DRACULA RENASCE NA ERA NETFLIX

Um dos textos mais adaptados da literatura é o romance gótico “Drácula” escrito pelo irlandês Bram Stoker no final do século XIX, e se a imortalidade é parte intrínsica do mito do vampiro, então o personagem de Stoker não só faz juz como o demonstra em recorrentes versões para o cinema, Tv, livros e agora na era do streaming em uma série da Netflix criada por Steve Moffat e Mark Gatiss, os mesmos que recriaram Sherlock Homes para a nova geração com Benedict Cumberbatch e Martin Freeman.

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DRACULA ENFRENTA IRMÃ AGATHA NA NETFLIX

       Em três episódios Moffat e Gatiss iniciam sua narrativa na Transilvania de 1897 com filmagens feitas no Castelo Oravana Eslováquia, o mesmo usado para a filmagem do clássico “Nosferatu” de 1922.Já no segundo episódio temos a transposição para a modernidade quando o vampiro desperta no mundo atual. A nova adaptação usa esse salto no tempo para trazer o mito do conde Drácula para a contemporaneidade, mesmo que se distanciando do romance original. Outra mudança é a forma escolhida para retratar Van Helsing, o nêmesis do vampiro. No passado a irmã Agatha, e no presente sua descendente Zoe (ambos interpretados por Dolly Wells) substituem a figura do austero homem da ciência que se torna o antagonista de Drácula.  Lucy, Jonathan Harker, Dr.Seward, Quincy, Lucy, todos os personagens estão lá mas com novas roupagens, sob uma ótica diferente da conhecida pelos amantes da história original. A modernização da lenda é o foco principal ainda que o ator dinamarquês Claes Bang tenha ótima atuação. O texto de Stoker é tão rico que sobrevive a várias reinterpretações que tratam de assuntos como sexualidade, imortalidade, seja a nível de análise social da realidade vitoriana, ou análise filosófica das pulsões humanas. Mas Bram Stoker não inventou a figura lendária da criatura sobrenatural que se alimenta de sangue humano.

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BRAM STOKER & O LIVRO- CRIADOR & CRIATURA

              Lendas de vampiros ou desmortos já faziam parte do folclore europeu, muito antes que Abraham Stoker (1847 – 1912) as usasse como matéria-prima de seu mais famoso romance. A esses mitos e superstições, Stoker fundiu a figura histórica do príncipe romeno Vlad Tepes que governou a região da Valáquia, atual Romênia, combatendo os invasores turcos com requintes de crueldade notória. Vlad, o empalador, fincava uma estaca de madeira no peito de seus inimigos e bebia seu sangue. A mente criativa de Stoker soube unir todos esses elementos na figura de Drácula, nome da família de Vlad, ligada à Ordem do Dragão –  linhagem religiosa do auge do Império Romano. Contudo, o livro de Stoker não foi, como muitos pensam, o primeiro livro sobre vampiros. Antes dele houve “Vampyre” (1819) de John Polidori e “Carmila” (1871) de Sheridan Le Fanus. Drácula, no entanto, sobressaiu-se graças à forma como Bram Stoker conduziu sua história: Sua narrativa é toda em primeira pessoa através de cartas e diários pertencentes aos personagens humanos que giram em torno do vampiro : o advogado Jonathan Harker, sua noiva Mina, o Dr. Seward, Quincy Morris, e é claro, o Professor Abraham Van Helsing entre outros cujos pontos de vista direcionam a visão do leitor. As palavras de Stoker são embebidas de uma inusitada credibilidade e apurada descrição da região em que Drácula vive, apesar de seu escritor nunca ter visitado o Leste Europeu onde fica a Transilvânia. Para a sociedade reprimida do final do século XIX, a mordida do vampiro funcionava como perfeita metáfora para o orgasmo e o prazer ilimitado, associada a perversões e à sexualidade reprimida. Logo, o vampiro não apenas desafiava a ordem natural da vida e da morte, mas também a conduta moral de toda uma sociedade. Essas subleituras enriqueciam a história de Drácula e o cinema não demorou a enxergá-las como uma rica fonte de adaptação.

