DRACULA RENASCE NA ERA NETFLIX

Um dos textos mais adaptados da literatura é o romance gótico “Drácula” escrito pelo irlandês Bram Stoker no final do século XIX, e se a imortalidade é parte intrínsica do mito do vampiro, então o personagem de Stoker não só faz juz como o demonstra em recorrentes versões para o cinema, Tv, livros e agora na era do streaming em uma série da Netflix criada por Steve Moffat e Mark Gatiss, os mesmos que recriaram Sherlock Homes para a nova geração com Benedict Cumberbatch e Martin Freeman.

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DRACULA ENFRENTA IRMÃ AGATHA NA NETFLIX

       Em três episódios Moffat e Gatiss iniciam sua narrativa na Transilvania de 1897 com filmagens feitas no Castelo Oravana Eslováquia, o mesmo usado para a filmagem do clássico “Nosferatu” de 1922.Já no segundo episódio temos a transposição para a modernidade quando o vampiro desperta no mundo atual. A nova adaptação usa esse salto no tempo para trazer o mito do conde Drácula para a contemporaneidade, mesmo que se distanciando do romance original. Outra mudança é a forma escolhida para retratar Van Helsing, o nêmesis do vampiro. No passado a irmã Agatha, e no presente sua descendente Zoe (ambos interpretados por Dolly Wells) substituem a figura do austero homem da ciência que se torna o antagonista de Drácula.  Lucy, Jonathan Harker, Dr.Seward, Quincy, Lucy, todos os personagens estão lá mas com novas roupagens, sob uma ótica diferente da conhecida pelos amantes da história original. A modernização da lenda é o foco principal ainda que o ator dinamarquês Claes Bang tenha ótima atuação. O texto de Stoker é tão rico que sobrevive a várias reinterpretações que tratam de assuntos como sexualidade, imortalidade, seja a nível de análise social da realidade vitoriana, ou análise filosófica das pulsões humanas. Mas Bram Stoker não inventou a figura lendária da criatura sobrenatural que se alimenta de sangue humano.

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BRAM STOKER & O LIVRO- CRIADOR & CRIATURA

              Lendas de vampiros ou desmortos já faziam parte do folclore europeu, muito antes que Abraham Stoker (1847 – 1912) as usasse como matéria-prima de seu mais famoso romance. A esses mitos e superstições, Stoker fundiu a figura histórica do príncipe romeno Vlad Tepes que governou a região da Valáquia, atual Romênia, combatendo os invasores turcos com requintes de crueldade notória. Vlad, o empalador, fincava uma estaca de madeira no peito de seus inimigos e bebia seu sangue. A mente criativa de Stoker soube unir todos esses elementos na figura de Drácula, nome da família de Vlad, ligada à Ordem do Dragão –  linhagem religiosa do auge do Império Romano. Contudo, o livro de Stoker não foi, como muitos pensam, o primeiro livro sobre vampiros. Antes dele houve “Vampyre” (1819) de John Polidori e “Carmila” (1871) de Sheridan Le Fanus. Drácula, no entanto, sobressaiu-se graças à forma como Bram Stoker conduziu sua história: Sua narrativa é toda em primeira pessoa através de cartas e diários pertencentes aos personagens humanos que giram em torno do vampiro : o advogado Jonathan Harker, sua noiva Mina, o Dr. Seward, Quincy Morris, e é claro, o Professor Abraham Van Helsing entre outros cujos pontos de vista direcionam a visão do leitor. As palavras de Stoker são embebidas de uma inusitada credibilidade e apurada descrição da região em que Drácula vive, apesar de seu escritor nunca ter visitado o Leste Europeu onde fica a Transilvânia. Para a sociedade reprimida do final do século XIX, a mordida do vampiro funcionava como perfeita metáfora para o orgasmo e o prazer ilimitado, associada a perversões e à sexualidade reprimida. Logo, o vampiro não apenas desafiava a ordem natural da vida e da morte, mas também a conduta moral de toda uma sociedade. Essas subleituras enriqueciam a história de Drácula e o cinema não demorou a enxergá-las como uma rica fonte de adaptação.

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BELA LUGOSI – O PRIMEIRO

DRACULA NO CINEMA

              Em 1922, dez anos depois da morte de Bram Stoker, o diretor alemão F.W. Murnau tentou mas não conseguiu os direitos de adaptação da viúva Florence Stoker. Assim, Murnau modificou os nomes dos personagens e realizou “Nosferatu” com Max Shreck como o vampiro, o conde Orlock. Além de mudar os nomes, Murnau transformou o vampiro de uma figura sedutora em um ser repulsivo e assustador graças a uma eficiente maquiagem que eclipsou o rosto do ator Max Shreck, tornado anônimo para as gerações que se seguiram, o que levou ao curioso filme “A Sombra do Vampiro” (Shadow of a Vampire) de 2003, o qual  teorizava que Shreck era um vampiro de verdade. A viúva de Stoker processou Murnau e conseguiu a ordem judicial que recolheu todas as cópias de “Nosferatu” – claro que nem todas. O filme de Murnau foi redescoberto muito tempo depois e alçado ao status de clássico do expressionismo alemão, e para muitos a melhor versão de “Drácula”, ainda que não oficial.

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CHRISTOPHER LEE – O MELHOR

            Anos depois do filme de Murnau, a obra de Stoker era um sucesso nos palcos londrinos em uma adaptação escrita por Hamilton Deane, desta vez com o consentimento da família de Stoker. A montagem da peça foi levada até a Broadway por John Balderstone trazendo o ator húngaro Bela Lugosi no papel central. Os direitos de filmagem da peça foram comprados pela Universal, que contratou o diretor Tod Browning. Este queria Lon Chaney como Drácula, mas a morte do homem das mil faces (como era conhecido Chaney) levou Tod a contratar Lugosi que já estava acostumado ao personagem. A caracterização de Lugosi lançou as bases para o imaginário popular: o terno e capa preta de acordo com sua condição aristocrática, os cabelos penteados para trás, o olhar hipnótico (realizado com um feixe de luz lançado diretamente sobre seus olhos) e o forte sotaque em falas marcantes como “Ouça-os, crianças da noite !”. O visual impressionante deixava, no entanto, de fora as famosas presas do vampiro, deixando para a voz e o olhar de Lugosi a função de assustar as plateias. “Drácula” foi feito em 1930 e lançado no dia dos namorados do ano seguinte. Uma versão em espanhol, visando o mercado latino, foi filmada por George Melford nos mesmos cenários que o filme de Browning, apresentando Carlos Villarias no lugar de Lugosi.

