DIÁRIO DE BORDO DATA ESTELAR 1982 : JORNADA NAS ESTRELAS II A IRA DE KHAN

Três anos depois que a tripulação original da Enterprise se reuniu para enfrentar a ameaça de V’Ger, a Paramount decidiu dar sequência ainda que as dúvidas fossem muitas. O primeiro filme teve um orçamento alto demais e os lucros estavam longe do esperado levando-se em conta os gastos feitos anteriormente com o cancelado projeto “Star Trek Phase II”. Além disso os bastidores haviam sido atribulados com constantes desentendimentos com Gene Roddenberry e a as duras críticas feitas ao filme por seu tom solene demais e premissa não só pretensiosa  como filosofica demais. Mudanças precisavam ser feitas e foram :

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O orçamento ficou restrito a apenas US$ 11 milhões e Gene Roddenberry foi removido de sua posição de produtor executivo, ficando como consultor criativo, o que na prática significou que todas as decisões seriam tomadas ignorando Roddenberry. A posição de produtor ficou com Harve Bennet, vindo da Tv onde realizou “O Homem de Seis Milhões de Dólares” e “A Mulhet Biônica”. Bennet, que nunca havia visto a série original assistiu a todos os 79 episódios a procura de um ponto de partida para um roteiro que trouxesse de volta todo o esplendor de Jornada nas Estrelas. O episodio escolhido era “Semente do Espaço” (Space Seed) que trazia o antagonista perfeito para os heróis, o super humano engendrado geneticamente Khan Noonian Sing, interpretado por Ricardo Montalban. Khan havia sido exilado em um planeta inóspito ao final de Semente do Espaço e teria todos os motivos para odiar Kirk e buscar sua vinagança. O roteiro era apenas uma colcha de retalhos que incluia a morte de Spock, condição que trouxe Leonard Nimoy de volta depois de declarar que não queria voltar ao personagem. Foi quando chegou Nicholas Meyer, diretor e roteirista que se encarregou de enxugar as diversas ideias e driblar as interferências de Gene Roddenberry, que não concordava com nada.

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NOS BASTIDORES RICARDO MOLTANBAN É CONFRONTADO COM O ROBÔ TATOO, PIADINHA COM O SERIADO “A ILHA DA FANTASIA” ESTRELADO PELO ATOR NA ÉPOCA.

Segundo o livro “Memorias de Star Trek – Os Filmes” de William Shatner , Roddenberry repudiava a abordagem militarista da Frota Estelar, ainda que Nicholas Meyer concordasse em retratar esta como uma Marinha futurista evocando o personagem Horatio Hornblower da literatura de C.S.Forrester. Ainda segundo o livro teria sido Roddeberry a deixar vazar a noticia da morte de Spock irritando os fãs que se mobilizavam contra o filme. Inicialmente a cena da morte ocorreria no inicio do filme assim como em “Psicose” (1960). Meyer conseguiu ludibriar a todos mostrando a morte de Spock na sequência de abertura como parte do simulador Kobayashi Maru. Ao final do filme o sacrifício de Spock ganharia dramaticidade inesperada e tocante com William Shatner e Leonard Nimoy separados por uma parede de vidro e encarando a mortalidade indesejada, totalmente em sintonia com o roteiro desenvolvido para que lendas encarassem o envelhecimento e o fim de tudo que é mais caro.

A Morte de Spock 1

A NECESSIDADE DE MUITOS SE SOBREPOE À NECESSIDADE DE POUCOS OU DE UM.

Foi esse o tom assumido pelo roteiro, incorporar o envelhecimento dos personagens e confrontá-los com a brevidade da vida. Kirk seria nesse sentido o foco de tudo, além de travar com Khan um acirrado jogo de gato e rato que remete inclusive ao episodio “Equilibrio de Poder” (Balance of Power) da série clássica. Embora Khan e Kirk não tenham um embate físico (a principio haveria, mas as limitações de orçamento a removeu do roteiro), sua luta é envolvente e enervante causando danos extremos à Enterprise e sua tripulação. As falas de Khan remetem à Moby Dick seja através do paralelo Ahab / Khan ou das falas do vilão ao final que parafraseam a obra de Herman Melville. A persoangem da tenente Saavik ficou com a estreante Kirstie Alley cuja personagem foi imaginada como uma substituta para Spock, e a princípio previa-se que ela se envolveria com David (Merrit Butrick), o filho de Kirk cuja presença reinforça o sentimento do personagem diante da passagem de tempo.

