TARZAN NO CINEMA

Existem alguns personagens cujo alcance supera todas as barreiras: as fronteiras entre países, a passagem do tempo e o próprio limite das páginas para as quais foi criado. Mais de 100 anos depois de sua criação, certamente em qualquer lugar do planeta,  alguém já ouvir falar de Tarzan, a maior obra de Edgar Rice Burroughs (1875 -1950).

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ELMO LINCON – O 1º TARZAN NO CINEMA – ENCONTRA EDGAR RICE BURROUGHS

Burroughs tinha 37 anos quando publicou “Tarzan of the Apes” em outubro de 1912 na revista pulp “All Story Weekly”. A popularidade foi imediata, mas incomodou o escritor Rudyard Kipling que viu em Tarzan um plágio de seu Mogli, embora Edgar negasse. Historiadores e sociólogos também criticaram o autor acusando – o de racismo e imperialismo. Tarzan era, afinal, o homem branco que domina os selvagens africanos. Sua superioridade não é só física, pois com seu intelecto Tarzan supera seus adversários e vence as feras, triunfo de sua condição humana baseado nas teorias darwinianas em que somente o mais forte sobrevive.

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JOHNNY WEISSMULLER, MAUREEN O’SULLIVAN, JOHNNY SHEFFIELD 7 A MACACA CHITA : FAMILIA REAL DAS SELVAS AFRICANAS NOS ANOS 30

Burroughs, contudo, não fez nenhuma pesquisa sobre a geografia ou a história do continente africano, chegando certa vez a incluir um tigre na África. Também não se preocupou em especificar em que parte da África a história se desenrola ou que espécie símia adota Tarzan. Embora os filmes falem em gorilas, Edgar preferiu criar uma espécie imaginária, os mangani, descrito como um elo intermediário entre os chimpanzés e os gorilas. O próprio termo “Ape” no inglês é um termo genérico para os macacos.

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LEX BARKER & BRENDA JOYCE NOS ANOS 50

Foi nAS HQS (de Hal Foster, Burne Hogathe, Russ Munning entre outros) e depois no cinema e na Tv que o personagem veio a perpetuar seu apelo por gerações muito embora, na maioria das vezes, estes não se mantivessem fiéis ao espírito da obra e até desagradassem seu criador. Em 1918, quando Edgar já preparava o sétimo livro (Tarzan The Untamed), Elmo Lincoln se tornou o primeiro intérprete do homem macaco em “Tarzan of the Apes”, fazendo um milhão de dólares na bilheteria, um marco pela primeira vez em plena era do cinema mudo. Elmo, de 1,90m de altura e 90 kilos marcou sua imagem com o pé sobre o corpo de um leão. A cena foi, no entanto, bem real pois o felino avançou sobre a atriz Enid Markey (a intérprete de Jane), o que fez Elmo – segundo reza a lenda – segurar o rabo do animal e matá-lo com a faca que trazia na cintura. Elmo ainda fez no mesmo ano a sequência “The Romance of Tarzan” e o seriado “The Adventures of Tarzan”, mas desistiu do papel que passou a Gene Pollan, seguido de Dempsey Tabler, Frank Merill e James Pierce, que durante as filmagens conheceu Joan, a filha de Edgar com quem se casou. Com o advento do cinema falado, Burroughs cedeu os direitos de adaptação à MGM e ao produtor Sol Lesser do Studio da RKO. A Metro fez de Johnny Weissmuller, campeão olímpico de natação, o primeiro Tarzan falado do cinema, mas desagradou ao pai do personagem por explorar a figura máscula, viril e heroica do personagem porém retratando-o como um primitivo ignorante, distante do homem culto que Tarzan vem a se tornar quando se descobre sua origem, que aliás também não é mostrada no filme que se concentra em seu romance com Jane, vivida pela atriz Maureen O’Sullivan. Em paralelo, Buster Crabbe, outro atleta olímpico, fez o filme de Lesser, depois substituído por Herman Brix e Glenn Morris, mas foi Weissmuller quem caiu no gosto popular enchendo os cofres da MGM, mas também sofrendo com o peso da censura que reclamava dos trajes sumários usados pelos atores. Devido à força dos censores de plantão, a história do quarto filme da série “Tarzan Finds a Son” (O Filho de Tarzan) de 1937 teve de ser modificada pois o código Hays (que regulamentava a censura dos filmes) apontava que seria imoral Tarzan e Jane, que não eram casados oficialmente, terem um filho pelos meios naturais, e por isso o casal adota o menino Boy (Johnny Sheffield), sobrevivente de um acidente aéreo na selva. Weissmuller foi Tarzan 12 vezes, primeiro na MGM, e depois na RKO. O famoso grito usado nos filmes empregou a voz de Weissmuller mixado com outros sons, um resultado nunca igualado por outro intérprete do personagem. Curiosamente a frase “Me Tarzan You Jane” popularizada nunca foi falada nos filmes.

