IN MEMORIAN : ADAM WEST

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MINHA MÁSCARA E CAPA JÁ SE PERDERAM FAZ MUITO TEMPO. EU TINHA UNS NOVE OU DEZ ANOS E VIVIA PULANDO NO SOFÁ DE CASA, SOCANDO AS ALMOFADAS COMO SE ESTAS FOSSEM O CORINGA OU O CHARADA E BEIJANDO UMA OUTRA COMO SE FOSSE A JULIE NEWMAR. CERTAS COISAS NÃO SE ESQUECEM E A INOCÊNCIA DE OUTRORA CULTIVAMOS EM NOSSA MEMORIA AFETIVA. DIGO ISSO PORQUE ESTOU MUITO TRISTE COM A MORTE ANUNCIADA ONTEM DO ATOR ADAM WEST, O BATMAN DE MINHA, DE NOSSA INFÂNCIA. SANTA SAUDADE DESSE ATOR QUE DURANTE UM LONGO TEMPO FOI A ENCARNAÇÃO DO CRUZADO EMBUÇADO IMAGINADO POR BOB KANE. A SÉRIE DE TV PRODUZIDA DE 1966 A 1968, EMBALADA PELO CONTAGIANTE TEMA DE NEAL HEFTI, FOI LEVADA AO CINEMA EM 1967 COM A DUPLA DINÂMICA ENFRENTANDO QUATRO DOS SEUS PRINCIPAIS VILÕES: O CORINGA DE CESAR ROMERO, O CHARADA DE FRANK GORSHIN, O PINGUIM DE BURGUESS MEREDITH E A MULHER GATO, ESTA INTERPRETADA POR LEE MERIWETHER JÁ QUE JULIE NEWMAR NÃO ESTAVA DISPONIVEL PARA AS FILMAGENS. VI  FILME NO CINEMA, UMA DE SUAS REPRISES JUSTIFICADA PELO INCRIVEL APELO QUE A SÉRIE PRODUZIDA POR WILLIAM DOZIER MANTEVE AO LONGO DAS DÉCADAS. POW! CRASH! BOOM! AQUELAS ONAMOTOPEIAS GIGANTESCAS NA TELA COM CORES BERRANTES, TUDO BEM CAMP, DIVERTIDO E PARA SEMPRE EM NOSSOS CORAÇÕES. FAÇA A PASSAGEM E PAZ, ADAM, MEU HERÓI.

ESTREIAS DA SEMANA : 4 DE AGOSTO

ESQUADRÃO SUICIDA

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(Suicide Squad) EUA 2016. Dir:David Ayer. Com Will Smith, Margot Robbie, Viola Davis, Carla Delavigne, Joel Kinnaman, Scott Eastwood, Adam Beech, Jared Leto. Ação.

A oficial do governo Amanda Waller (Davis) ordena a reunião dos piores criminosos do país para combater uma entidade maligna que pode destriuir o mundo. A premissa não é novidade em termos de cinema se lembrarmos de clássicos como “Os Doze Condenados”(1967), mas nas hqs ela foi usada antes (veja matéria publicada anteriormente). A ideia de compor a equipe com supervilões veio em 1986,  e funcionou gerando grande popularidade. A Dc Comics tem tido dificuldade para firmar seu universo cinemático, em parte porque a crítica especializada tem sido dura demais, e em parte devido a atitudes desastrosas da Warner. No caso, as críticas devastadoras a “Batman vs Superman” levou a Warner a remontar o filme e refilmar várias cenas de forma a acrescentar mais humor. A supervalorização dos bastidores do filme com noticias dos desatinos de Leto que teria incorporado o Coringa mesmo fora das filmagens. De qualquer forma, em filmes que trazem dinâmicas de grupo, raros são aqueles que conseguem desenvolver um equilibrio na trama capaz de valorizar todos os personagens e não é diferente dessa vez. A Arlequina rouba a cena, Viola Davis é ótima e não me surpreende que Jared Leto não tenha atingido a melhor das performances como Coringa depois de atuações marcantes como as de Heath Ledger e Jack Nicholson. Curiosamente o filme chega às telas no 50º aniversário da primeira encarnação do Coringa  vivido por um ator, no caso o célebre Cesar Romero na série de Tv do “Batman”. Como cinéfilo sempre suspeito dos extremos, seja os filmes aclamados ou os execrados. Talvez estejamos errando justamente por comparar, a Marvel e a Dc pois ambas tem erros e acertos. O orçamento de US$ 175 milhões é mais sóbrio que o de “Batman VS Superman” e justamente por não serem personagens com pretensões de serem baluartes de moral e altruísmo acrescenta algo novo ao gênero dos super herois, não inovador, apenas algo diferente do usual, mas que pode divertir sem gerar grandes pretensões. O público é claro que dirá. Atentem para a cena pós creditos envolvendo Ben Affleck e Viola Davis. No mais boa diversão.

