luta era um paralelo com as negações a que o ator se auto-infringia. Segundo Robert Legruber na biografia do ator, o próprio Burt Lancaster com quem Monty contracenou em “A Um Passo da Eternidade” se sentia intimidado ao contracenar com ele. A dualidade em sua natureza serviu ao seu papel de jovem ambicioso que comete atos questionáveis, até mesmo assassinato, em “Um Lugar ao Sol” (A Place in The Sun) de 1952, dirigido por George Stevens. O papel lhe rendeu sua segunda indicação ao Oscar de melhor ator e durante as filmagens tornou-se amigo para a vida toda da estrela Elizabeth Taylor. Esta lhe salvou a vida em um trágico epísódio que determinaria o inicio do fim para Montgomery Cliff. Em 1956, enquanto filmava “A Árvore de Vida” (The Raintree Conuntry), os atores se uniram a uma festa na casa de Liz Taylor, na época casada com Michael Wilding. Depois de beber a noite toda, Cliff saiu dirigindo seu Chevrolet e bateu contra uma árvore. Socorrido dos escombros por Rock Hudson e Liz Taylor, Monty sufocava com os próprios dentes que estavam entalados em sua garganta. Foi Liz quem o salvou retirando os dentes quebrados e pedindo socorro. No hospital, o ator foi submetido a uma melindrosa cirurgia plástica para reconstruir seu rosto, desfigurado no desastre. Seu papel em “A Árvore da Vida” foi quase substituído por outro ator, mas a amiga Liz Taylor garantiu aos chefões do estúdio que Monty conseguiria retomá-lo. Revisto com a tecnologia digital de hoje é possível perceber as mudanças no belo rosto do ator. Mais severas ainda foram as mudanças em seu espírito. Monty afundou ainda mais no álcool e na dependência de drogas, embora continuasse a ser um intérprete de grande capacidade de mergulhar nos papéis que representava como o do judeu intimidado por anti-semitas em “Os Deuses Vencidos” (The Young Lions) de 1958 no qual trabalho ao lado de Marlon Brando ( de quem se tornara amigo pessoal) e Dean Martin (reza a lenda que Monty teria ajudado Dean Martin a interpretar papeis mais dramáticos que os que estava acostumado a fazer). Voltou a trabalhar com a amiga Liz Taylor em “De Repente No Último Verão (Suddenly Last Summer) em 1959. Nos bastidores deste, tornou-se conhecido a constante implicância do produtor Sam Spiegel com Montgomery Cliff que cursava o caminho da auto-destruição. A dimensão era tamanha que segundo consta a atriz Katherine Hepburn teria cuspido no rosto de Spiegel para defender Monty.

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O ROSTO APÓS O ACIDENTE

Em 1961, Monty se juntou a Clark Gable e Marilyn Monroe para as filmagens de “OS Desajustados” (The Misfits) de John Huston. Um médico foi colocado de plantão durante as filmagens devidos aos problemas enfrentados por Marilyn Monroe e Montgomery Cliff, ambos apontados por muitos na época como uma “bomba prestes a estourar”, e que causava atrasos nas tomadas, muitas vezes por não conseguirem lembrar as falas. Segundo a biografia de Marilyn Monroe, esta teria dito a Cliff “Nunca conheci alguém em pior forma do que eu.” No mesmo ano, o ator conquistou nova indicação ao Oscar como coadjuvante em “Julgamento em Nuremberg” (Judgement at Nuremberg) e voltou a trabalhar com John Huston, já no ano seguinte em “Freud – Além da Alma” (Freud), cinebiografia do pai da psicanálise. O roteiro foi escrito pelo filósofo e crítico francês Jean-Paul Satre. Os problemas de saúde de Monty já estavam tão acentuados que os advogados do estúdio decidiram processar o ator, acusando-o de prejudicar o filme com os atrasos decorrentes de seu estado. O processo teve uma retrocesso súbito na noite do julgamento quando o filme tornou-se sucesso de bilheteria justamente por conta da presença de Montgomery Cliff no elenco, conforme provou seu advogado. Seu último filme foi “ Talvez Seja Melhor Assim”  (The Defector) de 1966. Em 23 de Julho dess ano, Monty foi encontrado morto em seu quarto como consequência de um grave ataque cardíaco, causado por sua dependência em drogas e álcool. Muitos disseram então que foi o suicídio mais longo de Hollywood. O fato que transparece é que seu espírito morreu no dia daquele acidente.  Apesar da imagem que lhe é imputada de alma atormentada, ele sempre fiel aos amigos que fez no mundo do cinema, que incluía Roddy McDowell, Marlon Brando e Liz Taylor, a quem chamava sempre de Bessie Mae.