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BELA LUGOSI – O PRIMEIRO

DRACULA NO CINEMA

              Em 1922, dez anos depois da morte de Bram Stoker, o diretor alemão F.W. Murnau tentou mas não conseguiu os direitos de adaptação da viúva Florence Stoker. Assim, Murnau modificou os nomes dos personagens e realizou “Nosferatu” com Max Shreck como o vampiro, o conde Orlock. Além de mudar os nomes, Murnau transformou o vampiro de uma figura sedutora em um ser repulsivo e assustador graças a uma eficiente maquiagem que eclipsou o rosto do ator Max Shreck, tornado anônimo para as gerações que se seguiram, o que levou ao curioso filme “A Sombra do Vampiro” (Shadow of a Vampire) de 2003, o qual  teorizava que Shreck era um vampiro de verdade. A viúva de Stoker processou Murnau e conseguiu a ordem judicial que recolheu todas as cópias de “Nosferatu” – claro que nem todas. O filme de Murnau foi redescoberto muito tempo depois e alçado ao status de clássico do expressionismo alemão, e para muitos a melhor versão de “Drácula”, ainda que não oficial.

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CHRISTOPHER LEE – O MELHOR

            Anos depois do filme de Murnau, a obra de Stoker era um sucesso nos palcos londrinos em uma adaptação escrita por Hamilton Deane, desta vez com o consentimento da família de Stoker. A montagem da peça foi levada até a Broadway por John Balderstone trazendo o ator húngaro Bela Lugosi no papel central. Os direitos de filmagem da peça foram comprados pela Universal, que contratou o diretor Tod Browning. Este queria Lon Chaney como Drácula, mas a morte do homem das mil faces (como era conhecido Chaney) levou Tod a contratar Lugosi que já estava acostumado ao personagem. A caracterização de Lugosi lançou as bases para o imaginário popular: o terno e capa preta de acordo com sua condição aristocrática, os cabelos penteados para trás, o olhar hipnótico (realizado com um feixe de luz lançado diretamente sobre seus olhos) e o forte sotaque em falas marcantes como “Ouça-os, crianças da noite !”. O visual impressionante deixava, no entanto, de fora as famosas presas do vampiro, deixando para a voz e o olhar de Lugosi a função de assustar as plateias. “Drácula” foi feito em 1930 e lançado no dia dos namorados do ano seguinte. Uma versão em espanhol, visando o mercado latino, foi filmada por George Melford nos mesmos cenários que o filme de Browning, apresentando Carlos Villarias no lugar de Lugosi.

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GARY OLDMAN – EXCELENTE

           Lugosi caiu no ostracismo e faleceu em 1956, aos 73 anos, tendo sido sepultado com a capa do personagem que marcou sua carreira. Lugosi se fixou no imaginário popular e virou música, a hipnótica “Bela Lugosi is dead”, da banda pós punk Balhaus, usada, em 1982, na trilha sonora do filme “Fome de Viver” (The Hunger), de Tony Scott, uma modernização pop do mito do vampiro. No final da década de 50 o personagem é reinventado para a geração seguinte com a atuação hipnótica e sedutora do ator inglês Christopher Lee em “Drácula – O Vampiro da Noite” (Dracula), dirigido por Terence Fisher. O filme, produzido pela Hammer Films, foi um sucesso apesar de novas liberdades serem tomadas em relação ao livro de Bram Stoker como nunca mostrar Drácula envelhecido no início da história; ou Mina que é retratada no filme como esposa de Arthur e sem relação direta com Jonathan Harker, que no filme vai ao castelo do conde ciente de sua natureza malévola e com intenção de destruí-lo. A Hammer acentuava o lado sensual do vampirismo, bem como caprichava na cenografia gótica. Apesar das mudanças, Lee tornou-se icônico no papel mesmo tendo apenas 13 falas em todo o filme. Sua atuação é estilosa, equilibrando sua pose aristocrática com feições de puro terror, realçadas pelo vermelhão nos olhos e pelas presas salientes, pela primeira vez exibidas na tela. Ao seu lado, o ótimo Peter Cushing como o Professor Van Helsing. Nos Estados Unidos rebatizado de “Horror of Dracula”, para evitar confusão com o filme de Lugosi, a versão da Hammer foi um grande sucesso reapresentando o vampiro de Stoker para uma geração que se alimentava de histórias de invasões marcianas e monstros de outro planeta. Lee foi quem melhor mostrou uma composição aristocrática mesclada com uma postura predatória incansável, sendo sedutor na mesma medida que assustador. O ator britânico, que na vida real era primo do escritor Ian Fleming, criador do espião 007, repetiu o papel mais 7 vezes: Seis pela Hammer, entre 1958 e 1973, e uma na produção alemã de 1970, dirigida por Jesus Franco, e que ainda trazia no elenco Klaus Kinski, antes deste encarnar o vampiro na refilmagem de “Nosferatu”. Era a primeira vez que Drácula era mostrado como um homem velho que vai rejuvenescendo a medida que bebe sangue, como no livro. Lee constantemente reclamava de estar cansado do personagem e eventualmente parou de interpretá-lo, porém ficou marcado no imaginário popular através de incontáveis reprises na TV, que fez de Lee o intérprete mais prolífico e popular do personagem. A década de 70 ainda teve Jack Palance em na Tv,  “Blood for Dracula” de Andy Warhol em 1974,  e William Marshall em “Blácula”, onde o vampiro da era do blackexploitation.

