ADILSON CINEMA – O HOMEM INVISÍVEL

Quando em 2017 “A Múmia” naufragou nas bilheterias, parecia acabar ali as pretensões do “Dark Universe”, seguindo a fórmula dos universos compartilhados, de unificar os clássicos personagens dos filmes de terror do tradicional estúdio da Universal. Foi quando o produtor Jason Blum, da Blumhouse Productions, assumiu a tarefa de reiniciar a proposta. Fortalecido pelo Oscar de melhor roteiro original para Jordan Peele em “Corra” (2017), Blum teve com esse e outros sucessos, como o bem sucedido reboot de “Halloween” (2018), a chave para trazer à luz dos novos tempos o clássico de H.G.Wells escolhido para recriar em 2020 o terror de um universo de monstros.

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H.G.WELLS

      Inicialmente pensado como um veículo para Johnny Depp, o diretor e roteirista Leigh Whannell (Sobrenatural: A Última Chave) decidiu mudar o foco da história, concentrando-se em Cecilia Kass, vítima da perseguição de seu marido abusivo dado como morto, mas que ela acredita estar vivo e … invisível. Para interpretar a atormentada protagonista, a atriz Elizabeth Moss, da premiada série “Handmaid’s Tale”, que – curiosamente – aos 13 anos dublou o episódio “See No Evil” da série animada “Batman The Animated Series” como uma menina cujo amigo imaginário era na verdade seu pai, um ex-criminoso invisível.

       A mudança de foco permitiu trabalhar o sentimento de paranoia quando vemos uma ameaça que só nós conseguimos enxergar. O sentimento é potencializado pela máxima da ficção científica que mostra o impacto da tecnologia no indivíduo e na sociedade, tema recorrente no gênero literário do qual “O Homem Invisível” nasceu, pela imaginação do escritor britânico H.G.Wells (1866-1946). Whannell decidiu deixar para trás o clássico visual do homem misterioso com o corpo coberto de bandagens em favor de uma abordagem mais “realista” mergulhada no terror provocado pelo mal uso de uma descoberta científica deturpada pela mente insana de um homem que se separa do resto da humanidade. O terror surge quando Cecilia se vê indefesa em um lugar onde seu algoz pode ou não estar, e o clima de ameaça a acompanha onde quer que vá, e assim como a Mia Farrow de “O Bebê de Rosemery”, Cecilia se vê incapaz de conseguir ajuda, exceto pelo amigo policial James (Aldis Hodge) e sua filha Sydney (Storm Reid). Cecília recebeu uma fortuna de seu ex-marido falecido, e descobre da pior maneira que ele não morreu. A noção da falta de privacidade faz ponte com a vida real ao nos remeter com a sensação cada vez crescente de que estamos sempre sendo observados.

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        Tais divagações sempre enriqueceram a ficção-científica como uma fórmula para questionar os avanços científicos quando o ser humano ainda se demonstra tão preso a seus instintos primitivos como um insano Claude Rains se despindo de suas bandagens com um grito histérico na versão de 1933 da Universal. Impressionante para os dias em que foi filmado, o diretor James Whale (O mesmo de “Frankenstein”) triunfou ao vestir o ator com um tecido aveludado preto da cabeça aos pés antes de filmá-lo diante de um fundo de material e cor iguais permitindo a ilusão de que Rains desaparecia diante dos olhos. Na adaptação a história foi movida de 1896 (como no livro) para 1933. Outra mudança é que o protagonista Jack Griffith é um homem misterioso no livro, sem passado ou ligações afetivas, enquanto no filme de Whale Griffith tem esposa, pai e amigo. Em 1940, a Universal lançou “A Volta do Homem Invisível” (The Invisible Man Returns) estrelado por Vincent Price, em seu primeiro filme de terror. O sucesso ainda gerou uma terceira sequência “A Mulher Invisível” (The Invisible Woman) em tom de comédia, lançado no mesmo ano. O filão ainda rendeu “O Agente Invisível” (the Invisible Agent) de 1942 aproveitando os esforços de guerra fazendo de Frank Griffith (John Hall), neto do personagem original, um super agente americano enfrentando os nazistas. Em 1944, houve ainda “A Vingança do Homem Invisível” (The Invisible Man’s Revenge) com Jon Hall interpretando Robert Griffin, um personagem sem nenhuma ligação com seus predecessores. Em 1951 ainda haveria a paródia “Abbot & Costello Encontram O Homem Invisível” (Abbot & Costello Meets The Invisible Man) antes que os britânicos retomassem a ideia de um super espião para o Dr.Peter Brady nos 26 episódios de “H.G.Wells’ The Invisible Man” , que apesar do título nada tinha a ver com o romance original. Na década de 70 a Tv americana retomou a ideia de um homem invisível herói e espião: Em 1975 David McCallum foi o Dr. Daniel Westin por 12 episódios de “The Invisible Man” seguido de Ben Murphy como o agente Sam Casey em “Gemini Man”, que usava um relógio digital para oscilar entre a visibilidade e a invisibilidade.

