CLÁSSICO REVISITADO : GREASE NOS TEMPOS DA BRILHANTINA – 40 ANOS

          A juventude significa lembranças de tempos mais ingênuos, da sensação de que o tempo está em nossas mãos. Nos anos 50 significa também corridas de racha movidas a Rock ‘n roll, e brilhantina (precursor do gel de cabelo) … Pois mesmo depois de 40 anos essa ainda é a palavra.

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          Hoje um dos maiores musicais do cinema, “Grease” nasceu no circuito off-Broadway, escrita por Jim Jacobs e Warren Casey. Ambos embarcaram na mais pura nostalgia representada pela virada dos anos 50 para 60 para contar a história de amor de dois adolescentes  que estão no último ano da escola Rydell High. Na peça o cenário é o meio oeste do país, mas para o filme foi mudado para a California de 1959. Outra mudança foi no tom já que no texto original a história era mais áspera e menos romântica, focando na rebeldia de jovens que se agrupam em gangs de deliquentes, segregados socialmente e se identificando com o então recém nascido Rock ‘n’roll.

         A peça teve seu debut em 7 de fevereiro de 1971 no circuito off-Broadway, popularizando-se em Chicago antes de partir para Nova York. Foi nessa ocasião que foi assistida pelo produtor Alan Carr, que se interessou em adaptá-la para o cinema. Os direitos, no entanto, já haviam sido adquiridos por Ralph Bakshi (animador de “Fritz The Cat”) mas estes expiraram em pouco tempo permitindo que Carr os adquirisse por US$200,000, levando o projeto à Paramount onde se associou ao produtor Barry Diller. Ambos se odiavam, mas fizeram alterações suavizando temas como gravidez na adolescência, deliquência juvenil e rivalidade entre gangs, tudo que foi elaborado a partir da vivência dos autores. Foi Carr quem contratou o diretor Randal Keiser, que havia sido colega de quarto de George Lucas na Universidade. Também foi Carr quem contratou a romancista Bronte Woodward para ajudá-lo a escrever o roteiro refinando os temas abordados na peça. A principio eles fariam de Danny Zuko um frentista de posto de gasolina e trariam o ator Paul Lynde (Tio Arthur do clássico seriado “A Feitiçeira” como o diretor da Ryder High). Estaria previsto nessa primeira versão do roteiro que Lynde faria um numero musical de Carmen Miranda e os Beach Boys ficariam com a canção “Greased Lightnin” encenado na garagem.

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AH ! AQUELAS NOITES DE VERÃO

        Já Diller, representando a Paramount, teria convidado Henry Winkler (o Fonzie do seriado “Happy Days“, muito popular na época) para o papel de Danny Zuko. Contudo, o papel do protagonista caiu nas mãos de John Travolta, então com 22 anos, já que este já era conhecido do diretor com quem havia trabalhado no filme de Tv “O Rapaz da Bolha de Plástico” (The Boy in the Plastic Bubble) de 1976, além de ter trabalhado com o produtor Robert Stigwood em “Os Embalos de Sábado a Noite” (Saturday Night Fever), que na ocasião ainda nem havia sido lançado nos cinemas. Travolta brilhou no filme, e usou de seu recém-criado prestígio para garantir que estrelasse  o número solo “Greased Lightnin’” que fora planejado para o personagem de Jeff Conaway.

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A VIRADA DE SANDY

            Já o papel de Sandy quase foi para Carrie Fisher, que na época filmava “Star Wars Episode IV” com George Lucas, e depois ainda foi cogitado a atriz Susan Dey (Laurie Partridge do seriado “A Familia Dó Re MI“). A inglesa Olivia Newton John já tinha uma carreira como cantora, mas havia tido uma má experiência como atriz em sua terra natal (a sci-fi B “Toomorrow” de 1970) quando foi cogitada para co-protagonizar o filme, tendo o apoio imediato de John Travola que ajudou a convencê-la a se juntar ao elenco. Como seu sotaque inglês era indisfarçável, o roteiro foi modificado fazendo Sandy uma estudante australiana já que Olivia morou dez anos na Austrália. Rizzo, a líder das “Garotas Rosadas” estava previsto para Lucy Arnaz (filha de Lucille Ball), mas ficou afinal com Stockard Channing, enquanto Kenickie foi vivido por Jeff Conaway que já conhecia a peça original pois interpretou Danny na montagem da Broadway. A mais curiosa das alterações de elenco foi Frankie Avalon no papel do anjo no sonho de Frenchy. Inicialmente, o anjo seria Elvis Presley mas a morte do ator/cantor levou a mudanças, inclusive na letra da canção “Look at me, I’m Sandra Dee” que foi gravada no dia em que a morte de Elvis foi anunciada, por isso teve o nome do rei do Rock incluida na letra ( “Elvis Elvis let me be! Keep that pelvis far from me! ).

