ADILSON CINEMA: 1917

O filme intitulado com o penúltimo ano da Primeira Guerra começa em 6 de Abril, data em que os Estados Unidos entraram no conflito. Com várias premiações e indicações, o filme conta com 10 indicações ao próximo Oscar, incluindo melhor filme e direção para Sam Mendes. Com tanta badalação, facilmente podemos entender porque mesmo que não completamente original, “1917” consegue o mérito de mostrar as possibilidades quando um realizador tem talento para reunir uma equipe capaz de mostrar o que é a sétima arte, não o que se faz, mas como se faz.

1917

         O mérito do filme não é apenas técnico, pois os recursos narrativos estão a serviço de uma história bem elaborada que sabe evitar o ufanismo geralmente associado aos filmes do gênero. O filme de Mendes evoca na memória ecos de “Glória Feita de Sangue” (1957) e “Sem Novidades no Front” (1930) ambos também ambientados na Primeira Guerra (1914-1918) e expondo os horrores que a marcha belicista traz ao espírito humano. Mendes começa com um plano aberto no campo onde dois soldados britânicos descansam debaixo de uma árvore, e logo em seguida são despertados à medida que caminham para dentro de um labirinto de trincheiras que dividem o exército inglês dos alemães. Os soldados são incumbidos de levar uma mensagem até um batalhão inglês prestes a cair em uma armadilha que custará suas vidas. O patriotismo cego não move os passos dos jovens Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), é mais pessoal, emotiva.  O primeiro assume a missão pois seu irmão mais velho está entre os soldados sobreviventes e a um passo da emboscada, e o segundo é movido pela amizade e a promessa feita ao atravessar uma terra de ninguém. MacKay (Capitão Fantástico) conecta-se com o público, vive à flor da pele o significado de derramar sangue, suor e lágrimas. A travessia da terra de ninguém até o front ganha uma dimensão de incrível realismo graças à fotografia de Roger Deakins (Oscarizado em “Blade Runner 2049”) cujas imagens impactantes são o verdadeiro protagonista dessa história. Se a frase “esses são os horrores da guerra” já foi ouvida em outros filmes, o filme de Mendes as explora com precisão cirúrgica desde a mudança brusca de um idílico campo ao claustrofóbico ambiente de uma trincheira; ou da segurança desta para uma corrida desesperada com tiros e bombas sucessivas. A trilha sonora de Thomas Newman se mescla à ação de forma que corremos com o cabo Schofield e sofremos como se pudéssemos nos transportar para dentro da tela. Mesmo a rápida aparição de rostos conhecidos como Colin Firth, Mark Strong e Benedict Cumberbatch não nos distrai do principal na história, não o seu desenrolar, não é senso de patriotismo ou de dever cumprido, mas como o ser humano eclipsa em meio à destruição e morte, essas sim as únicas vencedoras de guerra.

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REI LEÃO

          Este tem sido o ano do cantor Elton John. Depois do sucesso internacional de sua cinebiografia “Rocketman”, suas composições voltam à luz da mídia no lançamento da versão live-action de “O Rei Leão”, dirigida por Jon Favreau, o mesmo responsável pela transposição de “Mogli” em 2016, mais reconhecido pelo público como o Happy Hogan do Universo Cinemático Marvel.

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           A tarefa é hercúlea: Fazer uma nova geração se emocionar com a jornada do leão Simba e trazer de volta a nostalgia de quem cantou Hakuna Matata nos idos de 1994. O novo filme traz de volta os compositores Tim Rice e Elton John, além do veterano James Earl Jones na voz de Mufasa. Na época de seu lançamento a animação causou um grande impacto com sua história de tons shakespearianos, a primeira original do estúdio e seu 32º longa, ganhando os Oscars de melhor trilha sonora, de Hans Zimmer e melhor canção original, para “Can you feel the love tonight?”. Nada ficou no caminho de sucesso de “O Rei Leão” na época, mesmo quando surgiram acusações de que a Disney havia copiado “Kimba – o Leão Branco”, clássico anime criado por Osamu Tezuka.

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         Foram 3 anos de trabalho e dedicação dos roteiristas Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton e dos animadores da Disney resultando em impressionante representação da África conseguida depois que a equipe viajou ao Parque Nacional do Quênia para estudar o cenário e o comportamento dos animais. Foi um longo processo de mudança que incluiu tentativas de rodar em tom documental e depois de fazê-lo um musical na tradição de outras animações do estúdio. A chegada de Rob Minkoff e Don Hahn na produção delineou o foco da história inicialmente intitulada “King of The Jungle”, e modificado, uma vez que o desenrolar da história era nas savanas africanas, e não exatamente na selva. A história ganhou retoques bíblicos com a inspiração na figura de Moisés e o acréscimo de cenas para as hienas, e a dupla Timão e Pumba, estes coadjuvantes de luxo que roubam a cena com humor contagiante diluindo o peso dramático sem fazer perder o impacto da narrativa.

         O projeto foi uma aposta arriscada para um estúdio acostumado com histórias de princesas e reinos mágicos como os bem sucedidos “Aladim” (1992) e “A Bela & A Fera” (1991), e por isso acreditava-se e investia-se mais na adaptação de “Pocahontas”, desenvolvido em paralelo, mas com resultado inesperado nas bilheterias. Enquanto a lendária índia norte-americana faturou em torno de US$ 141 milhões nas bilheterias, a história de Simba alcançou US$ 312 milhões só nos Estados Unidos, tornando-se então a animação de maior bilheteria até 2003 quando estreou “Procurando Nemo”.

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          O live-action que chega aos cinemas, o terceiro da Disney esse ano, traz novas versões para as clássicas  canções, já conhecidas, com Beyonce e Donald Glover cantando em dueto “Can you feel the love tonight ?”, respectivamente nos papéis de Nala e Simba, mas ainda tem duas canções novas “Never Too Late” de Elton John e “Spirit”, na voz de Beyonce. O filme ainda emprega muito bem a clássica “The Lion Sleeps Tonight” na voz de Seth Rogen e Billy Eichner. A história, contudo, segue a mesma estrutura da animação de 1994, falando de vida e morte, de ritos de passagem, de assumir um papel no ciclo da vida. Não há reinvenções ou reimaginações dos elementos que fizeram a história tão icônica. O CGI impressiona hoje tanto quanto a animação de 1994 conseguiu arrancar emoções personificadas dos carismáticos personagens que reencontramos, com aquele sentimento saudosista, de rever velhos amigos como a ave Zazu (John Oliver substituindo Rowan Atikinson), o sábio orangotango Rafiki (John Kani substituindo Robert Guilaume) ou o vilão Scar (Chwitel Ejiofor no lugar de Jeremy Irons). O elenco de vozes ainda inclui Seth Rogen (Pumba), Billy Eichner (Timão), Alfre Woodard (Sarabi), além dos já mencionados Donald Glover e Beyonce nos papeis centrais e recebendo as vozes de Ícaro Silva e Iza na dublagem brasileira.

          Com tantos talentos envolvidos não é surpresa que a Disney tenha investido tanto nessa adaptação, seguida do sucesso de “Alladin”, mas também do decepcionante resultado de “Dumbo” de Tim Burton. E não para por aí já que o estúdio prepara para breve a adaptações de “Mulan” e “Malevola – A Dona do Mal”, sendo esta a sequência do mega sucesso estrelado por Angelina Jolie em 2014. Resta saber como o público de hoje vai reagir ao apelo dessa história que faz uso de animais personificando ambição, inveja, amor, lealdade e legado, atributos humanos destilados em uma narrativa que há 25 anos soube equilibrar humor e drama, com toques filosóficos capaz de nos fazer refletir sobre qual o nosso lugar no planeta que habitamos, abaixo de um sol cor de safira, como parte de um infinito ciclo, o ciclo da vida. A essa altura já é inevitável ouvir as notas do piano de Elton John a nos perguntar “Você pode sentir o amor esta noite?”. A resposta está nas telas a partir desta quinta dia 18 de julho.

NASCE UMA ESTRELA – ALÉM DE LADY GAGA

                A história de uma jovem aspirante a atriz envolvida com um astro em decadência em uma gangorra sentimental em que ambições profissionais e realizações pessoais divergem. De Constance Bennet a Lady Gaga, essa história tem sido vista e revista há gerações sempre nos levando a questionar o preço da fama e do sucesso artístico.

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LADY GAGA & BRADLEY COOPER

               A verdade é que desde seus primórdios o cinema já trazia diversas histórias de sucesso e tragédia como em “Hollywood” (What Price Hollywood?) de 1932, dirigido por George Cukor. A história de Adele Rogers St.John, roteirizada por Gene Fowler e Rowland Brown, girava em torno da garçonete Mary Evans (Constance Bennet), que sonha com uma carreira de atriz. Uma noite ela encontra o diretor Maxmillian Carey (Lowell Sherman) que lhe abre a primeira porta para o sucesso. Apesar da forte e leal amizade formada entre Max e Mary, ambos seguem caminhos opostos com Max afundando na bebedeira, enquanto Mary se casa com o advogado Lonny Borden (Neil Hamilton) e se torna uma atriz famosa. Mary chega a ganhar um Oscar de melhor atriz, mas vê seu casamento desabar. O estrelato tão desejado não cala a dor de Mary quando Max se suicida. A autora baseou-se na história real do casal Colleen Moore e John McCormick, além do ator e diretor Tom Forman, que se suicidou após um surto nervoso da mesma forma que o personagem Max Carey, com um tiro no peito. Quatro anos depois o mesmo David O’Selznick (produtor de o Vento Levou”, “King Kong”), que trabalhou para a RKO como produtor executivo de “Hollywood”, decidiu filmar a história extremamente similar de William Wellman e Robert Carson para “Nasce uma Estrela” (A Star is Born) desta vez para sua própria produtora, a “Selznick International Pictures”, irritando a RKO, responsável pelo filme de 1932, que esteve prestes a processar Selznick, mas acabou não fazendo. Quando George Cukor foi chamado para assumir a direção, recusou por ser muito similar ao seu trabalho em “Hollywood”. Wellman asssumiu como diretor e as filmagens começaram em 20 de abril de 1937 com Janet Gayner no papel da aspirante a atriz Esther Blodgett, que se torna a estrela Vicky Lester, papel que Gaynor também viveu em uma adaptação radiofônica. Esta vive um romance com o decadente ator Norman Maine (Fredric March), que se entrega ao alcoolismo a medida que  Vicky chega ao topo da glória artística. Reza a lenda que o casamento tumultuado de Barbara Stanwyck e Frank Fay teria sido a inspiração para o casal Vicky/Norman, mas Wellman baseou-se em suas próprias experiências, e também na carreira de John Bowers, ator do período silencioso que se suiciou depois de ter a carreira arruinada pela chegada do som. Historiadores relacionam o personagem de Norman Maine aos atores John Barrymoore (Avô de Drew Barrymoore) e John Gilbert. Tanto “Hollywood” quanto “Nasce uma Estrela” compartilham o mesmo foco nos sonhos e, sobretudo, nas desilusões dos que nascem e morrem sob as luzes dos holofotes.  Outra história que virou lenda em torno do filme de 1937 é que este traria Lana Turner (estrela na década seguinte) como um dos figurantes, o que a própria viria a negar. Na décima cerimônia de entrega dos Oscars, o filme de Wellman foi premiado pela melhor história original, além de um prêmio especial para W. Howard Greene pela fotografia em cores, um triunfo técnico deste que foi o primeiro filme colorido indicado pela Academia.