khan morre

CUSPO EM TI MEU ÚLTIMO SOPRO DE VIDA

O filme seria sub entitulado “A Terra Desconhecida”, mas a Paramount decidiu rebatizar o filme como “A Vingança de Khan”, contrariando a vontade de Nicholas Meyer. Na época, inclusive, George Lucas preparava o episodio VI de Star Wars anunciado como “A Vingança de Jedi”. No final das contas, Lucas rebatizou seu filme de “O retorno de Jedi” e a Paramount trocou o sub título de Star Trek para “A Ira de Khan”.  O epilogo do filme com Kirk observando o recem formado planeta Genesis onde pousa o caixão de Spock foi acrescentado depois da exibição teste do filme assim como o momento em que Spock transfere seu katra para a mente do Dr.McCoy como um gatilho a ser explorado em um terceiro filme.

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O resultado foi extremamente satisfatorio, superando o primeiro filme e conquistando tanto crítica quanto público, sendo o filme mais rentavel da franquia até seu reboot por J.J.Abbrahms em 2008. Este reimaginou “A Ira de Khan” quando fez “Star Trek Alem da Escuridão” (Star Trek Into Darkness) em  2010 com Benedict Cumberbatch repetindo o papel feito magistralmente por Ricardo Montalban. Certamente que tanto sucesso asseguraria a continuidade da franquia e a certeza de que o espaço continuaria sendo a fronteira final.

DAQUI A ALGUNS DIAS CONFIRAM AQUI NO BLOG ARTIGO SOBRE “JORNADA NAS ESTRELAS 3 À PROCURA DE SPOCK”.

GALERIA DE ESTRELAS : OS 100 ANOS DE GREGORY PECK

Poucos atores no panteão Hollywoodiano tinham tanta proximidade entre os personagens interpretados e sua personalidade quanto Gregory Peck : Liberal, democrata convicto, pacifista e anti-racista.

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Extremamente intensa é sua atuação como o advogado Atticus Finch em “O Sol é Para Todos” (To Kill a Mockinbird) de 1962 em que vive um advogado sulista que vai à corte para defender um negro acusado de estupro. O filme serviu de plataforma para as convicções de Peck que marchara ao lado de Martin Luther King para defender os direitos dos negros em uma época de grandes confrontos pelos direitos civis. Durante a caça macarthista na America, Peck assinou uma carta de protesto contra os interrogatórios e acusações que vitimavam os profissionais de Hollywood, sem temer retaliações por parte do governo. Logo, sua nobreza de espírito caiu como uma luva para interpretar o rei David em “David & Betsabá” (King David) em 1945. Suas atividades em prol de causas humanitárias o levaram ao prêmio Jean Hersholt em 1968 e o aproximavam constantemente de boatos acerca de uma carreira política. Se opunha ferrenhamente à guerra do Vietnã e a postura política de Ronald Reagan. Mesmo chegando a receber a Medalha da Liberdade do Presidente Lyndon Johnson. Sua integridade fora das câmeras era refletida nos papeis que desempenhou como o advogado idealista de “Da Terra Nasce os Homens” (The Big Country) de 1958.

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O SOL É PARA TODOS

Para mostrar sua versatilidade Peck não se prendeu a um único tipo de papel fazendo um pistoleiro canalha em “Duelo Ao Sol” (Duel in The Sun) de 1946, um heroico marinheiro em “O Falcão dos Mares” (Captain Horatio Hornblower) de 1951 e um moribundo na adaptação de Ernest Hemingway “As Neves do Kilimanjaro” (The Snows of Kilimanjaro) de 1952.

