CLÁSSICO REVISITADO : AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD – 80 ANOS

Houve uma época em que o cinema de aventura era representado por heróis espadachins. Estes fascinavam o grande público da mesma forma que hoje fazem os super heróis. Em vez de protagonistas voadores, vestindo armaduras tecnológicas ou de força sobrehumana, a Hollywood clássica tinha capa, máscara, chapéu e espadas. Um dos maiores filmes do gênero celebra a marca de 80 anos ainda com um frescor incomparável que o torna uma referência tanto em termos de cinema como na literatura da qual provem o ícone, ladrão ou rebelde, herói ou bandido, Robin Hood cujas aventuras foram imortalizadas no sorriso irônico e petulante de Errol Flynn.

POSTER ROBIN HOOD

         O personagem que entrou para a história como aquele que rouba dos ricos para dar aos pobres nasceu na época dos grandes trovadores que narravam grandes feitos em cantigas passadas de geração a geração em uma época que remonta o século XIII d.c. O poema Piers Plowman de 1377 é o primeiro registro escrito da lenda, de autoria de William Langand. A referência ao herói é breve, através de rimas, mas o suficiente como prova de este existiu. A coletânea de histórias que divergem entre si desde então dificulta o trabalho de historiadores em determinar o que é fato e o que foi ficção na história de Robert Locksley, um nobre privado de suas terras pelo Príncipe John que usurpou o trono do Rei Ricardo Coração de Leão, enquanto este participou das cruzadas. Na floresta de Sherwood adotou o nome de Robin, sendo Hood uma referência a um tipo de chapéu com pena. Nottingham, a cidade inglesa em que se desenrola a história, hoje homenageia o herói com estatua, museu, passeio pelos locais citados pela lenda e até mesmo uma bandeira ostentando a silhueta do herói desde 2010. Na literatura, Alexandre Dumas (autor de “Os Três Mosqueteiros”) já escreveu dois volumes  intitulados “Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões” (de 1872) e “Robin Hood, o Proscrito” (de 1873). Dez anos depois o escritor e ilustrador americano Howard Pyle publicou “The Merry Adventures of Robin Hood of Great Renown in Nottinghamshire”, revistando os vários feitos que entraram para o cânone da história como a luta de bastões com João Pequeno, o torneio de arco e flecha entre outras. Maid Marian, o interesse romântico do herói, não aparece em nenhuma das cantigas originais da lenda, aparecendo pela primeira vez em versões mais tardias, desde o século XVII.

ROBIN HOOD ESTATUA

A ESTÁTUA EM NOTTIGHAM HOJE

            Normal que da literatura, o personagem fosse retratado posteriormente no teatro, e no cinema, começando por 1922 em “Robin Hood” estrelado por Douglas Fairbanks, que no período do cinema mudo incorporou vários heróis similares. Acreditava-se que esta pérola tivesse sido perdida mas foi redescoberto nos anos 60, sendo restaurado em 2009 pelo Museu de Arte Moderna. 16 anos depois a Warner e a MGM disputavam realizar a primeira versão falada, mas foi a Warner quem acabou levando a cabo sua realização. Convidaram Douglas Fairbanks Jr para o papel central, mas este não estava disposto a repetir os feitos de seu pai. Foi então que o papel ficou com Errol Flynn, então com 28 anos, vindo do sucesso estrondoso alcançado em fitas como “Capitão Blood” (1935) e “A Carga da Brigada Ligeira” (1936), ambos dirigidos por Michael Curtiz e co-estrelado por Olivia DeHavilland. Curtiz foi chamado pela Warner para concluir as filmagens de “As Aventuras de Robin Hood”, iniciadas por William Keighley cuja lentidão nas filmagens ameaçava inflar orçamento e atrasar seu lançamento que veio a acontecer em maio de 1938.