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GARY OLDMAN – EXCELENTE

           Lugosi caiu no ostracismo e faleceu em 1956, aos 73 anos, tendo sido sepultado com a capa do personagem que marcou sua carreira. Lugosi se fixou no imaginário popular e virou música, a hipnótica “Bela Lugosi is dead”, da banda pós punk Balhaus, usada, em 1982, na trilha sonora do filme “Fome de Viver” (The Hunger), de Tony Scott, uma modernização pop do mito do vampiro. No final da década de 50 o personagem é reinventado para a geração seguinte com a atuação hipnótica e sedutora do ator inglês Christopher Lee em “Drácula – O Vampiro da Noite” (Dracula), dirigido por Terence Fisher. O filme, produzido pela Hammer Films, foi um sucesso apesar de novas liberdades serem tomadas em relação ao livro de Bram Stoker como nunca mostrar Drácula envelhecido no início da história; ou Mina que é retratada no filme como esposa de Arthur e sem relação direta com Jonathan Harker, que no filme vai ao castelo do conde ciente de sua natureza malévola e com intenção de destruí-lo. A Hammer acentuava o lado sensual do vampirismo, bem como caprichava na cenografia gótica. Apesar das mudanças, Lee tornou-se icônico no papel mesmo tendo apenas 13 falas em todo o filme. Sua atuação é estilosa, equilibrando sua pose aristocrática com feições de puro terror, realçadas pelo vermelhão nos olhos e pelas presas salientes, pela primeira vez exibidas na tela. Ao seu lado, o ótimo Peter Cushing como o Professor Van Helsing. Nos Estados Unidos rebatizado de “Horror of Dracula”, para evitar confusão com o filme de Lugosi, a versão da Hammer foi um grande sucesso reapresentando o vampiro de Stoker para uma geração que se alimentava de histórias de invasões marcianas e monstros de outro planeta. Lee foi quem melhor mostrou uma composição aristocrática mesclada com uma postura predatória incansável, sendo sedutor na mesma medida que assustador. O ator britânico, que na vida real era primo do escritor Ian Fleming, criador do espião 007, repetiu o papel mais 7 vezes: Seis pela Hammer, entre 1958 e 1973, e uma na produção alemã de 1970, dirigida por Jesus Franco, e que ainda trazia no elenco Klaus Kinski, antes deste encarnar o vampiro na refilmagem de “Nosferatu”. Era a primeira vez que Drácula era mostrado como um homem velho que vai rejuvenescendo a medida que bebe sangue, como no livro. Lee constantemente reclamava de estar cansado do personagem e eventualmente parou de interpretá-lo, porém ficou marcado no imaginário popular através de incontáveis reprises na TV, que fez de Lee o intérprete mais prolífico e popular do personagem. A década de 70 ainda teve Jack Palance em na Tv,  “Blood for Dracula” de Andy Warhol em 1974,  e William Marshall em “Blácula”, onde o vampiro da era do blackexploitation.

DRACULA NO BRASIL

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RUBENS DE FALCO TOCA BRUNA LOMBRADI NA VERSÃO BRASILEIRA ESCRITA POR RUBENS EWALD FILHO

          1979 foi o ano do vampiro pois teve quatro filmes de Drácula nas telas. A refilmagem de “Nosferatu” dirigido por Werner Herzog, que restaurou os nomes dos personagens originais do romance de Stoker, cujos direitos já haviam caído em domínio público na época. No elenco Klaus Kinski e Isabelle Adjani em um trabalho respeitoso embora inferior ao original de Murnau, e exibido no Festival de Filmes de Nova York. Poucos meses antes, Nova York recebera a estreia de uma nova versão, adaptada de uma remontagem da peça de Hamilton Deane & John Balderston  com Frank Langella repetindo nas telas, o mesmo papel que fizera nos palcos da Broadway, e – inclusive – interpretando o vampiro sem presas, tal qual Lugosi no filme de 1930. Além do “Drácula” de Langella, que foi dirigido por John Badham, houve a paródia “Amor à Primeira Mordida” (Love at First Bite) com George Hamilton que chegou a ganhar o Saturn Award (prêmio dado ao gênero fantástico) e foi indicado ao Golden Globe.  Outra paródia no mesmo ano foi “Nocturna” de Harry Hurwitz com John Carradini como um envelhecido Conde Drácula, obrigado a fazer de seu castelo um Hotel para pagar os altos impostos.

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LUKE EVANS – DRÁCULA HERÓI

          Um ano depois, estreou no Brasil a adaptação do livro de Stoker para o formato de telenovela entitulada “Drácula – Uma História de Amor” escrita pelo homem do Oscar, o renomado crítico de cinema e escritor Rubens Ewald Filho. A novela, filmada no município paulista de Paranapiacaba, trazia o conde romeno, interpretado pelo ótimo Rubens de Falco, ao Brasil onde conhece Mariana (Bruna Lombardi) que é a reencanação de sua amada e namorada de seu filho Rafael (Carlos Alberto Riccelli). A novela, dirigida por Walter Avancini, teve apenas quatro capítulos transmitidos pela TV Tupi, entre Janeiro e Fevereiro de 1980, sendo então interrompida quando a emissora carioca entrou em falência. No mesmo ano, a novela voltou pela Rede Bandeirantes, rebatizada de “Um Homem Muito Especial” e com a direção de Antonio Ambujamra. Muito antes que a Rede Globo produzisse novelas bem sucedidas como “Vamp” e “O Beijo do Vampiro” foi o renomado escritor e crítico de cinema Rubens Ewald Filho quem trouxe o vampirismo para a teledramartugia brasileira, apontando as possibilidades narrativas por trás da modernização do mito. Mais de dez anos depois, Francis Ford Coppola realizou uma pretensa adaptação definitiva do livro de Stoker entitulada “Drácula de Bram Stoker” em 1992 com Gary Oldman, Wynona Ryder, Keanu Reeves e Anthony Hopkins. No entanto, apesar de capturar o espírito da obra literária, o filme funde o personagem vampiro ao Vlad Tepes histórico e reinventa sua relação com Mina, que no livro não vai além da relação de um predador voraz atrás de sua presa, sem o romantismo empregado por Coppola. O filme foi muito bem sucedido e foi premiado com três Oscars : melhor figurino, efeitos sonoros e maquiagem.

