GALERIA DE ESTRELAS : OS 100 ANOS DE GREGORY PECK

Poucos atores no panteão Hollywoodiano tinham tanta proximidade entre os personagens interpretados e sua personalidade quanto Gregory Peck : Liberal, democrata convicto, pacifista e anti-racista.

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Extremamente intensa é sua atuação como o advogado Atticus Finch em “O Sol é Para Todos” (To Kill a Mockinbird) de 1962 em que vive um advogado sulista que vai à corte para defender um negro acusado de estupro. O filme serviu de plataforma para as convicções de Peck que marchara ao lado de Martin Luther King para defender os direitos dos negros em uma época de grandes confrontos pelos direitos civis. Durante a caça macarthista na America, Peck assinou uma carta de protesto contra os interrogatórios e acusações que vitimavam os profissionais de Hollywood, sem temer retaliações por parte do governo. Logo, sua nobreza de espírito caiu como uma luva para interpretar o rei David em “David & Betsabá” (King David) em 1945. Suas atividades em prol de causas humanitárias o levaram ao prêmio Jean Hersholt em 1968 e o aproximavam constantemente de boatos acerca de uma carreira política. Se opunha ferrenhamente à guerra do Vietnã e a postura política de Ronald Reagan. Mesmo chegando a receber a Medalha da Liberdade do Presidente Lyndon Johnson. Sua integridade fora das câmeras era refletida nos papeis que desempenhou como o advogado idealista de “Da Terra Nasce os Homens” (The Big Country) de 1958.

gregory peck atticus

O SOL É PARA TODOS

Para mostrar sua versatilidade Peck não se prendeu a um único tipo de papel fazendo um pistoleiro canalha em “Duelo Ao Sol” (Duel in The Sun) de 1946, um heroico marinheiro em “O Falcão dos Mares” (Captain Horatio Hornblower) de 1951 e um moribundo na adaptação de Ernest Hemingway “As Neves do Kilimanjaro” (The Snows of Kilimanjaro) de 1952.

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MOBY DICK

Sempre disposto a ir além dos próprios limites encarnou o psicótico Capitão Ahab no clássico “Moby Dick” (1956) e o sádico Josef Menguelle em “Os Meninos do Brasil” em 1978. Ambos, papéis de complexa representação que surpreendia o público pela sua versatilidade em mostrar seu outro lado como intérprete. Assim foi também quando Peck, um apaixonado pacifista, aceitou atuar em “MacArthur o General Rebelde” (MacArthur) como um personagem que entrou para a história pelo belicismo e pela atitude reacionária. Nunca ficou preso a um único gênero, fez westerns como “O Ouro de MacKenna” (Mackenna’s Gold) em 1968, aventura de guerra como “Os Canhões de Navarone” (The Guns of Navarone) em 1961, e até experimentou o terror em “A Profecia” (The Omen) de 1976.

gregory peck oscar

Gregory Peck trabalhou com vários diretores de peso: William Wyler, Henry King, Alfred Hitchock, Stanley Donen, John Houston entre outros. Trabalhou ao lado de grandes atrizes como Sophia Loren, Jane Fonda, Audrey Hepburn, Lee Remick, Ingrid Bergman, etc.. Indicado cinco vezes ao Oscar, venceu justamente pelo papel de Atticus Finch em “O Sol é Para Todos”. Desde o drama psicológico ao filme de ação, Eldred Gregory Peck (5 de Abril de 1916 – 12 de Junho de 2003)  teve uma carreira prolífica, abrangendo teatro, cinema e TV onde no final de carreira teve momentos marcantes como “O Escarlate & O Negro’ (The Scarlet & The Black) em que viveu um monseignor envolvido na luta contra o nazismo e até mesmo uma refilmagem de Moby Dick, vivendo outro personagem. Sua morte em 2003 deixou um grande vazio pois poucos atores tiveram uma postura de equilíbrio e dignidade tão ímpar, e capaz de se entregar a papéis diversos com um talento que poucos tem. Há cem anos ele nasceu, há 13 anos ele desencarnou mas seus filmes estão para sempre eternizados no firmamento das grandes estrelas.

