GRANDE ESTREIA: HOMEM FORMIGA & VESPA

                 O projeto de um filme do “Homem Formiga” já existia desde 2003, bem antes da formação do assim chamado Universo Cinemático Marvel, quando o diretor e roteirista Edgar Wright desenvolveu a história como um filme de aventura com tons de comédia. Foram necessários mais de dez anos para uma das criações menos badaladas da Marvel se tornasse um triunfo do seu gênero.

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PAUL RUDD & EVANGELINE LILY

                 Cinco anos depois de Richard Matheson publicar seu romance “The Shrinking Man” (adaptado para o cinema no ano seguinte) sobre um homem que involuntariamente encolhe até dimensões subatômicas, a editora Dc Comics publicou o herói “The Atom” que usa tais habilidades para combater o crime. No inicio da assim batizada “Era de Prata dos quadrinhos” (1956-1970), Stan Lee juntamente com seu irmão Larry Lieber e seu parceiro, o desenhista Jack Kirby publicaram na revista de antologias “Tales to Astonish” #27 a história do cientista Henry Pym que cria um soro capaz de reduzir seu tamanho. Eram apenas sete páginas da história intitulada “The Man in the Ant Hill”, mas esta flertava com a ficção científica e não com uma típica história de super herói. O sucesso inesperado fez Lee retomar o personagem oito meses depois (Tales to Astonish #35) transformando-o em improvável campeão da justiça. Sem que houvesse detalhamento científico em como as chamadas Partículas Pym conseguiam comprimir tanto o espaço atômico ao ponto de permitir o deslocamento de sua massa e ainda manter sua força física, o personagem se juntou à galeria de maravilhas que capturou a imaginação das crianças e jovens sessentistas. Capaz ainda de se comunicar e controlar as formigas com seu capacete cibernético, o Dr.Pym se juntou a Thor, Hulk, Homem de Ferro e, juntos fundaram a equipe dos Vingadores em 1963 (The Avengers #1), assim batizados pela Vespa, a única heroína do grupo e namorada do Dr.Pym. A Vespa fez sua primeira aparição em “Tales to Astonish” #44 a princípio a socialite Janet Van Dyne,  que compartilha os poderes das partículas Pym, mas que evolui com o passar do tempo vindo a se tornar uma das mais queridas heroínas da Marvel, até mesmo liderando os Vingadores por um período. No novo filme a heroína vem a ser interpretada por Michelle Pfeiffer.

MICHELLE MA BELLE VES´PA

MICHELLE PFEIFFER É A VESPA ORIGINAL

             Os anos de história que se seguiram, no entanto, judiaram bastante do personagem que sentindo-se inferiorizado perante o poder dos outros membros da equipe, ganha estatura descomunal como o “Gigante” (Tales to Astonish #49 / Novembro 1963), e “Golias” (Avengers #28 / Maio 1966), mudanças de identidade que seriam explicadas mais tarde como uma esquizofrenia gerada como efeito colateral da absorção da mesma formula que lhe concedia os poderes, ora de encolhimento ora de aumento de tamanho. O personagem ainda mudaria para Jaqueta Amarela (The Avengers #59 / Dezembro 1968) anos mais tarde, e seria o responsável pela criação do vilão Ultron (nos filmes atribuída a Tony Stark) personificando o clichê do cientista genial ora do bem ora do mal.

TALES TO ASTONISH

A CLÁSSICA HQ DO HERÓI

           Recuperado de seus atos, o Dr.Pym deu sua benção para que o ladrão Scott Lang o substituísse como Homem Formiga a partir de Março e Abril de 1979 quando David Micheline e John Byrne criaram o personagem que cairia no gosto popular. Outro personagem que compartilharia o poder da formula Pym foi o Dr. Bill Foster criado por Stan Lee e Don Heck (The Avengers #32 / Setembro 1966) que, depois de ajudar Pym, vem a se tornar o segundo Gigante, e mais tarde o “Golias Negro”. Foster chega às telas no novo filme vivido por Lawrence Fishburne.