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O FILME DE 1933 – CLAUDE RAINS DEBAIXO DAS BANDAGENS

          O icônico diretor John Carpenter adaptou “Memórias de um Homem Invisível” (Memoirs of na Invisible Man) do livro de H.F.Saint com Chevy Chase. Impressionante foi a técnica que fez o Dr. Sebastian Caine (Kevin Bacon) gradativamente alcançar a invisibilidade, camada por camada expondo tecido, órgãos e ossos em “O Homem Sem Sombra” (The Hollow Man) de 2000 alcançando indicação para o Oscar de melhor efeitos visuais. O filme teve a sequência “O Homem sem Sombra 2”, diretamente lançado em vídeo, com várias referências ao livro de Wells, como o sobrenome de Christian Slater como o Dr. Michael Griffith. Em 2002, com o sucesso de “The Hollow Man”, o ator Vincent Ventresca interpretou um ex criminoso que se torna uma super espião invisível na nova versão do seriado homônimo ao romance de Wells.

        Seja como um degenerado ou como um espião, a figura do homem invisível atravessa gerações como um dos textos mais virtuosos de seu gênero desde que foi publicado serializado em 1887 na revista semanal “Pearson’s weekly”, e no mesmo ano publicado como romance. Mais de 130 anos depois, as vantagens de ser criativo como Wells, visionário mas jamais… invisível.

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UNIVERSO DE MONSTROS

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         Quando Criança meu universo compartilhado de monstros era assistir a sitcom “The Munsters” (1964-1966) que trazia Fred Gwynne e Yvonne DeCarlo como um simpático casal, ele a criatura de Frankenstein e ela uma vampira, filha do próprio Drácula, um vovô bonachão, interpretado por Al Lewis. Tempos mais inocentes quando os monstros clássicos dos filmes de terror já não assustavam tanto. Nos primórdios do cinema, no entanto, a casa destes era o estúdio da Universal que tornou-se especialista em dar forma aos pesadelos do inconsciente humano.

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FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEN

            A frase “Bem vindo a um mundo novo de deuses e monstros” que agora anuncia a chegada do “Dark Universe” do estúdio na verdade é uma retomada pois o estúdio, na ativa desde a era do cinema mudo, já investira no passado na ideia de um universo compartilhado. Nomes como Lon Chaney (pai e filho), Boris Karloff e Bela Lugosi formavam um elenco talentoso na arte de explorar o medo, mais sugerido que explicito. Entre 1923, data da primeira filmagem de “O Corcunda de Notre Dame” com Lon Chaney até o final da década de 50, o Universal Studios chefiada por Carl Laemmle soube se especializar em filmes de custo baixo mas que davam grande retorno de bilheteria durante os loucos anos vinte (os chamados roaring twenties) criando uma reputação que continuou a explorara em meio aos difíceis anos da grande depressão que se seguiu. A Universal foi o primeiro estúdio a investir em sequências, muitas das vezes reaproveitando cenários, tomadas e falas, se beneficiando do talento desses atores, diretores como Tod Browning e James Whale e da habilidade do maquiador Jack Pierce para moldar personagens saídos dos pesadelos mais sombrios. A Universal deu vida a Drácula, Frankenstein, lobisomem, múmia e várias outras criaturas que se popularizaram com um público que encontrava deleite nas sombras da alma humana representadas em preto e branco, herdeiros das lições do expressionismo cultivadas por Murnau e Lang.