ERROL FLYNN ROBIN HOOD

              Curtiz e Flynn se odiavam e, segundo consta certa vez Flynn teria se ferido superficialmente quando um dos dublês, em cena de duelo, teria lutado sem a proteção na ponta da espada, isso sob ordens de Curtiz. Os duelos foram exímios e coreografados com perfeição sob a supervisão do especialista Fred Cavens, que também teria treinado Flynn e Basil Rathbone em “Capitão Blood”. Apesar de Flynn ter corpo atlético e de notável elasticidade para o manejo da espada, Rathbone era um espadachim superior em cena. A bilheteria do filme encheu os cofres da Warner e, além do público, a crítica deu sua benção ao filme que teve 4 indicações ao Oscar, levando 3 (melhor edição, trilha sonora e direção de arte). O elenco de coadjuvantes também brilhou: Claude Rains foi um odioso Príncipe John; Alan Hale repetiu o papel de João Pequeno que também fizera na versão de Fairbanks, e que repetiria anos depois em “O Cavaleiro de Sherwood” (1950), além do casal cômico Bess (Uma O’Connor) – aia de Maid Marian – e Much (último papel de Herbert Mundin) – um dos fiéis homens de Robin.  O filme é o perfeito exemplo do amor cortês, da luta do bem contra o mal, dos ideais de liberdade que ecoam em meio a uma autoridade abusiva, tudo que precisávamos e, ainda precisamos, como vítimas de um governo corrupto, tão opressor quanto a nobreza representada pelo Príncipe John (Rains) e seu braço direito Sir Guy de Gisborrne (Rathbone).

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             O filme foi um prodigioso roteiro equilibrando momentos cômicos com pura ação. Nos diálogos do roteiro de Norman Reilly Raine e Selton Miller momentos memoráveis como Robin (Flynn) dizendo “Normandos ou Saxões não importa, o que odeio é a injustiça”. A Warner chegou a cogitar fazer uma sequência, mas acabou não acontecendo. No entanto várias versões renovaram o ícone perante o público nos rostos de interpretes como Cornel Wilde, John Derek, Richard Greene, Sean Connery, Patrick Bergin, Kevin Costner, Russell Crowe, Mathew Porreta entre outros na Tv ou no cinema. Recentemente, Robin Hood foi um dos personagens explorados com sucesso na série da Disney “Once Upon a Time”, vivido por Sean Maguire. Robin Hood foi a fonte de inspiração para Mort Weisinger criar o herói das hqs “Arqueiro Verde” em 1941, que originou a série de sucesso “Arrow”que já está em sua sexta temporada. Claro que toda essa popularidade mostra deve muito àquele sorriso petulante, audaciosa e galanteador com que Errol Flynn conquistou a Marian de Olivia deHavilland (fizeram juntos 8 filmes) e marcou o cinema Hollywoodiano, mesmo 80 anos depois daquela flecha ter atingido um alvo, o coração dos amantes da aventura.

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PIRATAS DO CARIBE, DA LITERATURA & DO CINEMA.

        Quando criança adorava histórias de piratas e uma das primeiras que vi foi a adaptação de “Pluft – o Fantasminha” da Maria Clara Machado, que trazia o ator Flavio Migliaccio como o malvado pirata da perna de pau. Histórias desses saqueadores dos mares datam desde a Odisséia de Homero, mas a imagem que mais se popularizou no imaginário popular foi a do bandido com papagaio no ombro e tapa-olho,  que atravessou os mares nos séculos XVII e XVIII.

TREASURE ISL

A literatura clássica romantizou os feitos dos piratas como donos de um código próprio de camaradagem temperado com a ganância desmedida e a caça ao tesouro. O autor escossês Robert Louis Stevenson (1850-1894) publicou em 1883 “A Ilha do Tesouro” (Treasure Island) , já adaptado para o cinema diversas vezes desde a época do cinema mudo, sendo a versão mais famosa a realizada pela Disney em 1950. No Brasil, tivemos nossa própria versão em “O Trapalhão na Ilha do Tesouro” (1975), divertida paródia com Renato Aragão & Dedé Santana. O livro é narrado pelo menino Jim Hawkins, que conta suas aventuras ao lado do pirata Long John Silver. A obra de Stevenson tornou-se referência no tema, sendo a primeira vez que surgiu a clássica imagem do mapa do tesouro com um “X” marcado.

