ALIEN – REVENDO A FRANQUIA

Há 38 anos, Ridley Scott mostrou que no espaço ninguém nos ouviria gritar uma vez que o som não se propaga no vácuo. Na sala de cinema foi o grito do público que popularizou a figura de uma criatura xenomorfa como um dos maiores monstros do cinema. A ideia de Dan O’Bannon, roteirizada pelo próprio em conjunto com Richard Shusett, veio a se tornar o primeiro “Alien” (1979) subentitulado no Brasil “o oitavo passageiro”. O’Bannon já havia ensaiado a historia de um organismo estranho à bordo de uma nave em “Dark Star” (1975) de John Carpenter, mas as raízes do filme que “Alien” se tornaria foram plantadas nos filme B dos anos 50 e 60 em títulos como “The Quartemass Experiment” (1953) e “The Thing from Outer Space” (1951).

alien 1979

RIDLEY SCOTT, VERONICA CARTWRIGHT E O ALIEN

O filme dirigido por Ridley Scott potencializou o tema bebendo da lição spielbiguiana de mostrar pouco e insinuar muito a medida que incita o público a imaginar como seria sua criatura no final. Não à toma o renomado crítico Roger Ebbert comparou”Alien” a “Tubarão” (Jaws), lançado quatro anos antes. A narrativa de Scott  começa silenciosa, mas cresce a tensão gradativamente conforme a tripulação da Nostromo (nome que foi retirado de um poema de Joseph Conrad) é eliminada tal qual os personagens de “O Caso dos dez negrinhos” (Ten Little Indians) clássico livro de Agatha Christie. Curiosamente, o personagem de Ripley (Sigourney Weaver) assume o protagonismo de forma despretensiosa, lançando a carreira da atriz então aos 30 anos.

bolaji badejo

BOLAJI BANDEJO VESTINDO A ROUPA

O visual assustador da criatura foi idealizado pelo artista gráfico H.R. Giger (1940 – 2014) que deu ao xenomorfo a cabeça alongada e a forma humanoide, cujo traje coube ao renomado técnico Carlo Rambaldi (1925-2012), o mesmo responsável por “King Kong” (1976) e “E.T” (1982), que ficou com a tarefa de fazer o movimento da criatura e a projeção da mandíbula interna algo aterrador, o que conseguiu fazendo por merecer o Oscar de melhor efeitos visuais. Na era pré-digital coube ao nigeliano Bolaji Bandejo (1953/1992) vestir o traje que lhe deu seu único crédito como ator. A bilheteria de $78.900.000, cerca de seis vezes mais do que seu orçamento original, convenceu a Twentieth Century Fox a continuar a história, mas problemas internos no estúdio atrasaram os planos. Foi um então desconhecido James Cameron quem apresentou à Fox um roteiro propondo contar o que teria acontecido com a Tenente Ripley depois de seu traumático encontro com a criatura. Quando Cameron atraiu a atenção da mídia com “O Exterminador do Futuro” (Terminator) em 1984, a Fox se convenceu entregando-lhe também a direção de “Aliens – o Resgate” (Aliens) de 1986. A narrativa, contudo, segue caminho inverso: Em vez do suspense claustrofóbico de Ridley Scott, Cameron opta pela ação desenfreada e pelo ritmo vertiginoso, mas souber dar consistência à sua história fazendo da luta de Ripley não apenas uma questão de sobrevivência, mas uma busca por seu instinto materno canalizado através da menina Newt (Carrie Henn). Assim, o diretor fez de Ripley a primeira heroína dos filmes de ação dos anos 80, versão feminina de Rambo, em um conflito que guarda curioso paralelo: Os xenomorfos exterminam os humanos não importando as sofisticadas armas dos soldados, tal qual os vietcongues com os norte-americanos.