DRACULA NO BRASIL

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RUBENS DE FALCO TOCA BRUNA LOMBRADI NA VERSÃO BRASILEIRA ESCRITA POR RUBENS EWALD FILHO

          1979 foi o ano do vampiro pois teve quatro filmes de Drácula nas telas. A refilmagem de “Nosferatu” dirigido por Werner Herzog, que restaurou os nomes dos personagens originais do romance de Stoker, cujos direitos já haviam caído em domínio público na época. No elenco Klaus Kinski e Isabelle Adjani em um trabalho respeitoso embora inferior ao original de Murnau, e exibido no Festival de Filmes de Nova York. Poucos meses antes, Nova York recebera a estreia de uma nova versão, adaptada de uma remontagem da peça de Hamilton Deane & John Balderston  com Frank Langella repetindo nas telas, o mesmo papel que fizera nos palcos da Broadway, e – inclusive – interpretando o vampiro sem presas, tal qual Lugosi no filme de 1930. Além do “Drácula” de Langella, que foi dirigido por John Badham, houve a paródia “Amor à Primeira Mordida” (Love at First Bite) com George Hamilton que chegou a ganhar o Saturn Award (prêmio dado ao gênero fantástico) e foi indicado ao Golden Globe.  Outra paródia no mesmo ano foi “Nocturna” de Harry Hurwitz com John Carradini como um envelhecido Conde Drácula, obrigado a fazer de seu castelo um Hotel para pagar os altos impostos.

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LUKE EVANS – DRÁCULA HERÓI

          Um ano depois, estreou no Brasil a adaptação do livro de Stoker para o formato de telenovela entitulada “Drácula – Uma História de Amor” escrita pelo homem do Oscar, o renomado crítico de cinema e escritor Rubens Ewald Filho. A novela, filmada no município paulista de Paranapiacaba, trazia o conde romeno, interpretado pelo ótimo Rubens de Falco, ao Brasil onde conhece Mariana (Bruna Lombardi) que é a reencanação de sua amada e namorada de seu filho Rafael (Carlos Alberto Riccelli). A novela, dirigida por Walter Avancini, teve apenas quatro capítulos transmitidos pela TV Tupi, entre Janeiro e Fevereiro de 1980, sendo então interrompida quando a emissora carioca entrou em falência. No mesmo ano, a novela voltou pela Rede Bandeirantes, rebatizada de “Um Homem Muito Especial” e com a direção de Antonio Ambujamra. Muito antes que a Rede Globo produzisse novelas bem sucedidas como “Vamp” e “O Beijo do Vampiro” foi o renomado escritor e crítico de cinema Rubens Ewald Filho quem trouxe o vampirismo para a teledramartugia brasileira, apontando as possibilidades narrativas por trás da modernização do mito. Mais de dez anos depois, Francis Ford Coppola realizou uma pretensa adaptação definitiva do livro de Stoker entitulada “Drácula de Bram Stoker” em 1992 com Gary Oldman, Wynona Ryder, Keanu Reeves e Anthony Hopkins. No entanto, apesar de capturar o espírito da obra literária, o filme funde o personagem vampiro ao Vlad Tepes histórico e reinventa sua relação com Mina, que no livro não vai além da relação de um predador voraz atrás de sua presa, sem o romantismo empregado por Coppola. O filme foi muito bem sucedido e foi premiado com três Oscars : melhor figurino, efeitos sonoros e maquiagem.