 

 

GALERIA DAS ESTRELAS : O CENTENÁRIO DE ANTHONY QUINN

ONE- MAN TANGO

Anthony Quinn

Segundo a auto-biografia do ator Anthony Quinn, o ator de diretor Orson Welles (que também completa seu centenário esse ano e de quem falarei aqui em breve) o teria apelidado de “One Man Tango”, pois sua auto confiança era tamanha que ele poderia dançar um tango sozinho e ainda assim impressionaria. A alcunha parece justa pois imaginem um mexicano com uma habilidade camaleônica tamanha capaz de ser convincente como um árabe, um italiano ou um grego. Seu olhar e postura o torna um revolucionário, um papa ou um deus grego. Estou falando de Antonio Rudolfo Oaxaca Quinn, que se vivo estivesse acrescentaria a esse invejável currículo a marca admirável de 100 anos, uma longevidade não alcançada por meros mortais, mas alcançada e superada ao menos pelas estrelas de cinema.

Nascido em 21 de Abril de 1915 em Chihauhua, México, filho de Manuela e Francisco Quinn que trabalhara como assistente de cameraman para um estúdio cinematográfico de Los Angeles naquele início de século. O pai chegou a fazer parte do exercito do revolucionário Pancho Villa. Antonio trazia no sangue o espírito de um guerreiro. Sua infância foi modesta e antes de ser ator, Antonio foi açougueiro e boxeador graças a um físico invejável que ele soube usar para atuar em papéis que o exigiam como de piratas ou gangsters, sempre como um coadjuvante talentoso capaz de roubar a cena. Lembro de Anthony Quinn, por exemplo, aos 25 anos,  como o vilão de “Cisne Negro” (The Black Swan) de 1940 antagonizando Tyrone Power, com quem também trabalhou em “Sangue & Areia” (Blood & Sand) de 1941, embora tenha feito um papel menor.  Havia já ali uma pretensão, uma ambição que instigava o ator a buscar algo mais. Contratado pela Paramount,  ficou um longo tempo colecionando papéis menores em filmes de outros astros, e sempre em papéis que exploravam mais seu biótipo do que suas habilidades interpretativas. Decepcionado, ele trocou Hollywood pelos palcos da Broadway onde teve elogiado desempenho como Stanley Kowalski na adaptação de “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennesse Williams, e ainda estudou arquitetura por um período. Nessa fase de sua vida, Anthony estava casado com Katherine De MIlle,  a filha do mítico diretor Cecil B.De Mille, com quem aliás não nutria um relacionamento muito amistoso.

anthony quinn e esposa

ANTHONY QUINN & A PRIMEIRA ESPOSA KATHERINE DE MILLE

Demorou, mas logo Anthony Quinn foi redescoberto por Hollywood e em 1947 já havia se naturalizado americano. Contudo, quando a peça de Williams foi adaptada para o cinema por Elia Kazan, o papel de Kowalski foi para Marlon Brando. Kazan, no entanto, reconhecia que havia um talento que não deveria ser desencorajado ali, e escalou Anthony Quinn para um outro papel de destaque, curiosamente, o de irmão de Marlon Brando em “Viva Zapata” (1952), cinebiografia do revolucionário mexicano Emiliano Zapata. Esse foi o momento da virada para o ator que conquistou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel que veio a impulsionar sua carreira, e tornando-o o primeiro ator de origem mexicana a ganhar a cobiçada estatueta de ouro da Academia. Repetiu o feito cinco anos depois quando interpretou o pintor francês Gauguin no excelente “ Sede de Viver” (Lust for Life), dirigido por Vincent Minelli, que conta a história de vida do pintor Vincent Van Gogh (Kirk Douglas).

