ESTREIAS DA SEMANA: 31 DE JANEIRO

O MENINO QUE QUERIA SER REI.

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(The Kid Who Would Be King) EUA 2019. Dir: Joe Cornish. Com Louis Serkis, Patrick Stewart, Rebecca Ferguson, Tom Taylor, Genevieve O’Reilly, Dean Shaumoo, Rhianna Dorris, Angus Imrre. Fantasia.

Sou grande admirador das lendas arturianas, mesmo das variações – e olha que são muitas, como essa que transforma um grupo de crianças une esforços para enfrentar nada mais nada menos que a lendária bruxa Morgana (Ferguson) que desperta no mundo moderno com intenção de dominá-lo ou destruí-lo. O pequeno Alex (Serkis) sofre bullying na escola e é o escolhido para empunhar a poderosa espada Excalibur, reunindo seus amigos, incluindo os valentões que o persegue formando uma especie de versão juvenil dos cavaleiros da távola redonda, que inclui uma versão rejuvenescida do mago Merlin.  Escrito e dirigido por Joe Cornish (roteirista de “Homem Formiga” – 2015 e “As Aventuras de Tin Tin” – 2011), o filme é uma agradável aventura juvenil estrelada por Louis Serkis, filho do ator Andy Serkis (Gollum de “Senhor dos Aneis” e Cesar de “Planeta dos Macacos”). Merlin, em sua versão adulta, é interpretado por Patrick Stewart, o Capitão Picard de “Star Trek The Next Generation”, que foi parte do elenco do clássico “Excalibur” (1980), a melhor adaptação da lenda. Já Morgana ficou com a excelente Rebecca Ferguson, essa belíssima atriz sueca tem se destacado em bons papeis como “O Rei do Show”, os dois últimos “Missão Impossivel” e, em breve, será vista em “Doutor Sono” (adaptação de Stephen King) e “MIB Internacional”.  Não é um filme de grandes pretensões, talvez por isso torna-se um agradável programa para pais e filhos, mostrando que as lendas renascem, mas nunca morrem.

A SEREIA – O LAGO DOS MORTOS

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(Rusalka: Ozero myortvykh) EUA 2019. Dir: Svyatoslav Podgaevskiy. Com Viktoryia Agalakova, Igor Khripunov, Nikita Elenev, Efim Petrunim. Terror.

O diretor do recente “A Noiva” (2017) volta ao gênero para mostrar que os russos também sabem fazer filme de terror. Usando a lenda da sereia que atrai os homens para a ruína o filme mostra um casal de noivos encontra a tal sereia, que coincidentemente no passado tentou atrair o pai do rapaz para o fundo do lago. Personagens lendários como a figura da sereia são atraentes para o público em geral, mas não espere pela clássica imagem da mulher com cauda de peixe, a sereia do filme russo está representada mais como uma mistura de fantasma com bruxa. Um ponto que pode contar contra o filme é que apesar de ser russo as cópias exibidas estão redubladas em inglês e o movimento labial dos atores pode ficar fora de sincronia. Apesar de tentar caprichar nos sustos, o filme não consegue fugir aos clichês do gênero, inclusive o clima de montanha russa e a total falta de aprofundamento dos personagens que estão á apenas para serem vítimas da sereia, que aliás também não é explorada quanto à mitologia desta.

UMA NOVA CHANCE

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(Second Act) EUA 2019. Dir: Peter Segal. Com Jennifer Lopez, Vanessa Hudgens, Milo Ventimiglia, Treat Williams. Comédia Dramática.

Lembro bem de trama parecida com esse filme em “O Segredo do meu Sucesso” de 1987 onde Michael J.Fox era um zé ninguém que vira executivo de uma grande empresa. No filme da cantora e atriz Jennifer Lopez seu personagem passa por algo similar. Ela é a empregada de uma loja de departamento que, por engano, acaba se tornando alta executiva, usando de sua experiência como vantagem no mundo dos negócios. Em tempos de empoderamento feminino e de toda a discussão em torno das igualdades salariais, o filme – também produzido por Jennifer Lopez – mostra a frieza do mundo empresarial, a competitividade desenfreada e cruel. O filme guarda momentos de humor com momentos dramáticos e segue todos os clichês dos filmes do gênero incluindo uma rival para Maya (Lopez) interpretada por Vanessa Hudgens (High School Musical). Nos Estados Unidos a bilheteria foi alta, tendo custado 16 milhões de dolares mas arrecadando mais do que o dobro até agora. Bom para a atriz que estava um tempo afastada das telas, e entrou no projeto depois da desistência de Julia Roberts, inicialmente escalada para o papel. O diretor é o mesmo de “Agente 86” (2008) e “Como se fosse a primeira vez” (2004) e sabe como conduzir a história que pode ser um agradavel programa de fim de semana.