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CLAES BANG – VAMPIRO VERSÃO 2020

         Outros Dráculas vieram : Leslie Nielsen na paródia de Mel Brooks “Drácula – Morto mas Feliz”, Gerard Butler em “Drácula 2000”, o afetado Richard Roxburgh no decepcionante “Van Helsing – o Caçador de Monstros”, “Dracula 3D” – a versão de Dario Argento de 2012,  além de Adam Sandler como a voz do personagem na animação “Hotel Transilvânia”. Drácula já apareceu em animações, Hqs, séries de TV (a mais recente com Jonathan Rhyes Myers foi cancelada), ganhou um novo livro – uma sequência oficial em 2009 escrita pelo sobrinho-neto de Stoker, e migrou para os vídeo games no famoso “Castlevania” , ganhando uma prequela, releitura estilo “Batman Begins” tentando fundir a figura histórica e a figura mitológica do personagem em “Drácula – A História Não Contada”. Embora a bilheteria não tenha garantido uma sequência, o apelo do personagem permanece inabalável. Com tanto interesse recorrente a figura do vampiro está sendo incorporada à cultura pop seja através de escritores como Stephen King, Anne Rice, Stephanie Meyer ou mesmo do incalculável número de projetos anunciados constantemente, que garantem que a versão de Gatiss e Moffat não será a última vez que Drácula se levantará do túmulo para seduzir novas gerações.

GRANDE ESTREIA: HOTEL TRANSILVÂNIA 3 – FÉRIAS MONSTRUOSAS

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(HOTEL TRANSILVANIA 3 – SUMMER VACATION) EUA 2018. DIR: GENNDY TARTAKOVSKY. COM ADAM SANDLER, SELENA GOMEZ, ANDY SAMBERG, KEVIN JAMES, FRAN DRESCHER, STEVE BUSCEMI, MEL BROOKS, DAVID SPADE. 

Há muito tempo que os monstros clássicos deixaram de provocar o medo que traziam as roupagens da Universal ou Hammer Films. As atuais gerações não se impressionam tão facilmente, mas se habituaram com a transformação destes em figuras pop. Embora desde 2012, ano do primeiro “Hotel Transilvania”, rimos pra valer dessas figuras que outrora eram restritos aos pesadelos personificados por Boris Karloff e Bela Lugosi. Essa interpretação humorística já havia sido tentada em 1967 no pouco conhecido “A Festa do Monstro Maluco” (Mad Monster Party) de Jules Bass, feito em stop-motion, que trazia o próprio Karloff na dublagem como o Barão Frankenstein.  A Sony Animation tem na franquia seu maior triunfo com um time e tanto de comediantes fazendo as vozes originais e, justiça seja feita, um excelente trabalho de dublagem com Alexandre Moreno (Drac), Mauro Ramos (Frank), Jorge Lucas (Wayne), Fernanda Baronne (Mavis) entre outros.

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            O primeiro filme trouxe o choque entre os monstros e Johnny, o jovem mochileiro que por acaso descobre o castelo de Drácula nos Cárpatos Romenos. Rolou o tchan entre Johnny e Mavis, a herdeira do Conde Drácula, pivô de romance e confusão já que os monstros tinham mais medo dos humanos que o oposto. No segundo filme (2015) nasce Dennis, o neto de Drácula dando prosseguimento a mais uma geração, incluindo a volta de Vlad, o pai de Drácula vivido pelo rei das paródias Mel Brooks. Tirando nossos adoráveis personagens do lugar comum, os reencontramos em um cruzeiro de férias, no qual Drácula se apaixona mais uma vez. O tchan rola entre ele e a Comandante Érica sem que Drac imagine que ela é descendente de seu arqui inimigo Abraham Van Helsing. Claro que muitas trapalhadas se seguirão com essa turma atípica embarcando nessa viagem, e as piadas conseguem ser criativas e, bem adaptadas no caso da dublagem. Crianças e adultos talvez mais não conseguirão segurar as gargalhadas em momentos como Blob se tornando pai, os planos de Erica nada amigáveis e, sobretudo, a mensagem de respeito às diferenças que conecta o humor com a ação. Boa pedida para o clima de férias escolares, certo é que aguardamos a volta dessa trupe em um quarto filme que nos faça descobrir o monstro dentro de nós, claro monstrinho camarada.

