GALERIA DE ESTRELAS: UM ANO SEM ROBIN WILLIAMS

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Em 1993, quando Steven Spielberg filmava “A Lista de Schindler’ (Schindler’s List), muitas vezes o clima no set de filmagem era deprimente. Para animar elenco e equipe técnica, Spielberg pediu ao amigo Robin Williams que, por telefone, contasse piadas, colocados nos alto falantes do estúdio que instantaneamente ganhava uma nova luz. Assim era Robin McLaurin Wiliams capaz de humor contagiante, envolvente e imprevisível. Foi assim que, no início de sua carreira,  foi escolhido para o papel do alienígena Mork: Williams se apresentou para a entrevista e se sentou de cabeça para baixo. O produtor Gary Marshall, tempos depois, declararia “Williams foi escolhido porque foi o único alienígena que apareceu”.

Robin Williams jovem

São muitas as histórias a serem contadas que dão um lampejo de um dos atores mais amados, da recente história de Hollywood, e para mim um ídolo cuja energia em cena sempre foi maior que nossas debilidades mundanas, ou que os demônios pessoais que Williams carregava dentro de si. Nascido em Chicago, Illinois em 21 de Julho de 1951, filho de uma modelo e um executivo da Ford. Robin Williams deixou a faculdade de ciências políticas para estudar teatro na Julliard School onde ficou amigo de Christopher Reeve (o Superman) , guiado por seu espírito inquieto e uma habilidade de encontrar o humor no cotidiano. Logo após concluir o curso, começou a se apresentar em stand-up comedies em clubes noturnos. Foi nessa fase de sua vida que foi escalado para o papel de Mork, a principio como convidado na série de Tv “Happy Days”, em dois episódios, e em seguida estrelando sua própria série “Mork & Mindy” (1978-1982) ao lado de Pam Dawber. Já mostrava então ser uma força irrefreável de humor pois improvisava em cima do texto o tempo todo, admitindo tempos depois que seguia os passos de seu ídolo, o comediante Jonathan Winters.

MORK & MINDY

MORK & MINDY

Williams era uma energia indomável e imprevisível em cena:  Bebía com o dedo mergulhado no copo, flutuava  e cumprimentava usando os dedos da mãos na horizontal abertos em V (Williams era fã de Star Trek e copiou a saudação orkana da saudação vulcana) e dizendo “Nano Nano”. O sucesso da série e a atuação incontrolável de Williams levaram os produtores a reservar partes dos scripts dos episódios sem nada escrito para que Williams improvisasse. Muitas das vezes era tão inesperado que a atriz Pam Dawber quase não conseguia controlar a risada.

BOM DIA VIETNA

BOM DIA VIETNA

Nos cinemas, Williams estreou sob a batuta de Robert Altman na adaptação de “Popeye” em 1980, massacrada pela crítica e mal recebido pelo público. Transitando entre um filme e outro, Robin ganhou projeção internacional e sua primeira indicação ao Oscar quando interpretou o DJ Adrian Cronauer em “Bom Dia Vietnã” (Good Morning Vietnã) em 1985. Apesar de baseado em fatos reais, o verdadeiro Adrian Cronauer declarou posteriormente que ele tivesse feito metade das coisas que aparecem no filme, ele certamente teria ido a Corte Marcial. O fato é que a personalidade irreverente de Williams se sobrepôs ao papel, o que não é nenhum demérito ao filme dirigido por Barry Levinson que deixou marcada a cena em que o ator toca “What a Wonderful World” de Louis Armstrong. Alguns anos depois, veio a segunda indicação ao Oscar e um dos papeis mais emblemáticos de sua carreira, dirigido por Peter Weir, como o professor John Keating que muda a vida de seus pupilos em “Sociedade dos Poetas Mortos” (Dead Poets Society), um filme que quase chegou a ser dirigido e protagonizado por …. Dustin Hoffman. Mais contido em sua atuação, muito em função do doloroso divórcio que o ator atravessava na época, Williams firmou em nosso imaginário uma figura cativante e romântica, incorporação de seu próprio lema “Carpe Diem”.