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O CASAL 20 DOS ANOS 70

          Do elenco contratado os únicos com idade mais próxima de seus personagens (colegiais em torno dos 16 anos) eram Dinah Mannof (Marty) que tinha 19 anos e Lorenzo Lamas (o atleta Tom) também com 19 anos. Esse foi um dos pontos que incomodou o renomado crítico Roger Ebert na época de lançamento do filme: John Travolta (Danny) tinha 22, Olivia Newton-John (Sandy) 29, Jeff Conaway (Kenickie) 26, Jamie Donnelly (Jan) 30, Susan Buckner (Patty) 25, Michael Tucci (Sonny) 31, Kelly Ward (Putzie) 20 e a mais velha era Stockard Channing (Rizzo) 33. Segundo a própria atriz, Alan Carr teria pintado sardas em seu rosto para maquiá-la de forma a disfarçar sua idade. A escalação mais polêmica foi a de Harry Reems, ator pornô que co-estrelou o polêmico “Garganta Profunda” (Deep Throat), para o papel do treinador Calhoun. A rejeição e a reação dos executivos da Paramount fizeram Carr desistir e colocar o comediante Sid Ceasar no lugar. Carr teria inclusive pago US$5,000 de seu próprio bolso a Reems pelo desconforto causado.

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MICHELLE PFEIFFER EM “GREASE 2”

         Das 20 canções originais, somente algumas foram utilizadas no filme, algumas das quais ficando como música de fundo, e quatro canções novas foram escritas só para a adaptação: a canção da abertura “Grease”, escrita por Barry Gibb dos Bee Gees e gravada por Frank Valli, “Sandy” parea John Travolta; “Hopelessly Devoted to You” gravada por Olivia Newton depois de terminada as filmagens e indicada ao Oscar e “You the One That I Want” que traz a inversão final dos papeis: Danny comportado em um casaco escolar e Sandy em roupa de couro colada no corpo. Para gravar a cena, a roupa teve que ser costurada no corpo de Olivia Newton-John fazendo a virginal Sandy se tornar uma vamp sedutora. Desconforto maior foi a gravação do baile na escola devido ao intenso calor que fazia no local. A sequência da corrida de carros na galeria de esgoto deixou alguns membros do elenco passando mal. O filme, no entanto, tornou-se a maior bilheteria de 1978 com 167 milhões de dólares, acima de “Superman o Filme” e “Tubarão 2”.

           Inegável que o sucesso de “Grease” levou a filmes como “High School Musical” e mostrou a Hollywood que o universo teen guardava boas histórias a serem exploradas. Gerações cantam “Summer Nights”, meninos se imaginam um T-Bird e meninas uma Pink Lady, ao menos os que se permitem se deixar levar pelas melodias contagiantes que conduzem a narrativa. O sucesso levou à sequência “Grease 2” de 1982 que trazia uma outra história transcorrida da mesma escola com outro grupo de jovens e trazendo Michelle Pfeiffer como protagonista. Em 2016 a Fox transmitiu ao vivo o especial “Grease Live”, uma nova montagem com Aaron Tveit (Danny), Julianne Hough (Sandy) e Vanessa Hudgens (de “High School Musical” como Rizzo).

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ELENCO REUNIDO

           O apelo da história de Danny e Sandy permanece em nossa memória afetiva seja por representar tempos mais inocentes seja por trazer os rebolados ardentes de John Travolta e Olivia Newton John, cada um ícone de tempos e lugares melhores em que uma pudica Sandra Dee pode viver um belo romance com um rebelde com pinta de um selvagem Marlon Brando. Assim sacudiram todos nós e nos instigam a continuar a indagar “Tell me more !Tell me more” (Conte nós mais).

 

ELVIS 40 – SAUDADES DO REI

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O PRISIONEIRO DO ROCK N’ROLL

      Lembro muito bem aquele dia 16 de agosto de 40 anos atrás, eu tinha 8 anos e já era um mini-fã que assistia filmes como “Feitiço Havaiano” e “Saudades de um Praçinha” na Sessão da Tarde. O jornal noticiava então a morte de um homem, o nascimento de um ícone que atravessaria décadas angariando uma legião de admiradores e imitadores. Aos 42 anos, Elvis havia tido uma carreira cinematográfica que contava 31 títulos, tinha feito a primeira transmissão de um show via satélite, em cores, para mais de 40 países, e viria a se tornar postumamente o artista mais vendido do mundo, superando os números alcançados em vida, que já eram astronômicos.