aliens

ELENCO DE “ALIENS O RESGATE” 1986

Lamentavelmente, o terceiro filme não sustentou a mesma qualidade e apuro. “Alien 3” (1992) de David Fincher foi um equívoco, apesar da inventividade da câmera do talentoso diretor, que teve problemas com constante interferência dos executivos do estúdio. Aos fãs desagradou bastante a decisão do roteiro de David Giler, Walter Hill e Larry Ferguson que matou o Cabo Hicks (Michael Biehn) e a menina Newt, também sobreviventes do segundo filme. Quatro anos antes, a editora Dark Horse Comics publicou uma mini série entitulada também “Aliens”, dando sequência aos eventos do filme de Cameron com o Cabo Hicks e Newt viajando ao planeta natal dos xenomorfos. Muitos fãs declararam preferir a história da HQ, que foi republicada tempos depois mudando os nomes dos personagens para não contradizer o filme de Fincher. Este se retirou do filme na fase de montagem, que durou um ano para ser concluída. Com a morte de Ripley, Joss Whdeon (diretor de “Os Vingadores”) que na época estava popular entre os jovens com a série da Fox “Buffy – a Caça Vampiros”, foi chamado pelo estúdio para um quarto filme, mas sabia-se que sem Sigourney Weaver dificilmente daria certo. Assim, Whedon elaborou uma história que se passa 200 anos depois da morte de Ripley, trazida de volta através da clonagem em “Alien A Ressurreição” (Alien Ressurrection), dirigido por Jean Pierre Jeunet, em 1997. O resultado foi ainda pior e parou a franquia por um longo tempo (apesar de dois confrontos “Alien vs Predador” em 2004 e 2007) até que Ridley Scott conseguisse convencer os executivos da Fox a realizar “Prometheus”  (2012), ambiciosa prequela voltada para os eventos que conduziriam para o primeiro filme, deixando mais pontas soltas em uma história mergulhada na premissa de que a vida na terra começou como experiências feitas por alienígenas, tal qual postulado pelo escritor Erik Von Daniken em “Eram os Deuses Astronautas?”.

aliens hqs

AS HQS QUE DERAM SEQUÊNCIA AO FILME DE CAMERON

Com a aparente impossibilidade de um quinto filme que continuasse a história de Ripley, como proposto por Neil Blomkamp, Ridley Scott começa a costurar os eventos do passado com a chegada de “Alien Covenant”, que certamente não será um ponto final já que Hollywood insiste em nos fazer gritar, pois o cinema é diferente do espaço e o som não apenas ecoa, mas se multiplica.

Anúncios

BATMAN A PIADA MORTAL

batman killing joke.png                  Segundo o filósofo alemão Friedrich Nietzsche se você olhar demais para o abismo, então o abismo olhará para dentro de ti. O escritor Alan Moore soube como aproveitar essa análise e levar a luta entre herói e vilão a um novo patamar criando uma das melhores histórias do Batman de todos os tempos, que agora  é adaptada pela Warner. A animação é lançada nos cinema em exibição única, logo após sua premiére na tradicional San Diego Comic Com, e depois lançada direta no formato de Blu ray e DVD pela Amazon. Mas do que se trata a HQ original ?

Batman-A-Piada-Mortal-página-1

O CORINGA ATIRA NA BATGIRL

Lançada em Março de 1988, a Graphic Novel “Batman The Killing Joke” foi escrita pelo britânico Alan Moore e desenhada por Brian Bolland. Moore ganhou destaque na segunda metade da década de 80 nas HQs do Monstro do Pântano (Swamp Thing) além de duas histórias icônicas do Superman que serviram de canto do cisne para o personagem pré-crise. Com o Batman, Moore dividiu a história em duas linhas temporais: O embate entre o homem morcego e o Coringa e , em paralelo, o passado do vilão insano adaptando livremente a clássica história “The Man Behind The Red Hood”  (Fevereiro de 1951) que tratava da origem do Coringa. Moore mergulha fundo na psique dos dois antagonistas, mostrados como reflexos distorcidos um do outro.

Piada-mortal

LOUCURA TOTAL

O Coringa vai até a casa do comissário Gordon, atira em sua filha Bárbara (a Batgirl) e a sequestra depois de tirar várias fotos. O Palhaço leva pai e filha ao um parque de diversão abandonado, onde acorrenta o Comissário obrigando-o a ver as fotos de Barbara ferida e nua. O propósito do vilão é provar que qualquer um pode enlouquecer se tiver um mau dia. Batman persegue o vilão determinado a acabar com ele e o que se segue é um embate não só físico, mas também psicológico entre os personagens.

