CLÁSSICO REVISITADO : OS 70 ANOS DE “A FELICIDADE NÃO SE COMPRA”

Não há quem nunca tenha passado por uma fase difícil na vida. Imagine então que em seu momento de maior desespero, um anjo desce à Terra para ajudá-lo. Assim é o clássico “A Felicidade Não Se Compra” (It’s a Wonderful Life) – um típico filme para uma noite de Natal – que completa agora setenta anos de seu lançamento original.

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Falar de “A Felicidade Não se Compra” é falar de dois nomes emblemáticos da clássica Hollywood: O diretor Frank Capra e o ator James Stewart. Capra foi um dos mais importantes diretores de sua geração, sempre explorando o sonho americano, o homem comum em modernas fantasias urbanas. James Stewart um ícone do cinema que retomava então sua carreira após o fim da segunda guerra, na qual lutara. O filme, o favorito de Capra, foi gravado em 90 dias, o primeiro e único que o próprio diretor viria a financiar com seus próprios recursos. A história mostra a pacata cidade de Bedford Falls, onde o bondoso empresário George Bailey (Stewart), um homem de boa vontade que sempre ajudou a todos, se vê em sérios apuros financeiros, endividado e nas mãos do cruel banqueiro Henry F. Potter (Lionel Barrymoore). Acuado por seus credores e vendo sua esposa e filhos vulneráveis a tudo, George decide cometer suicídio, se jogando do alto da ponte. Nesse momento seu ato é contido por Clarence, um espírito desencarnado que para merecer suas asas de anjo precisa salvar George de sua decisão fatal. Clarence (Henry Travers) mostra então a George como seria a vida de todos na cidade se ele não tivesse existido, uma realidade de pesadelo onde o Sr.Potter oprime a vida de todos na cidade. George percebe o quanto sua vida é essencial para todos e desiste de seu desejo fatal, reconhecendo que sua vida é maior que os problemas que carrega. De volta ao mundo real, George recebe a ajuda de todos que ele no passado ajudara e consegue assim pagar suas dívidas, num gesto de bondade coletiva que contagia a todos ao redor.

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Tentem assistir ao filme sem chorar ao final, é um desafio. O filme consegue tocar individualmente cada um que já passou por tristezas na vida e revigora nossa força interna e capacidade de superação. Apesar de mensagem tão positiva o filme foi um fracasso de bilheteria em 1946, só sendo finalmente reconhecido quando foi redescoberto pelas reprises televisivas. Ainda assim foi indicado ao Oscar em várias categoria e chegou a ganhar o Golden Globe de melhor diretor. Para a atualidade, o filme de Capra ficou em 11º lugar na escolha do AFI dos 100 melhores filmes. A banda McFly chegou a adaptar as falas de George Bailey para sua esposa, interpretada por Donna Reed (esta em seu primeiro papel de protagonista nas telas), o que mostra que a força de determinados filmes não acaba com a passagem do tempo.

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– O QUE VOCÊ QUER, MARY ? VOCÊ QUER A LUA ? BASTA DIZER E O A LAÇAREI PARA VOCÊ E A TRAREI PARA VOCÊ.

James Stewart tinha 38 anos na época das filmagens. O ator reprisou o papel em uma adaptação do filme feito para o rádio dois anos depois. O papel de George Bailey chegou a ser pensado para Cary Grant (antes de Frank Capra assumir o projeto) e Henry Fonda se interessou pelo papel que ficou com Stewart, conforme vontade de Frank Capra desde o começo. O filme é o único na história a ser baseado em um conto escrito em um cartão de natal por Philip Von Doren e consegue manter forte seu discurso anti-materialista e uma bela mensagem de quem “Nenhum homem é um fracasso”, conforme dito no filme que também era o favorito de seu protagonista. Uma lição que também tento incutir em minha vida, pois esta é tão maravilhosa quanto seu título original. Há 70 anos.

GALERIA DE ESTRELAS: CARY GRANT

Certa um vez, um repórter disse ao astro “Todos querem ser como Cary Grant !”. Este teria respondido “Eu também”. Todas as estrelas de Hollywood sempre viveram cercadas de tanto glamour que suas personas ficam indelevelmente cativas da imagem que projetam. Cary Grant tornou-se sinônimo de graça, elegância e sedução.  Em 29 de novembro desse ano, completam 30 anos de sua passagem, uma estrela que brilhará sempre no panteão do cinema.