 

 

UNIVERSO DE MONSTROS

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         Quando Criança meu universo compartilhado de monstros era assistir a sitcom “The Munsters” (1964-1966) que trazia Fred Gwynne e Yvonne DeCarlo como um simpático casal, ele a criatura de Frankenstein e ela uma vampira, filha do próprio Drácula, um vovô bonachão, interpretado por Al Lewis. Tempos mais inocentes quando os monstros clássicos dos filmes de terror já não assustavam tanto. Nos primórdios do cinema, no entanto, a casa destes era o estúdio da Universal que tornou-se especialista em dar forma aos pesadelos do inconsciente humano.

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FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEN

            A frase “Bem vindo a um mundo novo de deuses e monstros” que agora anuncia a chegada do “Dark Universe” do estúdio na verdade é uma retomada pois o estúdio, na ativa desde a era do cinema mudo, já investira no passado na ideia de um universo compartilhado. Nomes como Lon Chaney (pai e filho), Boris Karloff e Bela Lugosi formavam um elenco talentoso na arte de explorar o medo, mais sugerido que explicito. Entre 1923, data da primeira filmagem de “O Corcunda de Notre Dame” com Lon Chaney até o final da década de 50, o Universal Studios chefiada por Carl Laemmle soube se especializar em filmes de custo baixo mas que davam grande retorno de bilheteria durante os loucos anos vinte (os chamados roaring twenties) criando uma reputação que continuou a explorara em meio aos difíceis anos da grande depressão que se seguiu. A Universal foi o primeiro estúdio a investir em sequências, muitas das vezes reaproveitando cenários, tomadas e falas, se beneficiando do talento desses atores, diretores como Tod Browning e James Whale e da habilidade do maquiador Jack Pierce para moldar personagens saídos dos pesadelos mais sombrios. A Universal deu vida a Drácula, Frankenstein, lobisomem, múmia e várias outras criaturas que se popularizaram com um público que encontrava deleite nas sombras da alma humana representadas em preto e branco, herdeiros das lições do expressionismo cultivadas por Murnau e Lang.

