GRANDE ESTREIA : O PROTETOR 2

(THE EQUALIZER 2) EUA 2018. DIR: ANTOINE FUQUA. COM DENZEL WASHINGTON, MELISSA LEO, BILL PULLMAN, PEDRO PASCAL. AÇÃO.

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Não lembro de ter assistido à série de Tv (1985 – 1989) na qual esse filme se baseia. Na verdade isso não faz falta, pois o que importa aqui é a hábil maneira de conduzir a ação do diretor e seu astro Denzel Washington (ambos juntos pela quarta vez). É a primeira sequência dirigida por Fuqua que sabe como explorar habilmente os clichês do gênero para produzir uma narrativa envolvente. Beneficiado claro pela presença de Denzel Washington, também estrelando sua primeira sequência, um ator de amplos recursos, sempre equilibrado nos papéis que defende. Denzel é Robert McCall, o ex agente da CIA que agora defende a causa dos desamparados. McCall está envolvido em uma missão mais pessoal, o assassinato de uma grande amiga (Leo). O primeiro filme, de 2014, foi uma grata surpresa custando em torno de 55 milhões de dolares e rendendo nas bilheterias mundiais três vezes mais. Essa credibilidade do astro e diretor são fundamentais para garantir a apreciação desse segundo filme que comete seus deslizes narrativos. Sem entregar spoilers, pode-se garantir que nada compromete o prazer de assistir ao filme e, claro, a forte possibilidade de que tenhamos um terceiro capítulo em breve.

 

PANTERA NEGRA:A COR DO HEROÍSMO

Na cerimônia de entrega dos Golden Globes deste ano Oprah Winfrey tornou-se a primeira atriz negra agraciada com o prêmio Cecil B DeMille, ocasião que aproveitou para lembrar do impacto da premiação em 1964 quando Sidney Poitier ganhou o Oscar de melhor ator por “Uma Voz nas Sombras”. Era a época da luta pelos direitos civis, um ano depois do histórico discurso “I have a dream” de Martin Luther King, nove anos depois da costureira Rosa Parks ousar dizer não a um ato de segregação racial, e um ano antes do assassinato do ativista Malcom X. Se esses representaram a luta pela igualdade racial no mundo real, faltava um símbolo que trouxesse a questão para o campo da ficção. Coube a Stan Lee e Jack Kirby a criação do Pantera Negra, primeiro super herói das HQs.

pantera negra

          É verdade que antes do Pantera Negra, já existia o Lothar, braço direito do mágico Mandrake (1934) de Lee Falk, mas a imagem era por demais estereotipada. Em 1947 foi publicado a revista “All-Negro comics” com os personagens Ace Harlem e Lion Man, mas esta ficou restrita ao numero um. Em 1954 ainda houve “Waku, Príncipe dos Batu”, da Timely Comics (Antecessora da Marvel), mas poucas histórias do personagem foram publicadas no título “Jungle Tales”. O Pantera Negra quebrou essas barreiras, pois mostrava um homem negro com super poderes e inteligência extraordinária, herdeiro do trono da fictícia nação africana de Wakanda. Sua primeira aparição foi na edição #52 do “Quarteto Fantástico”, de Julho de 1966, na qual somos apresentados ao príncipe T’Challa, um homem culto (foi educado nas melhores escolas da Europa e América) que precisou superar o desejo de vingança quando seu pai, o Rei T’Chaka foi morto pelo vilão Garra Sônica, que planeja se apoderar do valioso metal Vibranium, existente apenas em Wakanda.

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         Dois meses depois da criação do personagem foi fundado o Partido dos Panteras Negras, grupo extremista que por causa 20 anos confrontou a polícia e demais instituições na luta contra atos racistas. Temendo qualquer associação inicial Stan Lee chegou a rebatizar o personagem de “Black Leopard”, mas não demorou muito para reverter para o nome original. Depois de sua aparição inicial, o personagem ingressou nos Vingadores, levando a ganhar o título “Jungle Action featuring The Black Panther” a partir de 1973.