A INTROMETIDA

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(The Meddle) EUA 2016. Dir: Lorena Scafaria. Com Susan Sarandon, Rose Byrne, J.K.Simmons, Casey Wilson, Laura San Giacomo. Comédia.

Mulher víuva decide se mudar para perto da filha em Los Angeles mas começa a interferir na vida dela até conhecer o vizinho da filha. O filme integrou o Festival de Toronto em 2015 e traz Susan Sarandon em elogiosa atuação. O filme mescla doses de drama e comédia e pode agradar ao público adulto.

UM NEGÓCIO DAS ARÁBIAS

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(A Hologram for the King) EUA 2016. Dir: Tom Twyker. Com Tom Hanks, Ben Whishaw, Tom Skerrit.

Adaptação do livro “Um Holograma Para o Rei”, de David Eggars, roteirizado e dirigido por Tom Twyker que foi autor do roteiro de “A Viagem” (Cloud Atlas) estrelado também por Hanks. A história gira em torno de homem de negócios que perdeu sua fortuna que pretende enriquecer de novo vendendo um holograma para um rei da Arabia Saudita.

ESQUADRÃO SUICIDA : NOSSOS VILÕES FAVORITOS

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Em tempos em que os heróis não são mais retratados como modelos de perfeição e que muitos valores são distorcidos nada mais natural que vilões assumam papel de destaque na preferência de fãs. No cinema, a ideia não é nova se lembramos “Os Doze Condenados” (1967) de Robert Aldrich em que um grupo de criminosos são reunidos para uma missão suicida nos idos da Segunda Guerra. Poucos sabem, inclusive, que o filme foi transformado em série de TV em 1988. Nas Hqs, a mesma premissa já havia sido empregada na revista “The Brave & The Bold #25” (1959). Essa edição, que na época custou meros 10 centavos, hoje vale mais de US$ 1,000. A história de Robert Kanigher e Ross Andru não trazia nenhum supervilão, mas condenados de alta periculosidade que, em troca de sua liberdade. Liderada pelo Capitão Richard Flag Sr, o pelotão assumia missões que destacavam o teor patriótico típico dos quadrinhos de guerra publicados na época.

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Quando os quadrinhos desse gênero começaram a perder espaço e popularidade, as aventuras da equipe seriam eventualmente descontinuadas. A ideia, no entanto, foi reformulada em 1986 quando a DC comics reformulou seu universo (pela primeira vez) na mega saga “Crise nas Infinitas Terras” (1985). A editora, movida por um espírito de reestruturação, publicou a mini-série “Lendas” (Legends) em que os heróis são desmoralizados publicamente e proibidos de atuarem por conta de um plano do vilão Darkseid. Os roteiristas Len Wein e John Ostrander escreveram o roteiro com desenhos de John Byrne e introduziram uma nova versão da equipe, liderada por Rick Flagg Jr e formada pelos supervilões Capitão Bumerangue, Arrasa Quarteirão, Magia, Tigre de Bronze e Pistoleiro. Sancionados em segredo por Amanda Waller, funcionária de alto escalão do governo, a equipe é reunida para lutar contra ameaças à segurança nacional durante o evento. Com o fim de “Lendas”, a equipe ganhou uma série própria publicada a partir de 1987. “Suicide Squad” (1987) começou com roteiros de John Ostrander e desenhos de Luke McDonnel e durou  cinco anos com tramas que mesclavam espionagem com ação fantasiosa em sequências interligadas aos demais títulos da Dc Comics. Praticamente, todos os eventos da editora tinham interligação com o título do Esquadrão como “Milênio” (1988) centrada no Lanterna Verde ou “Invasão” (1989) em que uma armada alienígena decide dominar a Terra. Os integrantes da equipe também mudariam constantemente e vários vilões seriam recrutados de acordo com a natureza das missões. O Pistoleiro (Deadshot) se tornaria um dos mais populares assumindo posição de destaque e ganhando até uma mini-série própria em 1989.  A Arlequina só se juntaria ao grupo a partir do relançamento do título após o evento dos Novos 52 ,em 2013, que mais uma vez reformulou os heróis da editora.

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A personagem, que ganhou enorme popularidade nos anos 90, foi criada para o desenho de TV “Batman The Animated Series” de Paul Dini e Bruce Timm. Tendo trabalhado no Arkham Asylum como psiquiatra, a Dra Harley Quinzel tratou do Coringa, mas em vez de curar a insanidade do vilão, se apaixonou por ele e enlouqueceu. Incorporada à continuidade das HQs na edição “Batman: Mad Love” em 1994, a Arlequina tornou-se nas HQs um personagem mais independente do Coringa e parte ativa de várias aventuras do grupo em tempos recentes.