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CLAES BANG – VAMPIRO VERSÃO 2020

         Outros Dráculas vieram : Leslie Nielsen na paródia de Mel Brooks “Drácula – Morto mas Feliz”, Gerard Butler em “Drácula 2000”, o afetado Richard Roxburgh no decepcionante “Van Helsing – o Caçador de Monstros”, “Dracula 3D” – a versão de Dario Argento de 2012,  além de Adam Sandler como a voz do personagem na animação “Hotel Transilvânia”. Drácula já apareceu em animações, Hqs, séries de TV (a mais recente com Jonathan Rhyes Myers foi cancelada), ganhou um novo livro – uma sequência oficial em 2009 escrita pelo sobrinho-neto de Stoker, e migrou para os vídeo games no famoso “Castlevania” , ganhando uma prequela, releitura estilo “Batman Begins” tentando fundir a figura histórica e a figura mitológica do personagem em “Drácula – A História Não Contada”. Embora a bilheteria não tenha garantido uma sequência, o apelo do personagem permanece inabalável. Com tanto interesse recorrente a figura do vampiro está sendo incorporada à cultura pop seja através de escritores como Stephen King, Anne Rice, Stephanie Meyer ou mesmo do incalculável número de projetos anunciados constantemente, que garantem que a versão de Gatiss e Moffat não será a última vez que Drácula se levantará do túmulo para seduzir novas gerações.

BICENTENARIO DE FRANKENSTEIN

       IMPACTO INDELÉVEL DA OBRA DE MARY SHELLEY NAS MIDIAS E NA ARTE.

  Algumas obras literárias ultrapassam todas as barreiras de espaço e tempo além de inspirar um misto de horror e fascínio no imaginário popular. Uma autora grafou seu nome na eternidade com a mesma ousadia do personagem cujo nome ostenta o título de um dos maiores clássicos da literatura que, duzentos anos depois de sua publicação, ainda nos assombra. A criatura … Frankenstein, a criadora… Mary Shelley… este legado é nosso.

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BORIS KARLOFF: A CARACTERIZAÇÃO DEFINITIVA

 

A CIÊNCIA FRANKENSTEINIANA

          A história nasceu em uma noite de tempestade, depois de uma sugestão do poeta britânico Lord Byron (1788 – 1824), que passava um final de semana junto com o casal Percy & Mary Shelley em uma casa em Genebra, Suiça. Byron sugeriu que cada um escrevesse um conto sobrenatural para passar o tempo. Na mente de Mary povoavam ideias sobre reanimação dos mortos, inflamadas por calorosas discussões ocorridas na casa em que morava com seu pai, William Goodwin, filósofo, escritor e jornalista, que constantemente se reunia com a nata da intelectualidade de sua época.

           Era maio de 1816, e o termo cientista ainda nem existia, quando Frankenstein nasceu na imaginação de Mary Shelley, que revisitou o mito grego de Pigmalião, o escultor que dá vida à estátua de uma bela mulher. Assim, Victor Frankenstein mostra um poder similar vindo de uma ciência hipotética, identificada com as teorias galvanistas que estudavam como uma corrente elétrica se propaga em um corpo. O próprio Dr. Luigi Galvani a chamava de “eletricidade animal” pois acreditava que esta viesse dos corpos. Em 1803, em Londres, Giovanni Aldini (sobrinho de Galvani) realizou experiência similar na prisão londrina de Newgate, com o corpo de George Foster, um notório criminoso que havia sido executado. Mais tarde Alessandro Volta empregou dois arcos de metal para gerar eletricidade e mostrou que o corpo era apenas um condutor e não o gerador da eletricidade.

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CHRISTOPHER LEE : FRANKENSTEIN PELA HAMMER FILMS

A FILOSOFIA DE FRANKENSTEIN

             Mary não entrou em detalhes e imbuiu sua narrativa de divagações filosóficas sobre a vida e a morte. A autora trabalha com o arquétipo do homem da ciência que questiona a natureza com seu intelecto desprovido do freio da moralidade. A história se tornou um precursor da literatura de ficção-científica, muitas décadas à frente de Jules Verne e H.G.Wells, os pais do gênero.

            A história de Mary recebeu o subtítulo “O Moderno Prometeu” , referência ao titã da mitologia grega que roubou o fogo de Héstia para dá-lo aos homens. Como punição Zeus o acorrentou ao cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma ave (águia em algumas versões e corvo em outras) devorava seu fígado, que se regenerava para no dia seguinte ser devorado novamente. Este foi o preço a pagar pela ousadia de ir além dos limites estabelecidos por forças superiores, e Frankenstein encarna esse papel, fascinado pela possibilidade de criar vida.

          Sua falta de um senso de responsabilidade segue o imperativo categórico kantiano. Victor age como se bastasse seu intelecto para justificar suas ações, e nesse sentido suas ações são coerentes com sua postura de que os fins justificam os meio, é sua forma de enxergar o mundo e a si próprio, mas ao perceber o que fez, abandona a criatura. Esta, sendo um ser deformado, desperta o medo e o ódio da sociedade. Nesse momento da história, Mary Shelley bebe da fonte de Jean Jacques Rousseau (1712 / 1778) , que diz que o homem nasce puro, mas é corrompido pela sociedade. O bom selvagem do filósofo francês habita grande parte da história de Mary Shelley sempre que a criatura sofre mal tratos dos homens, o desprezo de seu criador e a incompreensão de sua própria existência. Então, a criatura inominada busca sua vingança e metonimicamente chega mesmo a usurpar o nome de seu criador. Até hoje muitos pensam que o título da obra se refere ao monstro. Quando publicado originalmente o nome da autora foi suprimido, mas a mãe de “Frankenstein” se recusou a usar um pseudônimo masculino que facilitasse sua publicação. Somente na reedição de 1823 seu nome veio a ser creditado como a autora.

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ROBERT DE NIRO NA VERSÃO MAIS FIEL À OBRA DE SHELLEY

OS FOCOS NARRATIVOS

           A narrativa de Mary se divide em três pontos de vista que conduzem o leitor pela história: Começa com o Capitão Robert Walton que encontra Victor Frankenstein à deriva no Ártico, o acolhe e ouve sua história, relatando-a depois à sua irmã Margareth através de cartas. O foco muda da terceira para a primeira pessoa quando um Victor Frankenstein moribundo conta com suas próprias palavras os infortúnios sofridos nos levando de Geneva a Ingolstad na Alemanha a medida que revela sua profana experiência. Nova mudança ocorre quando Mary Shelley dá voz ao monstro, que conta o que se sucedeu desde o momento de seu “nascimento” no laboratório de Frankenstein, quando cria consciência de sua existência e em surpreendente auto-didatismo desenvolve linguagem observando uma família. A autora ainda faz uso da intertextualidade através de “Paradise Lost” de John Milton. Shelley possibilita assim que o leitor crie seu próprio julgamento a respeito dos papeis de criador e criatura, sobre quem é o verdadeiro monstro: o cientista egocêntrico que abandona a sua criação, a sociedade que rejeita o monstro como algo diferente,  ou a criatura abandonada e rejeitada.