Pantera Negra no Brasil

    Em 1969 Pelé marcou seu milésimo gol pelo Santos derrotando o Vasco no Maracanã marcando 2 a 1. Era um negro alcançando um marco nos esportes, no mesmo ano em que Grande Otelo venceu como melhor ator no Festival de Brasília por seu papel em “Macunaíma”. Em meio a essas conquistas chegou a nossas bancas a revista “Homem de Ferro & Capitão América” #19 trazendo a história “The Claws of the Panther” originalmente publicada em “Tales of Suspense” #98. Foi o primeiro contato do leitor brasileiro com o príncipe T’Challa. Somente em 1974, a clássica história publicada originalmente no título do Quarteto Fantástico chegaria no Brasil na revista do “Homem Aranha” # 66, pela editora Ebal. Muitos anos depois, o personagem ganhou maior destaque no Brasil quando os heróis Marvel começaram a ser publicados pela Editora Abril a partir de “Superaventuras Marvel” #7 (Janeiro 1983). A Princesa Shuri, a irmã do Pantera Negra só seria conhecida a partir de 2005 quando o escritor Reginald Hudlin e o desenhista John Romita Jr assumiram um novo título para o heroi. Nos quadrinhos T’Challa é voltado para a ciência enquanto Suri é mais voltada para as crenças espirituais de seu povo. No filme os papeis foram invertidos fazendo de Shuri uma inventora e levando T’Challa a dimensão espiritual onde se comunica com seu pai falecido. Outro momento marcante do personagem no Brasil é a história do casamento do herói com a Tempestade dos X Men nas páginas de “Marvel Action” #8 (Agosto de 2007). Mais tarde, a Marvel reverteria tudo separando os personagens.

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Outros Herois Negros

       Com o caminho aberto pelo Pantera, outros super heróis negros seriam lançados: Em 1969 Sam Wilson, o Falcão tornou-se o parceiro do Capitão América, chegando a substituí-lo recentemente. Em meio a Blackexplotation (série de filmes com elenco e equipe essencialmente com artistas negros) surgiu o icônico detetive Shaft, interpretado por Richard Roundtree em 1971, e revivido por Samuel L.Jackson em 2000. Em 1972 a Marvel publicou “Luke Cage Hero For Hire”, que chegou ao Brasil um ano depois pela editora Górrion. Nesta ocasião, enquanto Luke Cage tinha o poder de ser incrivelmente forte e de pele indestrutível, na vida real o boxeador Muhammed Ali suportou 12 assaltos com o maxilar quebrado em luta contra Ken Norton. Em 1979, a DC Comics chegou a publicar a icônica história “Superman Vs Muhammed Ali”. A mesma editora contribuiu com dois personagens de peso: Em 1972 surgiu John Stewart o primeiro Lanterna Verde negro (extremamente popular na animação da “Liga da Justiça”) e em 1977 surgiu Raio Negro que viria mais tarde a ingressar na Liga da Justiça. Entre as heroínas, a Marvel tinha a mutante Tempestade (1975) e a rival DC tinha Vixen (1978) capaz de mimetizar as habilidades de vários animais. Nos anos 80 estrearam a “Capitã Marvel” (1982) e Cyborg (1980) que originalmente fazia parte dos Titãs, e depois foi reformulado para a Liga da Justiça. Um dos personagens mais populares nos anos 90 foi o “Super Choque” (Static), criado pelo roteirista Dwayne McDuffie em 1993, e que chegou a ter uma animação de sucesso na TV. McDuffie juntou-se a vários artistas afro-americanos e criou um universo de personagens negros na editora Milestone.