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CAPITÃO BLOOD

       Durante várias décadas, o cinema Hollywoodiano  fez da pirataria um filão rentável com Douglas Faibanks esbanjando um sorriso provocante em “O Pirata Negro” (The Black Pirate) de 1926, ainda durante o período mudo. Os duelos de espada ensaiados e coreografados pelo mestre Fred Cavens ofereciam o realismo necessário para as plateias ávidas por ação. A chegada do som trouxe Errol Flynn e Tyrone Power como os mais célebres representantes dessa figura sedutora, viril e rebelde, muitas vezes em filmes extraídos dos livros do escritor italiano Rafael Sabatini (1875 – 1950) como “Capitão Blood” (Captain Blood) de 1935, “O Gavião do Mar” (The Sea Hawk) de 1940 e “O Cisne Negro” (Black Swan) de 1941. Os dois últimos, no entanto, foram adaptações nada fieis ao livro adaptado, mas fixaram a imagem de Flynn e Power como os expoentes do filão, modelo para os aventureiros retratados nas telas por atores como Cornel Wilde, Douglas Fairbanks Jr, Louis Hayward e Burt Lancaster, que emprestou ao tipo suas incríveis habilidades atléticas de sua experiência circense em filmes como “O Pirata Sangrento” (The Crimson Pirate) de 1952. Da década de 50, quando o gênero começou a entrar em declínio, alguns exemplares merecem destaque como “Contra Todas as Bandeiras” (Against All Flags) de 1952, com Errol Flynn, Anthony Quinn  e Maureen O’Hara (uma belíssima pirata, aliás).  Aqui, mostra-se uma variedade da pirataria, o “bucaneiro”, que se refugiava em lugares remotos e atacavam qualquer embarcação de forma violenta, agregando a suas fileiras ex-presidiarios, ex-escravos, qualquer um que fosse marginalizado. Estes pilhavam principalmente as embarcações espanholas. Além de Maureen O’Hara, outra pirata mulher que vagou pelos mares caribenhos foi Anne Providence, interpretada pela igualmente bela Jean Peters em “A Vingança dos Piratas” (Anne of the INdies) de 19651. Já a figura do corsário, ou seja, um pirata cuja atividade era tributada em favor de seu reino, teve a figura histórica do Capitão Francis Drake vivido por Rod Taylor em “O Pirata Real” (Seven Seas to Calais) de 1963. O notório Edward Teach ganhou o famoso apelido Barba Negra e apareceu em diversos filmes já vivido por Robert Newton, Peter Uistnov, e mais recentemente Ian McShane em “Piratas do Caribe: Navegando em Aguas Misteriosas” (2011). Curiosa mezcla de gêneros foi feito por Vincent Minnelli em 1948 no musical “O Pirata” (The Pirate ) com Gene Kelly se fazendo passar por um perigoso elemento para conquistar Judy Garland, ao som de canções de Cole Porter.

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O PIRATA : GENE KELLY & JUDY GARLAND

              Nas décadas de 70 e 80, o tema foi inutilmente ressucitado resultando em fiascos de bilheteria como “Piratas das Ilhas Selvagens” (Nate & Hayes) de 1983. Roman Polanksi também fracassou com “Piratas” (Pirates) de 1986 chegando ao ponto de construir a fragata “Neptune”, mostrada no filme, e levá-la para a abertura do Festival de Cannes no citado ano, ancorando próximo ao local, uma extravagância promocional que nada ajudou na bilheteria da produção. Desastroso também foi o filme de Renny Harlin “A Ilha da Garganta Cortada” (Cutthroat Island) de 1995. Na verdade, até que Johnny Depp surgisse como o Capitão Jack Sparrow no primeiro “Piratas do Caribe” (Pirates of the Caribbean) de 2003, o gênero parecia extinto. Claro que depois de quatro sequências, sendo a última “A Vingança de Salazar”, parece que ainda teremos tempo para fazer um brinde com rum e dizer HO HO HO.

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PIRATAS DO CARIBE: KEIRA KNIGHTLY, ORLANDO BLOOM & JOHNNY DEPP