GRANDE ESTREIA: OITO MULHERES & UM SEGREDO

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             Para o escritor Machado de Assis, o conto do Vigário, aquela expressão que aponta um golpe de esperteza, é o mais antigo gênero de ficção. No cinema é um dos mais divertidos, já tendo rendido diversas pérolas explorando a arte de passar a perna em alguém e estabelecendo uma empatia instantânea com o público.  Agora é a vez de Sandra Bullock à frente de um elenco de divas, mas a semente desse golpe começou há muito tempo.

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                 Uma das mais memoráveis foi o “Onze Homens & Um Segredo” original, dirigido por Lewis Milestone em 1960. Este reunia pela primeira vez nas telas o “Rat Pack” liderado por Frank Sinatra e composto por Dean Martin, Sammy Davis Jr, Joey Bishop entre outros. O clã perpetuava nas telas a imagem boêmia dos palcos de Las Vegas, onde divertiam o público com canções e piadas. Sinatra, que tinha uma velada relação com a máfia, usa essa imagem para fazer de Danny Ocean um golpista simpático disposto a assaltar cinco cassinos na Las Vegas sessentista. O clima descontraído nas filmagens era resultado dos laços de amizade e camaradagem de um elenco que incluía uma ponta não creditada e improvisada de Shirley MacLaine, além de nomes como Akim Tamiroff, Cesar Romero, Angie Dickenson e Henry Silva, nomes hoje desconhecidos, mas extremamente populares na época. O filme ainda trouxe a colaboração do designer Saul Bass (O Homem do Braço de Ouro, Intriga Internacional, Deu a Louca no Mundo) nos créditos de abertura, os arranjos de Nelson Riddle (o favorito de Sinatra) na trilha sonora e, segundo reza a lenda, uma contribuição não creditada de Billy Wilder no roteiro.

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              A ocasião não faz o ladrão, mas certamente faz o roubo, então por que não chamar um grupo de amigos e roubar um cofre com o dinheiro de três cassinos pertencentes ao milionário Terry Benedict (Andy Garcia). Assim se desenrola a segunda versão de “Onze Homens & Um Segredo” (2001), reunindo George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Bernie Mac, Don Cheadle (Máquina de Combate nos filmes da Marvel) e os veteranos Carl Reiner e Elliot Gould. O toque feminino é dado pela presença de Julia Roberts que faz Tess, a ex-mulher de Danny Ocean, que no início do filme, está envolvida com o antagonista da trama. O filme triunfou com o público e crítica, sendo indicado a vários prêmios e faturando acima do dobro de seu orçamento estimado em torno de US$ 85 milhões. Curioso é que a vontade inicial do diretor Steven Sodenberg era filmar em preto e branco. Do elenco original, os veteranos Angie Dickenson e Henry Silva fazem rápidas aparições no filme, cujo final também difere do original. A trupe de Sinatra perde todo o dinheiro incinerado no caixão de um de seus homens enquanto Clooney e sua quadrilha embolsam uma pequena fortuna.

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             Três anos depois, Benedict (Andy Garcia) caça a gang de Danny Ocean (Clooney) exigindo a devolução do dinheiro roubado, com juros, em “Doze Homens & Um Segredo” (2004). Mas gritar “pega ladrão!” não deixa um, deixa onze planejando outro golpe na Europa a medida que são perseguidos por uma agente da lei interpretada pela bela Catherine Zeta-Jones, que tal qual Faye Dunaway atrás de Steve McQueen em “Crown, o magnífico” (The Thomas Crown Affair), vem seguindo os passos do grupo de Rusty (Brad Pitt) com quem se envolveu romanticamente. A narrativa destaca locações em Armstedam, Paris e Monte Carlo, ao som de uma sofisticada trilha sonora que inclui “L’Appuntamento”, versão em italiano de “Sentado à Beira do Caminho” de Roberto Carlos.  O clima de diversão “entre amigos” inclui Bruce Willis como ele mesmo, e ironicamente introduzindo Tess como Julia Roberts. O 12º homem do bando é o ator francês Vincent Cassell, um milionário que atende pela alcunha de “Raposa Noturna”, cuja função na trama serve a uma drástica reviravolta no final.

