BICENTENARIO DE FRANKENSTEIN

       IMPACTO INDELÉVEL DA OBRA DE MARY SHELLEY NAS MIDIAS E NA ARTE.

  Algumas obras literárias ultrapassam todas as barreiras de espaço e tempo além de inspirar um misto de horror e fascínio no imaginário popular. Uma autora grafou seu nome na eternidade com a mesma ousadia do personagem cujo nome ostenta o título de um dos maiores clássicos da literatura que, duzentos anos depois de sua publicação, ainda nos assombra. A criatura … Frankenstein, a criadora… Mary Shelley… este legado é nosso.

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BORIS KARLOFF: A CARACTERIZAÇÃO DEFINITIVA

 

A CIÊNCIA FRANKENSTEINIANA

          A história nasceu em uma noite de tempestade, depois de uma sugestão do poeta britânico Lord Byron (1788 – 1824), que passava um final de semana junto com o casal Percy & Mary Shelley em uma casa em Genebra, Suiça. Byron sugeriu que cada um escrevesse um conto sobrenatural para passar o tempo. Na mente de Mary povoavam ideias sobre reanimação dos mortos, inflamadas por calorosas discussões ocorridas na casa em que morava com seu pai, William Goodwin, filósofo, escritor e jornalista, que constantemente se reunia com a nata da intelectualidade de sua época.

           Era maio de 1816, e o termo cientista ainda nem existia, quando Frankenstein nasceu na imaginação de Mary Shelley, que revisitou o mito grego de Pigmalião, o escultor que dá vida à estátua de uma bela mulher. Assim, Victor Frankenstein mostra um poder similar vindo de uma ciência hipotética, identificada com as teorias galvanistas que estudavam como uma corrente elétrica se propaga em um corpo. O próprio Dr. Luigi Galvani a chamava de “eletricidade animal” pois acreditava que esta viesse dos corpos. Em 1803, em Londres, Giovanni Aldini (sobrinho de Galvani) realizou experiência similar na prisão londrina de Newgate, com o corpo de George Foster, um notório criminoso que havia sido executado. Mais tarde Alessandro Volta empregou dois arcos de metal para gerar eletricidade e mostrou que o corpo era apenas um condutor e não o gerador da eletricidade.

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CHRISTOPHER LEE : FRANKENSTEIN PELA HAMMER FILMS

A FILOSOFIA DE FRANKENSTEIN

             Mary não entrou em detalhes e imbuiu sua narrativa de divagações filosóficas sobre a vida e a morte. A autora trabalha com o arquétipo do homem da ciência que questiona a natureza com seu intelecto desprovido do freio da moralidade. A história se tornou um precursor da literatura de ficção-científica, muitas décadas à frente de Jules Verne e H.G.Wells, os pais do gênero.

            A história de Mary recebeu o subtítulo “O Moderno Prometeu” , referência ao titã da mitologia grega que roubou o fogo de Héstia para dá-lo aos homens. Como punição Zeus o acorrentou ao cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma ave (águia em algumas versões e corvo em outras) devorava seu fígado, que se regenerava para no dia seguinte ser devorado novamente. Este foi o preço a pagar pela ousadia de ir além dos limites estabelecidos por forças superiores, e Frankenstein encarna esse papel, fascinado pela possibilidade de criar vida.

          Sua falta de um senso de responsabilidade segue o imperativo categórico kantiano. Victor age como se bastasse seu intelecto para justificar suas ações, e nesse sentido suas ações são coerentes com sua postura de que os fins justificam os meio, é sua forma de enxergar o mundo e a si próprio, mas ao perceber o que fez, abandona a criatura. Esta, sendo um ser deformado, desperta o medo e o ódio da sociedade. Nesse momento da história, Mary Shelley bebe da fonte de Jean Jacques Rousseau (1712 / 1778) , que diz que o homem nasce puro, mas é corrompido pela sociedade. O bom selvagem do filósofo francês habita grande parte da história de Mary Shelley sempre que a criatura sofre mal tratos dos homens, o desprezo de seu criador e a incompreensão de sua própria existência. Então, a criatura inominada busca sua vingança e metonimicamente chega mesmo a usurpar o nome de seu criador. Até hoje muitos pensam que o título da obra se refere ao monstro. Quando publicado originalmente o nome da autora foi suprimido, mas a mãe de “Frankenstein” se recusou a usar um pseudônimo masculino que facilitasse sua publicação. Somente na reedição de 1823 seu nome veio a ser creditado como a autora.