A STAR IS BORN 1937

JANET GAYNOR & FREDRICH MARCH 1937

                 Nos anos que se seguiram, a “Selznick International Pictures” se dissolveu e os direitos do filme foram vendidos indo parar nas mãos de Sid Luft, então marido de Judy Garland. Luft conseguiu convencer George Cukor a assumir a cadeira de diretor e fazer dessa adaptação um filme musical com roteiro assinado por Moss Hart. Este triunfou ao usar a música como fio condutor da história de Norman (James Mason) e Vicky (Judy Garland). Uso criativo do Cinemascope, o filme foi preparado para ser o retorno ao estrelato de Judy, que estava há alguns anos afastada das telas depois do fim de seu longo contrato com a MGM. George Cukor, que dirigira “Hollywood” aceitou o cargo, que havia recusado em 1937, conduzindo com seu habitual toque tendo uma filmagem atribulada pelos problemas com sua estrela. Judy, então aos 32 anos, encarnava na vida real os conflitos de sua persona abalada pelos vícios e excessos, mas imprimiu na tela uma atuação pungente, intensa, entoando com sua belíssima voz canções como “The Man That Got Away” e “ Gotta Have me Go With You”. Produzido por cinco milhões de dólares, com esplêndida fotografia de Sam Leavitt, o filme quase teve Cary Grant no papel de Norman Maine, mas este teve receio de contracenar com as inconstâncias de Judy Garland. Apesar do sucesso, Cukor nunca chegou a ver seu filme pronto. Assim que encerrou as longas filmagens, o diretor viajou para a Europa em busca de locações para seu próximo projeto. Nesse meio tempo a Warner cortou 27 minutos de sua metragem original de 181 minutos além de adicionar a canção “Born in a Trunk”. Somente em julho de 1983, a Academia de Artes e Ciências de Hollywood relançou o filme restaurando 19 minutos das cenas não utilizadas, mas Cukor falecera pouco antes. O sucesso de público e crítica levou Judy a ser indicada ao Oscar de melhor atriz mas perdeu para Grace Kelly no que é considerado uma das maiores injustiças da história. Quando a vitória de Grace era anunciada, os repórteres estavam no quarto de hospital em que Judy estava internada, todo o mundo incluindo a própria acreditando no favoritismo, mas enfrentando uma decepção que abriu mais uma chaga no coração da estrela, um sentimento de rejeição que ela nunca conseguiu superar.

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JAMES MASON & A MARAVILHOSA JUDY GARLAND 1954

                   22 anos depois o diretor Frank Pierson recriou “Nasce uma Estrela” trocando o cinema pelo mundo da música. Assim, Norman Maine tornou-se John Norman Howard (Kris Kristorfeson), um astro do rock que se envolve com a desconhecida Esther (Barbra Streisand). A medida que o abuso de álcool e drogas destrói lentamente John, Esther cresce e se torna uma cantora de sucesso. O filme foi um veículo para o talento de Streisand, cuja voz fez de “Evergreen” a melhor canção original pela Academia. A própria estrela teria dirigido algumas cenas devido a constantes desentendimentos com o diretor. Ela queria Elvis Presley para seu co-astro, tendo viajado para Las Vegas para pessoalmente convencê-lo. Com o insucesso das negociações nomes como Mick Jagger e Marlon Brando foram mencionados até a contratação de Kris Kristorfeson, que teve sua atuação apontada como inspirada em Jim Morrisson do “The Doors”, embora o ator tenha negado. Streisand era a estrela de uma outra época, também co-produtora, tomando as rédeas da adaptação como veículo para seu enorme talento, seja atuando ou cantando. Terceira maior bilheteria do ano de seu lançamento, o filme recebeu vários prêmios e indicações, a versão de 1976 ainda foi incluída pelo AFI (American Film Institute) na lista de 100 maiores canções do cinema. Em 2013 ainda houve a versão indiana “Aashiqui 2” feita em Bollywood, chegando a mais de 9 milhões de dólares nas bilheterias ao longo de 4 semanas de exibição.

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KRIS KRISTOFFERSON & A DIVA BARBRA STREISAND 1976

                  A força dessa história é que ela não apenas fez brilhar Bennet, Gaynor, Garland, Streisand e agora Lady Gaga, mas também nos faz lembrar de toda uma constelação que inclui Monroe, Hayworth, Gardner, Hayward, Hepburn e tantas outras que marcaram seus nomes no firmamento Hollywoodiano, vidas que se acabaram, luzes que se apagaram como na letra de João de Barros para “Luzes da Ribalta”, apontando a certeza de que esse ideal renascerá em outros corações.

CLÁSSICO REVISITADO : AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD – 80 ANOS

Houve uma época em que o cinema de aventura era representado por heróis espadachins. Estes fascinavam o grande público da mesma forma que hoje fazem os super heróis. Em vez de protagonistas voadores, vestindo armaduras tecnológicas ou de força sobrehumana, a Hollywood clássica tinha capa, máscara, chapéu e espadas. Um dos maiores filmes do gênero celebra a marca de 80 anos ainda com um frescor incomparável que o torna uma referência tanto em termos de cinema como na literatura da qual provem o ícone, ladrão ou rebelde, herói ou bandido, Robin Hood cujas aventuras foram imortalizadas no sorriso irônico e petulante de Errol Flynn.

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         O personagem que entrou para a história como aquele que rouba dos ricos para dar aos pobres nasceu na época dos grandes trovadores que narravam grandes feitos em cantigas passadas de geração a geração em uma época que remonta o século XIII d.c. O poema Piers Plowman de 1377 é o primeiro registro escrito da lenda, de autoria de William Langand. A referência ao herói é breve, através de rimas, mas o suficiente como prova de este existiu. A coletânea de histórias que divergem entre si desde então dificulta o trabalho de historiadores em determinar o que é fato e o que foi ficção na história de Robert Locksley, um nobre privado de suas terras pelo Príncipe John que usurpou o trono do Rei Ricardo Coração de Leão, enquanto este participou das cruzadas. Na floresta de Sherwood adotou o nome de Robin, sendo Hood uma referência a um tipo de chapéu com pena. Nottingham, a cidade inglesa em que se desenrola a história, hoje homenageia o herói com estatua, museu, passeio pelos locais citados pela lenda e até mesmo uma bandeira ostentando a silhueta do herói desde 2010. Na literatura, Alexandre Dumas (autor de “Os Três Mosqueteiros”) já escreveu dois volumes  intitulados “Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões” (de 1872) e “Robin Hood, o Proscrito” (de 1873). Dez anos depois o escritor e ilustrador americano Howard Pyle publicou “The Merry Adventures of Robin Hood of Great Renown in Nottinghamshire”, revistando os vários feitos que entraram para o cânone da história como a luta de bastões com João Pequeno, o torneio de arco e flecha entre outras. Maid Marian, o interesse romântico do herói, não aparece em nenhuma das cantigas originais da lenda, aparecendo pela primeira vez em versões mais tardias, desde o século XVII.

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A ESTÁTUA EM NOTTIGHAM HOJE

            Normal que da literatura, o personagem fosse retratado posteriormente no teatro, e no cinema, começando por 1922 em “Robin Hood” estrelado por Douglas Fairbanks, que no período do cinema mudo incorporou vários heróis similares. Acreditava-se que esta pérola tivesse sido perdida mas foi redescoberto nos anos 60, sendo restaurado em 2009 pelo Museu de Arte Moderna. 16 anos depois a Warner e a MGM disputavam realizar a primeira versão falada, mas foi a Warner quem acabou levando a cabo sua realização. Convidaram Douglas Fairbanks Jr para o papel central, mas este não estava disposto a repetir os feitos de seu pai. Foi então que o papel ficou com Errol Flynn, então com 28 anos, vindo do sucesso estrondoso alcançado em fitas como “Capitão Blood” (1935) e “A Carga da Brigada Ligeira” (1936), ambos dirigidos por Michael Curtiz e co-estrelado por Olivia DeHavilland. Curtiz foi chamado pela Warner para concluir as filmagens de “As Aventuras de Robin Hood”, iniciadas por William Keighley cuja lentidão nas filmagens ameaçava inflar orçamento e atrasar seu lançamento que veio a acontecer em maio de 1938.