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          Os quadrinhos contribuíram com uma respeitosa representação étnica, mas devemos nos lembrar que o meio reflete os esforços de artistas desbravadores como a atriz Hattie MCDaniel que foi a primeira negra a ganhar um Oscar (atriz coadjuvante) em 1939 por “E O Vento Levou”, a gravadora Motown quer abriu espaço para artistas como Michael Jackson, Isaac Hayes, Marvin Gaye, ou em tempos mais recentes atores como Samuel L.Jackson, Morgan Freeman, Viola Davis, Idris Elba, Whopi Goldberg, Halle Berry, Denzel Washington entre outros. Sua voz e a nossa são uma só, a de nos lembrar que seja na ficção ou na vida real somos iguais, humanos, e precisamos ser super heróis para vencer o racismo e fazer todo o mundo lembrar que se ébano ou marfim, o equilíbrio real é conviver com as diferenças.

ESTREIAS DA SEMANA : A PARTIR DE 2 DE MARÇO

LOGAN

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EUA 2017. Dir: James Mangold. Com Hugh Jackman, Patrick Stewart, Boyd Holbrook, Dafne Keen. Ação.

Terceiro filme solo de Wolverine, também o último do personagem vivido por Hugh Jackman (veja artigo no blog postado em 1º de Março). A história só é levemente baseada na hq “Old Man Logan” de Mark Miller & Steve McNiven pois esta traz personagens (Gavião Arqueiro, Hulk etc..) cujos direitos não estão disponíveis para a Fox. A história localiza Logan em um futuro alternativo, escondido na fronteira do México, e cuidando de um envelhecido Professor Xavier, que sofre do Mal de Alzeihmer. Ao encontrar a jovem X23 (Keen), perseguida por terriveis bandidos, Logan se vê forçado a agir de novo. O filme é o mais violento dos filmes em que Jackman vive o herói de garras de adamantium. A trama não se resume a lutas sangrentas, mas explora o lado psicológico dos personagens, graças ao roteiro de Michael Green (o mesmo do filme do “Lanterna Verde“, e que também foi o produtor do cultuado seriado “Heroes“) juntamente com Scott Frank e James Mangold, sendo este último o diretor deste e do filme anterior do herói (Wolverine Imortal). O filme funciona bem tanto como uma história independente quanto um epílogo para o carismático mutante criado em 1974 por Len Wein e Herb Trimpe. O ator australiano se despede do personagem com um filme digno da selvageria com a qual este passou para o panteão dos grandes personagens das hqs. Jackman esteve no Brasil recentemente e encontrou-se com Isaac Bardavid, dublador oficial do herói. Um encontro histórico, sem duvida, já que dificilmente outra voz conseguiria se encaixar tão bem na persona arredia, violenta, indisciplinada e “muy macho” que o filme registrou.

FENCES – UM LIMITE ENTRE NÓS.

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Fences. EUA 2017. Dir: Denzel Washnigton. Com Denzel Washington, Viola Davis. Drama.

Adaptação da peça de Augustus Wilson, muito bem sucedida nos palcos americanos, e que o próprio adaptou para o cinema, com direção de seu protagonista, o sempre excelente Denzel Washington. A história se passa nos anos 50 quando um humilde trabalhador e pai de família quer reviver seu sonho de se tornar jogador de baseball enquanto vive conflitos familiares com o filho e a espoca, esta interpretada pela maravilhosa Viola Davis, merecidamente pemiada com o Oscar de melhor atriz coadjuvante no Oscar. O filme não disfarça sua teatralidade e é mais indicado para quem gosta de dramas pungentes, apoiados por performances de grandes interpretes, e que não ligue para histórias que se arrastem sem comicidade ou ação para diluir as lágrimas decorrentes.