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Nascido Archibald Alexander Leach em Bristol, Inglaterra, em 18 de janeiro de 1904, vindo de origens humildes. Aos nove anos passou a viver apenas com o pai, pois sua mãe havia sido enviado a um asilo de doentes mentais. O pequeno Archie, no entanto, nada sabia e só depois de trinta anos viria a descobrir o destino de sua mãe. Em 1915, ganhou uma bolsa para a Fairchild Secondary School, que lhe abriu as portas para o ambiente teatral: O professor assistente de química o levou para ajudar a substituir os antigos lampiões de gás por um novo sistema de iluminação elétrica. Logo, Archie conseguiu emprego no teatro como o encarregado de chamar os artistas a entrar em cena. Aos quatorze anos falsificou a assinatura de seu pai para se juntar ao grupo de atores intinerantes de Bob Pender. Quando em uma turnê com o grupo visitou os Estados Unidos, decidiu não voltar mais para a Inglaterra. Não demorou muito para que sua aparência jovial e de belos traços o levassem aos palcos americanos, onde conheceu a estrela Fay Wray (de King Kong) que lhe abriu as portas para um contrato no valor de US$ 450 semanais com o estúdio da Paramount.

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LEVADA DA BRECA

Nesse momento, seu nome foi trocado para algo mais atraente que Archie Leach, e assim nasceu Cary Grant. Seu primeiro filme foi “Esposa Improvisada” (This is the night) em 1932, que desagradou ao astro. Outras oportunidades vieram contracenando com atrizes como Mae West, Marlene Dietrich, explorando seu olhar tímido e sua fotogenia leve e despretensiosa. Foi ao assinar contrato com a Columbia que Grant ensaiou os primeiros passos nos papéis de destaque, em comedias como “Cupido é Moleque Teimoso” (The Awful Truth) em 1937, “Boêmio Encantador” (Holiday) em 1938 e “Levada da Breca” (Bringing Up Baby) também em 1938. O sucesso nesses papeis lhe garantiu uma sólida reputação como ator de comédia.

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NUPCIAS DE ESCÂNDALO

Foi nesse momento que se arriscou em uma papel diferente, em um filme de ação da RKO “Gunga Din” dividindo a cena com Douglas Fairbanks e Victor MacLaglen. Como os aluguéis em Hollywood eram muito caro, foi dividir um apartamento com o ator Randolph Scott, o que provocou muitos boatos maliciosos que até hoje apontam uma suposta homossexualidade. Ainda assim, em pouco tempo casou-se com a atriz Virginia Cherrill (a jovem cega de “Luzes da Cidade”, de Chaplin), mas a união durou pouco e o ator voltou a morar com Randolph Scott. Voltou a atuar em comédia emprestando seu ar de sofisticação ao papel de ex- marido enciumado de Katherine Hepburn, que a visita no dia de seu casamento com o pacato James Stewart em “Nupcias de Escândalo” (Philadelphia Story) de George Cukor. Era o ano de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial e veio o papel de Mortimer Brewster em “Esse Mundo é um Hospício”, de Frank Capra. O filme trazia Grant como um relutante membro de uma família de loucos e assassinos no dia de seu noivado. Pelo papel, Grant recebeu uma boa quantia que doou ao esforço de guerra.

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ESSE MUNDO É UM HOSPÍCIO

Nos bastidores, Grant era minucioso com todos os estágios de filmagem e isso lhe dava problemas com os diretores, sendo notório conflitos de opinião entre o astro e diretores como Leo McCarey (seu diretor em “Cupido é Moleque Teimoso”) e Frank Capra (seu diretor em “Esse Mundo é um Hospício”). Surpreendentemente, teve um ótimo relacionamento com o mestre do suspense, Alfred Hitchcock – notório por desprezar os atores com quem trabalhava. Com Hitch, Grant fez quatro filmes. Em 1941, “Suspeita” (Suspicion) que seria seu primeiro vilão. O papel de um marido com intenções assassinas com sua esposa interpretada por Joan Fontaine desagradou ao estúdio que forçou Hitchcock a editar o final de forma que Grant não fosse o assassino, pois isso não estava de acordo com a imagem do astro. Em 1946, “Interlúdio” (Notorious) contracenando com Ingrid Bergman e Claude Rains.