ALEX ROSS GIANT

ALEX ROSS PINTA O GIGANTE EM “MARVELS”

          Todos esses personagens surgem nas telas desde o lançamento de “Homem Formiga” (2015), que acabou dirigido por Peyton Reed (Sim Senhor), depois que diferenças criativas afastaram Edgar Wright. O filme teve mudanças no tom pretendido inicialmente por Wright, que manteve crédito como co-autor do roteiro, que ainda teve contribuições de Joe Cornish, Adam McKay e do próprio Paul Rudd, intérprete do herói. Uma das discordâncias que levaram a saída de Edgar Wright era que este pretendia fazer um filme isolado, sem conexão com os demais do Estúdio Marvel. Além disso, a participação da Vespa seria praticamente nenhuma, e a jovem Hope (Evangeline Lily), filha do Dr.Pym (Michael Douglas) tinha passagem menor na trama. Um dos grandes feitos da mudança para a direção de Peyton Reed foi fazer do filme uma eficiente trama de assalto, valorizando a jornada de Lang como bandido regenerado que também luta para ser um pai melhor. Nos quadrinhos, Hank Pym descobriu depois de muito tempo que tinha uma filha chamada Nadia Van Dyne, de seu primeiro casamento, antes de conhecer a Janet. Curiosamente tanto Nadia quanto Hope significam “Esperança”, respectivamente em inglês e russo !!

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SURGE O GIGANTE

             O orçamento estimado em US$130 milhões tornou-se uma bilheteria mundial de mais de US$500 milhões coroando o fim da Fase Dois da Marvel. Peyton Reed assegurou assim seu retorno na sequência “Homem Formiga & Vespa”, mas ficou desapontado quando Scott vira o Gigante em sua segunda aparição nas telas em “Capitão América: Guerra Civil” (2016) já que o diretor queria que a estreia desse poder ficasse para o segundo filme solo do herói. O curioso é que o vilão escolhido para o novo filme, a “Fantasma” (Hannah John-Kamen), nos quadrinhos era inimigo do Homem de Ferro (Iron Man #219 / Junho 1987). Já o Agente secreto Jimmy Woo (Randall Park) apareceu pela primeira vez nos quadrinhos em “Yellow Claw” #1 (1956) pela Editora Atlas, antecessora da Marvel.

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MICHAEL DOUGLAS È HANK PYM

              Com altos e baixos em sua vida, o herói Hank Pym, vivido por Michael Douglas, é um dos primeiros criados pela clássica colaboração Stan Lee-Jack Kirby, tendo este último celebrado ano passado seu centenário, um gênio não tão badalado quanto Stan Lee. Provando que a soma das partes é maior que seus componentes, suas criações continuam a encantar gerações e parece longe de parar pois seja o incrível homem ou a mulher, eles encolheram mas a diversão é gigante!

PANTERA NEGRA:A COR DO HEROÍSMO

Na cerimônia de entrega dos Golden Globes deste ano Oprah Winfrey tornou-se a primeira atriz negra agraciada com o prêmio Cecil B DeMille, ocasião que aproveitou para lembrar do impacto da premiação em 1964 quando Sidney Poitier ganhou o Oscar de melhor ator por “Uma Voz nas Sombras”. Era a época da luta pelos direitos civis, um ano depois do histórico discurso “I have a dream” de Martin Luther King, nove anos depois da costureira Rosa Parks ousar dizer não a um ato de segregação racial, e um ano antes do assassinato do ativista Malcom X. Se esses representaram a luta pela igualdade racial no mundo real, faltava um símbolo que trouxesse a questão para o campo da ficção. Coube a Stan Lee e Jack Kirby a criação do Pantera Negra, primeiro super herói das HQs.