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

No inicio da década de 90, ele veio a contracenar com Dustin Hoffman em “Hook – A Volta do Capitão Gancho” (Hook) de Steven Spielberg. Foi o próprio Spielberg quem declarou, na época, que Robin Williams foi o escolhido para o papel de Peter Pan porque possuía um ar de criança. O mesmo fez Coppola que colocou Williams no papel de “Jack”, a história de um menino acometido de uma estranha doença que o fazia envelhecer fisicamente mais rápido. Ainda em 1995, Robin veio em “Jumanji” o papel de Alan Parrish, um menino de 10 anos preso em um jogo de tabuleiro por décadas. Em todos esses papéis Robin parecia encarnar a essência de uma criança que não cresceu, manteve  essa característica sabendo ser convincente e contagiante. O sucesso do ator não foi livre de problemas em sua vida pessoal, já que o uso de álcool e cocaína o levaram a uma crise superada após um período em clínica de desintoxicação. Apesar disso, na frente das câmeras, Robin era a antítese de suas mazelas pessoais, sempre pronto a testar novos desafios: Em 1993, se transvestiu para “Uma Babá Quase Perfeita” (Mrs. Doubtfire) – um de seus maiores sucessos comerciais  agraciado com o Oscar de melhor maquiagem, em 1991 deu vida e sua personalidade histriônica ao gênio da lâmpada na animação da Disney “Alladim”, se conteve mais uma vez em um papel dramático inspirado no Dr.Oliver Sachs  em “Tempo de Despertar” (Awakenings) e ainda encontrou espaço na agenda para fazer papéis menores em filmes dirigidos por Woody Allen (Desconstrunido Harry) e Kenneth Baragah (Hamlet).

UMA BABA QUASE PERFEITA

UMA BABA QUASE PERFEITA

Tanta versatilidade não o livrou de detratores que o acusavam de se repetir muitas vezes como um efeito Mrs.Doubtfire. O ator seguiu em frente:  Não conseguiu viver um vilão dos filmes de Batman, como queria, sendo quase escalado para o papel do Charada; mas conseguiu o papel de robô que quer ser humano na adaptação do conto “O Homem Bicentenário” (Bicentennial Man) de Isaac Azimov, de quem era grande fã. Também teve sucesso na refilmagem de Mike Nichols para “A Gaiola das Loucas” (The Birdcage) fazendo o papel que havia sido de Ugo Tognazzi no filme original. Em 1998, ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante em “Gênio Indomável” (Good Will Hunting), uma atuação mais intimista mas igualmente envolvente. Em 2001, deu uma divertidíssima entrevista para James Lipton no “Inside the Actor’s Studio” onde demonstrou sua tour-de-force como habilidoso one man show disparando piadas na mesma medida que falava de sua vida e carreira, contou inclusive que começou a fazer humor quando criança contando piadas para sua mãe como forma de chamar sua atenção. Seu estilo demolidor e elétrico transformou o programa em um standup comedy.

HOMEM BICENTENARIO

HOMEM BICENTENARIO

No início dos anos 2000 foi a um extremo oposto  vivendo o assassino de “Insomnia” ao lado de Al Pacino com direção de Christopher Nolan e um psicopata em “Retratos de uma Obsessão” (One Hour Photo). Quando seu amigo de juventude Christopher Reeve sofreu o acidente que o deixou tetraplégico (O filho mais velho de Williams chegou a dizer que ambos pareciam irmãos), Robin incorporou o papel que vivera em “Patch Addams – O Amor é contagioso” (1998) entrando no quarto de Chris disfarçado de médico e despejando toda sua comicidade, fazendo Chris rir pela primeira vez. Esse aspecto de sua personalidade era inspirador, pois apesar de enfrentar seus próprios demônios, incluindo se separar de sua segunda esposa em 1999, Robin era uma irrefreável força da natureza disposto sempre a tornar o mundo melhor através de seu senso de humor. Não a toa, Ben Stllier o convidou para o papel de Ted Roosevelt em “Uma Noite no Museu” (A Night At The  Museum) onde roubava a cena constantemente. Apesar de tantos prêmios como Oscar, Golden Globe, Screen Actors Guild, Emmy e até mesmo o Grammy, o ator sofreu quando sua volta a TV na serie “The Crazy Ones”, onde contracenava com Sarah Michelle Gellar, foi cancelada após uma temporada entre 2013 e 2014. Seu estado depressivo  se intensificara muito. Estava casado pela terceira vez com Susan Schneider e tinha ao todo três filhos quando se suicidou em sua casa na California em Agosto de 2014, pouco depois de ter completado 63 anos. Irônico fim se lembramos que o ator protagonizou  o emotivo  “Amor Além da Vida” (What Dreams May Come) que trata do suicídio e da vida após a morte de forma poética, seguindo os preceitos espíiritas. A melhor forma de celebramos seu nome é através de seus filmes, um legado impresionante cujo epitáfio aqui no blog são as palavras abaixo de poema de Henry Thoreau recitado em “Sociedade dos Poertas Mortos”:

AMOR ALEM DA VIDA

AMOR ALEM DA VIDA

“Fui a floresta porque queria viver deliberadamente e sugar toda a essência da vida, … para que quando minha morte chegasse, eu não descobrisse que não vivi”

Com Você Robin, todos fomos à floresta. Descanse em paz, o meu Capitão”