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ROBERT DE NIRO NA VERSÃO MAIS FIEL À OBRA DE SHELLEY

OS FOCOS NARRATIVOS

           A narrativa de Mary se divide em três pontos de vista que conduzem o leitor pela história: Começa com o Capitão Robert Walton que encontra Victor Frankenstein à deriva no Ártico, o acolhe e ouve sua história, relatando-a depois à sua irmã Margareth através de cartas. O foco muda da terceira para a primeira pessoa quando um Victor Frankenstein moribundo conta com suas próprias palavras os infortúnios sofridos nos levando de Geneva a Ingolstad na Alemanha a medida que revela sua profana experiência. Nova mudança ocorre quando Mary Shelley dá voz ao monstro, que conta o que se sucedeu desde o momento de seu “nascimento” no laboratório de Frankenstein, quando cria consciência de sua existência e em surpreendente auto-didatismo desenvolve linguagem observando uma família. A autora ainda faz uso da intertextualidade através de “Paradise Lost” de John Milton. Shelley possibilita assim que o leitor crie seu próprio julgamento a respeito dos papeis de criador e criatura, sobre quem é o verdadeiro monstro: o cientista egocêntrico que abandona a sua criação, a sociedade que rejeita o monstro como algo diferente,  ou a criatura abandonada e rejeitada.

             A mesma essência é mais tarde retomada em obras de outros autores que fizeram da obra de Shelley  fonte de inspiração e referência como os replicantes de Phillip K.Dick em “Do the Androids dream of electronic sheep?”, obra que inspirou o filme “Blade Runner”, o protagonista de “Edward Mãos de Tesoura” de Tim Burton, entre outras que exploraram o tema tão recorrente na vida real através da engenharia genética, da clonagem, do emprego das células tronco, do desenvolvimento de inteligência artificial, entre outros avanços discutidos na atualidade sob a luz da ética.

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FRANKENSTEIN NOS QUADRINHOS

AS ADAPTAÇÕES

                A ficção de Shelley foi levado ao cinema ainda no período do cinema mudo, em 1910, produzida pela produtora de Thomas Edison (o inventor da lâmpada), dirigida por J.Searle Dawley e com o ator Charles Ogle no papel do monstro. O filme de 16 minutos é uma raridade que ficou perdida por muito tempo até que uma cópia foi encontrada em Wiscosin em meados da década de 70. A criação do monstro é mostrada de forma atípica: Produtos químicos e poções são misturados para seu nascimento, lembrando que na época em que Mary Shelley escreveu o livro houve avanço notável na química, que foi alçado a um posto de ciência sem nenhuma ligação com a alquimia ou a própria medicina graças ao tratado de Lavosier no final do século XVIII. No filme, o efeito de criação do monstro foi conseguido queimando um boneco e rolando o filme de trás para a frente. Mais curioso ainda é o fim do monstro, que simplesmente desaparece no ar!!

               O choque elétrico gerado por uma noite de tempestade foi liberdade poética tomada pela sua adaptação cinematográfica mais famosa, de 193, estrelada por Boris Karloff. Como a descrição física da criatura é vaga no livro,  coube ao maquiador Jack Perkins elaborar o visual que se fixou no imaginário popular: Corpo descomunal e desajeitado, cabeça achatada com cicatriz enorme na testa, eletrodos nas laterais do pescoço e botas pesadas retardando os movimentos. Outra diferença entre o livro e os filmes, em geral, é que a criatura literária é inteligente e articula bem as palavras, enquanto que o cinema costuma retratá-la como um ser privado de raciocínio, reagindo apenas instintivamente. Karloff interpretou o monstro três vezes.

            No final da década de 50, a produtora inglesa Hammer Films ressucitou o monstro em um ciclo de filmes com Peter Cushing no papel de Victor Frankenstein e, inicialmente com Christopher Lee como o monstro em “A Maldição de Frankenstein” (The Curse of Frankenstein) em 1957. A melhor versão da obra de Shelley, contudo, embora muito subestimada, é “Frankenstein de Mary Shelley” (Mary Shelley’s Frankenstein) de 1995 com Robert De Niro como o monstro e Kenneth Branagah como Victor Frankenstein. O filme foi a primeira adaptação a procurar respeitar a obra original. O filme foi produzido por Francis Ford Coppola, que a principio também o dirigiria assim como fizera poucos anos antes com “Dracula de Bram Stoker”. Branagah assumiu a direção, e foi duramente criticado pela sua pretensão.        Recentemente houve “Victor Frankenstein” que traz James McAvoy e Daniel Radcliff em uma releitura modernizada do livro. Entre 2015 e 2017 houve a série britânica “As Crônicas de Frankenstein” (The Frankenstein Chronicles) reimaginando a obra da autora, que ganhou nova roupagem também na série “Penny Dreadul” (2014 a 2016), na animações “Hotel Transilvania” de 2012 e, “Frankweenie” (2012) de Tim Burton.

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A VERSÃO DE 1910 RECENTEMENTE RESTAURADA

          Tantas adaptações e readaptações mostram que a riqueza da obra continua a refletir  nossos medos como naquela noite de tempestade em Genebra, o sonho de vencer a lei natural tomando para si o poder da vida e a morte, o que nas palavras de sua autora vão além de qualquer limite vivo, ainda vivo !!!