             A mesma essência é mais tarde retomada em obras de outros autores que fizeram da obra de Shelley  fonte de inspiração e referência como os replicantes de Phillip K.Dick em “Do the Androids dream of electronic sheep?”, obra que inspirou o filme “Blade Runner”, o protagonista de “Edward Mãos de Tesoura” de Tim Burton, entre outras que exploraram o tema tão recorrente na vida real através da engenharia genética, da clonagem, do emprego das células tronco, do desenvolvimento de inteligência artificial, entre outros avanços discutidos na atualidade sob a luz da ética.

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FRANKENSTEIN NOS QUADRINHOS

AS ADAPTAÇÕES

                A ficção de Shelley foi levado ao cinema ainda no período do cinema mudo, em 1910, produzida pela produtora de Thomas Edison (o inventor da lâmpada), dirigida por J.Searle Dawley e com o ator Charles Ogle no papel do monstro. O filme de 16 minutos é uma raridade que ficou perdida por muito tempo até que uma cópia foi encontrada em Wiscosin em meados da década de 70. A criação do monstro é mostrada de forma atípica: Produtos químicos e poções são misturados para seu nascimento, lembrando que na época em que Mary Shelley escreveu o livro houve avanço notável na química, que foi alçado a um posto de ciência sem nenhuma ligação com a alquimia ou a própria medicina graças ao tratado de Lavosier no final do século XVIII. No filme, o efeito de criação do monstro foi conseguido queimando um boneco e rolando o filme de trás para a frente. Mais curioso ainda é o fim do monstro, que simplesmente desaparece no ar!!

               O choque elétrico gerado por uma noite de tempestade foi liberdade poética tomada pela sua adaptação cinematográfica mais famosa, de 193, estrelada por Boris Karloff. Como a descrição física da criatura é vaga no livro,  coube ao maquiador Jack Perkins elaborar o visual que se fixou no imaginário popular: Corpo descomunal e desajeitado, cabeça achatada com cicatriz enorme na testa, eletrodos nas laterais do pescoço e botas pesadas retardando os movimentos. Outra diferença entre o livro e os filmes, em geral, é que a criatura literária é inteligente e articula bem as palavras, enquanto que o cinema costuma retratá-la como um ser privado de raciocínio, reagindo apenas instintivamente. Karloff interpretou o monstro três vezes.

            No final da década de 50, a produtora inglesa Hammer Films ressucitou o monstro em um ciclo de filmes com Peter Cushing no papel de Victor Frankenstein e, inicialmente com Christopher Lee como o monstro em “A Maldição de Frankenstein” (The Curse of Frankenstein) em 1957. A melhor versão da obra de Shelley, contudo, embora muito subestimada, é “Frankenstein de Mary Shelley” (Mary Shelley’s Frankenstein) de 1995 com Robert De Niro como o monstro e Kenneth Branagah como Victor Frankenstein. O filme foi a primeira adaptação a procurar respeitar a obra original. O filme foi produzido por Francis Ford Coppola, que a principio também o dirigiria assim como fizera poucos anos antes com “Dracula de Bram Stoker”. Branagah assumiu a direção, e foi duramente criticado pela sua pretensão.        Recentemente houve “Victor Frankenstein” que traz James McAvoy e Daniel Radcliff em uma releitura modernizada do livro. Entre 2015 e 2017 houve a série britânica “As Crônicas de Frankenstein” (The Frankenstein Chronicles) reimaginando a obra da autora, que ganhou nova roupagem também na série “Penny Dreadul” (2014 a 2016), na animações “Hotel Transilvania” de 2012 e, “Frankweenie” (2012) de Tim Burton.

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A VERSÃO DE 1910 RECENTEMENTE RESTAURADA

          Tantas adaptações e readaptações mostram que a riqueza da obra continua a refletir  nossos medos como naquela noite de tempestade em Genebra, o sonho de vencer a lei natural tomando para si o poder da vida e a morte, o que nas palavras de sua autora vão além de qualquer limite vivo, ainda vivo !!!

UNIVERSO DE MONSTROS 2: AS MUMIAS -DE KARLOFF A BOUTELLA

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BORIS KARLOFF – 1932

         A cultura egípcia sempre alimentou a curiosidade  de historiadores e arqueólogos na mesma medida que estimulou a imaginação humana acerca de maldições milenares que caem sobre os profanadores de túmulos, o que o cinema logo tratou de se apropriar. Quando Boris Karloff  (1887 – 1969) interpretou o sumo-sacerdote Imhotep no clássico “A Mumia” (1932), haviam passado dez anos desde que os arqueólogos Howard Carter e Lord Carnarvon haviam descoberto a tumba do rei Tutancâmon.

            O roteirista John L.Balderston, a partir da história de Nina Putnam e Richard Schayer, criou um sub-gênero que seria explorado com sucesso pela Universal, o estúdio de Carl Laemmle Jr que alcançara anos antes sucesso com as adaptações literárias de “Dracula” e “Frankenstein” (1931). A política de Laemmle era custo baixo, muita sugestão para despertar sustos. Em “A Mumia” (The Mummy), o diretor Karl Freund, que fora fotografo em clássicos como “Metropolis” (1922) e “Dracula” (1931), usa e abusa das técnicas expressionistas das quais era um mestre. A maquiagem de Jack Pierce (também vindo de “Frankenstein”) demorava cerca de oito horas para transformar Karloff em uma múmia desperta pelas palavras mágicas do livro dos mortos. Contudo, em seu despertar, pouco é mostrado e em um salto no tempo Karloff surge como Ardath Bay, manipulando a descoberta do túmulo de sua amada Aucksonamon. Karloff pouco fala, mas seu olhar ameaçador assusta ainda mais. O nome de Imhotep foi tirado do arquiteto que criou as pirâmides, e muito longe de ser um sacerdote amaldiçoado, gozava de prestígio abaixo apenas dos faraós.