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              Curtiz e Flynn se odiavam e, segundo consta certa vez Flynn teria se ferido superficialmente quando um dos dublês, em cena de duelo, teria lutado sem a proteção na ponta da espada, isso sob ordens de Curtiz. Os duelos foram exímios e coreografados com perfeição sob a supervisão do especialista Fred Cavens, que também teria treinado Flynn e Basil Rathbone em “Capitão Blood”. Apesar de Flynn ter corpo atlético e de notável elasticidade para o manejo da espada, Rathbone era um espadachim superior em cena. A bilheteria do filme encheu os cofres da Warner e, além do público, a crítica deu sua benção ao filme que teve 4 indicações ao Oscar, levando 3 (melhor edição, trilha sonora e direção de arte). O elenco de coadjuvantes também brilhou: Claude Rains foi um odioso Príncipe John; Alan Hale repetiu o papel de João Pequeno que também fizera na versão de Fairbanks, e que repetiria anos depois em “O Cavaleiro de Sherwood” (1950), além do casal cômico Bess (Uma O’Connor) – aia de Maid Marian – e Much (último papel de Herbert Mundin) – um dos fiéis homens de Robin.  O filme é o perfeito exemplo do amor cortês, da luta do bem contra o mal, dos ideais de liberdade que ecoam em meio a uma autoridade abusiva, tudo que precisávamos e, ainda precisamos, como vítimas de um governo corrupto, tão opressor quanto a nobreza representada pelo Príncipe John (Rains) e seu braço direito Sir Guy de Gisborrne (Rathbone).

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             O filme foi um prodigioso roteiro equilibrando momentos cômicos com pura ação. Nos diálogos do roteiro de Norman Reilly Raine e Selton Miller momentos memoráveis como Robin (Flynn) dizendo “Normandos ou Saxões não importa, o que odeio é a injustiça”. A Warner chegou a cogitar fazer uma sequência, mas acabou não acontecendo. No entanto várias versões renovaram o ícone perante o público nos rostos de interpretes como Cornel Wilde, John Derek, Richard Greene, Sean Connery, Patrick Bergin, Kevin Costner, Russell Crowe, Mathew Porreta entre outros na Tv ou no cinema. Recentemente, Robin Hood foi um dos personagens explorados com sucesso na série da Disney “Once Upon a Time”, vivido por Sean Maguire. Robin Hood foi a fonte de inspiração para Mort Weisinger criar o herói das hqs “Arqueiro Verde” em 1941, que originou a série de sucesso “Arrow”que já está em sua sexta temporada. Claro que toda essa popularidade mostra deve muito àquele sorriso petulante, audaciosa e galanteador com que Errol Flynn conquistou a Marian de Olivia deHavilland (fizeram juntos 8 filmes) e marcou o cinema Hollywoodiano, mesmo 80 anos depois daquela flecha ter atingido um alvo, o coração dos amantes da aventura.

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CLÁSSICO REVISITADO : GREASE NOS TEMPOS DA BRILHANTINA – 40 ANOS

          A juventude significa lembranças de tempos mais ingênuos, da sensação de que o tempo está em nossas mãos. Nos anos 50 significa também corridas de racha movidas a Rock ‘n roll, e brilhantina (precursor do gel de cabelo) … Pois mesmo depois de 40 anos essa ainda é a palavra.

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          Hoje um dos maiores musicais do cinema, “Grease” nasceu no circuito off-Broadway, escrita por Jim Jacobs e Warren Casey. Ambos embarcaram na mais pura nostalgia representada pela virada dos anos 50 para 60 para contar a história de amor de dois adolescentes  que estão no último ano da escola Rydell High. Na peça o cenário é o meio oeste do país, mas para o filme foi mudado para a California de 1959. Outra mudança foi no tom já que no texto original a história era mais áspera e menos romântica, focando na rebeldia de jovens que se agrupam em gangs de deliquentes, segregados socialmente e se identificando com o então recém nascido Rock ‘n’roll.

         A peça teve seu debut em 7 de fevereiro de 1971 no circuito off-Broadway, popularizando-se em Chicago antes de partir para Nova York. Foi nessa ocasião que foi assistida pelo produtor Alan Carr, que se interessou em adaptá-la para o cinema. Os direitos, no entanto, já haviam sido adquiridos por Ralph Bakshi (animador de “Fritz The Cat”) mas estes expiraram em pouco tempo permitindo que Carr os adquirisse por US$200,000, levando o projeto à Paramount onde se associou ao produtor Barry Diller. Ambos se odiavam, mas fizeram alterações suavizando temas como gravidez na adolescência, deliquência juvenil e rivalidade entre gangs, tudo que foi elaborado a partir da vivência dos autores. Foi Carr quem contratou o diretor Randal Keiser, que havia sido colega de quarto de George Lucas na Universidade. Também foi Carr quem contratou a romancista Bronte Woodward para ajudá-lo a escrever o roteiro refinando os temas abordados na peça. A principio eles fariam de Danny Zuko um frentista de posto de gasolina e trariam o ator Paul Lynde (Tio Arthur do clássico seriado “A Feitiçeira” como o diretor da Ryder High). Estaria previsto nessa primeira versão do roteiro que Lynde faria um numero musical de Carmen Miranda e os Beach Boys ficariam com a canção “Greased Lightnin” encenado na garagem.

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AH ! AQUELAS NOITES DE VERÃO

        Já Diller, representando a Paramount, teria convidado Henry Winkler (o Fonzie do seriado “Happy Days“, muito popular na época) para o papel de Danny Zuko. Contudo, o papel do protagonista caiu nas mãos de John Travolta, então com 22 anos, já que este já era conhecido do diretor com quem havia trabalhado no filme de Tv “O Rapaz da Bolha de Plástico” (The Boy in the Plastic Bubble) de 1976, além de ter trabalhado com o produtor Robert Stigwood em “Os Embalos de Sábado a Noite” (Saturday Night Fever), que na ocasião ainda nem havia sido lançado nos cinemas. Travolta brilhou no filme, e usou de seu recém-criado prestígio para garantir que estrelasse  o número solo “Greased Lightnin’” que fora planejado para o personagem de Jeff Conaway.

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A VIRADA DE SANDY

            Já o papel de Sandy quase foi para Carrie Fisher, que na época filmava “Star Wars Episode IV” com George Lucas, e depois ainda foi cogitado a atriz Susan Dey (Laurie Partridge do seriado “A Familia Dó Re MI“). A inglesa Olivia Newton John já tinha uma carreira como cantora, mas havia tido uma má experiência como atriz em sua terra natal (a sci-fi B “Toomorrow” de 1970) quando foi cogitada para co-protagonizar o filme, tendo o apoio imediato de John Travola que ajudou a convencê-la a se juntar ao elenco. Como seu sotaque inglês era indisfarçável, o roteiro foi modificado fazendo Sandy uma estudante australiana já que Olivia morou dez anos na Austrália. Rizzo, a líder das “Garotas Rosadas” estava previsto para Lucy Arnaz (filha de Lucille Ball), mas ficou afinal com Stockard Channing, enquanto Kenickie foi vivido por Jeff Conaway que já conhecia a peça original pois interpretou Danny na montagem da Broadway. A mais curiosa das alterações de elenco foi Frankie Avalon no papel do anjo no sonho de Frenchy. Inicialmente, o anjo seria Elvis Presley mas a morte do ator/cantor levou a mudanças, inclusive na letra da canção “Look at me, I’m Sandra Dee” que foi gravada no dia em que a morte de Elvis foi anunciada, por isso teve o nome do rei do Rock incluida na letra ( “Elvis Elvis let me be! Keep that pelvis far from me! ).

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O CASAL 20 DOS ANOS 70

          Do elenco contratado os únicos com idade mais próxima de seus personagens (colegiais em torno dos 16 anos) eram Dinah Mannof (Marty) que tinha 19 anos e Lorenzo Lamas (o atleta Tom) também com 19 anos. Esse foi um dos pontos que incomodou o renomado crítico Roger Ebert na época de lançamento do filme: John Travolta (Danny) tinha 22, Olivia Newton-John (Sandy) 29, Jeff Conaway (Kenickie) 26, Jamie Donnelly (Jan) 30, Susan Buckner (Patty) 25, Michael Tucci (Sonny) 31, Kelly Ward (Putzie) 20 e a mais velha era Stockard Channing (Rizzo) 33. Segundo a própria atriz, Alan Carr teria pintado sardas em seu rosto para maquiá-la de forma a disfarçar sua idade. A escalação mais polêmica foi a de Harry Reems, ator pornô que co-estrelou o polêmico “Garganta Profunda” (Deep Throat), para o papel do treinador Calhoun. A rejeição e a reação dos executivos da Paramount fizeram Carr desistir e colocar o comediante Sid Ceasar no lugar. Carr teria inclusive pago US$5,000 de seu próprio bolso a Reems pelo desconforto causado.

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MICHELLE PFEIFFER EM “GREASE 2”

         Das 20 canções originais, somente algumas foram utilizadas no filme, algumas das quais ficando como música de fundo, e quatro canções novas foram escritas só para a adaptação: a canção da abertura “Grease”, escrita por Barry Gibb dos Bee Gees e gravada por Frank Valli, “Sandy” parea John Travolta; “Hopelessly Devoted to You” gravada por Olivia Newton depois de terminada as filmagens e indicada ao Oscar e “You the One That I Want” que traz a inversão final dos papeis: Danny comportado em um casaco escolar e Sandy em roupa de couro colada no corpo. Para gravar a cena, a roupa teve que ser costurada no corpo de Olivia Newton-John fazendo a virginal Sandy se tornar uma vamp sedutora. Desconforto maior foi a gravação do baile na escola devido ao intenso calor que fazia no local. A sequência da corrida de carros na galeria de esgoto deixou alguns membros do elenco passando mal. O filme, no entanto, tornou-se a maior bilheteria de 1978 com 167 milhões de dólares, acima de “Superman o Filme” e “Tubarão 2”.

           Inegável que o sucesso de “Grease” levou a filmes como “High School Musical” e mostrou a Hollywood que o universo teen guardava boas histórias a serem exploradas. Gerações cantam “Summer Nights”, meninos se imaginam um T-Bird e meninas uma Pink Lady, ao menos os que se permitem se deixar levar pelas melodias contagiantes que conduzem a narrativa. O sucesso levou à sequência “Grease 2” de 1982 que trazia uma outra história transcorrida da mesma escola com outro grupo de jovens e trazendo Michelle Pfeiffer como protagonista. Em 2016 a Fox transmitiu ao vivo o especial “Grease Live”, uma nova montagem com Aaron Tveit (Danny), Julianne Hough (Sandy) e Vanessa Hudgens (de “High School Musical” como Rizzo).