ESTREIA ESPECIAL: BLADE RUNNER 2049

Se imaginássemos que daqui  a dois anos as grandes cidades se tornariam extremamente populosas, com a poluição se alastrando por entre imensos prédios castigados por constante chuva, insuficientes no entanto para lavar a sujeira física e moral desta realidade depreciativa. Se você ainda se pergunta se o homem é realmente a imagem e semelhança de Deus, então o que dizer de sofisticados androides dotados de inteligência artificial buscando o sentido da vida ? Se quiser descobrir o que há nisso tudo, bem vindo ao mundo de “Blade Runner”.

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Agente K (Ryan Gosling) & Deckard (Harrison Ford)

     Quando lançado em 1982 o filme não causou nenhum furor imediato aos intrigantes questionamentos da história, em que humanos e replicantes estão mergulhados na filosofia Nietzschiniana em que ao olhar para o abismo, este olha de volta para você. Na verdade, a bilheteria da época não correspondeu ao investimento estimado então em torno de US$28,000,000 e o status cult do filme surgiu ao longo dos anos que se seguiram. O público digeriu devagar as implicações desta perceptível dicotomia entre o velho e o moderno, o humano e o inumano, a vida e a morte. Já sua atmosfera distópica remete ao pesadelo orwelliano misturada à fotografia noir que faz de Rick Deckard (Harrisson Ford) herdeiro futurista dos detetives amorais e cafajestes inspirados na literatura de Raymond Chandler e Dashiel Hammet. A personagem Rachael (Sean Young) representa a sedução gélida e fatal das femme fatales e pivô de uma tensão que se estende para além da aparentemente rotineira investigação de Deckard.

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O Filme de 1982

      O roteiro de Hampton Fancher, reescrito por David Webb Peoples, adapta o romance “Do Androids dream of electric sheep?” do escritor americano Philip K.Dick publicado pela primeira vez em 1968. O filme toma o livro apenas na superfície se concentrando na caçada aos androides fugitivos, que nunca são chamados de replicantes pelo autor. O termo foi sugerido em uma conversa entre o roteirista David Peoples e sua filha que comentara com o pai sobre a capacidade replicante das células clonadas. O livro também toca na extinção dos animais e a ação se desenvolve em uma São Francisco pós apocalíptica em vez da Los Angeles mostrada no filme. O livro mostra a Terra como um planeta sendo evacuado em favor de colônias em outros planetas como Marte e os humanos que ainda residem no planeta seguem uma religião chamada Mercerismo, em que seus membros compartilham habilidades telepáticas, o que não é sequer mencionado no filme.

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Philip K. Dick – O Autor

      O filme veio a ser dirigido por Ridley Scott que foi demitido ao longo das filmagens, e depois readmitido devido a conflitos com os produtores do filme. Também tornou-se notório as constantes desavenças entre o diretor e Harrisson Ford. Este durante muitos anos se recusou a falar do filme em suas entrevistas, e dizia recusar qualquer possibilidade de voltar ao papel, o que acabou eventualmente fazendo este ano. Ford teria gravado a narração em off, não prevista no roteiro original extremamente contrariado, forçado pelos produtores que acharam o filme incompreensível no corte original. Anos depois, dois funcionários da Warner teriam encontrado um arquivo considerado perdido, sem a narração em off e com uma montagem que se achou fosse a pretendida por Ridley Scott. Esta suposta versão original chegou a ser lançada em 1989, mas Scott disse que não era assim que ele pretendia fazer e em 2007 o estúdio fez as pazes com o diretor permitindo que este remontasse o filme como inicialmente pensado, gerando o “Final Cut” e dividindo os fãs com três versões diferentes do clássico.  Curiosamente, muitos acreditaram que o filme carregava uma espécie de maldição pois empresas como a RCA e a Atari, cujos logos são usados no filme faliram tempos depois.

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         O monologo final de Rutge Hauer (escolhido para o papel de Roy Beatty sem que Ridley Scott o tivesse entrevistado para o papel) foi improvisado pelo ator e a cena previa a principio haveria uma luta entre Roy e Deckard em vez de apenas uma perseguição na chuva. A beleza das palavras “Todos aqueles momentos estarão logo perdidos como lágrimas na chuva” cria um efeito de espelho distorcido entre caça e caçador, homem e replicante (apesar das constantes interpretações de que Deckard seria um replicante também), onde orgânico e inorgânico procuram pelas mesmas perguntas: Quanto tempo ainda temos? Por que existimos? Podemos prolongar nossa vida? Qual o sentido da vida? Uma relação Frankensteniana elevada a uma constrangedora dimensão que nos faz nos perceber de forma diferente. Assim o autor confronta nossa humanidade falha, corrupta, ambiciosa e inconsequente. O novo filme que chega a nossas telas promete prosseguir com as divagações, explorar os mistérios do filme original que reflete para 2019 a insistente e inquietante pergunta que procura saber se realmente somos meras máquinas orgânicas ou uma obra de inspiração divina, sonhando com ovelhas elétricas em nossa vã filosofia.