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CARY GRANT & EVE MARIE SAINT: INTRIGA INTERNACIONAL

O papel de Grant era de um agente federal, usando a filha de um nazista para expor espiões infiltrados. Em 1955 Grant se dizia cansado de atuar e pensando em se aposentar, mas reformulou seus planos para trabalhar sob a batuta de Hitch em “Ladrão de Casaca” (To Catch a Thief), filmado na Riviera Francesa com Grace Kelly. Finalmente, em 1957 “Intriga Internacional” (North by Northwest), um dos melhores filmes de espionagem, um dos meus favoritos, trazendo o ator no papel de homem comum envolvido em uma trama conspiratória, o que serviria de modelo para vários filmes do gênero. Quando, anos depois, Ian Fleming teve os livros de James Bond adaptados para o cinema, seu nome era um dos favoritos para interpretar 007.

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ALFRED HITCHCOCK & CARY GRANT

Duas vezes indicado ao Oscar, a primeira por “Serenata Prateada” ( Penny Serenade) em 1941, um melodrama sobre casal (Grant contracenando com Irene Dunne) que adota uma criança advindo um trágico desfecho e “Apenas um Coração Solitário” (None but the Loney Heart) em 1944 sobre um homem com o coração amargurado pela pobreza. A estatueta dourada só foi para suas mãos em 1970, um prêmio pelo conjunto da obra, entregue por Frank Sinatra ao astro emocionado com o reconhecimento de seus pares.

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DEBORAH kERR & CARY GRANT: TARDE DEMAIS PARA ESQUECER

Entre outros de seus grandes filmes, digno de nota também a comédia “Jejum de Amor” (His Girl Friday) de 1941, uma adaptação da peça de Ben Hetch & Charles MacArthur em que Grant é um editor picareta tentando atrapalhar os planos de casamento de sua melhor repórter, que por um acaso também é sua ex-esposa; o drama “A Canção Inesquecível” (Night & Day) de 1946 – cinebiografia do compositor Cole Porter; o romance “Tarde Demais Para Esquecer” (An Affair to Remember) de 1957, que revisto hoje se encaixa perfeitamente no estilo emotivo de Nicholas Sparks e “Charada” (Charade) de 1963 de Stanley Donen que segue os passos do thriller hithcockiano.

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CARY GRANT & AUDREY HEPBURN : CHARADA

Em cena Cary Grant sempre esteve cercado de belas atrizes: Ginger Rogers e Marilyn Monroe em “O Inventor da Mocidade” (Monkey Business) de 1952, Leslie Caron em “Papai Ganso” (Father Goose) de 1964, Jayne Mansfield em “O Beijo da Despedida” (Kiss me Goodbye) de 1957, Doris Day em “Carícias de Luxo” (That Touch Of Mink) de 1962,  Ingrid Bergman em “A Indiscreta” (Indiscreet) de 1968 e Sophia Loren em “Orgulho & Paixão” (The Pride & The Passion) de 1957 e “Tentação Morena” (Houseboat) de 1958.  Bergman se tornou sua grande amiga e quando ela estava exilado de Hollywood coube a Grant receber o Oscar por ela quando a bela sueca ganhou por “Anástacia” em 1956. Já Sophia Loren foi uma louca paixão para Grant, que a assediava e cortejava até que a italiana viesse a se casar com o produtor e diretor Carlo Ponti.

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CARY GRANT & GRACE KELLY ; LADRÃO DE CASACA

Na vida real, Grant se casou mais quatro vezes depois de Virginia Cherril (1934-1935): Barbara Hutton (1942-1945), Betsy Drake (1949-1962), Dyann Cannon (1965-1968) e Barbara Harris (1981-1986). Teve uma única filha, Jennifer Grant (de seu penúltimo enlace) nascida em 1966, ano de seu último filme “Devagar, não corra” (Walk, don’t Run). A partir daqui, Grant se aposentou voluntariamente do cinema e tornou-se um dos diretores da Fabargé, famosa joalheria. Sua morte em 1986 por hemorragia cerebral, aos 82 anos, deixou saudade em todos os fans da antiga Hollywood, uma que Cary Grant incorporou em sua persona, a de um homem maduro, sexy e sofisticado que todos gostariam de ser, até mesmo o próprio Archie Leach, um ícone eterno.

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CARY GRANT & MARILYN MONROE : O INVENTOR DA MOCIDADE