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ELENCO REUNIDO

           O apelo da história de Danny e Sandy permanece em nossa memória afetiva seja por representar tempos mais inocentes seja por trazer os rebolados ardentes de John Travolta e Olivia Newton John, cada um ícone de tempos e lugares melhores em que uma pudica Sandra Dee pode viver um belo romance com um rebelde com pinta de um selvagem Marlon Brando. Assim sacudiram todos nós e nos instigam a continuar a indagar “Tell me more !Tell me more” (Conte nós mais).

 

HISTÓRIAS DO OSCAR

           Hoje – véspera da 90ª cerimônia de entrega dos Academy Awards – decidi dividir com vocês histórias desse que é o mais famoso dos prêmios da indústria cinematográfica e que coleciona em sua história uma longa lista de injustiças e reconhecimentos que o tornaram popular mesmo entre os não cinéfilos. Estes tem no prêmio uma referência do que vale a pena ou não assistir, e a industria se movimenta abrindo oportunidades para carreiras que disputam a honraria tal qual um santo graal da sétima arte. Sou da época em que os agraçiados eram anunciados com a frase “And tthe winner is …”, hoje e já há bastante tempo trocada por “And the Oscar goes to”.

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            Vários foram os mestres de cerimônias das premiações que acompanhei: Chevy Chase, Billy Cristal, Whoopi Goldberg, Steve Martin etc.. cada um com a inglória missão de equilibrar animosidades, apaziguar nervosismos e conduzir plateia e telespectadores ao redor do mundo, muitas das vezes com piadinhas que nem sempre funcionam, claro !!! Indicado 9 vzes, Paul Newman ganhou na sétima vez por “A Cor do Dinheiro” (The color of money) de 1986. Quando ganhou, Newman nem compareceu à cerimônia dizendo a um reporter “Ganhar um Oscar é como paquerar uma linda mulher por anos até que ela se rende um dia e você diz – Desculpe agora estou cansado.” Al Pacino venceu em “Perfume de Mulher” (Scent of a woman) de 1993, sua 8ª indicação. Caso de grande embaraço foi de Judy Garland que era apontada como a grande vitoriosa da noite de 30 de março de 1955, na 27º edição do evento, quando uma equipe de jornalistas montou câmeras no quarto do hospital onde Judy estava internada, acreditando também que sua atuação em “Nasce uma Estrela” (A Star is Born) seria premiada. Contudo, a vencedora foi Grace Kelly por “Amar é sofrer” (The Country Girl). Houve aqueles que se recusaram o prêmio como Marlon Brando em sua segunda vitória por “O Poderoso Chefão” (The Godfather). Na noite de 27 de março de 1973, no Dorothy Chandler Pavillion, Brando enviou uma representante vestida de india para recusar o prêmio em protesto contra o descaso e o mal tratamento dado aos nativos americanos ao longo do tempo. Pouco antes foi a vez de George C. Scott que desistiu do prêmio conquistado por “Patton – Rebelde ou Herói” (Patton) ficando em casa assistindo jogo de hoquei.

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ROGER MOORE & LIV ULMANN ENTREGAM O OSCAR RECUSADO POR MARLON BRANDO A UMA INDIA

            Incrível como é longa a lista dos grandes nomes, atores, atrizes e diretores que deixaram sua marca no cinema sem nunca terem sido agraçiados com a estatueta dourada: Charles Chaplin, Alfred Hithcock, Orson Welles, Roddy MacDowell, Jerry Lewis, Tony Curtis, Kirk Douglas, Natalie Wood, Amy Adams, Glenn Close, Jamie Lee Curtis, Liam Neeson, John Malokvich só para citar alguns, sendo que houve aqueles que mesmo deixados de fora das premiações competitivas vieram a receber Oscars honorários pelo conjunto da obra, prêmios de consolação para carreiras maiores que a Academia.Entre esquecidos e vencidos o Oscar atravessou décadas desde sua primeira edição em 1929 e chega a sua 90ª edição com o recorde inabalável de Meryl Streap com sua 21ª indicação ao prêmio pelo seu papel em “The Post – A Guerra Secreta” (The Post). Esse ano, movido pelo movimento #metoo o Oscar ganhará uma atmosfera contestatória, desafiadora que o o apresentador Jimmy Kimmel terá que mediar diante de todo o mundo. Vamos conferir o que virá amanhã a partir das 20hs com transmissão pela TNT contando com os comentários sempre sábios do homem do Oscar, Rubens Ewald Filho, um mestre no que se trata de cinema.

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MERYL STREAP TRÊS VEZES VENCEDORA E AGORA 21 VEZES INDICADA

ESTREIAS DA SEMANA: 1º DE FEVEREIRO

A FORMA DA ÁGUA

FORMA DA AGUA

(The Shape of Water) EUA 2018. Dir: Guilhermo Del Toro. Com Sally Hawkins, Doug Jones, Octavia Spencer, Michael Shannon, Richard Jenkins. Fantasia.

Há um clássico filme de monstro da Universal onde uma criatura anfíbia ataca os membros de uma expedição na Amazônia. A criatura se apaixona, sem ser correspondido, por uma bela mulher da equipe, o que significará um conflito inevitável entre humanos e monstro, entre instinto e razão, atração e repulsa. NÃO, o filme de Guilhermo del Toro não é refilmagem, mas certamente pega emprestado alguns elementos daquela reinventando a história tal qual uma versão aquática de “A Bela & A Fera”, mas com doses bem empregadas de erotismo, sentimentalismo e política. A criatura vivida por captura de movimento por Doug Jones (ele viveu papel semelhante em “Hellboy” e foi também o Surfista Prateado) serve de metáfora para minorias perseguidas por serem diferentes  e o contexto da guerra fria encontra ecos nas paranoias da era Trump. A excelente Sally Hawkins faz a faxineira muda que corresponde ao afeto do homem-peixe e fará de tudo para libertá-lo de seus captores, com a ajuda da melhor amiga vivida pela igualmente fantástica Octavia Spencer. Todos estão bem no filme, seja o vilão Michael shannon (o Zod de “O Homem de Aço”) ou o sensivel Richard Jenkins. Se o filme merece os prêmios recebidos e as 13 indicações ao Oscar, isso justifica–se pelo fato de que Del Toro é uma diretor equilibrado ao misturas elementos de love story ao clásssico filme de monstro, surpreende em sua essência e parece quebrar o preconceito que sempre acompanhou o gênero.

GALERIA DE ESTRELAS : AUDREY HEPBURN

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         Um beijo sob uma forte chuva em um beco novaiorquino. Os protagonistas eram um jovem escritor desconhecido , uma garota de programa e entre eles … um gato. A cena vem de “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany’s) de 1961, mas na minha imaginação o jovem escritor era eu. Assim me apaixonei por Audrey Hepburn, ao som da maravilhosa “Moon River”. Nesse mês ela completou 25 anos de sua passagem, de saudades de uma das maiores atrizes do firmamento Hollywoodiano.

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NADA É IMPOSSÍVEL ! A PRÓPRIA PALAVRA DIZ “SOU POSSÍVEL”

Sua silhoueta magra, elegante, de passos e gestos sofisticados contrastava com uma história de vida sofrida, de dores, desilusões e superações. Durante a Segunda Guerra precisou fugir dos nazistas que invadiram a Holanda, país em que viveu entre os dez e quinze anos; abatida pela desnutrição, pela icterícia e outros males advindos dás condições desumanas a que estava submetida. Certa vez disse que sua mãe a advertia “Não teremos o que comer, então é melhor ficar na cama para manter as energias”. Quando a guerra acabou retornou à Inglaterra onde vivera até os nove anos sonhando com uma carreira de bailarina. Frustrada em seu sonho, passou a trabalhar de modelo, fez teatro protagonizando o papel-título em “Gigi” na Broadway. Não demorou para conseguir um papel no filme “Monte Carlo Baby” (1952).

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Com Gregory Peck em “A Princesa & O Plebeu”

         Audrey atuava para sobreviver, buscava algo em que pudesse se encaixar. Despretensiosamente se candidatou ao papel da Princesa Ann e conquistou a atenção de William Wyler que lhe deu o papel que faria seu nome brilhar, ao lado de Gregory Peck, em “A Princesa & O Plebeu” (Roman Holidays). O astro foi tão generoso que exigiu que o nome da novata aparecesse junto ao seu acima do título do filme. O brilho de Audrey, seu sorriso encantador, seu olhar misto de desamparo e nobreza lhe deu o tom certo, natural para quem havia sobrevivido a tantas adversidades aos 24 anos, tão jovem e agraciada então com o Oscar de melhor atriz. O mestre Billy Wilder afirmou certa vez que “Deus beijou o rosto de Audrey Hepburn”, e ainda que trouxesse suas inseguranças e carências estrelou “Sabrina” (1954) de Wilder, contracenando com os astros Humphrey Bogart e William Holden. Conta-se que Bogart não teria tido paciência, ou boa vontade com ela. Já William Holden a cortejou durante as filmagens e tiveram um curto romance. A partir desse filme começou a longa associação entre Audrey e o estilista francês Hubert De Givenchy, uma forte amizade que a acompanhou a vida toda criando nas telas ou fora delas a imagem icônica da elegância encarnada.

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Sabrina

              Ainda em 1954, o amigo Gregory Peck a apresentou ao ator Mel Ferrer. Ambos estrelaram a peça “Ondine” que a premiou com o Tony (o Oscar do teatro) de melhor atriz. Não demorou para que a proximidade entre Audrey e Mel torna-se algo mais que profissional. Os dois se casaram em setembro do mesmo ano, e dois anos depois estrelaram juntos “Guerra & Paz” (War & Peace), adaptação do texto de Leon Tolstoy, superprodução indicado para três Oscars, e que deu a Audrey o Bafta (Oscar britânico) de melhor atriz. Seu salário de US$350,000 foi na época o maior já pago a uma atriz. No ano seguinte, acompanhou seu marido à França e decidiu aceitar o papel de Jo Stockton em “Cinderela em Paris” (Funny Faces) contracenando com Fred Astaire. Em uma das cenas, a mãe de Audrey, que era uma Baronesa na vida real, faz uma rápida aparição como freguesa de um café parisiense.