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ELVIS ALOHA FROM HAWAII

             Em seu tempo, Elvis chegou a ser chamado de “o branco com voz de negro”, com sua voz poderosa entoando canções que mesclavam gospel e o rhythm and blues.  Na primeira fase de sua trajetória, de 1954 a 1958 Elvis foi o rei da rebeldia juvenil ao som de “That’s all right Mama”, “Blue Suede Shoes” e “Jailhouse Rock”, ponto alto dessa fase que teve filme homônimo, entitulado no Brasil “O Prisioneiro do Rock n’Roll”, hino dessa geração que quebrava convenções e ditava um ruptura comportamental com o sistema. A segunda fase se inicia com Elvis no exército, domado por uma manobra empresarial que visava mostrar o cantor, que antes não podia ser filmado na TV da cintura para baixo, sob uma ótica de bom moço, patriótico. Elvis serviu na Alemanha, sem regalias e chegou a sargento dois anos depois, quando deu baixa, mas abandonou os palcos em prol de uma carreira em Hollywood. Durante os próximos oito anos, o rei lançou vários discos acompanhando uma média de dois a três filmes por ano. Nenhum deles, no entanto, provou-se à altura de um desafio para Elvis. Devido a constantes interferências do seu empresário, o Coronel Tom Parker, Elvis perdeu o papel de “West Side Story” e ficou restrito a papéis menores em produções românticas. Dessa fase são dignas de nota a parceria de Elvis com as dançarinas Juliet Prowse (em “Saudades de um Praçinha”) e Ann-Margret (em “Amor a Toda Velocidade”), com quem encenou excelentes números de canto e dança. No mais, sua carreira estagnou e o Rei se distanciou de seu público, somente reencontrando-o, e redescobrindo uma nova faixa de público, quando retornou em grande estilo no especial de TV “Comeback Special”, de 1968.

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ELVIS & ANN MARGRET

             Voltando aos palcos a partir daí, o outrora “The Pelvis” embalou seu público como intérprete de canções românticas, em sintonia com um novo momento em sua vida quando se divorciou de sua esposa Priscilla, com quem teve sua única filha, Lisa Marie. Entre 1970 e 1977 foram vários shows e discos que firmaram um novo público para o cantor. Apesar de gradativamente se debilitar fisicamente devido aos excessos com comida e remédios (Elvis era hipocondríaco), sua voz nunca o abandonou. Sua morte por ataque cardíaco selou seu destino, mas não calou sua voz, perpetuada até hoje bem como sua imagem icônica que o torna o único artista cujo nome é reconhecido no mundo todo sem precisar do sobrenome para despertar um culto em torno de uma das mais belas vozes já ouvidas, que chorava quando cantava “My Way”, de Frank Sinatra, se requebrava, encantava e amava porque viver é intenso, Now or never. Viva sua memória. Elvis Forever !!!

ELVIS PRESLEY FOREVER

O REI DO ROCK TAMBÉM FOI ASTRO DE CINEMA. ENTRE 1956 E 1969 FORAM 31 FILMES MUITO REPRISADOS NA TV NAS DECADAS DE 70 E 80, E OCASIONALMENTE RESSURGEM  NAS TVS POR ASSINATURA COMO LEMBRANÇA DO TALENTO DE ELVIS AARON PRESLEY, QUE HOJE – SE ESTIVESS VIVO – COMPLETARIA 82 ANOS. FISICAMENTE NÃO MAIS ENTRE NÓS, ELVIS VIVE INTENSAMENTE GERAÇÃO APÓS GERAÇÃO COM SEU LEGADO ARTÍSTICO DE CANÇÕES E FILMES.

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ABAIXO A CLÁSSICA SEQUÊNCIA DE “PRISIONEIRO DO ROCK N’ROLL” (JAILHOUSE ROCK) , LANÇADO EM 1957 (HÁ 60 ANOS), MOMENTO ANTOLÓGICO DO REI NAS TELAS HOLLYWOODIANAS E MOSTRA TODA A DESENVOLTURA DE ELVIS COMO CANTOR E DANÇARINO. EM 2005 UMA EXCELENTE MINI SERIE DA HBO ADAPTOU A VIDA DE ELVIS, INTERPRETADO PELO ATOR JONATHAN RHYS-MEYRS.