40 ANOS DE SAUDADES DE SPENCER TRACY – UM TALENTO NATURAL

spencer-tracy-9509626-1-402

     Uma das lembranças mais antigas que tenho dos filmes que assisti em minha infância é a imagem de um pescador português humanizando um menino resgatado do mar. Na ocasião, com nove ou dez anos, eu não sabia que aquele ator formidável, dono de um sorriso que irradiava dignidade, já havia falecido. Sei hoje que minha cinefilia foi enriquecida por ter conhecido o pescador Manuel, o padre Flanagan, o advogado Adam Bonner, o ciumento papai Stanley, um velho pescador, o homem de um braço só, todos … Spencer Tracy.

marujo

Marujos Intrepidos

 

         Spencer Bonaventure Tracy costumava dizer que atuar não era tão importante (Acting is not an important job in the scheme of things) e ainda assim fazia de cada personagem uma imagem marcante e envolvente como o piloto que se torna um anjo da guarda em “Dois no Céu” (A Guy Named Joe)  de 1943 – refilmado por Steven Spielberg em 1989 ou o dicotômico Jekyl/Hyde em “O Médico & O Monstro” (Dr.Jekyl & Mr.Hyde) de 1941. Tinha um espírito aventureiro e indomável desde criança quando por volta dos sete anos fugiu de casa para brincar no outro lado da cidade, na qual nasceu em 5 de Abril de 1900. Aos 17 tentou se alistar para lutar na Primeira Guerra, mas foi recusado pela idade. Voltou a insistir pouco depois e ingressou na Marinha ao lado do amigo Pat O’Brien, que também se tornou ator. Contudo, nenhum dos dois conseguiu lutar no front, ficando em postos no pátio naval da Virginia.

tracy oscar

Spencer Tracy & Bette Davis recebem o Oscar

           Depois de ter dado baixo no serviço militar, descobriu a arte dramática conseguindo a principio papéis em peças universitárias ainda durante o tempo em que cursou Medicina na Reppon College. Tendo despertado o prazer pela atuação, deixou o curso de Medicina e se juntou a companhias teatrais durante os loucos anos 20, período em que conheceu sua esposa Louise Treadwell já estabelecida nos palcos. Casaram-se em Setembro de 1923 e tiveram dois filhos.

tracy family

A Familia Tracy: Spencer, a filha Susam, a esposa Louise e o filho John Tracy

           O espírito de coragem indômita, ele demonstrou fosse como o aventureiro Stanley em “As Aventuras de Stanley & Livingstone” (Stanley & Livingstone) em 1939 ou o marinheiro Manuel em “Marujos Intrépidos” (Captain Courageous) em 1937, este sendo o papel que lhe deu o primeiro de dois Oscars. A primeira vez não esteve presente na cerimônia pois estava hospitalizado. No ano seguinte repetiu o feito ao interpretar o Padre Flanagan em “Com Os Braços Abertos” (Boys Town) se tornando o primeiro ator a ganhar como melhor ator em dois anos consecutivos, mérito só igualado por Tom Hanks 58 anos depois. Tracy também se tornou um dos 18 atores a terem sido premiados por um personagem da vida real enquanto este ainda vivia, no caso o Padre Flanagan, que criou uma comunidade para ajudar a tirar garotos da deliquência juvenil. Feito admirável que Spencer julgava uma honra e uma responsabilidade para interpretar.

           A carreira cinematográfica do ator começou quando John Ford o assistiu em uma montagem da Broadway, partindo daí um convite para se juntar ao elenco de “Up The River” (1930), que também foi o primeiro filme de outra lenda de Hollywood, Humphrey Bogart. Este foi um entre vários amigos que Spencer Tracy encontrou em sua carreira. O mesmo ocorreu com Clark Gable com quem dividiu a cena em três filmes, sendo o mais memorável deles “San Francisco – A Cidade do Pecado” (San Francisco) de 1935, sua primeira indicação ao Oscar, com apenas 17 minutos em cena.  Dizem que Tracy se ressentia de sempre ficar em segundo plano na história sendo Gable o galã que sempre ficava com a moçinha.