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Com Fred Astaire em “Cinderela em Paris”

                    Ser mãe era mais importante para Audrey do que o estrelato no cinema. Filmou com Gary Cooper (Amor na Tarde, Love in the Afternoon, 1957), com Burt Lancaster ( O Passado Não Perdoa, The Unforgiven, 1960), Peter Fionch (Uma Cruz À Beira do Abismo, The Nun’s Story, 1959), mas não desistia de ter uma familia completa com Mel. Assim, depois de vários abortos espontâneos, ela conseguir finalmente dar a luz em 1960 a Sean Ferrer. Nesse período parou de filmar, só voltando para fazer a adorável Holly Golightly de “Bonequinha de Luxo” , lançado em 1961. Segundo o site imdb, o escritor da peça, Truman capote, não teria ficado satisfeito com a escalação de Audrey pois queira Marilyn Monroe para o papel. Um dos executivos da Paramount queria retirar do filme a canção “Moon River”, mas foi impedido pelo prestígio já adquirido pela atriz que teria dito “Só por cima de meu cadáver!”. Audrey a cantou na janela de seu apartamento com tamanha graça que marcou uma geração. Foi sua sofisticação e polidez que fez do papel de uma garota de programa, alguém com quem o público se apaixona, e se identifica, fazendo de seu visual de vestido preto, óculos escuros e piteira moda e impacto até hoje. Já aquela canção, a mesma que quase foi cortada do filme, levou o Oscar de melhor canção e o Grammy de 1962.

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Com Cary Grant em “Charada” – Juntos a essência da Sofisticação

               Três filmes foram muito marcantes na carreira de Audrey em seguida. Filmou “Charada” (Charade) de 1963 com Cary Grant e direção de Stanley Donen; no ano seguinte fez “Minha Bela Dama” (My Fair Lady) com George Cukor que elogiava sua simplicidade e sensibilidade no set de filmagem, voltando a trabalhar no mesmo ano com William Holden em “Quando Paris Alucina” (Paris When it Sizzles).  O casamento com Mel Ferrer começou a se desgastar aumentando ainda mais as carências e medos que a estrela trazia dentro de seu espírito. Audrey tinha uma necessidade imensa de dar e receber amor incondicional. Conta-se que a medida que ela e Mel Ferrer iam se afastando, ela se aproximava ainda mais de Albert Finney, seu co-star em “Um Caminho Para Dois” (Two for the Road) de 1967. O caso com Finney não teve outro feito além de destruir de vez a reconciliação com Mel, apesar deste ter dirigido Audrey no papel de uma cega em “Um Clarão Nas Trevas’ (Wait Until Dark) no mesmo ano, resultando em nova indicação ao Oscar. A atriz precisava refazer sua vida e ficou oito anos sem filmar. Nesse tempo conheceu o psiquiatra italiano Andrea Dotti com quem se casou e teve seu segundo filho Luca.. Voltou a Hollywood em 1975, aos 46 anos, para trabalhar ao lado de Sean Connery em “Robin & Marian” e decidida de que sua carreira seria segundo plano em sua vida se afastou de novo até 1979 quando protagoniza “A Herdeira” (Bloodline).

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Seu maior papel – O amor maior foi a solidariedade

         As infidelidades do marido não demoraram a aparecer jogando um balde de água fria em sua pretensa felicidade. Um longo divorcio e trabalhos ainda mais esparsos a ocupavam quando descobriu um papel que desempenharia até o fim de sua vida, o de embaixadora da Unicef. Ela viajava, usava de seu prestígio para levar comida, alívio e compaixão ajudada pela habilidade de falar 5 idiomas. (francês, italiano, holandês, inglês e espanhol). Audrey adorava chocolate, apreciava a bossa nova, amava os animais. Sua ultima aparição nas telas não poderia ser mais simbólica: Interpretou um anjo em “Além da Eternidade” (Always) de Steven Spielberg em 1989. O câncer de apêndice a levou embora em 20 de Janeiro de 1993, aos 63 anos. Mas aquele beijo na chuva perdura até hoje, foi o beijo de um anjo, o anjo Audrey Hepburn.

40 ANOS DE SAUDADES DE SPENCER TRACY – UM TALENTO NATURAL

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     Uma das lembranças mais antigas que tenho dos filmes que assisti em minha infância é a imagem de um pescador português humanizando um menino resgatado do mar. Na ocasião, com nove ou dez anos, eu não sabia que aquele ator formidável, dono de um sorriso que irradiava dignidade, já havia falecido. Sei hoje que minha cinefilia foi enriquecida por ter conhecido o pescador Manuel, o padre Flanagan, o advogado Adam Bonner, o ciumento papai Stanley, um velho pescador, o homem de um braço só, todos … Spencer Tracy.

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Marujos Intrepidos

 

         Spencer Bonaventure Tracy costumava dizer que atuar não era tão importante (Acting is not an important job in the scheme of things) e ainda assim fazia de cada personagem uma imagem marcante e envolvente como o piloto que se torna um anjo da guarda em “Dois no Céu” (A Guy Named Joe)  de 1943 – refilmado por Steven Spielberg em 1989 ou o dicotômico Jekyl/Hyde em “O Médico & O Monstro” (Dr.Jekyl & Mr.Hyde) de 1941. Tinha um espírito aventureiro e indomável desde criança quando por volta dos sete anos fugiu de casa para brincar no outro lado da cidade, na qual nasceu em 5 de Abril de 1900. Aos 17 tentou se alistar para lutar na Primeira Guerra, mas foi recusado pela idade. Voltou a insistir pouco depois e ingressou na Marinha ao lado do amigo Pat O’Brien, que também se tornou ator. Contudo, nenhum dos dois conseguiu lutar no front, ficando em postos no pátio naval da Virginia.

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Spencer Tracy & Bette Davis recebem o Oscar

           Depois de ter dado baixo no serviço militar, descobriu a arte dramática conseguindo a principio papéis em peças universitárias ainda durante o tempo em que cursou Medicina na Reppon College. Tendo despertado o prazer pela atuação, deixou o curso de Medicina e se juntou a companhias teatrais durante os loucos anos 20, período em que conheceu sua esposa Louise Treadwell já estabelecida nos palcos. Casaram-se em Setembro de 1923 e tiveram dois filhos.

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A Familia Tracy: Spencer, a filha Susam, a esposa Louise e o filho John Tracy

           O espírito de coragem indômita, ele demonstrou fosse como o aventureiro Stanley em “As Aventuras de Stanley & Livingstone” (Stanley & Livingstone) em 1939 ou o marinheiro Manuel em “Marujos Intrépidos” (Captain Courageous) em 1937, este sendo o papel que lhe deu o primeiro de dois Oscars. A primeira vez não esteve presente na cerimônia pois estava hospitalizado. No ano seguinte repetiu o feito ao interpretar o Padre Flanagan em “Com Os Braços Abertos” (Boys Town) se tornando o primeiro ator a ganhar como melhor ator em dois anos consecutivos, mérito só igualado por Tom Hanks 58 anos depois. Tracy também se tornou um dos 18 atores a terem sido premiados por um personagem da vida real enquanto este ainda vivia, no caso o Padre Flanagan, que criou uma comunidade para ajudar a tirar garotos da deliquência juvenil. Feito admirável que Spencer julgava uma honra e uma responsabilidade para interpretar.

           A carreira cinematográfica do ator começou quando John Ford o assistiu em uma montagem da Broadway, partindo daí um convite para se juntar ao elenco de “Up The River” (1930), que também foi o primeiro filme de outra lenda de Hollywood, Humphrey Bogart. Este foi um entre vários amigos que Spencer Tracy encontrou em sua carreira. O mesmo ocorreu com Clark Gable com quem dividiu a cena em três filmes, sendo o mais memorável deles “San Francisco – A Cidade do Pecado” (San Francisco) de 1935, sua primeira indicação ao Oscar, com apenas 17 minutos em cena.  Dizem que Tracy se ressentia de sempre ficar em segundo plano na história sendo Gable o galã que sempre ficava com a moçinha.

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Spencer Tracy & Katherine Hepburn

          Foi a partir de “Fúria” (Fury), realizado no mesmo ano, que o público passou a ver do que Tracy era capaz. A história mostrava um homem pacato que sobrevivia ao próprio linchamento tornando-se amargo e vingativo. Era a estreia do renomado Fritz Lang (Metrópolis) em Hollywood e Tracy não se deu bem com o diretor, chegando a desafiar sua ordens no set quando Lang se recusava a dar um intervalo para o almoço.

           Em 1941 durante as filmagens de “A Mulher do Ano” (Woman of the year), o talentoso ator fez o primeiro de 9 filmes com a atriz Katherine Hepburn. Reza a lenda que ela teria dito “Receio que eu seja um pouco alta para o senhor Mr. Tracy ”. Este prontamente teria respondido “Não se preocupe, vou adaptá-la ao meu tamanho …” Assim começou uma lendária história de amor que o cinema registrou em títulos como “A Costela de Adão” (Adam’s Rib) de 1949, “Amor Eletrônico” (Desk Set) de 1957, “Mulher Absoluta” (Pat & Mike) de 1952 entre outros. Spencer nunca se divorciou de Louise, vivendo com Hepburn o romance adúltero mais incomum do cinema, já que era velado, vivido debaixo dos narizes dos tabloides sensacionalistas. Longe das câmeras o ator vivia um drama pessoal com seu filho mais velho. Tracy e Louise tiveram John Tracy e Susan, sendo que o primogênito perdeu a audição assim que nascera em 1924. Louise abandonou a carreira de atriz, aprendeu a ler lábios e ensinou a técnica ao menino. Em uma época em que não havia nenhum avanço significativo para auxiliar os deficientes auditivos, Spencer e sua esposa criaram a “John Tracy Clinic” em 1943 ajudando pais com filhos surdos, ajudando a desenvolver técnicas de ensino e posteriormente inaugurando um programa para ensinar crianças surdas. A clínica está atuante até hoje e sua atividade pode ser acompanhada on-line no site http://jtc.org/. Tracy garantia as doações de seu cachês e Louise cuidava das necessidades especiais de seu filho com igual dedicação ao lugar. O ator reconhecia a importância do trabalho de Louise e dizia que não havia comparação entre este e seus filmes. Além de Hepburn, conta-se que o ator manteve casos com as atrizes Loretta Young e Gene Tierney. O alcoolismo parecia ser a penitência que pagava pela infidelidade e pela vergonha que Louise passava. A Diabetes era o calcanhar de Aquiles que nos anos que se seguiram lhe minariam a saúde.