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FREUD ALÉM DA ALMA

Fica para a arte cinematográfica aquele olhar frágil mas belo capaz de resgatar sentimentos conflitantes através de uma atuação pungente que tocava a todos. Um grande ator como poucos conseguiram ser. Talvez a melhor definição seja parafrasear o ícone Marlon Brando que teria dito a Monty “Poderiamos nos degladiar para descobrir quem é melhor ator, mas sabemos que esse é você”.

CLÁSSICO REVISITADO : OS 6O ANOS DE “TRAPÉZIO”

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BURT LANCASTER & GINA LOLLOBRIGIDA

Ocasionalmente é bom deixarmos de lado os filmes mais badalados e descobrimos uma pérola não badalada entre o público em geral, e por isso mesmo uma delícia trazer um artigo que apresente os atrativos do filme em questão. Sendo assim, como primeiro “Clássico Revisitado” do ano, falemos sobre “TRAPÈZIO“.

Lançado em Maio de 1956, portanto há quase 60 anos, “TRAPÈZIO” é adaptado do romance “The Killing Frost“, publicado em 1950. Este gira em torno de um triângulo amoroso entre os artistas circenses Mike Ribble (Burt Lancaster), Tino Orsini (Tony Curtis) e Lola (Gina Lolobrigida). Ribble é um ex-trapezista que ficou manco depois de um acidente e único capaz de executar um salto triplo. Ganhando a vida nos bastidores do espetáculo circense, a vida de Ribble toma novo rumo quando chega ao circo o jovem Tino Orsini, filho de artistas de circo e que sonha em aprender o salto triplo de forma a se tornar o melhor trapezista do mundo e, para isso, convence Ribble a formarem uma dupla. Após exaustivos treinos, o experiente e amargurado Ribble e o impetuoso Tino começam a ajustar a personalidade divergente de ambos e a estabelecer não apenas os papéis respectivos de mentor e aprendiz,mas de amizade. Esta será severamente testada com a chegada de Lola, ambiciosa artista que não medirá esforços para alcançar as alturas do sucesso. Esta se envolverá com ambos, o que trará consequências para o destino dos trio.

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LANCASTER, LOLLOBRIGIDA & CURTIS

O filme foi produzido pela Hill Hetch Lancaster, a produtora do astro Burt Lancaster (então com 43 anos) e distribuída pela United Artists. O próprio Burt Lancaster realizou as cenas no trapézio pois o ator já havia trabalhado em circo em sua juventude. Somente o salto triplo não foi executado pelo ator pois os técnicos do estudio temiam por sua segurança. Assim, Nick Cravat, dublê e amigo pessoal de Lancaster, efetuou a proeza em cena. Vários filmes do período tomaram proveito da excelente forma física do ator e “Trapézio” não foi diferente. Seu vigor e virilidade perpassam por todo o filme e formando uma química e tanto com a sensual atriz italiana Gina Lollogrigida, na época grande rival de Sophia Loren em Hollywood. O papel de Tino Orsini seria feito inicialmente por Montgomery Cliff, mas acabou com Tony Curtis (então com 31 anos), emprestado à United Artists pela Universal. Apesar de todo o cuidado dos técnicos, acidentes ocorreram durante as filmagens: A dublê de Gina Lollobrigida morreu após uma queda de cerca de 12 metros, e outra quebrou o nariz sendo substituida por Willy Krause, amigo de Lancaster.

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O filme teve o orçamento estimado em torno de $4 milhões e rendeu mais de $7 milhões nas bilheterias americanas. O roteirista David Fuchs processou a produtora de Lancaster alegando que havia escrito, anos antes, o roteiro de “Trapézio”, creditado a James R.Webb e  Liam O’Brian, e que não recebera nada por isso. Mesmo Ben Hetch, sócio de Lancaster teria participado do roteiro apesar de não ser creditado por isso. Dois anos depois, o processo foi resolvido na corte com um acordo não divulgado. O roteiro em questão teve limado as referências de que haveria uma relação homossexual entre Ribble e Tony Orsini.

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O FILME EM DVD

Assisti o filme há muito tempo atrás na Tv Globo pela Sessão da Tarde e o revi, muito depois em home video. Tudo o que senti na primeira vez permanecera : O fascínio pela romantização do circo, a presença em cena de Burt Lancaster e Tony Curtis e a sensualidade de Gina Lollobrigida. Mesmo não sendo um dos melhores a mostrar o mundo do circo (este título atribuo a “O Maior Espetáculo da Terra” / The Greatest Show on Earth de 1952), “Trapézio”, dirigido por Carol Reed (também diretor de “O Terceiro Homem” e “Agonia & Êxtase”) é uma agradável abordagem do estrelato, da busca por sucesso , da necessidade de se sobrepor os obstáculos e do vazio ao constatar que ao chegar no topo tudo o que você queria parece perder o sentido uma vez sendo alcançado. A cena final com Burt Lancaster caminhando pelas ruas solitário indica que o maior desafio não é representado pelo perigo das alturas de um trapézio, mas pelo lento e doloroso caminhar da vida.