Spencer Tracy e Kate

Spencer Tracy & Katherine Hepburn

          Foi a partir de “Fúria” (Fury), realizado no mesmo ano, que o público passou a ver do que Tracy era capaz. A história mostrava um homem pacato que sobrevivia ao próprio linchamento tornando-se amargo e vingativo. Era a estreia do renomado Fritz Lang (Metrópolis) em Hollywood e Tracy não se deu bem com o diretor, chegando a desafiar sua ordens no set quando Lang se recusava a dar um intervalo para o almoço.

           Em 1941 durante as filmagens de “A Mulher do Ano” (Woman of the year), o talentoso ator fez o primeiro de 9 filmes com a atriz Katherine Hepburn. Reza a lenda que ela teria dito “Receio que eu seja um pouco alta para o senhor Mr. Tracy ”. Este prontamente teria respondido “Não se preocupe, vou adaptá-la ao meu tamanho …” Assim começou uma lendária história de amor que o cinema registrou em títulos como “A Costela de Adão” (Adam’s Rib) de 1949, “Amor Eletrônico” (Desk Set) de 1957, “Mulher Absoluta” (Pat & Mike) de 1952 entre outros. Spencer nunca se divorciou de Louise, vivendo com Hepburn o romance adúltero mais incomum do cinema, já que era velado, vivido debaixo dos narizes dos tabloides sensacionalistas. Longe das câmeras o ator vivia um drama pessoal com seu filho mais velho. Tracy e Louise tiveram John Tracy e Susan, sendo que o primogênito perdeu a audição assim que nascera em 1924. Louise abandonou a carreira de atriz, aprendeu a ler lábios e ensinou a técnica ao menino. Em uma época em que não havia nenhum avanço significativo para auxiliar os deficientes auditivos, Spencer e sua esposa criaram a “John Tracy Clinic” em 1943 ajudando pais com filhos surdos, ajudando a desenvolver técnicas de ensino e posteriormente inaugurando um programa para ensinar crianças surdas. A clínica está atuante até hoje e sua atividade pode ser acompanhada on-line no site http://jtc.org/. Tracy garantia as doações de seu cachês e Louise cuidava das necessidades especiais de seu filho com igual dedicação ao lugar. O ator reconhecia a importância do trabalho de Louise e dizia que não havia comparação entre este e seus filmes. Além de Hepburn, conta-se que o ator manteve casos com as atrizes Loretta Young e Gene Tierney. O alcoolismo parecia ser a penitência que pagava pela infidelidade e pela vergonha que Louise passava. A Diabetes era o calcanhar de Aquiles que nos anos que se seguiram lhe minariam a saúde.

               Ainda digno de nota é o papel do investigador solitário de um braço só que chega a uma cidade pequena cheia de segredos em “Conspiração do Silêncio” (Bad Day at Black Rock) de 1955, último filme que fez para a MGM, estúdio para o qual trabalhou por 20 anos. A versatilidade era uma marca indelével no talento de Spencer Tracy, transitando por papéis diversos como o western “A Lança Partida” (Broken Arrow) de 1954, a comédia em “O Papai da Noiva” (Father of the Bride) de 1950, ou o drama “O Velho & O Mar” (The Old Man & The Sea) de 1957. Mesmo envelhecido, Spencer conseguia ser incrivelmente natural qualquer fosse o personagem que interpretasse. Nunca ensaiava, raramente repetia tomadas e lia seu texto pouco antes de começar as filmagens graças a uma notável capacidade de memorização.