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          É verdade que antes do Pantera Negra, já existia o Lothar, braço direito do mágico Mandrake (1934) de Lee Falk, mas a imagem era por demais estereotipada. Em 1947 foi publicado a revista “All-Negro comics” com os personagens Ace Harlem e Lion Man, mas esta ficou restrita ao numero um. Em 1954 ainda houve “Waku, Príncipe dos Batu”, da Timely Comics (Antecessora da Marvel), mas poucas histórias do personagem foram publicadas no título “Jungle Tales”. O Pantera Negra quebrou essas barreiras, pois mostrava um homem negro com super poderes e inteligência extraordinária, herdeiro do trono da fictícia nação africana de Wakanda. Sua primeira aparição foi na edição #52 do “Quarteto Fantástico”, de Julho de 1966, na qual somos apresentados ao príncipe T’Challa, um homem culto (foi educado nas melhores escolas da Europa e América) que precisou superar o desejo de vingança quando seu pai, o Rei T’Chaka foi morto pelo vilão Garra Sônica, que planeja se apoderar do valioso metal Vibranium, existente apenas em Wakanda.

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         Dois meses depois da criação do personagem foi fundado o Partido dos Panteras Negras, grupo extremista que por causa 20 anos confrontou a polícia e demais instituições na luta contra atos racistas. Temendo qualquer associação inicial Stan Lee chegou a rebatizar o personagem de “Black Leopard”, mas não demorou muito para reverter para o nome original. Depois de sua aparição inicial, o personagem ingressou nos Vingadores, levando a ganhar o título “Jungle Action featuring The Black Panther” a partir de 1973.

Pantera Negra no Brasil

    Em 1969 Pelé marcou seu milésimo gol pelo Santos derrotando o Vasco no Maracanã marcando 2 a 1. Era um negro alcançando um marco nos esportes, no mesmo ano em que Grande Otelo venceu como melhor ator no Festival de Brasília por seu papel em “Macunaíma”. Em meio a essas conquistas chegou a nossas bancas a revista “Homem de Ferro & Capitão América” #19 trazendo a história “The Claws of the Panther” originalmente publicada em “Tales of Suspense” #98. Foi o primeiro contato do leitor brasileiro com o príncipe T’Challa. Somente em 1974, a clássica história publicada originalmente no título do Quarteto Fantástico chegaria no Brasil na revista do “Homem Aranha” # 66, pela editora Ebal. Muitos anos depois, o personagem ganhou maior destaque no Brasil quando os heróis Marvel começaram a ser publicados pela Editora Abril a partir de “Superaventuras Marvel” #7 (Janeiro 1983). A Princesa Shuri, a irmã do Pantera Negra só seria conhecida a partir de 2005 quando o escritor Reginald Hudlin e o desenhista John Romita Jr assumiram um novo título para o heroi. Nos quadrinhos T’Challa é voltado para a ciência enquanto Suri é mais voltada para as crenças espirituais de seu povo. No filme os papeis foram invertidos fazendo de Shuri uma inventora e levando T’Challa a dimensão espiritual onde se comunica com seu pai falecido. Outro momento marcante do personagem no Brasil é a história do casamento do herói com a Tempestade dos X Men nas páginas de “Marvel Action” #8 (Agosto de 2007). Mais tarde, a Marvel reverteria tudo separando os personagens.