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A CASA DE FRANKENSTEIN

          A ideia de juntar mais de um monstro em um único filme surgiu quando, depois de 4 filmes de Frankenstein (os três primeiros com a criatura interpretada por Boris Karloff) o roteirista Curt Siodmark sugeriu ao produtor  George Wagner que fizessem “Frankenstein meets the Wolfman”, recebendo sinal verde para o projeto que veio a ser dirigido por Roy William Neill e lançado em 1943. O filme mostra Larry Talbot (Lon Chaney Jr) procurando uma cura para sua maldição e se confrontando a criatura de Frankenstein interpretada por Bela Lugosi, que fica em cena apenas por pouco mais de cinco minutos sendo ocasionalmente substituido por um dublê devido a problemas de saúde. O filme funcionou como uma sequência tanto para os eventos mostrados em “O Lobisomen” de 1941 como em “A Alma de Frankenstein” (The Ghost of Frankenstein) de 1942. Para atrair o público, o estúdio anunciou o nome de Lon Chaney, sem o Jr, para confundir a todos já que o nome de Lon Chaney pai (falecido em 1930) ainda era então extremamente conhecido. A ideia inicial era de ter Chaney filho fazendo tanto o papel do lobisomen como do monstro de Frankenstein, mas deixada de lado já que falamos de décadas anteriores à tecnologia digital. O resultado satisfatório animou a Universal a reunir mais monstros, o que levou à realização de “A Casa de Frankenstein” (The House of Frankenstein) de 1944. Neste novo exemplar, Boris Karloff retorna ao universo de monstros mas como o cientista louco que manipula Dracula (John Carradini), o monstro de Frankenstein (o ex cowboy Glenn Strange) e o Lobisomen (Chaney Jr) para se livrar de seus desafetos. Originalmente, a múmia Kharis seria incluída no filme, mas por motivos de orçamento ficou de fora. Mesmo as cenas com Drácula acabaram sendo filmadas em separado sem que este contracenasse com o lobisomen de Chaney e o Frankenstein de Strange. O filme ainda incluiria a figura do corcunda apaixonado (J.Carrol Nash) por uma dançarina cigana (Elena Verdugo) emulando a narrativa de “O Corcunda de Notre Dame”, embora não sejam os mesmos personagens. A Segunda Guerra se aproximava de seu fim, mas o público vivia a incerteza desta e de suas consequências. O ciclo da Universal oferecia a catarse ideal para esse medo real, palpável e o estúdio soube como tirar proveito disso levando a “A Casa de Drácula” (The House of Dracula) de 1945 reunindo esse “Nightmare Team” uma última vez, desta vez sem Karloff que teve o personagem substituído por outro cientista, o Dr.Edelmann (Onslow Stevens) a quem Drácula e Larry Talbolt procuram em busca de uma cura. O filme incluiu uma novidade na figura de uma mulher corcunda, Nina (Jane Addams). O filme também marcou a última aparição de Lon Chaney Jr sob contrato com a Universal, embora o ator tenha voltado ao papel mas na comedia “Abbot & Costello Meet Frankenstein” (1948) que reuniria além do próprio Bela Lugosi como Dracula e Glenn Morgan como Frankenstein.

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A CASA DE DRÁCULA

         Quando a década de 50 chegou o interesse dos estúdios passou a ser filmes de monstros do espaço e discos voadores, o que deixou os monstros clássicos de lado mas não esquecidos graças à iniciativa da Universal de levá-los para a Tv como um pacote de filmes  que foi apresentado a uma nova geração de jovens que redescobriu os mestres do pavor sobrenatural. Provando que estes sempre renascem, o estúdio promete novas versões em filmes interligados, reintroduzindo o conceito para uma geração acostumada a jogos de vídeo game e filmes de super heróis. Como promete o slogan, um mundo – não tão novo assim – de deuses, monstros e efeitos digitais modernos.

HALLOWEEN 2015 : PARTE 1 – VAMPIROS

A PARTIR DESSA SEMANA PUBLICAREI DURANTE O MÊS DE OUTUBRO ARTIGOS SOBRE TEMAS RELATIVOS AOS FILMES DE TERROR COMO CELEBRAÇÃO DO HALLOWEEN DESSE ANO. O PRIMEIRO TEMA A SER PUBLICADO É SOBRE AS FAMIGERADAS, PORÉM SEDUTORAS CRIATURAS DA NOITE. VEJAMOS UM POUCO SOBRE A NATUREZA DE SEUS HÁBITOS E EM SEGUIDA UMA SELEÇÃO DOS MELHORES FILMES DO GÊNERO:

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HISTÓRIAS DE VAMPIROS SÃO, NA VERDADE, ANTERIORES AO ROMANCE “DRÁCULA” DE BRAM STOKER, QUE FOI PUBLICADO EM 1897. NAQUELE FINAL DO SÉCULO XIX, O CONTINENTE EUROPEU JÁ COLECIONAVA DIVERSOS RELATOS DESAS CRIATURAS NOTÍVAGAS QUE SE LEVANTAVAM DE SUAS TUMBAS PARA SE ALIMENTAR DE SANGUE HUMANO. EM UMA ÉPOCA DE MUITA SUPERSTIÇÃO E REPRESSÃO SEXUAL, O VAMPIRO SURGIA COMO A PERSONIFICAÇÃO DE UMA CONDUTA LASCIVA, METÁFORA PARA O SEXO FORA DO CASAMENTO. A MORDIDA NO PESCOÇO GUARDA CONOTAÇÕES DE SEDUÇÃO QUE SUGEREM O ORGASMO E O DESEJO INCONTIDO DE PRAZER CARNAL. ALÉM DISSO, O VAMPIRO TAMBÉM É UM REBELDE POIS DESAFIA AS LEIS DE DEUS: VIVE ETERNAMENTE E SE MANTEM JOVIAL COM SUA RIGOROSA DIETA A BASE DE SANGUE. HOUVE QUEM SEGUISSE TAL NOÇÃO AO PÉ DA LETRA COMO A LENDÁRIA CONDESSA HÚNGARA ELIZABETH BATHORY(1560 – 1614 ), QUE OBCECADA PELA BELEZA ETERNA, COMETEU CRIMES HEDIONDOS, VINDO A SE BANHAR NO SANGUE DE BELAS VIRGENS, MOTIVO PELO QUAL ESTA FICOU CONHECIDA COMO “CONDESSA DRÁCULA”. SUA HISTÓRIA SERVIU DE INSPIRAÇÃO PARA O ESCRITOR IRLANDÊS JOSEPH SHERIDAN LE FANU ESCREVER SEU ROMANCE “CARMILLA“, PUBLICADO EM 1872, E QUE TAMBÉM INICIOU A CONOTAÇÃO DE QUE O VAMPIRISMO NÃO ESTAVA PRESO A HETEROSEXUALIDADE, SUGERINDO LESBIANISMO, OUTRA CONDUTA IGUALMENTE ESCANDALOSA PARA A SOCIEDADE EUROPÉIA DE ENTÃO. NA LITERATURA, E DEPOIS NO CINEMA, O FIGURA DO VAMPIRO EVOCOU A SEDUÇÃO E O MEDO, A VIDA ETERNA E A MORTE. SE DRÁCULA TORNOU-SE SINÔNIMO DE VAMPIRISMO, TAMBÉM ESTABELECEU OS CÂNONES DO GÊNERO : A ESTACA NO CORAÇÃO, O DOMÍNIO SOBRE AS CRIATURAS DA NOITE ENTRE OUTROS. AINDA EM 1927, O CINEASTA ALEMÃO F.W.MURNAU FEZ UMA ADAPTAÇÃO NÃO OFICIAL E QUE GANHOU IDENTIDADE PRÓPRIA NO GÊNERO: “NOSFERATU” TRANSFORMANDO A SEDUÇÃO EM REPULSA, DESTILANDO MEDO E INCORPORANDO TODA UMA ESTÉTICA ARTÍSTICA QUE FARIA HISTÓRIA. MUITOS ANOS DEPOIS, O ESCRITOR NORTE AMERICANO PUBLICOU, EM 1975, “A HORA DO VAMPIRO” (SALEM’S LOT). FOI SEU SEGUNDO LIVRO DECLARADAMENTE INSPIRADO NO LIVRO DE BRAM STOKER. A NORTE-AMERICANA ANNE RICE EXPLOROU NOVAS FRONTEIRAS DO VAMPIROS QUANDO CRIOU O VAMPIRO LESTAT , E EM 1976, PUBLICOU “ENTREVISTA COM O VAMPIRO” (INTERVIEW WITH THE VAMPIRE) QUE GEROU UMA LEGIÃO DE FÃS, CONQUISTADOS AO LONGO DE UMA SÉRIE DE LIVROS DO GÊNERO. MENOS CONHECIDO DO PÚBLICO BRASILEIRO, MAS BASTANTE INTERESSANTE É O EDITOR E JORNALISTA AMERICANO MICHAEL ROMKEY, QUE PUBLICOU EM 1990 “i VAMPIRE“, ONDE UM HOMEM DESILUDIDO REDESCOBRE UM SENTIDO MAIOR PARA SUA VIDA AO SE APAIXONAR POR UMA VAMPIRA. ROMKEY POSTULA QUE VÁRIAS FIGURAS HISTÓRICAS COMO O RUSSO RASPUTIN E JACK O ESTRIPADOR SÃO VAMPIROS. O SUCESSO DESSE LIVRO LEVOU TAMBÉM A UMA SÉRIE LITERÁRIA BEM SUCEDIDA. VEJAMOS ABAIXO, UMA LISTA DE FILMES MEMORÁVEIS SOBRE ESSES FASCINANTES SUGADORES DE SANGUE QUE INFLAMAM A IMAGINAÇÃO DOS APRECIADORES DO GÊNERO :