            Por volta de 1963 sofreu um ataque cardíaco que o forçou a reduzir os trabalhos. Mesmo assim chegou a ser convidado para viver o vilão Pinguim na série do Batman, antes do papel ser entregue a Burguess Meredith. Teria dito que somente aceitaria se pudesse matar o Batman. Seus últimos filmes tiveram a direção de Stanley Kramer como o juiz no filme de tribunal “Julgamento em Nuremberg” (Judgement at Nuremberg) de 1961, o advogado que defende um professor que ensinou a teoria de Darwin em “O Vento será Tua Herança” (Inherint the Wind” de 1960, voltou a fazer comedia em “Deu a Louca no Mundo” (It’s a Mad Mad World) de 1963 e , enfim seu canto do cisne novamente dividindo a cena com Katherine Hepburn em “Advinhe quem vem para Jantar” (Guess who is coming to dinner) de 1967. Neste, Spencer faz um comovente discurso anti-racista cujas palavras ecoam até hoje a quem assiste o filme e nota, inclusive, Hepburn visivelmente emocionada. O filme foi lançado postumamente, bem como sua ultima indicação ao Oscar pelo papel do liberal Matt Drayton. Em seu funeral Katherine Hepburn não compareceu em respeito a Louise, a viúva dele.

            Em minha memória ficaram lembranças de um ator vigoroso que fazia tudo com naturalidade invejável. Um dos maiores atores de todos os tempos em uma filmografia de mais 70 títulos, dentre os quais até hoje me faz repetir o mesmo grito emocionado … MANOEL, MANOEL !!! Eu também fui humanizado por ele, que nunca escondeu suas falhas, nunca se supervalorizou, dizia como conselho “Decore suas falas e nunca esbarre na mobília”. Sua única pretensão, enfim, era de ser humano. Para mim foi sempre Intrépido.

Anúncios

GALERIA DE ESTRELAS : GRACE KELLY

Grace_Kelly_1

Com uma breve carreira construída ao longo de 5 anos e 11 filmes, Grace Patrick Kelly marcou sua passagem no mundo com sua sofisticação, beleza e carisma com a qual seduziu o público. Nascida  em 20 de Novembro de 1928, filha de um campeão olímpico de remo e uma instrutora de educação física , Grace tinha o porte esbelto, rosto de traços suaves e uma elegância que parecia prever seu futuro junto a aristocracia.

Grace_Kelly_1956

Grace foi modelo, mas sua paixão era por atuar, tendo trabalhado nos palcos, na TV e finalmente nos cinemas onde estreou em 1950 em “Horas Intermináveis” (Fourteen Hours). O papel era pequeno e inexpressivo, mas chamou a atenção de Gary Cooper que a indicou para o diretor Fred Zinnerman que lhe deu o papel de inconformada noiva do xerife Will Kane (Cooper) no clássico “Matar ou Morrer” (High Noon). Aos 23 anos, sua beleza chamou a atenção, levando ao convite para trabalhar com John Ford em “Mogambo” contracenando com Clark Gable e Ava Gardner. O papel de Linda Nortley foi inicialmente oferecido a Gene Tierney, antes de Grace que conseguiu aí sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz. Embora não tenha ganhado, Grace mostrou que era bem mais que uma bela mulher e que sabia se entregar a um papel e explorá-lo dramaticamente. Indagada na ocasião do porquê de ter aceito o papel, a atriz declarou que era a oportunidade ideal de conhecer a África, local das filmagens, e ainda trabalhar ao lado de Clark Gable. Na época, diversas histórias de envolvimento amoroso ligaram o nome de Grace a seus co-astros Gary Cooper e Clark Gable.

Ladrão de Casaca

Ladrão de Casaca

Em 1954 sua carreira ganhou um impulso e tanto ao ser contratada para “Disque M Para Matar” (Dial M For Murder) de Alfred Hithcock. O mestre do suspense encontrou em Grace uma musa capaz de seduzir o público e Grace teve em Hitch um amigo e mentor com o qual voltaria a trabalhar mais duas vezes. Novamente, outros rumores de bastidores apontavam um romance entre Grace e Ray Milland, alimentando as revistas de fofoca. De acordo com o Paul Westran, autor do livro “When Stars Collide”, Grace Kelly teve vários relacionamentos amorosos incluindo com Bing Crosby e William Holden, seu par romântico em “As Pontes de Toko RI” (The Bridges of Toko Ri) de 1954.