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MOBY DICK

Sempre disposto a ir além dos próprios limites encarnou o psicótico Capitão Ahab no clássico “Moby Dick” (1956) e o sádico Josef Menguelle em “Os Meninos do Brasil” em 1978. Ambos, papéis de complexa representação que surpreendia o público pela sua versatilidade em mostrar seu outro lado como intérprete. Assim foi também quando Peck, um apaixonado pacifista, aceitou atuar em “MacArthur o General Rebelde” (MacArthur) como um personagem que entrou para a história pelo belicismo e pela atitude reacionária. Nunca ficou preso a um único gênero, fez westerns como “O Ouro de MacKenna” (Mackenna’s Gold) em 1968, aventura de guerra como “Os Canhões de Navarone” (The Guns of Navarone) em 1961, e até experimentou o terror em “A Profecia” (The Omen) de 1976.

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Gregory Peck trabalhou com vários diretores de peso: William Wyler, Henry King, Alfred Hitchock, Stanley Donen, John Houston entre outros. Trabalhou ao lado de grandes atrizes como Sophia Loren, Jane Fonda, Audrey Hepburn, Lee Remick, Ingrid Bergman, etc.. Indicado cinco vezes ao Oscar, venceu justamente pelo papel de Atticus Finch em “O Sol é Para Todos”. Desde o drama psicológico ao filme de ação, Eldred Gregory Peck (5 de Abril de 1916 – 12 de Junho de 2003)  teve uma carreira prolífica, abrangendo teatro, cinema e TV onde no final de carreira teve momentos marcantes como “O Escarlate & O Negro’ (The Scarlet & The Black) em que viveu um monseignor envolvido na luta contra o nazismo e até mesmo uma refilmagem de Moby Dick, vivendo outro personagem. Sua morte em 2003 deixou um grande vazio pois poucos atores tiveram uma postura de equilíbrio e dignidade tão ímpar, e capaz de se entregar a papéis diversos com um talento que poucos tem. Há cem anos ele nasceu, há 13 anos ele desencarnou mas seus filmes estão para sempre eternizados no firmamento das grandes estrelas.

 

 

ESTREIA : NO CORAÇÃO DO MAR

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NO CORAÇÃO DO MAR (IN THE HEART OF THE SEA) EUA 2015. DIR: RON HOWARD, COM CHRIS HEWSWORTH, BENJAMIM WALKER, TOM HOLLAND, BEN WINSHAW.  

Todo mundo conhece a história do capitão com perna de pau que atravessa os mares a caça de uma gigantesca baleia branca. O que muitos não sabem é que o livro em questão, um clássico da literatura mundial escrito por Herman Melville (1819 -1891), foi inspirado em fatos reais: O naufragio do navio Essex nos idos de 1820, depois de ter encontrado uma enorme baleia. “No Coração do Mar” (In the Heart of the Sea) de Ron Howard adapta o livro homônimo escrito por Nathaniel Philbrick que narra o fato por trás da ficção, logo não espere ver a mesma história, não há Ahab nem Ismael mas logo no começo do filme você verá o próprio Melville, interpretado por Ben Whishaw (o Q de “007 contra Spectre”) entrevistando Thomas Nickerson, o último sobrevivente do Essex,  (Brendan Gleeson) para colher dados para o livro que viria a ser “Moby Dick”. Passado o prólogo, o filme nos conduz à história verídica do navio e seus três personagens principais: O Capitão George Pollard (Benjamim Walker de “Abbraham Lincon Caçador de Vampiros”), Owen Chase (Chris Hemsworth de “Thor”) e o próprio Nickerson (Tom Holland, o futuro Homem Aranha) que faz o papel de narrador da história.

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O roteirista Charles Leavitt (o mesmo de “Diamantes de Sangue”) e o diretor Ron Howard (“O Código DaVinci” e “Rush – No Limite da Emoção”) não fazem da enorme cachalote branca a protagonista, mas sim a luta pela própria sobrevivência no mar, onde não apenas a baleia como as intempéries do meio guiam os rumos dos personagens. Tanto este quanto a obra literária de Melville fazem  da baleia a expressão personificada da própria natureza humana, suas ambições, suas obsessões e sua fragilidade diante da hostilidade do meio e das limitações impostas por este. Enfim, um curioso estudo que faz deste não um filme de ação, nem uma aventura, mas a possibilidade de observar o que nos faz animais, seja a gigantesca baleia ou a nossa postura diante de um destino implacavel.

Na próxima postagem vou trazer curiosidades a respeito da obra de Melville, aguardem.