MAKE & REMAKE : SETE HOMENS & UM DESTINO

7-homens-destino-cia-filarmonica-musical.png                             Em 1954, o cineasta japonês Akira Kurosawa realizou um empolgante épico feudal que fez história no cinema. Kurosawa fez uma apurada pesquisa sobre os samurais e descobriu que, de fato, durante certo período estes ofereciam proteção, a aldeões,  em troca de alimento e estadia. Kurosawa refinou o roteiro desenvolvendo personalidade própria aos sete protagonistas de seu filme “Os Sete Samurais”, que alcançou projeção internacional. Foi o astro Yul Brynner (1920-1985) quem levou a ideia de uma adaptação da história para o produtor da MGM Walter Mirisch (ainda vivo),  e o diretor John Sturges  (1910 – 1992). Também foi o próprio Brynner quem fez questão de chamar para seu parceiro de cena o ator Steve McQueen (1930 – 1980). O que se seguiu foi um raro caso em que a refilmagem brilha tanto quanto seu original.

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Os roteiristas de “Sete Homens & Um Destino” (The Magnificent Seven) reinventaram a ação em um vilarejo mexicano açoitado por uma gang de criminosos liderados pelo cruel Calvera (Eli Wallachi). Indefesos, os habitantes reúnem os poucos recursos que tem para contratar sete pistoleiros para sua defesa: Chris Addams (Brynner), Vin (McQueen), Brit (James Coburn), Lee (Robert Vaughn), O’Reilly (Charles Bronson), Harry Luck (Brad Dexter) e Chico (Horltz Buckholz). O elenco, um dream team explodindo a tela com dose extrema de testosterona, que refletia  em parte os bastidores da produção: McQueen e Brynner se estranhavam o tempo todo, pois aquele fazia de tudo para atrair mais atenção em cena que Brynner, e este se irritava com gestos (mexer no chapéu) e olhares com os quais McQueen desafiava o protagonismo de Brynner. Anos mais tarde, quando McQueen morria de câncer, ele procurou Brynner para pedir-lhe perdão, e agradecer-lhe a oportunidade.O filme foi um campeão de reprises na Tv durante muito tempo nas décadas de 70 e 80. Sua trilha sonora, composta por Elmer Bernstein, foi muito bem difundida nos intervalos comerciais dos cigarros Malboro.

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O filme de Antoine Fuqua, recentemente estreado nas telas, faz uma atualização da trama, transportando-a para um vilarejo nos Estados Unidos, e seus personagens são diferentes do filme de Sturges, emulando as personalidades do filme de Kurosawa. Denzel Washington, em seu primeiro filme do gênero, está  à frente do elenco que ainda inclui Chris Pratt (seguindo o estilo piadista de seus personagens em “Guardiões das Galáxias” e “Jurassic World”), Ethan Hawke, Buyng Hun-Lee (o Stormshadow de “G.I,Joe) entre outros. O curioso é que nosso querido Wagner Moura quase ficou com um papel no filme, mas não pôde devido ao seu compromisso com a série da Netflix “Narcos”). O elenco assim reflete as preocupações em representar as diferentes etnias, e até mesmo as mulheres ganham um avatar para a igualdade através da personagem da bela Halley Bennet (Lembro dela como a cantora Cora de “Letra & Musica”). Ela é quem cria a coragem de buscar ajuda, desafia os que temem sua atitude, e participa mais ativamente na trama, se tornando tão essencial quanto qualquer um, quase como um oitavo elemento de defesa. A trilha sonora de James Horner (Titanic, Avatar) foi a última do prolífico maestro que faleceu pouco tempo depois. O filme não conta com Robert Vaughn, hoje octagenário, e único sobrevivente do elenco do filme de 1960. O produtor Walter Mirisch também vive e também produz esse nova versão que já fez mais de 30 milhões de dólares, se tornando a maior receita de um western nos últimos anos, superior a sucessos como “Django Livre” ou “O Regresso”, e mostrando que o gênero ainda pode despertar interesse para as plateias alimentadas por filmes de super heróis. Certamente que isso é caso raro já que se trata de refilmagem da refilmagem. Vitoria para o diretor, que já trabalhou com Washington e Hawke em “Dia de Treinamento” e que mostrou que se seguir um caminho certo, uma ideia antiga pode render um novo enfoque e assim a aventura se renova nos filmes.