Mogambo

Mogambo

No mesmo ano, deu vida a Lisa Fremont, a noiva de James Stewart em “Janela Indiscreta” (Rear Window), que hoje se tornou um dos maiores clássicos do cinema em uma história de voyerismo e rejeição. L.B. Jeffries (Stewart) tinha Lisa (Kelly) mas preferia observar a vida alheia pela objetiva de sua câmera. O próprio James Stewart, tempos depois, dissera que Grace era uma dama, gentil com todos no set de filmagem e incrivelmente linda, atraindo a atenção de todos por onde passava. Grace elogiou o colega também em uma entrevista em que afirmava que achava James Stewart era o homem mais viril que conhecera. Depois de ter sido indicada várias vezes ao BAFTA (o Oscar Inglês), ganhado o Golden Globe de melhor atriz coadjuvante por “Mogambo” e o New York Film Critics Circle Awards, a estatueta do Oscar finalmente foi para as mãos de Grace em uma situação surpreendente: Em 1955, Judy Garland era a favorita para o prêmio de melhor atriz por “Nasce Uma Estrela” (A Star Is Born) enquanto Grace concorria  por “Amar é Sofrer” (The Country Girl), adaptação da peça de Clifford Odets. Nele, Grace interpreta a sofrida esposa de um ator alcoólatra interpretado por Bing Crosby. A vitoria de Garland era tão esperada que uma equipe da NBC foi enviada ao quarto de hospital em que Garland  estava internada para uma entrevista ao vivo. No momento em que a vitória de Grace Kelly foi anunciada, o constrangimento de Judy Garland ganhou transmissão nacional.

Alta Sociedade

Alta Sociedade

O trabalho seguinte da atriz foi se reunir com Alfred Hithcock em “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief) fazendo uma jovem milionária alvo da atenção do renomado ladrão de joias Johf Robbie, vulgo “O Gato”, interpretado por Cary Grant. As filmagens na Riviera Francesa a levaram a um vislumbre do que viveria na vida real. No mesmo ano, ela foi convidada pelo governo francês  para o Festival de Cannes onde conheceu o Príncipe Rainier de Mônaco. Tempos depois, Rainier a pediria em casamento o que a levou a abdicar de uma promissora carreira. Grace Kelly atuou pela última vez ao lado de Frank Sinatra e Bing Crosby em “Alta Sociedade” (High Society) em 1956, uma refilmagem musical da peça de Philip Barry “Nupcias de Escândalo” (The Philadelphia Story) onde Grace canta a belíssima “True Love” de Cole Porter. Rainier e Grace se casaram em 18 de Abril de 1956, um evento que parecia tornar real os contos de fadas. O casal teve três filhos: Carolina, Albert e Stephanie. A vida no palácio, contudo, estava longe de ser um conto de fadas, principalmente no período retratado no filme “Grace de Mônaco” que retrata uma crise política no principado de Mônaco quando o Presidente francês Charles DeGaulle ameaçou invadir Mônaco se este não pagasse um aumento substancial de impostos. A atuação diplomática de Grace foi fundamental para a solução da crise. Apesar de convidada por Hithcock (apaixonado pela musa perdida) para o papel de protagonista de “Marnie, confissões de uma ladra” (Marnie), Grace jamais voltou a atuar novamente. Seus filmes eram proibidos em Mônaco, mas a princesa também teve um admirável trabalho humanitário usando de seu prestígio e do poder da aristocracia para obras beneficientes.

gable e kelly

O fim prematuro veio em um acidente automobilístico em Monte Carlo, Mônaco em 14 de Setembro de 1982 quando seu carro caiu de um despenhadeiro. A colisão lhe causou um derrame cerebral que lhe tirou a vida aos 52 anos. Rumores apontavam que o carro estava sendo guiado por sua filha Stephanie, mas jamais houve confirmação do fato. Ainda lembrada por sua beleza, talento e humanidade, Grace Kelly foi a personificação de uma estrela em todos os sentidos, inclusive no brilho intenso que se apagou cedo demais. Em 1983, a atriz Cheryl Ladd a interpretou em um filme feito para a TV e agora Nicole Kidman tenta nos trazer um vislumbre de uma princesa que nem mesmo a morte apagará de nossos corações.