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Outros Herois Negros

       Com o caminho aberto pelo Pantera, outros super heróis negros seriam lançados: Em 1969 Sam Wilson, o Falcão tornou-se o parceiro do Capitão América, chegando a substituí-lo recentemente. Em meio a Blackexplotation (série de filmes com elenco e equipe essencialmente com artistas negros) surgiu o icônico detetive Shaft, interpretado por Richard Roundtree em 1971, e revivido por Samuel L.Jackson em 2000. Em 1972 a Marvel publicou “Luke Cage Hero For Hire”, que chegou ao Brasil um ano depois pela editora Górrion. Nesta ocasião, enquanto Luke Cage tinha o poder de ser incrivelmente forte e de pele indestrutível, na vida real o boxeador Muhammed Ali suportou 12 assaltos com o maxilar quebrado em luta contra Ken Norton. Em 1979, a DC Comics chegou a publicar a icônica história “Superman Vs Muhammed Ali”. A mesma editora contribuiu com dois personagens de peso: Em 1972 surgiu John Stewart o primeiro Lanterna Verde negro (extremamente popular na animação da “Liga da Justiça”) e em 1977 surgiu Raio Negro que viria mais tarde a ingressar na Liga da Justiça. Entre as heroínas, a Marvel tinha a mutante Tempestade (1975) e a rival DC tinha Vixen (1978) capaz de mimetizar as habilidades de vários animais. Nos anos 80 estrearam a “Capitã Marvel” (1982) e Cyborg (1980) que originalmente fazia parte dos Titãs, e depois foi reformulado para a Liga da Justiça. Um dos personagens mais populares nos anos 90 foi o “Super Choque” (Static), criado pelo roteirista Dwayne McDuffie em 1993, e que chegou a ter uma animação de sucesso na TV. McDuffie juntou-se a vários artistas afro-americanos e criou um universo de personagens negros na editora Milestone.

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          Os quadrinhos contribuíram com uma respeitosa representação étnica, mas devemos nos lembrar que o meio reflete os esforços de artistas desbravadores como a atriz Hattie MCDaniel que foi a primeira negra a ganhar um Oscar (atriz coadjuvante) em 1939 por “E O Vento Levou”, a gravadora Motown quer abriu espaço para artistas como Michael Jackson, Isaac Hayes, Marvin Gaye, ou em tempos mais recentes atores como Samuel L.Jackson, Morgan Freeman, Viola Davis, Idris Elba, Whopi Goldberg, Halle Berry, Denzel Washington entre outros. Sua voz e a nossa são uma só, a de nos lembrar que seja na ficção ou na vida real somos iguais, humanos, e precisamos ser super heróis para vencer o racismo e fazer todo o mundo lembrar que se ébano ou marfim, o equilíbrio real é conviver com as diferenças.

X MEN: APOCALIPSE

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Quando Stan Lee e Jack Kirby criaram os X Men o mundo vivia um momento de grandes diferenças sociais. Os Estados Unidos sofriam a turbulência decorrente da luta pelos direitos civis e das questões raciais que dividiam as pessoas. Que melhor metáfora para essa realidade que imaginar seres humanos segregados por nascerem com habilidades tão impressionantes que os colocam à parte da sociedade. São mutantes, são aberrações, são homens X, uma incógnita para representar os perseguidos, os desfavorecidos.

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O VILÃO APOCALIPSE NA CULTUADA ANIMAÇÃO DOS ANOS 90

Se Xavier (James MacAvoy) defende uma convivência pacífica entre o homo sapiens e o homo superior (como são chamados nas HQs os mutantes), Magneto (Michael Fassbender) é o desiludido com a paz e defende a luta armada e a supremacia de seus iguais. Ambos polos tão opostos quanto Martin Luther King e Malcolm X. Eis que surge Apocalipse (Oscar Issac) que assume um papel ainda mais radical defendendo violentamente que somente o mais forte deve sobreviver, ecos Darwinianos que impregnaram a gênese do vilão criado no final dos anos 80 por Louise Simonson no título “X Factor #6” (1986), uma equipe formada pelos primeiros mutantes recrutados por Xavier. O vilão nascido no Egito há milênios é o primeiro mutante nascido no mundo com habilidades transmorfas e imortal. Apocalipse, ou En Sabah Nur,  recruta mutantes para moldar suas mentes e habilidades para se tornarem suas armas ou como são chamados “os quatro cavaleiros do apocalipse” (Peste, guerra, fome e morte) referência aos guerreiros profetizados pelo apóstolo João no livro das Revelações. Tal simbologia é a justificativa para suas ações embasadas em noções distorcidas de pureza e erradicação que se entrelaçam ao caldo criativo das histórias dos X Men. Diferente da HQ original, os quatro cavaleiros do filme de Bryan Singer são Magneto (Fassbender), Psylocke (Olivia Munn), Tempestade (Alexandre Shipp) e Arcanjo (Ben Hardy).