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                Cumprindo a máxima que diz “Ladrão que rouba de ladrão…” chega-se a “Treze Homens & Um Segredo” (2007). Desta vez o bando se reúne para contra o gangster vivido por Al Pacino, que engana Rueben (Elliot Gould), integrante da gang de Ocean, que por isso sofre um enfarte. A história explora o senso de camaradagem entre os simpáticos vigaristas em busca de vingança, levando a uma aliança inusitada quando Benedict (Garcia) torna-se o 13º homem. A produção recriou um cassino todo em estúdio com detalhes e sofisticação, e o resultado nas bilheterias não foi decepcionante, embora Soderbergh e Clooney tenham se oposto a um quarto capítulo.

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                 A formula de sucesso desses filmes é a ideia de um engenhoso golpe idealizado e praticado por escroques charmosos, modernos Robin Hoods que ignoram as leis, subvertem as convenções de certo e errado. Como não lembrar de Aldo Vanucci (Peter Sellers), outra notória raposa de “O Fino da Vigarice” (After The Fox), de Vittorio De Sica que dizia “Se ao menos eu pudesse roubar o suficiente para me tornar um homem honesto!”. Essa refinada ironia é o tom recorrente em filmes como “Os Sete Homens de Ouro” (Il Grande Golpo dei 7 Uomini D’Oro) de 1965, “Um Golpe à Italiana” (The Italian Job) de 1969, ou o excelente “Golpe de Mestre” (The Sting) de 1973.  Tivemos ainda o brasileiro “Assalto ao Trem Pagador” de 1962, baseado em um fato real: O roubo do pagamento da Estrada de Ferro Central do Brasil ocorrido em 1960, pela gang liderada pelo temido Tião Medonho (Eliezer Gomes). Três anos depois a vida imitou a arte na Inglaterra onde um trem com pagamentos foi roubado por 15 homens que levaram 2,6 milhões de libras esterlinas, tendo um deles, Ronald Biggs se refugiado no Brasil por mais de 30 anos.

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                Hoje o espaço é maior para as mulheres e já existem rumores de uma refilmagem de outra pérola do gênero “Os Safados” (Dirty, Rotten, Scoundrels) de 1989 que será estrelada por Rebel Wilson e Anne Hathaway, sendo que esta integra o elenco de “Oito Mulheres & Um Segredo” (2018). A gang traz Cate Blanchett, Helena Bohman Carter, Sarah Poulson, Mindy Kaling, a cantora Rihanna e a rapper Awkawafina, lideradas por Sandra Bullock, cujo personagem é irmã de Danny Ocean. O diretor Gary Ross (Jogos Vorazes) aproveita as participações de Carl Reiner e Matt Damon para fortalecer a conexão com os filmes anteriores. Tantos talentos reunidos servem ao empenho de belas golpistas em roubar um colar de diamantes valiosíssimo exibido em evento no MET (Museu Metropolitano de Arte).

              São oito beldades, inteligentes, ardilosas, espertas, impostoras, sedutoras, deliciosamente burladoras e desonestas, em resumo maravilhosas. As únicas regras são “roubar de quem merece”, “não ferir ninguém” e “divertir todos”. Nos filmes, tudo parece fácil, por isso mesmo divertido pois ali reside toda a catarse, de rir e tirar um belo sarro da vida com um bom e velho conto do vigário!

 

CAÇADORES DOS CLÁSSICOS PERDIDOS: O FINO DA VIGARICE

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             Há filmes que merecem o status de clássico mas que são menos badalados seja pelos críticos ou pelo grande público que desconhece sua existência, principalmente aqui no Brasil, que reprisam exaustivamente alguns filmes em detrimento de outros que não alcançam o mesmo espaço na Tv ou nos lançamentos de home vídeo (dvd, blu ray), desprezados até mesmo pelas plataformas de streaming como Netflix. Em resumo, há verdadeiras pérolas ignoradas por todos mas que ainda possuem seus fãs, aqueles com boa memória, cinéfilos de carteirinha assinada que chamo pelo título da coluna que agora inicio no blog. Periodicamente estarei revendo alguns desses tesouros e trazendo para cá sua lembrança e para começar um exemplar de humor raro nas produções atuais, “O Fino da Vigarice”.