               Ainda digno de nota é o papel do investigador solitário de um braço só que chega a uma cidade pequena cheia de segredos em “Conspiração do Silêncio” (Bad Day at Black Rock) de 1955, último filme que fez para a MGM, estúdio para o qual trabalhou por 20 anos. A versatilidade era uma marca indelével no talento de Spencer Tracy, transitando por papéis diversos como o western “A Lança Partida” (Broken Arrow) de 1954, a comédia em “O Papai da Noiva” (Father of the Bride) de 1950, ou o drama “O Velho & O Mar” (The Old Man & The Sea) de 1957. Mesmo envelhecido, Spencer conseguia ser incrivelmente natural qualquer fosse o personagem que interpretasse. Nunca ensaiava, raramente repetia tomadas e lia seu texto pouco antes de começar as filmagens graças a uma notável capacidade de memorização.

            Por volta de 1963 sofreu um ataque cardíaco que o forçou a reduzir os trabalhos. Mesmo assim chegou a ser convidado para viver o vilão Pinguim na série do Batman, antes do papel ser entregue a Burguess Meredith. Teria dito que somente aceitaria se pudesse matar o Batman. Seus últimos filmes tiveram a direção de Stanley Kramer como o juiz no filme de tribunal “Julgamento em Nuremberg” (Judgement at Nuremberg) de 1961, o advogado que defende um professor que ensinou a teoria de Darwin em “O Vento será Tua Herança” (Inherint the Wind” de 1960, voltou a fazer comedia em “Deu a Louca no Mundo” (It’s a Mad Mad World) de 1963 e , enfim seu canto do cisne novamente dividindo a cena com Katherine Hepburn em “Advinhe quem vem para Jantar” (Guess who is coming to dinner) de 1967. Neste, Spencer faz um comovente discurso anti-racista cujas palavras ecoam até hoje a quem assiste o filme e nota, inclusive, Hepburn visivelmente emocionada. O filme foi lançado postumamente, bem como sua ultima indicação ao Oscar pelo papel do liberal Matt Drayton. Em seu funeral Katherine Hepburn não compareceu em respeito a Louise, a viúva dele.

            Em minha memória ficaram lembranças de um ator vigoroso que fazia tudo com naturalidade invejável. Um dos maiores atores de todos os tempos em uma filmografia de mais 70 títulos, dentre os quais até hoje me faz repetir o mesmo grito emocionado … MANOEL, MANOEL !!! Eu também fui humanizado por ele, que nunca escondeu suas falhas, nunca se supervalorizou, dizia como conselho “Decore suas falas e nunca esbarre na mobília”. Sua única pretensão, enfim, era de ser humano. Para mim foi sempre Intrépido.

ESTREIAS DA SEMANA : A PARTIR DE 23 DE FEVEREIRO

A GRANDE MURALHA

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(The Great Wall) EUA 2017. Dir: Zhang Ymou. Com Matt Damon, William Dafoe, Pedro Pascoal, Tian Jing. Ação.

Já fizeram filmes sobre pontos turísticos como pirâmides, stonehenge então por que não sobre a Grande Muralha da China, única construção humana que pode ser vista do espaço. Deixando de lado qualquer veracidade sobre sua construção, os roteiristas Carlo Bernard, Doug Miro e Tony Gilroy imaginaram uma bem fantasiosa. Esta foi desenvolvida a partir de um argumento de Max Brooks (autor de “Guerra Mundial Z”), Edward Zwick e Marshall Herkowitz. Imaginaram que a muralha erguida como defesa de um ameaça sobrenatural: monstros semelhantes a grandes lagartos que ameaçam invadir a China a cada 60 anos. Matt Damon faz um mercenário contratado para auxiliar na batalha e que vem a se apaixonar pela comandante Lin Mae (Tian Jian), única mulher do grupo. O filme é uma parceria entre os estudios da Universal e a China, um mercado consumidor de blockbusters hollywoodianos cada vez mais crescentes. O diretor é extremamene conceituado, sendo dele filmes de arte como “Lanternas Vermelhas” (1991) e “Herói” (2o02). Aqui, no entanto, apesar do espetáculo das imagens por ele criadas o filme é uma típica fita de monstros carregada de ação, como muitas do gênero: Divertida e nada mais.

MOONLIGHT- SOB A LUZ DO LUAR

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(Moonlinght) EUA 2017. Dir: Barry Jenkins. Com Ashton Rogers, Mahershala Ali, Andre Holland, Naomi Harris. Drama.

Um dos grandes indicados pelo Oscar esse ano não tanto pelo número de indicações (oito incluindo melhor filme, diretor, ator coadjuvante e atriz coadjuvante) mas pela coragem de contar uma história a despeito dos preconceitos : Menino negro e pobre sofre bullying na escola e luta contra sua condição social, contra a dor de sua mãe ser uma viciada de crack  e contra a própria sexualidade. A história trata de racismo, de violência, de drogas e de homosexualidade, mas sobretudo de superação, de lutar para encontrar seu lugar o mundo contrariando o que a vida te oferece. Nisso é um filme corajoso e emocionante escrito pelo próprio diretor baseado na peça In Moonlight Black Boys Look Blue, de Tarell McCraney. A produção é de Brad Pitt.

MONSTER TRUCKS

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(Monster Trucks) EUA 2017. Dir: Chris Wedge. Com Lucas Till, Danny Glover, Jane Levy, Barry Pepper, Rob LOwe. Fantasia.

Pronto há vários anos (o projeto foi iniciado em 2013), é uma história voltada para o público infantil sobre um  estudante (Till) que descobre um monstro na garagem e o coloca dentro de sua caminhonete sendo perseguido por agentes do governo. O fracasso no seu lançamento custou a cabeça de alto executivo da Paramount, mas pode despertar interesse das crianças que quiserem fugir do carnaval. O diretor é o mesmo de “A Era do Gelo” e o ator Lucas Till é bem conhecido como o Destrutor de “X Men Primeira Classe”. Ainda em tempo, Till é o novo intérprete de MacGyver na Tv americana, série que ainda não estreou no Brasil.

A LEI DA NOITE

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(Live by Night) EUA 2017. Dir:Ben Affleck. Com Ben Affleck, Sienna Miller, Elle Fanning, Zoe Saldana. Policial.

O desastre milionário desse filme foi péssimo para a carreira de Ben Affleck que acabou desistindo da direção do novo Batman. Mas não julguem por isso. O filme não é nada fora do normal, mas custuou muito aos cofres da Warner paa reconstituir a Boston da época da lei seca, quando Joe Coughlin (Affleck) – filho de policial – se torna um implacável gangster. Affleck também assina a adaptação do livro homônimo de Dennis Lehane, o mesmo autor de “A Ilha do Medo” ,”Sobre Meninos & Lobos”, e “Medo da Verdade”, este também com Ben Aflleck.

 

FELIZ ANIVERSÁRIO SIDNEY POITIER

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Parabéns hoje para Sidney Poitier. Hoje, o mestre completa 90 anos de uma carreira ilustre. O primeiro filme dele que assisti foi o clássico “Ao Mestre com Carinho” (To sir with love) – o qual eu já tratei aqui no blog. Sir Sidney Poitier, título que sempre se recusou a usar, nasceu em Miami, embora seja nativo das Bahamas. Teve infância muito pobre e alcançou o status de ícone ão só de sua geração, mas da luta pela igualdade racial. Foi o primeiro ator negro a ganhar um prêmio da Academia, em 1963 por “Uma Voz nas Sombras” (Lilies of the Past), em plena época de conflitos pelos direitos civis. Atuações memoráveis também ele teve ao lado de Tony Curtis em “Acorrentados” (The Defiant Ones) de 1958, de Spencer Tracy e  Katherine Hepburn em “Advinhe quem vem para o Jantar” (Guess who’s coming to dinner) de 1967, e contracenando com Rod Steiger no maravilhoso “No Calor da Noite” (In the Heat of the Night) no qual tem a inesquecível fala “Call me Mr.Tibbs“, impondo com dignidade respeito por uma etnia que vinha sendo humilhada ao longo de décadas, séculos e que teve em Poitier a personificação de seu orgulho não só da sua cor, mas sobretudo de sua humanidade. Dirigiu filmes nas décadas de 70 e 80, ganhou um Oscar por conjunto da carreira em 2002. Poucos atores representam tanto dentro e foras das telas. Feliz Aniversário. Para o mestre com carinho.

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CRÍTICA : LA LA LAND CANTANDO ESTAÇÕES

              Todos sabemos das atribulações da vida, e de como muitas vezes parece até criminoso ter um sonho que se quer realizar, mesmo quando a realidade ao nosso redor parece dizer “Não”. Alguns filmes tem essa capacidade de inspirar nosso espírito a continuar a acreditar no que nosso coração diz. É para quem busca essa mensagem que “La La Land – Cantando Estações” se transforma em uma agradável experiência cinematográfica.

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            Confesso que quando o assistir, tentei esquecer da avalanche de prêmios recebida desde que o filme foi exibido pela primeira vez em agosto do ano passado no Festival de Veneza, passando pelo Golden Globe, SAG Awards, Bafta e em breve o Oscar. Os superlativos quase sempre impedem a construção de uma visão mais imparcial e o filme de Damien Chazelle tem o desafio de se dirigir a uma geração para a qual o musical é de difícil apreciação. Apesar de não ser o melhor do gênero, o filme de Chazelle consegue cumprir sua missão: entreter e arrancar de nós a vontade de crer que nossas vidas podem ser algo mais além do mundano. O filme tem outros atrativos, no entanto: Serve de um divertido cartão postal de Los Angeles, como um tour por lugares icônicos para a história de Hollywood. Em dado momento, Mia (Emma Stone) está conversando com Sebastian (Ryan Gosling) quando ela aponta para um prédio e revela “foi naquela janela que Humphrey Bogart e Ingrid Bergman” filmaram uma cena em Casablanca”. Em outro momento, o casal faz uma romântica visita ao planetário do Griffith Observatory (recriado em estudio, apesar das tomadas reais do exterior), o mesmo onde se passa parte da ação de “Juventude Transviada”, clássico de James Dean.