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Assim como nos quadrinhos, Apocalipse já despertou outros vezes e desapontado com o mundo se coloca como juiz, júri e executor da raça humana que oprime os mutantes. Na década de 90, a Marvel Comics publicou o arco de histórias “A Era de Apocalipse” em que o vilão consegue dominar o mundo quando Xavier é morto criando uma linha temporal alternativa. Claro que o novo filme não chegará a abordar esse arco, longo demais. Em vez disso, os eventos seguirão os fatos apresentados após a viagem no tempo de Wolverine (agora com uma participação menor ) em “X Men : Dias de um Futuro Esquecido” (Days of Future Past), o filme anterior. Mais uma vez Mística (Jennifer Lawrence) precisa escolher um lado e sua presença na história ganha uma dimensão ainda maior graças ao prestígio de sua intérprete.

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Entre lutas e discussões superficiais sobre eugenia, “X Men Apocalipse” aproveita a inserção de novos mutantes (Psylocke, Jubileu), versões mais jovens de personagens como Jean Grey (Sophie Turner), Cyclope (Tye Sheridan), Tempestade (Alexandra Shipp) e trazendo a esperada calvice de Charles Xavier (James MacAvoy). O elenco ainda traz personagens que apareceram em “X Men Primeira Classe” (X Men First Class)  como a Dra Moira McTaggart (Rose Byrne) e Destrutor (Lucas Till, anunciado como o novo interprete de MacGyver).

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Claro que o número enorme de personagens pode prejudicar a compreensão dos não iniciados no universo das HQs, mas fazem a alegria dos nerds, como eu, que acompanharam décadas de histórias assinadas por artistas como Chris Claremont, Scott Lobdell, entre outros que desenvolveram conceitos e ideias nascidas da mente de Stan Lee  e Jack Kirby, esses sendo os verdadeiros mutantes com o poder ainda maior, o de criar um universo que saiu das páginas das HQs e ganha vida própria nas telas.

CAPITÃES AMERICA

CA 77 - 01                     Algumas coisas sobre o Capitão América que nem todos conhecem: Ele não foi criado por Stan Lee, mas sim por Joe Simon & Jack Kirby. Datado de Março de 1941 (embora tivesse sido distribuído no final do ano anterior), a revista “Captain America” #1 foi publicada quase um ano antes do bombardeio japonês em Pearl Harbor que levou os Estados Unidos a entrar na Segunda Guerra. Também não foi o primeiro a explorar um caráter ufanista já que antes já havia sido publicado o herói “O Escudo” (The Shield) na revista “Pep Comics” #1, publicada vários meses antes, e que já trazia um uniforme baseado na bandeira norte-americana. Chris Evans não é o primeiro ator a viver o herói, e sim o quarto ator a personificá-lo.


Em 1944, um ano antes do fim da Segunda Guerra, Dick Purcell estrelou um seriado da Republic (Aqueles que eram divididos em 15 capítulos antes do filme principal) onde seu nome não era Steve Rogers, mas sim Grant Gardner, um promotor público. Seu uniforme não trazia as asinhas da máscara e empunhava um revólver em vez do vistoso escudo. Seu inimigo era o vilão Escaravelho, cuja identidade era conhecida do público para criar envolvimento da plateia. O orçamento do seriado “Captain America” (1944) era maior que as produções do gênero e foi o último trabalho de Purcell, que falecera de ataque cardíaco poucos meses depois de terminadas as filmagens. Essa versão é possível de ser encontrada em DVD. Demorou um longo tempo para uma nova adaptação, e mesmo nos quadrinhos o herói passou por um período de baixas. Com o fim do conflito mundial, os comunistas substituíram os nazistas como vilões, mas mesmo assim o gênero parecia cair em decadência até que o título do herói foi cancelado.