1- HORROR DE DRÁCULA (1958) – FOI O PRIMEIRO FILME DE DRÁCULA ESTRELADO PELO SAUDOSO CHRISTOPHER LEE, CONHECIDO PELA NOVA GERAÇÃO COMO O SARUMAN DE “O SENHOR DE ANÉIS” & “O HOBBIT”. LEE SUPEROU A JÁ EXCELENTE ATUAÇÃO DE SEU ANTECESSOR NO PAPEL (BELA LUGOSI). A PRDUTORA HAMMER CRIOU UMA VERDADEIRA DINASTIA DE FILMES DE TERROR E O MESTRE LEE UM DOS SEUS MAIORES EXPOENTES. COM POUCAS PALAVRAS E SEM CONTAR COM GRANDES EFEITOS, SUA ATUAÇÃO É ASSUSTADORAMENTE PERFEITA. COM SEU OLHAR E POSTURA ARISTOCRÁTICA, NADA MAIS É NECESSÁRIO.

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2- DRÁCULA DE BRAM STOKER (1990) – É A MAIS PRÓXIMA ADAPTAÇÃO DO ROMANCE DE STOKER, MAS AINDA REINVENTA ALGUMAS PASSAGENS. GARY OLDMAN ESTÁ EXCELENTE NO PAPEL E A DIREÇÃO DE COPPOLA SOUBE COMO CONDUZIR A HISTÓRIA TIRANDO A ESSÊNCIA DAS PALAVRAS DE STOKER E TRADUZINDO-AS EM IMAGENS.

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3- A HORA DO ESPANTO (1985) -ESQUEÇA A REFILMAGEM DE 2011, O FILME DIRIGIDO POR TOM HOLLAND COM RODDY MCDOWALL E CHRIS SARANDON AINDA É MELHOR.

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4- NOSFERATU (1979) – O DIRETOR ALEMÃO WERNER HERZOG CONSEGUIU A DIFICIL TAREFA DE ADAPTAR O FILME DE MURNAU. IMAGENS E CONTEUDO CAPAZ DE INTERESSAR MESMO AO NÃO AFICCIONADOS PELO GÊNERO.

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5- DEIXE-ME ENTRAR (2011) – MATT REEVES REFILMOU A PRODUÇÃO SUECA QUE ADAPTAVA O LIVRO DE JOHN LINDQUIST SOBRE UMA NOVEMN VAMPIRA E SUA AMIZADE COM UM MENINO QUE SOFRE BULLYING NA ESCOILA. INTERESSANTISSIMO E BEM ATUADO PELA OTIMA CHLOE GRACE MORETZ.

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OUTRAS SUGESTÕES :

DRÁCULA A HISTÓRIA NÃO CONTADA (2014), OS GAROTOS PERDIDOS (1987), VAMPIROS DE JOHN CARPENTER (1995), SOMBRAS DA NOITE (2013), ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994), A SOMBRA DO VAMPIRO (2013)  E VOCÊS QUAL SEU FILME FAVORITO SOBRE VAMPIROS ?

NAS BANCAS : CONHECIMENTOS PRÁTICOS – LITERATURA 59

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Caros amigos, chegou às bancas essa semana a mais recente edição da revista “Conhecimentos Práticos: Literatura” (edição #59) conforme a imagem acima. Além de várias matérias interessantes como a matéria de capa sobre a poesia de Cora Coralina e uma curiosa matéria sobre traduções de obras literárias, está incluida um artigo escrito por mim sobre as transposições de “Drácula” para o cinema. Há várias curiosidades nesse mais de um século em que a obra de Bram Stoker foi escrita, além de análise das diferenças entre o livro e suas várias encarnações nas telas, incluindo uma novela brasileira que foi escrita pelo meu querido amigo, o crítico Rubens Ewald Filho, e que foi inicialmente exibida na extinta Tv Tupi, e depois TV Bandeirantes. Isso mesmo !!! Tudo isso e muito mais nas páginas da revista. Quem quiser conferir, obrigado pela atenção.

por Adilson Cinema Com a tag