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CHRISTOPHER LEE EM “A MUMIA DE ANANKA”

             Oito anos depois a Universal decidiu fazer outro filme, mas Karloff não retorna como Imhotep. Assim, o estúdio faz a primeira de várias reinvenções da história, trocando Imhotep por Kharis, a múmia guardiã da princesa Ananka em “A Mão da Múmia” (The Mummy’s Hand). Jack Pierce volta como maquiador transformando Tom Tyler (ator de antigos westerns e serials) na nova criatura egipicia. Nesta nova série, a múmia ganha como algoz a figura do arqueólogo John Banning que antagonizará o mal representado por Kharis. A este se seguiram mais três filmes “A Tumba da Mumia” (The Mummy’s Tomb) de 1942,”A Sombra da Mumia” (The Mummy’s Ghost) de 1944 e , no mesmo ano que este, “The Mummy’s Curse”, todos com a múmia sendo interpretado por Lon Chaney Jr, que tornou-se o único ator a ter já interpretado todos os monstros clássicos da Universal : O Lobisomem (1941), o monstro de Frankentein (The Ghost of Frankenstein) e Dracula (The Son of Dracula) de 1943. A máscara usada pelo ator é exibida até hoje na exposição de terror do Museu em Seattle.

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VALERIE LEON EM “SANGUE NO SACORFAGO DA MUMIA”

            Apesar da comédia “Abbot & Costello meets the Mummy” de 1955, o público foi perdendo  interesse  no monstro, a medida que os estúdios entraram os anos 50 explorando discos voadores e monstros do espaço. Coube à produtora inglesa Hammer Films trazer de volta o personagem em “A Mumia de Ananka” (The Mummy) de 1959 com Christopher Lee no papel de Kharis. As cores e a presença magnética de Christopher Lee garantiram o êxito dessa retomada inglesa realizada em acordo com a Universal International. Na década de 60 ainda teríamos “A Maldição da Mumia” (The Curse of the Mummy’s Tomb) de 1964, “A Mortalha da Mumia” (The Mummy’s Shroud) de 1967 e “Sangue no Sacorfago da Mumia” (Blood from the Mummy’s Tomb) de 1970, este último adaptado de “The Jewel of the Seven Stars”, de Bram Stoker, com a beldade Valerie Leon no papel de uma rainha egícpica do mal possuindo o corpo (e que corpo) da filha do arqueólogo. Todos esses filmes foram constantemente exibidos na TV brasileira durante as décadas de 70 e 80 perpetuando a atmosfera B dos filmes da Hammer. Na década de 80 tivemos nossa múmia brasileira no terrir “O Segredo da Mumia”, de Ivan Cardoso (1982) que deu a Wilson Grey, ator típico das chanchadas da Atlântida, seu primeiro papel de protagonista depois de décadas de contribuição ao cinema brasileiro.

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IMHOTEP (ARNOLD VOSLOO EM “A MUMIA”) DE 1999

                Quando a Universal decidiu refilmar “A Mumia” em 1999 sabia-se que o público não iria mais se assustar com um monstro enrolado em ataduras, andando devagar atrás das pessoas. Assim, o diretor Stephen Sommers transformou a história de Imhotep em uma aventura movimentada como Indiana Jones. O sucesso, que teve Brendan Fraser, Rachel Weisz e Arnold Vosloo como Imhotep, levou em pouco tempo à sequencia “O Retorno da Mumia” (The Mummy Returns) de 2001 que, alguns não lembram foi o debut cinematográfico do hoje astro Dwayne Johnson, este no papel do escorpião rei. Ainda houve o tardio “A Mumia: A Tumba do Imperador Dragao” (2008), muito fraco e já sem nenhum atrativo para manter o interesse do público com uma incursão pela China (lembrando que os chineses não mumificavam seus mortos). Mesmo com a inclusão do popular astro de artes marciais Jet Li, o filme deixa a desejar.

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SOFIA BOUTELLA

            A nova versão do monstro com Sofia Boutella e Tom Cruise mostra que o antigo Egito continuará a assombrar as telas com suas maldições, mas muito longe de chegar perto da inocente medo que figuras como Karloff, Chaney e Lee conseguiram imprimir na memória do cinema, em preto em branco ou em cores, mas empoeirado com milênios de tradição do que já foi o horror nas telas.

UNIVERSO DE MONSTROS

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         Quando Criança meu universo compartilhado de monstros era assistir a sitcom “The Munsters” (1964-1966) que trazia Fred Gwynne e Yvonne DeCarlo como um simpático casal, ele a criatura de Frankenstein e ela uma vampira, filha do próprio Drácula, um vovô bonachão, interpretado por Al Lewis. Tempos mais inocentes quando os monstros clássicos dos filmes de terror já não assustavam tanto. Nos primórdios do cinema, no entanto, a casa destes era o estúdio da Universal que tornou-se especialista em dar forma aos pesadelos do inconsciente humano.

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FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEN

            A frase “Bem vindo a um mundo novo de deuses e monstros” que agora anuncia a chegada do “Dark Universe” do estúdio na verdade é uma retomada pois o estúdio, na ativa desde a era do cinema mudo, já investira no passado na ideia de um universo compartilhado. Nomes como Lon Chaney (pai e filho), Boris Karloff e Bela Lugosi formavam um elenco talentoso na arte de explorar o medo, mais sugerido que explicito. Entre 1923, data da primeira filmagem de “O Corcunda de Notre Dame” com Lon Chaney até o final da década de 50, o Universal Studios chefiada por Carl Laemmle soube se especializar em filmes de custo baixo mas que davam grande retorno de bilheteria durante os loucos anos vinte (os chamados roaring twenties) criando uma reputação que continuou a explorara em meio aos difíceis anos da grande depressão que se seguiu. A Universal foi o primeiro estúdio a investir em sequências, muitas das vezes reaproveitando cenários, tomadas e falas, se beneficiando do talento desses atores, diretores como Tod Browning e James Whale e da habilidade do maquiador Jack Pierce para moldar personagens saídos dos pesadelos mais sombrios. A Universal deu vida a Drácula, Frankenstein, lobisomem, múmia e várias outras criaturas que se popularizaram com um público que encontrava deleite nas sombras da alma humana representadas em preto e branco, herdeiros das lições do expressionismo cultivadas por Murnau e Lang.