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               Mia abandonou a faculdade  e quer ser atriz enquanto Sebastian alimenta o sonho de ter um clube para tocar jazz, sendo ele um excelente pianista clássico, que possui um banquinho que – como o próprio afirma – pertenceu a Hoagy Charmichael grande nome do jazz. Ryan Gosling passou seis semanas aprendendo a tocar piano, conseguindo arrancar elogios do cantor e compositor John Legend, que aparece no filme como guitarrista da banda de Sebastian. O filme é cheio de referências, prato cheio para os que as reconhecerem a medida que a história segue o passar dos meses, representado pelas estações do ano.

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              As coreografias são dignas de elogio a começar pelo numero que abre o filme gravado sob um sol de 42ºC na auto-estrada de Los Angeles. O diretor se posicionou embaixo de alguns carros para dar instruções aos dançarinos e abre o filme mostrando que apesar dos constantes engarrafamentos da cidade, esta ainda pode inflamar o espírito e nos convencer ao ver a encantadora Emma Stone e o carismático Ryan Gosling dançando no alto de uma colina tendo os céus como cenário natural. Não perca seu tempo comparando “La La Land” aos musicais clássicos que homenageia. Tudo bem que Gosling e Stone não são Gene Kelly e Cyd Charisse e nem precisam. O cinema mudou, as plateias mudaram e os ícones serão sempre sagrados, exemplos a serem seguidos, a inspirarem jovens atores a fazer algo como Chazelle se arriscou. O roteiro é dele e foi escrito em 2010, antes mesmo dele dirigir “Whiplash – Em Busca de Perfeição” (2014) que curiosamente trazia no elenco J.K.Simmons que em “La La Land” faz o patrão descontente de Sebasitian.

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            Voltando aos recordes de premiações e indicações (14 para o vindouro Oscar), o filme faz juz a estas por justamente se propor de forma honesta a homenagear a arte cinematográfica, as belos pontos turisticos de Los Angeles, e a apostar na simplicidade de uma história que não guarda rebuscamentos, nem os promete. Mesmo o amor que nasce entre Mia e Sebastian é um clichê assumido, mas não o foco maior do filme, ao menos para mim, até mesmo o relacionamento de ambos serve a algo maior, a concretização do sonho de ser algo mais do que a vida parece impor. O escapismo pretendido se alcança com a certeza final de que Hollywood é – conforme Luçinha Lins cantou – um apaixonante sonho de cenário.

ESTREIAS DA SEMANA: A PARTIR DE 2 DE FEVEREIRO.

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(Rings) EUA 2017.Dir: F.Javier Gutierrez. Com Johnny Galicki, Matilda Lutz, Alex Roe, Zach Roerig, Vincent D’Onofrio, Bonnie Morgan. Terror.

Em 2002, quando eu assisti a “O Chamado” (The Ring), a história da menina fantasma Samara (Morgan) me pareceu bem elaborada. O original japonês, ainda mais, conseguiu trazer para o gênero terror um bom frescor onde o sobrenatural e a tecnologia se mesclavam à tradicional cultura nipônica. O segundo filme, lançado um ano depois, foi uma sucessão de clichês requentando a mesma trama. O novo filme não é muito diferente apesar de tentar injetar alguma novidade à história da maldição que mata em sete dias aqueles que virem a fita. O casal Julia (Lutz) e Holt (Roe) pede a ajuda do Professor Gabriel (Johnny Galicki, o Leonard de “The Big Bang Theory”) enquanto mortes se sucedem em série à medida que o trio procura desvendar o video que descobrem existir dentro do video. Os produtores Walter Parkes e Laurie MacDonald (os mesmos dos filmes estrelados por Naomi Watts) chegaram a pensar em fazer desse terceiro filme uma prequela antes de se decidirem em avançar com a história para o tempo presente. Para quem gostar do gênero alguns sustos podem ser divertidos, mas se haverá um quarto filme é outra coisa. Talvez seja melhor que Samara descansasse depois de sete dias e três filmes.

A QUALQUER CUSTO

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(Hell or High Water) EUA 2017. Dir: David MacKenzie. Com Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges.Drama.

Dois irmãos (Pine e Foster), inconformados por perder a propriedade de sua familia, decidem assaltar um banco, sendo perseguidos  por um delegado. O filme parece um faroeste moderno com a história se desenrolando no Texas atual, embora nenhuma filmagem tenha sido feito lá. Na verdade, o diretor filmou na região do Novo México, próximo a áreas já ocupadas pelos Comanches, razão pela qual o filme foi inicialmente batizado de “Comanchería”. Indicado a 4 Oscars : Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Jeff Bridges), Roteiro Original e Edição.

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO

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(Hidden Figures) EUA 2017. Dir: Theodore Melfi. Com Octavia Spencer, Taraji P. Henson, Janelle Monaé, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali. Drama.

Adaptação do romance homônimo de Margot Lee Shetterly mostrando os bastidores da corrida espacial na década de 60, quando três mulheres negras desempenham importantíssimo papel desenvolvendo os cálculos matemáticos que levarão o astronauta John Glenn a entrar em órbita. Indicado a 3 Oscars 2017 : Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer), e Roteiro Adaptado. A atriz Taraji P.Henson encontrou a verdadeira Katherine  Johnson (sua personagem) antes de começar a filmar. Esta, com 98 anos, aprovou o roteiro e a atuação de Taraji que volta a contracenar com Mahershala Ali, com quem trabalhou em “O Caso Curioso de Benjamim Button” (2008). O filme foi produzido pelo cantor Pharrell Williams, que também ficou responsável pela trilha sonora.

TOC – TRANSTORNADA OBSESSIVA COMPULSIVA

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(BRA 2017). Dir: Paulinho Caruso & Teo Poppovic. Com Tatá Werneck, Bruno Gagliasso, Luis Lobianco, Laura Neiva, Adelaide Teixeira, Vera Holtz, Patricya Travassos. Comédia.

Veículo para a atriz e roteirista Tatá Werneck (Ela assina o roteiro) que já vem de uma carreira de sucesso na TV. Sua personagem é de uma atriz famosa que se mete em uma série de situações constrangedoras às vésperas de ser a protagonista da primeira novela pós-apocalíptica brasileira. A história  faz humor com o culto às celebridades e com as dificuldades de manter equilibrio em meio aos obstáculos na vida pessoal e profissional como a empresária durona (Holtz) e o namorado (Cagliasso) – um sem noção. Além de tudo ainda tem que fugir das investidas de um fã  que a persegue sem dar trégua (Lobianco). Em seu primeiro papel de protagonista nas telas, Tatá Werneck mostra talento e segurança para conduzir a trama que tem seus momentos sérios em meio a comicidade esperada, como nas cenas em que divide o brilho com Ingrid Guimarães, em participação especial, fazendo ela mesma, uma rival de Tatá. Se liguem na trilha sonora bem aproveitada como no uso da excelente “Ouro de Tolos” de Raul Seixas. Quem venham mais trabalhos assim no nosso cinema.

JACKIE

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EUA/CHI/FR 2017. Dir:Pablo Larrain. Com Natalie Portman, John Hurt, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Drama.

Produzido por Darren Aaronovsky, que quase dirigiu o filme com sua esposa (Rachel Weiz) no papel que veio a ficar com a ótima Natalie Portman (A Princesa Amidala de “Star Wars”). Esta tem uma atuação de profunda sensibilidade como a ex primeira dama mais famosa da história, Jackeline Bouvier Kennedy. O filme foca sua vida logo nos primeiros momentos depois do crime que marcou o mundo, o assassinato de John Kennedy em novembro de  1963. O diretor chileno (em sua estreia em Hollywood) mergulha no luto resultante e conseguiu levar Natalie Portman a ser indicada ao Oscar de melhor atriz, além de mais duas indicações: para figurino e trilha sonora.

 

GALERIA DAS ESTRELAS : HUMPHREY BOGART

bogie-star                  Quando eu tinha 18 anos, eu já tinha ouvido falar muito do lendário Humphrey Bogart. Tive então a oportunidade de assistir pela primeira vez um de seus filmes mais famosos, “Casablanca”. Me impressionei com sua postura de caladão, pouco movimento labial em virtude de uma paralisia no lábio superior causada por uma briga quando jovem, que o ajudaria a compor os tipos durões que interpretou,  mas sua presença em cena era maior que isso. Humphrey Deforest Bogart nasceu no dia de Natal de 1899, filho de um famoso cirurgião novaiorquino e uma ilustradora de revistas que se juntava ao movimento das sufragistas.

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BOGIE, STEVEN & LAUREN

          O ambiente familiar de Bogart era frio pois seus pais, além de brigarem muito, o tratavam com um distanciamento sentimental que serviria para forjar no ator sua personalidade pouco sociável e avesso a sentimentalismos. Foi expulso da Faculdade de Medicina e ingressou logo em seguida na Marinha para lutar na Primeira Guerra.  Depois de dar baixa em 1919, juntou-se a uma companhia de teatro e logo já estaria nos palcos da Broadway. De pequenos papeis, veio a conseguir o papel do gangster Duke Mantee em “A Floresta Petrificada” (The Petrified Forest), que repetiria no cinema, quando depois de pequenos papéis nas telas, foi finalmente notado. Não demorou muito para que seu nome viesse a figurar ao lado do de Edward G.Robinson e James Cagney como os bandidões do período. Quem lhe deu a oportunidade de mostrar que era mais do que um John Dillinger (gangster da época da lei seca) foi o novato John Houston, na estreia como diretor em “Relíquia Macabra” (The Maltese Falcon), adaptação da obra de Dashiel Hammet. Bogart viveu o detetive Sam Spade inaugurando o ciclo dos filmes noir em 1941 e fazendo de sua imagem um perfeito simulacro para os detetives amorais e cafajestes da literatura como também Philip Marlowe de “ À Beira do Abismo” (The Big Sleep), segundo dos quatro filmes que fez com Lauren Bacall. Bogart já havia sido casado três vezes, casamentos infelizes e tumultuados. Mayo Methet, sua terceira esposa, chegou a esfaqueá-lo certa vez depois de uma briga.