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A CASA DE FRANKENSTEIN

          A ideia de juntar mais de um monstro em um único filme surgiu quando, depois de 4 filmes de Frankenstein (os três primeiros com a criatura interpretada por Boris Karloff) o roteirista Curt Siodmark sugeriu ao produtor  George Wagner que fizessem “Frankenstein meets the Wolfman”, recebendo sinal verde para o projeto que veio a ser dirigido por Roy William Neill e lançado em 1943. O filme mostra Larry Talbot (Lon Chaney Jr) procurando uma cura para sua maldição e se confrontando a criatura de Frankenstein interpretada por Bela Lugosi, que fica em cena apenas por pouco mais de cinco minutos sendo ocasionalmente substituido por um dublê devido a problemas de saúde. O filme funcionou como uma sequência tanto para os eventos mostrados em “O Lobisomen” de 1941 como em “A Alma de Frankenstein” (The Ghost of Frankenstein) de 1942. Para atrair o público, o estúdio anunciou o nome de Lon Chaney, sem o Jr, para confundir a todos já que o nome de Lon Chaney pai (falecido em 1930) ainda era então extremamente conhecido. A ideia inicial era de ter Chaney filho fazendo tanto o papel do lobisomen como do monstro de Frankenstein, mas deixada de lado já que falamos de décadas anteriores à tecnologia digital. O resultado satisfatório animou a Universal a reunir mais monstros, o que levou à realização de “A Casa de Frankenstein” (The House of Frankenstein) de 1944. Neste novo exemplar, Boris Karloff retorna ao universo de monstros mas como o cientista louco que manipula Dracula (John Carradini), o monstro de Frankenstein (o ex cowboy Glenn Strange) e o Lobisomen (Chaney Jr) para se livrar de seus desafetos. Originalmente, a múmia Kharis seria incluída no filme, mas por motivos de orçamento ficou de fora. Mesmo as cenas com Drácula acabaram sendo filmadas em separado sem que este contracenasse com o lobisomen de Chaney e o Frankenstein de Strange. O filme ainda incluiria a figura do corcunda apaixonado (J.Carrol Nash) por uma dançarina cigana (Elena Verdugo) emulando a narrativa de “O Corcunda de Notre Dame”, embora não sejam os mesmos personagens. A Segunda Guerra se aproximava de seu fim, mas o público vivia a incerteza desta e de suas consequências. O ciclo da Universal oferecia a catarse ideal para esse medo real, palpável e o estúdio soube como tirar proveito disso levando a “A Casa de Drácula” (The House of Dracula) de 1945 reunindo esse “Nightmare Team” uma última vez, desta vez sem Karloff que teve o personagem substituído por outro cientista, o Dr.Edelmann (Onslow Stevens) a quem Drácula e Larry Talbolt procuram em busca de uma cura. O filme incluiu uma novidade na figura de uma mulher corcunda, Nina (Jane Addams). O filme também marcou a última aparição de Lon Chaney Jr sob contrato com a Universal, embora o ator tenha voltado ao papel mas na comedia “Abbot & Costello Meet Frankenstein” (1948) que reuniria além do próprio Bela Lugosi como Dracula e Glenn Morgan como Frankenstein.

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A CASA DE DRÁCULA

         Quando a década de 50 chegou o interesse dos estúdios passou a ser filmes de monstros do espaço e discos voadores, o que deixou os monstros clássicos de lado mas não esquecidos graças à iniciativa da Universal de levá-los para a Tv como um pacote de filmes  que foi apresentado a uma nova geração de jovens que redescobriu os mestres do pavor sobrenatural. Provando que estes sempre renascem, o estúdio promete novas versões em filmes interligados, reintroduzindo o conceito para uma geração acostumada a jogos de vídeo game e filmes de super heróis. Como promete o slogan, um mundo – não tão novo assim – de deuses, monstros e efeitos digitais modernos.