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A CASA DE FRANKENSTEIN

          A ideia de juntar mais de um monstro em um único filme surgiu quando, depois de 4 filmes de Frankenstein (os três primeiros com a criatura interpretada por Boris Karloff) o roteirista Curt Siodmark sugeriu ao produtor  George Wagner que fizessem “Frankenstein meets the Wolfman”, recebendo sinal verde para o projeto que veio a ser dirigido por Roy William Neill e lançado em 1943. O filme mostra Larry Talbot (Lon Chaney Jr) procurando uma cura para sua maldição e se confrontando a criatura de Frankenstein interpretada por Bela Lugosi, que fica em cena apenas por pouco mais de cinco minutos sendo ocasionalmente substituido por um dublê devido a problemas de saúde. O filme funcionou como uma sequência tanto para os eventos mostrados em “O Lobisomen” de 1941 como em “A Alma de Frankenstein” (The Ghost of Frankenstein) de 1942. Para atrair o público, o estúdio anunciou o nome de Lon Chaney, sem o Jr, para confundir a todos já que o nome de Lon Chaney pai (falecido em 1930) ainda era então extremamente conhecido. A ideia inicial era de ter Chaney filho fazendo tanto o papel do lobisomen como do monstro de Frankenstein, mas deixada de lado já que falamos de décadas anteriores à tecnologia digital. O resultado satisfatório animou a Universal a reunir mais monstros, o que levou à realização de “A Casa de Frankenstein” (The House of Frankenstein) de 1944. Neste novo exemplar, Boris Karloff retorna ao universo de monstros mas como o cientista louco que manipula Dracula (John Carradini), o monstro de Frankenstein (o ex cowboy Glenn Strange) e o Lobisomen (Chaney Jr) para se livrar de seus desafetos. Originalmente, a múmia Kharis seria incluída no filme, mas por motivos de orçamento ficou de fora. Mesmo as cenas com Drácula acabaram sendo filmadas em separado sem que este contracenasse com o lobisomen de Chaney e o Frankenstein de Strange. O filme ainda incluiria a figura do corcunda apaixonado (J.Carrol Nash) por uma dançarina cigana (Elena Verdugo) emulando a narrativa de “O Corcunda de Notre Dame”, embora não sejam os mesmos personagens. A Segunda Guerra se aproximava de seu fim, mas o público vivia a incerteza desta e de suas consequências. O ciclo da Universal oferecia a catarse ideal para esse medo real, palpável e o estúdio soube como tirar proveito disso levando a “A Casa de Drácula” (The House of Dracula) de 1945 reunindo esse “Nightmare Team” uma última vez, desta vez sem Karloff que teve o personagem substituído por outro cientista, o Dr.Edelmann (Onslow Stevens) a quem Drácula e Larry Talbolt procuram em busca de uma cura. O filme incluiu uma novidade na figura de uma mulher corcunda, Nina (Jane Addams). O filme também marcou a última aparição de Lon Chaney Jr sob contrato com a Universal, embora o ator tenha voltado ao papel mas na comedia “Abbot & Costello Meet Frankenstein” (1948) que reuniria além do próprio Bela Lugosi como Dracula e Glenn Morgan como Frankenstein.

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A CASA DE DRÁCULA

         Quando a década de 50 chegou o interesse dos estúdios passou a ser filmes de monstros do espaço e discos voadores, o que deixou os monstros clássicos de lado mas não esquecidos graças à iniciativa da Universal de levá-los para a Tv como um pacote de filmes  que foi apresentado a uma nova geração de jovens que redescobriu os mestres do pavor sobrenatural. Provando que estes sempre renascem, o estúdio promete novas versões em filmes interligados, reintroduzindo o conceito para uma geração acostumada a jogos de vídeo game e filmes de super heróis. Como promete o slogan, um mundo – não tão novo assim – de deuses, monstros e efeitos digitais modernos.

HALLOWEEN 2015 : PARTE 1 – VAMPIROS

A PARTIR DESSA SEMANA PUBLICAREI DURANTE O MÊS DE OUTUBRO ARTIGOS SOBRE TEMAS RELATIVOS AOS FILMES DE TERROR COMO CELEBRAÇÃO DO HALLOWEEN DESSE ANO. O PRIMEIRO TEMA A SER PUBLICADO É SOBRE AS FAMIGERADAS, PORÉM SEDUTORAS CRIATURAS DA NOITE. VEJAMOS UM POUCO SOBRE A NATUREZA DE SEUS HÁBITOS E EM SEGUIDA UMA SELEÇÃO DOS MELHORES FILMES DO GÊNERO:

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HISTÓRIAS DE VAMPIROS SÃO, NA VERDADE, ANTERIORES AO ROMANCE “DRÁCULA” DE BRAM STOKER, QUE FOI PUBLICADO EM 1897. NAQUELE FINAL DO SÉCULO XIX, O CONTINENTE EUROPEU JÁ COLECIONAVA DIVERSOS RELATOS DESAS CRIATURAS NOTÍVAGAS QUE SE LEVANTAVAM DE SUAS TUMBAS PARA SE ALIMENTAR DE SANGUE HUMANO. EM UMA ÉPOCA DE MUITA SUPERSTIÇÃO E REPRESSÃO SEXUAL, O VAMPIRO SURGIA COMO A PERSONIFICAÇÃO DE UMA CONDUTA LASCIVA, METÁFORA PARA O SEXO FORA DO CASAMENTO. A MORDIDA NO PESCOÇO GUARDA CONOTAÇÕES DE SEDUÇÃO QUE SUGEREM O ORGASMO E O DESEJO INCONTIDO DE PRAZER CARNAL. ALÉM DISSO, O VAMPIRO TAMBÉM É UM REBELDE POIS DESAFIA AS LEIS DE DEUS: VIVE ETERNAMENTE E SE MANTEM JOVIAL COM SUA RIGOROSA DIETA A BASE DE SANGUE. HOUVE QUEM SEGUISSE TAL NOÇÃO AO PÉ DA LETRA COMO A LENDÁRIA CONDESSA HÚNGARA ELIZABETH BATHORY(1560 – 1614 ), QUE OBCECADA PELA BELEZA ETERNA, COMETEU CRIMES HEDIONDOS, VINDO A SE BANHAR NO SANGUE DE BELAS VIRGENS, MOTIVO PELO QUAL ESTA FICOU CONHECIDA COMO “CONDESSA DRÁCULA”. SUA HISTÓRIA SERVIU DE INSPIRAÇÃO PARA O ESCRITOR IRLANDÊS JOSEPH SHERIDAN LE FANU ESCREVER SEU ROMANCE “CARMILLA“, PUBLICADO EM 1872, E QUE TAMBÉM INICIOU A CONOTAÇÃO DE QUE O VAMPIRISMO NÃO ESTAVA PRESO A HETEROSEXUALIDADE, SUGERINDO LESBIANISMO, OUTRA CONDUTA IGUALMENTE ESCANDALOSA PARA A SOCIEDADE EUROPÉIA DE ENTÃO. NA LITERATURA, E DEPOIS NO CINEMA, O FIGURA DO VAMPIRO EVOCOU A SEDUÇÃO E O MEDO, A VIDA ETERNA E A MORTE. SE DRÁCULA TORNOU-SE SINÔNIMO DE VAMPIRISMO, TAMBÉM ESTABELECEU OS CÂNONES DO GÊNERO : A ESTACA NO CORAÇÃO, O DOMÍNIO SOBRE AS CRIATURAS DA NOITE ENTRE OUTROS. AINDA EM 1927, O CINEASTA ALEMÃO F.W.MURNAU FEZ UMA ADAPTAÇÃO NÃO OFICIAL E QUE GANHOU IDENTIDADE PRÓPRIA NO GÊNERO: “NOSFERATU” TRANSFORMANDO A SEDUÇÃO EM REPULSA, DESTILANDO MEDO E INCORPORANDO TODA UMA ESTÉTICA ARTÍSTICA QUE FARIA HISTÓRIA. MUITOS ANOS DEPOIS, O ESCRITOR NORTE AMERICANO PUBLICOU, EM 1975, “A HORA DO VAMPIRO” (SALEM’S LOT). FOI SEU SEGUNDO LIVRO DECLARADAMENTE INSPIRADO NO LIVRO DE BRAM STOKER. A NORTE-AMERICANA ANNE RICE EXPLOROU NOVAS FRONTEIRAS DO VAMPIROS QUANDO CRIOU O VAMPIRO LESTAT , E EM 1976, PUBLICOU “ENTREVISTA COM O VAMPIRO” (INTERVIEW WITH THE VAMPIRE) QUE GEROU UMA LEGIÃO DE FÃS, CONQUISTADOS AO LONGO DE UMA SÉRIE DE LIVROS DO GÊNERO. MENOS CONHECIDO DO PÚBLICO BRASILEIRO, MAS BASTANTE INTERESSANTE É O EDITOR E JORNALISTA AMERICANO MICHAEL ROMKEY, QUE PUBLICOU EM 1990 “i VAMPIRE“, ONDE UM HOMEM DESILUDIDO REDESCOBRE UM SENTIDO MAIOR PARA SUA VIDA AO SE APAIXONAR POR UMA VAMPIRA. ROMKEY POSTULA QUE VÁRIAS FIGURAS HISTÓRICAS COMO O RUSSO RASPUTIN E JACK O ESTRIPADOR SÃO VAMPIROS. O SUCESSO DESSE LIVRO LEVOU TAMBÉM A UMA SÉRIE LITERÁRIA BEM SUCEDIDA. VEJAMOS ABAIXO, UMA LISTA DE FILMES MEMORÁVEIS SOBRE ESSES FASCINANTES SUGADORES DE SANGUE QUE INFLAMAM A IMAGINAÇÃO DOS APRECIADORES DO GÊNERO :

1- HORROR DE DRÁCULA (1958) – FOI O PRIMEIRO FILME DE DRÁCULA ESTRELADO PELO SAUDOSO CHRISTOPHER LEE, CONHECIDO PELA NOVA GERAÇÃO COMO O SARUMAN DE “O SENHOR DE ANÉIS” & “O HOBBIT”. LEE SUPEROU A JÁ EXCELENTE ATUAÇÃO DE SEU ANTECESSOR NO PAPEL (BELA LUGOSI). A PRDUTORA HAMMER CRIOU UMA VERDADEIRA DINASTIA DE FILMES DE TERROR E O MESTRE LEE UM DOS SEUS MAIORES EXPOENTES. COM POUCAS PALAVRAS E SEM CONTAR COM GRANDES EFEITOS, SUA ATUAÇÃO É ASSUSTADORAMENTE PERFEITA. COM SEU OLHAR E POSTURA ARISTOCRÁTICA, NADA MAIS É NECESSÁRIO.

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2- DRÁCULA DE BRAM STOKER (1990) – É A MAIS PRÓXIMA ADAPTAÇÃO DO ROMANCE DE STOKER, MAS AINDA REINVENTA ALGUMAS PASSAGENS. GARY OLDMAN ESTÁ EXCELENTE NO PAPEL E A DIREÇÃO DE COPPOLA SOUBE COMO CONDUZIR A HISTÓRIA TIRANDO A ESSÊNCIA DAS PALAVRAS DE STOKER E TRADUZINDO-AS EM IMAGENS.

BSTOKER

3- A HORA DO ESPANTO (1985) -ESQUEÇA A REFILMAGEM DE 2011, O FILME DIRIGIDO POR TOM HOLLAND COM RODDY MCDOWALL E CHRIS SARANDON AINDA É MELHOR.

FRIGHTNIGHT

4- NOSFERATU (1979) – O DIRETOR ALEMÃO WERNER HERZOG CONSEGUIU A DIFICIL TAREFA DE ADAPTAR O FILME DE MURNAU. IMAGENS E CONTEUDO CAPAZ DE INTERESSAR MESMO AO NÃO AFICCIONADOS PELO GÊNERO.

NOSFERATU

5- DEIXE-ME ENTRAR (2011) – MATT REEVES REFILMOU A PRODUÇÃO SUECA QUE ADAPTAVA O LIVRO DE JOHN LINDQUIST SOBRE UMA NOVEMN VAMPIRA E SUA AMIZADE COM UM MENINO QUE SOFRE BULLYING NA ESCOILA. INTERESSANTISSIMO E BEM ATUADO PELA OTIMA CHLOE GRACE MORETZ.

DEIXE

OUTRAS SUGESTÕES :

DRÁCULA A HISTÓRIA NÃO CONTADA (2014), OS GAROTOS PERDIDOS (1987), VAMPIROS DE JOHN CARPENTER (1995), SOMBRAS DA NOITE (2013), ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994), A SOMBRA DO VAMPIRO (2013)  E VOCÊS QUAL SEU FILME FAVORITO SOBRE VAMPIROS ?

BOND 9 – 007 CONTRA O HOMEM DA PISTOLA DE OURO

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O 9º filme da série 007 é o 13º livro escrito por Ian Fleming, publicado postumamente já que o autor falecera em Agosto de 1964, oito meses antes do lançamento do livro que foi finalizado por um autor fantasma, segundo algumas fontes. A história também foi completamente modificada na adaptação escrita por Richard Maibaum e Tom Mankiewics que praticamente só aproveitaram o nome do livro e o nome dos personagens principais, alterando tudo.