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Capitão America : Dick Purcell nos anos 40

Somente em 1964 em “Avengers” #4 que Stan Lee ressucitou o sentinela da liberdade substituindo o ufanismo do passado pelo anacronismo. Despertado de sono criogênico, Steve Rogers é um homem deslocado no tempo, representante de um ideal de liberdade utópico e com valores morais ultrapassados. Lee foi genial em trazer o herói em uma época em que a America perdia a inocência depois das mortes de Kennedy e Martin Luther King e, entrando a década de 70 em que teve um elogioso arco de histórias escrito por Steve Englehart e desenhado por Sal Buscema no qual enfrenta a organização “Império Secreto”, reflexo direto da década do escândalo de Watergate e da queda de Nixon.

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Capitão America na TV dos anos 70

Em 1979, a Universal gozava com o sucesso da série de Tv do Incrível Hulk, estrelado por Bill Bixby e Lou Ferrigno, uma adaptação inspirada no material impresso da Marvel, mas absolutamente livre das referências originais do personagem. Pensava-se em fazer o mesmo com o Capitão América e, assim a CBS levou ao ar dois filmes pilotos estrelados pelo ex jogador de futebol americano Reb Brown, então com quase 30 anos. Os telefilmes “Captain America” e “Captain America II – Death Too Soon” traziam Steve Rogers como desenhista publicitário sem nenhuma relação com o exército ou com a segunda guerra. Após sofrer em um atentado devido às relações de seu falecido pai com o governo, Steve tem a vida salva por um soro que lhe dá super força e velocidade. Seu uniforme parecia com o das HQs (ficou melhor no segundo filme) mas tinha dois detalhes: Sua máscara era composta por um capacete de motoqueiro e seu escudo era transparente. O resultado foi abaixo do esperado para justificar a produção de uma série, mas trazia um atrativo a presença do veterano Christopher Lee (Drácula) no segundo filme. Apesar do orçamento restrito, as cenas de ação conseguem empolgar e foram para os que como eu, assistiram na TV Globo quando criança, uma aventura no mínimo agradável. Na França o segundo telefilme chegou a ser exibido nos cinemas. Aqui no Brasil, foi pelo SBT.
Precisou de mais de dez anos para um novo filme. Nas HQs, Steve Rogers foi temporariamente trocado por outro quando se recusou a ser um operativo oficial do governo, e descobriu que seu arquiinimigo, o Caveira Vermelha, não apenas ainda vivia como ocupava um corpo clonado de Steve Rogers. Os autores Mark Gruenwald e Kyeron Dywer deixavam claro que, apesar do patriotismo inerente a sua identidade heroica, Steve Rogers se recusava a ser um peão do governo.

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Matt Salinger, Capitão America nos anos 90

Paralelamente, os produtores Menahem Golan e Yaram Globus realizaram uma nova adaptação do herói com pretensão de serem fiéis às HQs originais, dividindo o filme em duas épocas: Um prólogo na Segunda Guerra onde enfrenta o Caveira Vermelha e depois um salto no tempo para os anos 90 onde volta a enfrentar o Caveira Vermelha para salvar a vida do presidente dos Estados Unidos. O orçamento foi novamente abaixo do necessário para um resultado melhor, a nacionalidade do Caveira Vermelha passa a ser italiana com o canastrão Scott Paulin transformando-o em um gangster moderno. O papel do herói foi vivido por Matt Salinger, filho do escritor J.D Salinger (o autor de “O Apanhador no campo de centeio) e a direção ficou a cargo do fraco Albert Pyun. No Brasil, “Capitão America” nem chegou a ser lançado no circuito comercial, sendo diretamente lançado em VHS.
Chris Evans já apareceu como o herói em 5 filmes (o que inclui uma ponta em “Thor Mundo Sombrio”) desde 2011 e agora enfrenta seu maior desafio em “Capitão America :Guerra Civil”, uma história inspirada na polêmica mini-série escrita por Mark Miller em 2009. Nela, o governo promulga uma lei para obrigar qualquer super herói a revelar sua identidade secreta e acatar as ordens do governo se quiser agir. De um lado, o Homem de Ferro lidera aqueles que aceitam a imposição e, por outro o Capitão America lidera os que se opõem à medida que infringe os direitos civis e a liberdade de atuação. As implicações da história foram profundas no universo Marvel, e por isso mesmo estarão contidas no filme que se propõe a ser uma continuação dos eventos de “Soldado Invernal” (2014) e “A Era de Ultron” (2015) e ainda servir de ponto de partida para a fase 3 que se desenvolverá nos filmes da Marvel Studios. Escolha um lado e divirta-se. Cap fOREVER !!!!!