A história é tratada por Moore com teor adulto, sem fazer concessões e reforçada pela magnífica arte de Brian Bolland, em cores berrantes que transmitem a loucura do herói e do vilão, cada um movido pelos respectivos papéis de agente da ordem e caos, forjados pelas tragédias que lhes ocorreram no passado. O impacto da graphic novel foi incorporado pela continuidade mostrando depois que Barbara Gordon ficara paraplégica, e impossibilitada de voltar a ser a Batgirl, criando para si a identidade da hacker Oráculo, mas isso já é outra historia. “Batman A Piada Mortal” foi publicada quando Batman comemorava 50 anos de sua criação por Bob Kane e Bill Finger, tendo o Coringa sido criado por estes com o artista Jerry Robinson. Pouco antes, Frank Miller havia recontado a origem de Batman em “Ano Um” junto do artista David Mazzuchelli e projetado seu futuro na icônica “Batman O Cavaleiro das Trevas” Juntamente com a história de Moore, estas exerceriam grande influência no tratamento que o cinema e  TV dariam em diversas adaptações como filmes ( Tanto Tim Burton quanto Christopher Nolan admitiram ter se inspirado na versão do Coringa de Moore) , a clássica animação “Batman Animated Series” e , mais tarde, em jogos.

piada mortal capa.png

No Brasil a graphic novel chegou pela primeira vez em 1989 publicada pela Editora Abril, tornando-se um sucesso de vendas, e sendo republicada tempos depois. Curiosamente, seu autor sempre renegou a obra uma vez que seu relacionamento com a editora se deteriorou ao longo do tempo. Moore hoje com 62 anos declarou que detesta a história, tendo escrito apenas uma história centrada em dois personagens sem nenhuma conexão com a vida real. Apesar de seu desdém, Moore foi maestro em fazê-lo, deixando o final em aberto, mexendo com a imaginação dos leitores. O autor também escreveu outras obras adaptadas para o cinema como “V de Vingança”, “A Liga Extraordinária” , “Watchmen” e “Do Inferno”, e sempre alegou não ter gostado de nenhuma. Houve quem criticasse a graphic novel acusando Moore de sádico e violento, o que este simplesmente ignorou.

Alan Moore

ALAN MOORE O MAGO DAS HQS

A animação feita agora traz de volta os dubladores Kevin Conroy (Batman) e Mark Hamil (Coringa) – sim o mesmo ator que interpreta Luke Skywalker – para as vozes  dos personagens. Para muitos essa é a história definitiva sobre o Coringa, para outros uma das melhores mas o que fica é a certeza que sanidade e loucura é separada por uma fina linha divisória, uma que não importa se você se veste de morcego ou se pinta de palhaço, você caminha por ela e quando percebe o abismo já o engoliu

MEMORIAS DE UM CINÉFILO : A REVISTA SET CINEMA & VIDEO

REVISTA SET - 1987 1

PRIMEIRA EDIÇÃO DE JULHO DE 1987. A REVISTA DEIXOU SAUDADES.

Em Julho de 1987, eu estava completando 18 anos quando passei por uma banca de jornal e conheci a revista SET CINEMA & VIDEO. Na capa, o ator Mickey Rourke, apontado como símbolo daquela geração, com um ar contestador que invocava Marlon Brando emulado fosse no papel de rebelde em “O Selvagem da Motocicleta” (Rumble Fish) de Francis Ford Coppola ou como sedutor em “9 Semanas e Meia de Amor” (9 1/2 Weeks). Contudo, Rourke aparecia na revista não apenas por seu promissor currículo mas principalmente por estrelar “Coração Satânico” (Angel Heart) de Alan Parker, ao lado do monstro sagrado Robert DeNiro. Aquela primeira edição era, assim como Rourke, uma grande promessa para aquele final da década de 60. Em uma época em que a Internet não existia, SET trazia informações apuradas de Hollywood: Notícias do que rolava de projetos e filmes vindouros (a seção Takes), os lançamentos nas telas, um elogioso ensaio fotográfico da belíssima Natassja Kinski entre outras surpresas, com texto bem escrito e admirável resolução gráfica. Outro atrativo de SET foi o início de uma coleção de fichas técnicas que traziam de um lado a reprodução de posters de filmes com informações técnicas e curiosidades no verso.