No livro, que dá sequência aos eventos de ” A Morte no Japão ” (o livro que gerou “Com 007 Só Se Vive Duas Vezes”) um Bond desmemoriado sofre lavagem cerebral e é enviado de volta a Londres programado para matar M. Bond é preso e desprogramado, mas perde a confiança de seus superiores. Para provar seu valor, Bond é enviado de volta a Jamaica com a missão de matar Francisco Scaramanga, cuja organização está envolvida com tráfico de drogas, rede de prostituição e um mirabolante plano para desestabilizar a economia ocidental. O tom do livro é extremamente sério com traição, conspiradores e Bond tendo que provar seu valor ao seu governo e  para si mesmo, contando com a ajuda de seu amigo da CIA Felix Leiter (retirado da história na adaptação para o cinema) e a Bond girl Mary Goodnight, que aparece em outros livros de Fleming como a secretária pessoal de Bond.

007 GOLDEN GUN

No filme, o antagonismo entre Bond e Scaramanga se resume a uma rivalidade superficial para saber quem é o melhor em seu ofício: matar. Scaramanga tem um assistente, o pequeno Nick Nack (Herve Villecheize o Tattoo da “Ilha da Fantasia”) que não existe no livro. No filme, os roteiristas ainda inventaram uma fonte de energia solar transformada por Scaramanga em uma arma mortífera. Além de Goodnight, Bond corteja a bela Andrea Anders, amante de Scaramanga, interpretada pela atriz Maud Addams, que seria a principal Bond girl 10 anos depois em “007 Contra Octopussy” . A trama extremamente rasa mesmo se tratando de um filme de ação descamba para um humor forçado com a volta do Xerife Pepper (Clifton James) que aparecera no filme anterior. Outra modificação no filme foi a transferência da ação da Jamaica (no livro) para a Tailândia.

As filmagens foram atribuladas para o diretor Guy Hamilton em seu 3º e último filme da série. Este, segundo o próprio Roger Moore, queira um tom mais sério para a trama e desejava ver um Bond mais seco e frio o que deixava Moore descontente. O papel de Scaramanga (o assassino com três mamilos, anomalia genética rara porém real) foi oferecido inicialmente a Jack Palance (Acredite se quiser, lembram ?) antes de Christopher Lee (recentemente falecido) que obteve fama mundial como Drácula, e que era na vida real primo de Ian Fleming. A sueca Britt Ekland (na época casada com Peter Sellers) foi contratada para o papel que ficou com Maud Addams, mas Guy Hamilton mudou de ideia quando viu fotos de Britt Ekland de bikini. O filme foi a primeira aventura de Bond exibida na Russia e marcou o fim da parceria entre Broccoli & Saltzman, já que este passava por sérios problemas financeiros e precisou vender sua parte na sociedade.

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Embora seja um filme fraco, ainda tem a curiosidade de assistir o sempre ótimo Christopher Lee no papel de vilão. Lamenta-se que os produtores deixaram muita coisa do material original de Fleming de fora e mesmo a questão energética abordada é por demais superficial e não sustenta a trama adaptada. Com todos os problemas das filmagens, Brocolli retardou o inicio do filme seguinte em quase três anos. É claro essa já é outra história.

JAMES BOND RETORNA AO BLOG NA PRÓXIMA SEMANA COM “007 O ESPIÃO QUE ME AMAVA”.

IN MEMORIAN : CHRISTOPHER LEE

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Conheci meu mestre Christopher Lee ainda criança quando em uma dessas situações raras consegui ludibriar minha mãe para assistir na TV Tupi (Acho) ao filme “Horror of Dracula” de 1958. Era a primeira atuação do grande ator como o conde vampiro da Transilvania. Marcou toda uma geração. Bela Lugosi era muito bom como Dracula, mas Christopher Lee foi além pois acrescentava sedução em sua representação. Christopher Lee seduzia suas vítimas e os telespectadores que o assistiam mostrar as presas ensanguentadas e os olhos vermelhos (foi o primeiro intérprete de Drácula a fazer isso). Lembro de comprar a revista “Cine Mistério” edição 4 que trazia artigo e fotos sobre Lee e o filme. Pronto, me tornei ali seu discipulo. Naquela época os filmes produzidos pela Hammer, maioria dos quais eram estrelados por Christopher Lee e Peter Cushing, eram comumente exibidos na TV e eu assistia a todos quanto pudesse. Sir Christopher Frank Carandini Lee, nasceu em 22 de Maio de 1922 em Londres, Inglaterra. Começou usa carreira em 1948 no filme “Corridor of Mirrors” (Escravos do Passado) tendo tido uma pequena passagem pela TV britânica antes. Em 1957 foi chamado para o papel da criatura do Dr. Victor Frankenstein (Peter Cushing) quando a Hammer Films começou a revigorar os monstros sagrados do gênero terror. No ano seguinte, estrelou como Dracula repetindo o papel em seis sequências. Sua carreira, no entanto, foi muito além dos filmes de terror. Lee foi a múmia, Sherlock Holmes, Fu Manchu, Conde Rochefort (na versão setentista de Os Três Mosqueteiros), entre tantos outros.

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Sua voz grave, seu olhar penetrante e sua fleuma britânica foram apresentados a uma nova geração no final da década de 90 quando Tim Burton lhe entregou uma participação especial em “A Lenda do cavaleiro sem cabeça” (Sleepy Hollow). Burton voltou a trabalhar com  Lee em outros projetos e nesse meio tempo Lee trocou os poderes vampíricos pelo lado negro da força como Conde Dookan em “Star Wars Episode II O Ataque dos Clones” em 2003. Já havia filmado com Peter Jackson também no papel do mago Saruman na trilogia “O Senhor dos Anéis” e, recentemente também na trilogia “O Hobbit” . Lee era o únicio ator a ter lido os livros de Tolkien e a tê-lo conhecido brevemente. Lee era formado em Literatura, adorava Heavy Metal e chegou a gravar um disco.

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Poucos sabem que Christopher Lee era primo de segundo grau do escritor Ian Fleming, o criador de James Bond. Ele inclusive foi a escolha inicial para viver o Dr.No, mas o papel foi para Joseph Wiseman. Contudo, Lee veio a ter a oportunidade de trabalhar em uma outra adaptação de Fleming em 1974 em “007 Contra o Homem da Pistola de Ouro”, onde viveu o assassino Scaramanga cujo propósito é matar Bond. Sua morte noticiada nesta quinta feira por sua esposa deixou o mundo das artes mais pobre. Até mesmo o escritor Paulo Coelho e o crítico de cinema Rubens Ewald Filho são fãs do ator britânico que na vida real lutou contra os nazistas na Segunda Guerra e na ficção era muitos. Eu serei sempre seu Reinfield. Saudades eternas do maior Dracula do cinema. Que descanse em paz

CLee Saruman