FINO DA VIGARICE

        Foi o primeiro roteiro escrito pelo dramaturgo Neil Simon (O Estranho Casal, Descalços no Parque) que serviu de veículo para a versatilidade insana de Peter Sellers (1925/1980), na época já célebre por suas atuações em filmes como “A Pantera Cor de Rosa” (Pink Panther) de 1963 e “Dr.Fantástico” (Dr.Strangelove) de 1964. O diretor italiano Vittorio De Sica (1901/1974) se interessou pelo projeto que enxergou como um veículo para fazer uma crítica social, lembrando que foi ele um dos que deram o pontapé inicial para o Neo-realismo em 1949 com “Ladrões de Bicicleta” ( Ladri di Biciclette) e pelo qual ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro.

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        A história é sobre Aldo Vanucci, vulgo “A Raposa”, um notório ladrão internacional e mestre nos disfarçes, desafiado a roubar uma grande remessa de ouro que atravessa uma pequena cidade italiana. Para alcançar seu objetivo, Aldo se faz passar por um renomado diretor de cinema (parodiando Fellini) que chega a Sevalio, uma cidade pequena na costa, para rodar um filme, conseguindo atrair Tony Powell (Victor Mature), um famoso galã e até mesmo o apatetado chefe de polícia (Lando Buzzanca). A premissa do filme dentro do filme antecipa a missão diplomática disfarçada no Irã, que aconteceu nos anos 70 e gerou o filme “Argo” (2012).

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BRITT EKLAND & PETER SELLERS

        O papel de Aldo “Raposa” Vanucci caiu como uma luva no camaleônico Peter Sellers que também assumiu a função de co-produtor junto a John Bryan. O astro, no entanto, era uma pessoa muito difícil e coleciona-se histórias de bastidores em que Sellers simplesmente infernizava a vida dos diretores, e com De Sica não foi diferente. Curioso que foi o próprio Sellers quem trouxe o diretor italiano para o projeto, mas durante as filmagens fez de tudo para demiti-lo alegando “Ele pensa em italiano, e eu em inglês”. Também foi Sellers quem convenceu Victor Mature (1913/1999), que estava afastado das telas, a ficar com o papel de Tony Powell. O elenco ainda incluiu Britt Ekland, na época casada com Peter Sellers, como Gina, a irmã de Aldo, Lydia Brazzi, esposa do ator Rozanno Brazzi, como Mama Vanucci, Akim Tamiroff (1899 / 1972), ator de origem russa, como Okra – o chefão do crime, Martin Balsam como Harry – empresário de Tony e a voluptuosa Maria Grazia Bucella, ex miss Italia, como uma das meninas de Okra. O diretor, que enxergava na história uma crítica de como a ambição corrompe a arte,  faz uma aparição no filme rodando uma produção bíblica de onde Aldo rouba os equipamentos de filmagem.

                        O clima de pilantragem do filme seria um mote bem explorado em outras produções de sucesso como “Golpe de Mestre” (The Sting) de 1973 e “Os Safados” (Dirty, Rotten, Scondrels) de 1988. “O Fino da Vigarice”, no entanto, é divertido mas irregular em sua narrativa, resultado dos cortes que desagradaram o roteirista. O montador de confiança do diretor não entendeu o humor do texto de Simon e isso é visível a medida que se aproxima o desfecho e o golpe é descoberto. De acordo com o site imdb, mesmo quando o filme foi remontado a pedido de Simon, por Russell Lloyd – montador de John Houston, várias sequências haviam se perdido como Sellers personificando os Beatles.

           Uma das últimas vezes que lembro do filme ter sido exibido na Tv brasileira foi no Corujão da Rede Globo no inicio dos anos 90, quando o impagável Sellers, embalado pela trilha sonora de Hal David e Burt Bacharach, divertiu mais uma vez os cinéfilos que tentaram pegar aquela raposa.