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O Esquadrão Suicida teve sua popularidade reacesa aparecendo no seriado “Arrow” e no jogo “Batman: Assault on Arkham”. Sua adaptação para o cinema certamente traz a equipe para o centro das atenções criando a oportunidade de criar novos fãs com uma cronologia menos complexa que no material original, mas ainda divertida ao mostrar que entre bravos e ousados, velozes e furiosos, a vilania e o heroísmo acabam sendo duas faces da mesma moeda. Nossos malvados favoritos das hqs  ainda têm muito fôlego para mostrar.

BATMAN A PIADA MORTAL

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O CORINGA ATIRA NA BATGIRL

Lançada em Março de 1988, a Graphic Novel “Batman The Killing Joke” foi escrita pelo britânico Alan Moore e desenhada por Brian Bolland. Moore ganhou destaque na segunda metade da década de 80 nas HQs do Monstro do Pântano (Swamp Thing) além de duas histórias icônicas do Superman que serviram de canto do cisne para o personagem pré-crise. Com o Batman, Moore dividiu a história em duas linhas temporais: O embate entre o homem morcego e o Coringa e , em paralelo, o passado do vilão insano adaptando livremente a clássica história “The Man Behind The Red Hood”  (Fevereiro de 1951) que tratava da origem do Coringa. Moore mergulha fundo na psique dos dois antagonistas, mostrados como reflexos distorcidos um do outro.

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LOUCURA TOTAL

O Coringa vai até a casa do comissário Gordon, atira em sua filha Bárbara (a Batgirl) e a sequestra depois de tirar várias fotos. O Palhaço leva pai e filha ao um parque de diversão abandonado, onde acorrenta o Comissário obrigando-o a ver as fotos de Barbara ferida e nua. O propósito do vilão é provar que qualquer um pode enlouquecer se tiver um mau dia. Batman persegue o vilão determinado a acabar com ele e o que se segue é um embate não só físico, mas também psicológico entre os personagens.

A história é tratada por Moore com teor adulto, sem fazer concessões e reforçada pela magnífica arte de Brian Bolland, em cores berrantes que transmitem a loucura do herói e do vilão, cada um movido pelos respectivos papéis de agente da ordem e caos, forjados pelas tragédias que lhes ocorreram no passado. O impacto da graphic novel foi incorporado pela continuidade mostrando depois que Barbara Gordon ficara paraplégica, e impossibilitada de voltar a ser a Batgirl, criando para si a identidade da hacker Oráculo, mas isso já é outra historia. “Batman A Piada Mortal” foi publicada quando Batman comemorava 50 anos de sua criação por Bob Kane e Bill Finger, tendo o Coringa sido criado por estes com o artista Jerry Robinson. Pouco antes, Frank Miller havia recontado a origem de Batman em “Ano Um” junto do artista David Mazzuchelli e projetado seu futuro na icônica “Batman O Cavaleiro das Trevas” Juntamente com a história de Moore, estas exerceriam grande influência no tratamento que o cinema e  TV dariam em diversas adaptações como filmes ( Tanto Tim Burton quanto Christopher Nolan admitiram ter se inspirado na versão do Coringa de Moore) , a clássica animação “Batman Animated Series” e , mais tarde, em jogos.

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No Brasil a graphic novel chegou pela primeira vez em 1989 publicada pela Editora Abril, tornando-se um sucesso de vendas, e sendo republicada tempos depois. Curiosamente, seu autor sempre renegou a obra uma vez que seu relacionamento com a editora se deteriorou ao longo do tempo. Moore hoje com 62 anos declarou que detesta a história, tendo escrito apenas uma história centrada em dois personagens sem nenhuma conexão com a vida real. Apesar de seu desdém, Moore foi maestro em fazê-lo, deixando o final em aberto, mexendo com a imaginação dos leitores. O autor também escreveu outras obras adaptadas para o cinema como “V de Vingança”, “A Liga Extraordinária” , “Watchmen” e “Do Inferno”, e sempre alegou não ter gostado de nenhuma. Houve quem criticasse a graphic novel acusando Moore de sádico e violento, o que este simplesmente ignorou.

Alan Moore

ALAN MOORE O MAGO DAS HQS

A animação feita agora traz de volta os dubladores Kevin Conroy (Batman) e Mark Hamil (Coringa) – sim o mesmo ator que interpreta Luke Skywalker – para as vozes  dos personagens. Para muitos essa é a história definitiva sobre o Coringa, para outros uma das melhores mas o que fica é a certeza que sanidade e loucura é separada por uma fina linha divisória, uma que não importa se você se veste de morcego ou se pinta de palhaço, você caminha por ela e quando percebe o abismo já o engoliu