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BACALL & BOGART EM “À BEIRA DO ABISMO”

           Quando conheceu Lauren Bacall ao protagonizar com ela “Uma Aventura na Martinica” (To Have & Have Not) em 1944, Bogie tinha 44 anos e Lauren tinha 19 anos. Se apaixonaram, se casaram e tiveram dois filhos: Steven que veio a se tornar documentarista e escreveu o livro “In Search of My Father” em 1996 e Leslie, enfermeira e professora de Yoga. Seu nome foi escolhido em homenagem ao ator Leslie Howard, amigo de Bogie que usou de seu prestigio em Hollywood para garantir que Bogart mantivesse seu papel em “A Floresta Petrificada”. Bogart era um homem de muitos amigos como Frank Sinatra, Spencer Tracy e o diretor John Houston, que além de “Relíquia Macabra”, trabalhou com Bogie em “O Tesouro de Sierra Madre” (The Treasure of Sierra Madre) em 1944 e “Paixão dos Fortes” (Key Largo) de 1946. Houston era companheiro de Bogart em suas bebedeiras. Quando Houston, e seu pai Walter, ganharam respectivamente os Oscar de melhor diretor e melhor ator coadjuvante por “O Tesouro de Sierra Madre”, Bogart se juntou a eles para beberem pela noite, chutando uma laranja como se jogassem bola, vestindo smoking .

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                Não há como falar de sua carreira sem mencionar seu papel de Rick Blaine, de “Casablanca”. Era 1942 e a Segunda Guerra ainda acontecia quando Michael Curtiz filmou com Bogart e Ingrid Bergman criando um dos filmes mais míticos da clássica Hollywood. Falas como “Com tantos bares, em tantas partes do mundo,ela tinha que entrar justamente no meu”, entraram para a história do cinema. A química entre Bogie e Ingrid foi algo único com Bogart destilando seu cinismo e anti-heroismo em uma história que lida com patriotismo e amor, sacrifício e idealismo ao som da maravilhosa canção As Time Goes By, na voz de Dooley Wilson. Filmado em meio à indecisões da parte do estúdio Warner que não tinha o roteiro pronto enquanto filmavam, “Casablanca” tornou-se um dos maiores clássicos do cinema.

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BOGART & KATHERINE HEPBURN EM “UMA AVENTURA NA ÁFRICA”

                 Além de Bergman, Bogart dividiu a cena em Hollywood ao lado de outras belíssimas atrizes como Audrey Hepburn em “Sabrina” (1954), Ava Gardner em “A Condessa Descalça” (The Barefoot Countessa) no mesmo ano, Gloria Grahame em “No Silêncio da Noite” (In a Lonely Place) de 1950, Gene Tierney em “Do Destino Ninguem foge” (The Left Hand of God) de 1955 entre outras. O Oscar de melhor ator só veio em 1951 no papel de Charlie Allnut, um beberrão que conduz uma missionária interpretada por Katherine Hepburn pelos rios do norte da Àfrica em “Aventura na Àfrica” (The Africa Queen) em 1951, dirigido novamente pelo amigo John Houston. Em seus últimos anos, foi chamado a depor no congresso durante a paranoia MacArthista e se opôs a perseguição a atores e outros profissionais protestando junto a outros amigos contra a caçada anti-comunista.

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AUDREY HEPBURN & BOGIE EM “SABRINA”

             Seu último filme, antes que o câncer desenvolvido no esôfogo o matasse, foi “Trágica Farsa” (The Harder They Fall) de 1956, um ano antes de seu adeus. Bogart o homem morreu, mas o mito nasceu, virando personagem vivido pelo ator Jeff Lacey no filme “Sonhos de Um Sedutor” (Play it Again Sam) de 1975, em que o fantasma de Bogie ensina Woody Allen a ser um conquistador bem sucedido. Em 1980, o filme “Bogie”, feito para a Tv, dramatiza a trajetória desse grande ator que deixou uma imagem de durão, mas que assim como Rick Blaine disfarçava seus sentimentos, mas conseguia conduzir os nossos, da plateia que aplaudiu uma carreira prolífica que jamais vai esquecer de seu nome, mesmo hoje sessenta anos depois de sua passagem.

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AVA GARDNER & BOGIE EM ” A CONDESSA DESCALÇA”

CLÁ SSICO REVISITADO : ROCKY UM LUTADOR – 40 ANOS

Eu tinha 15 anos quando “Rocky – Um Lutador” foi exibido pela primeira na Tv brasileira, pela Rede Globo. Era final de 1984 e haviam passado oito anos desde seu lançamento original nos cinemas norte-americanos, mas no Brasil o filme só chegou a nossas telas em 7 de Janeiro de 1977. Minha geração gritava “ROCKY!”  como se fosse uma luta de verdade e nem imaginávamos do incrível paralelo entre criador e criatura.

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A VIDA NÃO É O QUANTO VOCÊ BATE E GANHA, MAS O QUANTO VOCÊ LEVA E AINDA ASSIM CONTINUA A SEGUIR EM FRENTE.

Stallone era Rocky e Rocky era Stallone, que então aos trinta anos vinha de passagens inexpressivas no cinema: Pontas não creditadas em filmes como “Bananas” (1971) de Woody Allen, e “Klute o passado condena” de Alan J.Pakula (1971) e até um filme pornô no currículo, “O Garanhão Italiano” (The Italian Stallion) de 1970. Quando Sylvester Gardenzio Stallone assistiu na TV a uma luta entre o campeão Muhammmed Ali e Chuck Wepner, em Março de 1975, ficou impressionado com a resistência do desfavorecido Wepner contra o favorito Ali, um embate que todos apostavam não duraria além do segundo round. Wepner levou a luta até o 15º round e chegou a nocautear Ali no 9º, e embora este tenha ganhado os pontos necessários, Wepner sobressaiu-se moralmente contra todas as apostas. Foi essa característica que Sly dramatizou e fundiu a sua própria história, um homem simples, de descendência italiana, teve infância problemática e foi limitado em sua expressão facial por uma paralisia no lado inferior esquerdo de seu rosto devido a complicações no parto. Stallone precisou vender seu cachorro por não ter condições de alimentá-lo e tendo praticamente dinheiro nenhum, escreveu o roteiro de Rocky e saiu batendo de porta em porta, recebendo a proposta de US$ 125,000 que o estúdio pretendia filmar com Ryan O’Neal (Love Story) ou Robert Redford (Butch Cassidy). Sly recusou e condicionou a venda de seu roteiro a tê-lo como o protagonista. Os produtores Irwin Winkler e Robert Chartoff conseguiram um acordo no qual o estúdio pagaria US$35,000 e Stallone ficaria com a chance de interpretar seu personagem, sem contudo ser pago como ator. O orçamento de ‘1 milhão foi cedido com a condição de que se o ultrapassasse os produtores usariam recursos próprios para terminá-lo. No final das contas, estes tiveram que hipotecar suas casas para complementar o custo que totalizou, 1.1 milhão de dólares. O resultado foi uma bilheteria milionário resultado de uma identificação do público da era Watergate com a mensagem de um pugilista desacreditado que chega ao sucesso por acreditar em si próprio. Na cerimônia do Oscar de 1977, a Academia reconheceu e entre 10 indicações ganhou 3 : melhor filme, diretor para John G.Avildsen e melhor edição.

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O filme também foi um triunfo técnico sendo o primeiro filme a utilizar a steadicam (câmera acoplada ao corpo do operador ligado a um sistema de rolamentos que a estabiliza durante o movimento desta sem que haja tremidas) como na sequência em que Rocky corre pelas ruas do mercado e segue em direção a escadaria do Museu de Arte da Filadelfia ao som da contagiante “Gonna Fly Now”, do compositor italiano Bill Conti. O papel de Audrey, a namorada do herói quase ficou com a atriz Bette Midler, mas foi eternizado por Talia Shire, irmã do diretor Francis Ford Coppola.  Já Mickey, o treinador de Rocky, seria interpretado por Lee Strasberg, o fundador do renomado Actor’s Studio. No entanto, o estúdio não conseguiu contratá-lo e o papel ficou com o veterano Burguess Meredith (o Pinguim do clássico seriado “Batman”). O filme de Avildsen foi o primeiro filme sobre esportes a ganhar o Oscar, alem de indicações ao BAFTA e premiação no GLOBO DE OURO. Desde então, o filme de Stallone ganhou 5 sequências: “Rocky II – A Revanche” (1979), “Rocky IIIDesafio Supremo” (1982), “Rocky IV” (1985), “Rocky V” (1990) e “Rocky Balboa” (2006), além do spin-off “Creed – Nascido Para Lutar” (2016).

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A propósito, Butkus, o cão de Rocky, visto no primeiro filme é aquele cão que pertencia ao ator e que ele vendera antes da fama. Assim que vendeu o roteiro, Stallone o comprou de volta e o colocou em cena. Lembram da cena romântica em que Adrian patina no gelo ao lado de Rocky. Este não patina porque o ator não sabia. E o primeiro beijo dos dois na casa de Rocky foi dado com a atriz Talia Shire extremamente resfriada. Sua hesitação em cena era para evitar que Sly contraísse o resfriado, o que deu à cena a dimensão exata da personalidade retraída da personagem. Aliás, em análise, os personagens Rocky, Adrian, Mickey e Polly são azarões, rejeitados pela sociedade representada pelo abastado e bem sucedido Apollo, vulgo “o doutrinador”. Vitória e derrota, luta e sucesso são todos nuances de uma vida refletida em cada minuto dos 120 dessa belíssima história, um paralelo entre ator e personagem que contagia quem assiste hoje, quarenta anos depois e nos invade com a vontade de sair por ai ao som do tema de Bill Conti. Bom, ao menos eu me sinto com essa vontade.