QUARTETO FANTÁSTICO : AS ORIGENS DO UNIVERSO MARVEL

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Em 1961, a HQ de super herói mais vendida era a “Liga da Justiça” da DC Comics. Martin Goodman, então editor chefe da rival Marvel Comics, encomendou a Stan Lee (que considerava seriamente se desligar do ramo) a criação de algo nos mesmos moldes. Lee copiou o formato mas recriou a essência, junto ao desenhista Jack Kirby (o co-criador do Capitão America): Fizeram do grupo de heróis uma família, lhes conferiu poderes baseados nos 4 elementos (terra, ar, fogo e água no caso da fluidez do Senhor Fantástico), desprezou a necessidade de identidades secretas ou máscaras, e – fugindo do maniqueísmo vigente – temperou seus personagens com qualidades e defeitos. Reed Richards (o Senhor Fantástico) é um gênio científico mas sisudo e pouco social, Sue Richards (a Garota Invisível) é uma jovem insegura, seu irmão Johnny Storm (O Tocha Humana, este o segundo personagem a ostentar a alcunha) é um jovem inconsequente e brincalhão e , finalmente o piloto Ben Grimm (o Coisa) que se tornou o personagem mais popular da equipe é um Golem moderno de bom coração mas amargurado por ter a aparência grotesca, um poder que não pode ser desligado ou voluntário.

Primeira edilçao de "Fantastic Four"

Primeira edilçao de “Fantastic Four”

A dinâmica do grupo, contudo, estava longe de ser harmoniosa. Como toda família, os integrantes discutiam, se desentendiam em meio à suas aventuras que iam além de apenas enfrentar o vilão malvado. Lee & Kirby fizeram de seus heróis exploradores de terras inóspitas, planetas alienigenas e dimensões paralelas. Cenários grandiosos saiam de suas mentes na mesma medida que uma profundidade psicológica os tornava fáceis do leitor se identificar. Mesmo seu maior inimigo, o Dr. Destino exibia sua natureza déspota e ambições shakesperianas de poder na mesma medida que um distorcido sendo de honra. Foram lançadas 100 edições de Stan Lee & Jack Kirby à frente do Quarteto Fantástico, em paralelo à criação de todo um universo interligado por outros personagens como Hulk, Homem Aranha etc.. que deram à década de 60 um frescor rejuvenescido para o mercado das histórias em quadrinhos. O que acontecia em uma história deixava raízes a serem desenvolvidas em outras, unificando aquela realidade como algo contínuo, fluído e cujas consequências se faziam ecoar à frente de outros títulos. Essa interação coletiva foi um legado que Lee & Kirby deixaram para as HQs que até hoje ainda é explorada e que o cinema procura emular quando se falar em “universo cinemático”.

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Depois da saída de Lee & Kirby, o título do Quarteto Fantástico mergulhou em marasmo até o início da década de 80 com a chegada do escritor e desenhista John Byrne. Este levou os personagens a um novo patamar, transformando a agora Mulher Invisivel na personagem mais poderosa da equipe, resgatando o espírito de ficção cientifica das primeiras aventuras da equipe, trocando o Coisa pela Mulher Hulk temporariamente, jogando um novo enfoque na abordagem da vilania de personagens como Dr.Destino e Galactus. Após a saíde de Byrne, diversos artistas tiveram a oportunidade de trabalhar com os heróis : Walt Simonson, Tom DeFalco, Carlos Pacheco, Jim Lee, Mark Miller, Mark Waid, Mike Wieringo e J.Michael Stranczinki. Em tempos mais recentes, o quarteto foi recriado em um universo alternativo chamado “Ultimate” com um Reed Richards retratado mais como um nerd do que um gênio da ciência. Elementos das duas versões: a clássica e o ultimate foram reaproveitados neste novo filme que, na verdade, é a terceira adaptação da equipe fantástica em forma de live-action. Conheças as anteriores :

Primeiro filme de 1994, nunca lançado nas telas.