O SEGUNDO OSCAR, TAMBÉM, COMO COADJUVANTE

O SEGUNDO OSCAR, TAMBÉM, COMO COADJUVANTE

Aparecendo por pouco tempo em cena, Anthony Quinn conseguiu brilhar mesmo contracenando com um visceral Kirk Douglas, em atuação igualmente impactante. Aliás, na vida real Anthony Quinn era um pintor auto-didata, tendo se interessado pela arte durante sua adolescência, e depois de adulto chegou a conquistar elogios do crítico de arte Donald Kuspit e a ter seus quadros exibidos em galerias de arte no México, Los Angeles, Nova York e Paris. Quinn voltou a contracenar com Kirk Douglas como seu antagonista em filme apropriadamente batizado “Duelo de Titãs” (Last Train for Gun Hill) de 1959, faroeste em que Anthony Quinn interpreta um barão do gado que se recusa a entregar seu filho, que cometera um crime, ao homem da lei (Douglas) que já foi um dia seu melhor amigo. Ao longo da década de 50 diversos convites surgiam e o versátil ator foi morar na Itália onde, na época, várias produções internacionais eram rodadas pois os incentivos fiscais barateavam os custos de produção. Nessa época teve a oportunidade de trabalhar com Federico Fellini em “Estrada da Vida” (La Strada) de 1954. Sua figura já havia alcançado prestígio mundial quando apareceu ao lado de nomes de peso como Peter O’Toole e Omar Shariff em “Lawrence da Arábia” (Lawrence of Arabia), de David Lean, e esteve junto de Gregory Peck e, David Niven em “Os Canhões de Navarore” (The Guns of Navarone). Entre esses, me encantei com sua performance em “As Sandálias do Pescador” (The Shoes of The Fisherman), adaptação da obra de Morris West sobre um papa de origem ucraniana eleito em meio a uma crise mundial. Anthony Quinn transmite equilíbrio e uma humanidade tão acima dos padrões normais que, mesmo se tratando de uma história de forte contextualização política, suas ações parecem compor uma fábula moderna. A sabedoria e humildade espelhada nas telas fazem um curioso contraponto com os traços rudes de seu rosto. Este é o meu filme favorito dentre os estrelados por Anthony Quinn, devo dizer.

AS SANDALIAS DO PESCADOR

AS SANDALIAS DO PESCADOR

Em todos esses filmes, mesmo que em meio a  um elenco estelar, Anthony Quinn sempre conseguia se fazer notar, se destacando com notável desembaraço. Ele conseguia transmitir credibilidade não importando em que papel alcançou  impressionante resultado protagonizando “Barrabás” (1961) e “Zorba o Grego” (Zorba the Greek) (1964). No primeiro, uma superprodução realizada no auge dos épicos Hollywoodianos. viveu o atormentado ladrão que foi perdoado e salvo da crucificação no lugar de Jesus Cristo. Do sofrimento pungente de seu personagem no filme de Richard Fleischer, saltamos para uma catarse contagiante como o grego Zorba no filme dirigido por  onde Anthony Quinn ganha a tela com uma atuação maior que a própria vida, dando uma lição de simplicidade e generosidade para um milionário incapaz de perceber o valor da vida. Novamente, a rudeza de seus traços servem de tempero para uma atuação inspirada, capaz de lavar a alma e contagiar o espectador. Foi também um índio (O Intrépido General Custer de 1941 e Bufffalo Bill de 1944), um marinheiro árabe (Simbad o Marujo de 1947), o corcunda Quasímodo da obra de Victor Hugo (O Corcunda de Notre Dame de 1957), um esquimó (Sangue sobre a Neve de 1960), o imperador chinês Kublai Khan (Marco Polo o magnífico de 1965) entre outros.  Todos facetas múltiplas de um ator cuja versatlidade não tinha limites. Na vida pessoal também era um homem de muitos papeis: Estudou arquitetura, casou outras duas vezes, foi pai, escritor, muitos em um único homem.

zORBA O GREGO

zORBA O GREGO

Na década de 60, sua vida pessoal teve grandes mudanças quando ele se divorciou de Katherine, com quem teve cinco filhos e se casou com Jolanda Addolori , uma estilista que Quinn conhecera na Italia e que veio a se tornar sua segunda esposa. Anthony Quinn, em uma entrevista à revista LIFE, dizia que o tempo todo procurava fugir da estereotipação dos papeis que lhe eram oferecidos. Ainda assim aparecia em papéis assim como um milionário grego inspirado na figura de Aristoteles Onassis em “O Magnata Grego” (The Greek Tycoon) de 1978, o profeta mulçumano em “Maomé – o Mensageiro de Deus” (Mohammed – Messenger of God) de 1977. A chegada da idade lhe dificultou o acesso aos bons papeis, mas o ator encontrou na TV novas possibilidades. Na década de 90, veio o papel de Zeus, o senhor do Olimpo em uma série de telefimes estrelados por Kevin Sorbo como o semi deus “Hercules”. Personagens marcantes fizeram sua carreira memorável e este ano celebramos tal multiplicidade com a certeza única de que poucos atores conseguiram marcar sua estirpe tendo contra si tantos estereótipos imputados a si, e a a favor toda essa energia que fez de Anthony Quinn um ídolo como poucos.