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GORDON SCOTT – O TARZAN FORTÃO

A partir de 1949, Lex Barker assumiu o papel ficando por 5 filmes, seguido por Gordon Scott (um dos melhores não apenas pelo físico como também por mostrar um herói civilizado tal qual nos livros), que curiosamente não agradou ao autor. Depois, Dennis Miller, Jock Mohoney e Mike Henry que fez três filmes, dois dos quais filmados no Brasil. A passagem do ator pelo Rio de Janeiro foi desastrosa para sua imagem ao ser flagrado fugindo de uma vaca em plena Quinta da Boa Vista, além de ter sido mordido no queixo pela macaca Cheetah. Nessa época, os direitos do personagem pertenciam a Sy Weintraub que planejava uma série de Tv com Mike Henry, mas este entrou em conflito com os produtores devido aos seus incidentes e deixou o papel para o ator texano Ron Ely. A série de TV de Tarzan durou 57 episódios e foi tão popular que teve dois de seus episódios reeditados para exibição no cinema (Tarzan: Silêncio Mortal) em 1970. Ely foi o ator que mais se acidentou durante as filmagens por dispensar dublês para as cenas de perigo. Contudo, um dos casos mais curiosos ocorreu com o ator Gordon Scott que foi quase estrangulado por uma Pyton necessitando de seis homens da produção para se soltar do abraço mortal da cobra.

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MIKE NENRY MORDIDO PELA CHITA : O TARZAN QUE PAGOU MICO

A década de 80 ainda trouxe dois filmes curiosos: “Tarzan The Ape Man” (1981) provocou burburinhos na mídia da época devido ao seu conteúdo erótico. Dirigido por John Derek com sua esposa, a atriz Bo Derek (também produtora) como Jane. Nessa releitura, Jane é o foco da história e Tarzan (o ator Miles O’Keefe) funciona como um objeto do desejo de Jane, que é mostrada no pôster promocional do filme. O filme foi duramente criticado na época, com Tarzan só aparecendo em cena depois da primeira metade da história. Ao contrário deste, o diretor britânico Hugh Hudson realizou em 1984 a versão mais próxima do livro original entitulado “Greystoke – A Lenda de Tarzan, o Rei das Selvas” estrelado por Christopher Lambert e Angie MCDowell como Tarzan e Jane. Na década de 90 Casper Van Dien no cinema e os atores Worf Larson e Joe Lara na Tv deram continuidade ao legado de Burroughs.

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CHRISTOPHER LAMBERT – O TARZAN FIEL À OBRA

Tarzan ainda teve uma animação na Tv realizada pelos estúdios da Filmation, extremamente respeitosa aos livros e a mais celebrada adaptação que foi realizada para o cinema em 1999 pelos estúdios Disney (um antigo sonho de seu criador) que moderniza a história com Tarzan com visual surfista deslizando pelas árvores com agilidade admirável. Ainda houve uma animação alemã de 2013 entitulada “Tarzan – A Evolução da Lenda” que também tenta uma atualização da história colocando até o meteoro que extinguiu os dinossauros como elemento narrativo.

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O TARZAN DA DISNEY

2016 traz o ator sueco Alexander Skardgard como o 19º ator a viver o personagem no filme “A Lenda de Tarzan” (The Legendo of Tarzan), que ainda tem Margot Robbie como Jane Porter, e novamente readaptando a história e mostrando que o apelo do personagem é ilimitado.