O embrião da revista SET surgiu na verdade como uma seção interna de outra revista que vendia bastante naquela segunda metade da década de 80: BIZZ, voltada para os astros POP da música. Alex Antunes (Hoje blogueiro do Yahoo Brasil) e Marcel Plasse (hoje editor do site “Pipoca Moderna”) foram os editores originais da SET pela Editora Azul (subsidiária da Editora Abril) pela qual circulou mensalmente por 11 anos. Outro mérito da revista foi explorar o BOOM do home video. A primeira edição, por exemplo, trazia uma seleção de 100 videos imperdíveis que foram seguidos, nas edições subsequentes, por seleções de outros gêneros que chegavam às locadoras que se multiplicavam pelo país naquela época em que éramos governados pelo primeiro presidente civil em muitos anos. SET abraçava as novidades na mesma forma que reverenciava o passado com a seção MITOS, mostrando uma breve trajetória dos grandes nomes da Hollywood clássica com uma filmografia nas páginas finais, encerrando as edições com belas fotos de página inteira como Rita Hayworth (que falecera no ano de nascimento da revista) além de Marilyn Monroe, Marlon Brando entre outros.

set terror ficção 1       SET também publicou diversas edições extra como “GUIAS DE VIDEOS”, ‘SET POLICIAL & SUSPENSE” & ‘SET TERROR & FICÇÃO”, esta um colírio para os olhos de nerds e cinéfilos que buscavam informações sobre filmes e séries do gênero fantástico. Com a evolução dos efeitos especiais, SET TERROR & FICÇÃO trazia periodicamente (foram diversas edições) matérias de filmes como “A Mosca”, “Os Fantasmas se Divertem”, “A Hora do Pesadelo” “Jornada nas Estrelas A Nova Geração” , “A Hora do Espanto”, “Robocop” etc… De periodicidade irregular, “SET TERROR & FICÇÂO” conquistou muitos fans-leitores com uma proposta editorial correspondente às norte americanas Fangoria e Starlog.

Em 1998, a revista passou para a Editora Abril entre 1998 e 1999, passando para a Editora Peixes em seguida, onde foi publicada pelos 10 anos seguintes. Nessa altura, a revista já havia passado para o editor Roberto Sadovsky. A Revista já havia passado por uma reformulação visual por volta de 1991, época do lançamento de “A Familia Addams”, “True Lies” e “O Fugitivo”, mas preservou em sua páginas a seção “Hollywood Boulevard” escrita pela maravilhosa e saudosa jornalista Dulce Damasceno de Britto, que viveu a era de ouro de Hollywood, tendo entrevistado vários mitos do cinema.

revista-set-cinema-e-video-edico-87-ano-viii-n-9-30866-10679-MLB20032632636_012014-F    revista_titanicset

SET foi testemunha de várias mudanças na forma de se assistir filmes: O advento do VHS, a chegada do DVD, da Tv por assinatura, o Blu-Ray, o fim das locadoras com a popularização dos downloads. Quem lia a SET acompanhou todas essas  mudanças em paralelo ao avanço técnico dos filmes com a tecnologia digital. Contudo, o mercado editorial mudou muito ao longo dos anos e SET foi perdendo espaço frente à informação instantânea trazida pelos sites da internet. Os clássico foram reduzindo seu espaço em favor de uma linguagem mais “pop”, mais “teen” na escolha das matérias e entrevistas publicadas. Ainda assim, continuei a ler a revista, mesmo depois que em seu período terminal, a revista passou a ser publicada pela CBM (do Jornal do Brasil) editada por Mario Marques, e finalmente de volta para Roberto Sadovsky pela Editora AVEC. em uma fase de periodicidade irregular que teve seu canto do cisne em Novembro de 2010, quando a revista deixou de circular definitivamente. Lamentável fim para uma publicação de grande importância para o meio.