Primeiro filme de 1994, nunca lançado nas telas.

Em 1994, Roger Corman produziu a primeira adaptação da HQ de Lee & Kirby, dirigido pelo desconhecido Oley Sassone com Alex Hyde White (Reed Richards), Rebecca Stabb (Susan Richards), Jay Underwood (Johnny Storm) e Michael Bailey Smith (Ben Grimm). O filme, de orçamento baixíssimo, nem chegou a ser lançado nas telas e segundo o próprio Stan Lee, em entrevista cedida tempos depois, o filme só foi feito por razões contratuais sem qualquer interesse de ser lançado no circuito comercial. O vilão era o Dr.Destino (Joseph Culp, filho do ator Robert Culp dos seriados de Tv “I Spy” e “Super Heroi Americano”), mas este estava por demais caricatural. Nada no filme funciona e nem mesmo o diálogo como, por exemplo, o Tocha Humana, em determinado momento, exclama “Santo Freud Batman !”. Alem disso, o filme era uma coleção de equívocos fosse no roteiro, na caracterização ou até mesmo nas leis da lógica, mostrando o Tocha Humana interceptando um raio laser, ou seja, mais rápido que a velocidade da luz.

Versão de 2005

Versão de 2005

Em 2015, a Fox, que havia adquirido os direitos de adaptação do “Quarteto Fantástico” foi bem sucedida com um orçamento em torno de US$100.000.000 e dirigido pelo pouco adequado Tim Story. O orçamento, no entanto, dava conta dos efeitos especiais para fazer de Ioan Gruffud o Senhor Fantástico, Jessica Alba a Mulher Invisivel, Chris Evans (antes de se tornar o Capitão America obvio) como o Tocha Humana e Michael Chiklis como o Coisa usando uma desconfortável roupa de borracha para simular o corpo rochoso de Ben Grimm. Julian McMahon (do seriado “Nip/Tuck”) ficou com o papel de Dr.Destino, novamente uma escolha não acertada para um vilão de grande importância nos quadrinhos Marvel.  Suas origens ciganas na região da Latveria (país fictício do leste Europeu) nem sequer são devidamente exploradas e suas motivações são simplificadas apenas como sendo inveja e sede de poder. Ainda assim, dois anos depois a Fox realizou a sequência “Quarteto Fantástico & O Surfista Prateado” com o mesmo diretor e elenco. O filme adapta a sequência de histórias publicada originalmente em “Fantastic Four” #48, #49 e #50 (1965-1966) mas descaracterizando Galactus, o ser que devora mundos. Ainda assim, o filme reserva um bom momento quando, no casamento de Reed e Sue, Stan Lee é barrado apesar de insistentemente dizer que ele é mesmo Stan Lee. Nas HQs o matrimonio aconteceu na edição “Fantastic Four Annual” #3 de 1965 e, tempos depois, o casal teve um filho.

Claro que há muita história a ser contada e pouco espaço que faça juz à importância desses heróis que lançaram as bases para o universo Marvel. Lamentavelmente, recentemente, a Marvel anunciou o cancelamento do título, uma obvia jogada de marketing ou uma medida para não estimular o filme da Fox, rival da Disney que hoje é a dona da editora. De qualquer forma, seja na forma de animações (várias foram feitas incluindo nos anos 60 pelos estúdios Hanna Barbera com arte de Alex Toth), filmes ou em qualquer mídia, o Quarteto tem potencial para novas explorações, novas aventuras, desafios que justifiquem o grito de guerra de  Ben Grimm “TÁ NA HORA DO PAU !”