VICE

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(Vice) EUA 2019. Dir:Adam McCay. Com Christian Bale, Amy Addams, Sam Rockwell, Steve Carrell. Biopic.

Escrito e dirigido por Adam McCay, que já trabalhou com Christian Bale e Steve Carrell em “A Grande Aposta”, o novo projeto do trio na trilha da premiação do Golden Globe e do Critic’s Choice que deu a Christian Bale um merecido reconhecimento no papel de Dick Cheney. Ele foi o vice presidente do governo George W. Bush e figura central de várias tramas nos bastidores de poder na Casa Branca. Admiravel caracterização de Bale, que de fato engordou para o papel, voltando a dividir a cena com Amy Addams com quem contracenou em “A Trapaça” (2014).  Amy é uma das melhores atrizes de sua geração mas ainda não recebeu o devido valor. Ela está indicada para o Oscar de melhor atriz coadjuvante desse ano e a torçida para a encantadora Addams é certa. O filme ainda concorre a outras 7 estatuetas, inclusive melhor filme, dirertor e – claro – melhor ator para Bale.

    

 

PLANETA DOS MACACOS – A SAGA

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     “Os maníacos ! Vocês finalmente explodiram tudo ! Malditos sejam !” Com essas palavras, em pungente ira, Charlton Heston protagonizou um dos desfechos de maior impacto no cinema, imaginado por Rod Serling e Michael Wilson na adaptação do livro de Pierre Boulle “O Planeta dos Macacos” (Le Planète dês Singes), publicado em 1963. O autor francês inverteu as leis darwinistas criando uma parábola crítica sobre as ações do homem como raça dominante. O produtor norte-americano Arthur P.Jacobs (1922/1973) vinha do insucesso comercial de “Dr.Doolittle” (1967) quando Serling deu o tratamento inicial para o roteiro e se interessou pelo projeto, que chegou a atrair a atenção de Blake Edwards (A Pantera cor de rosa). Como este roteiro, seguindo o original de Boulle, mostrava uma sociedade símia avançada com edifícios e automóveis, o que aumentava o orçamento. Foi aí que Michael Wilson, roteirista que havia trabalhado na adaptação de “A Ponte do Rio Kwai” (outro livro do mesmo autor), decidiu retratar o mundo dos macacos de forma mais primitiva, sem tecnologia moderna, reduzindo assim os custos substancialmente. Ainda assim vários estúdios recusaram o filme até que Jacobs conseguisse um acordo com Richard Zanuck, da Twentieth Century Fox. Isso foi possível depois que o nome de Charlton Heston (Ben Hur) fosse atrelado ao projeto, que ainda previa Edward G.Robinson como Dr.Zaius, mas o estado de saúde deste era delicado, e o papel foi para Maurice Evans. As extensas 4 horas de maquiagem foram um processo revolucionário criado por John Chambers, tendo sido premiada com o primeiro Oscar do gênero, antes que a Academia tivesse criado a categoria do gênero. O triunfo desta a levou ao livro Guiness de Recordes, e tornou-se um marco empregando a técnica de Chambers que aplicava um material emborrachado camada por camada para simular testa, cabelo, nariz e queixo progressivamente no rosto e, depois braços e mãos dos atores. O sucesso do filme fez renascer a ideia de sequências gerando mais 4 filmes, além de seriado de TV live action, animação, quadrinhos, invadindo todas as mídias. Depois de uma refilmagem desastrosa em 2001 por Tim Burton, a história foi reimaginada para o público. A saga símia originalmente iniciada em 1968 era mergulhada na guerra fria e na paranoia de uma hecatombe nuclear, enquanto que a segunda iniciada em 2011 usa a engenharia genética como o gatilho que levaria os símios à supremacia no planeta.

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Linha narrativa original:

1) O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes), 1968Dir: Franklin J.Schaffner. Com Charlton Heston, Roddy McDowell, Kim Hunter, Maurice Evans, Linda Harrison. Rodado em pleno verão norte americano, o filme já começa com tom crítico quando o astronauta George Taylor, monólogo de Charlton Heston, observa a fragilidade da natureza humana diante do infinito, questionando o porquê do homem ainda promover a guerra entre seus próprios irmãos. Sua queda a bordo da nave Ícaro simboliza a queda do homem tal qual o personagem da mitologia grega. O diretor Franklin J. Schaffner  entrou no projeto indicado por Charlton Heston, e conduz o filme brilhantemente ludibriando o público acerca do ponto em que homens e macacos divergiram na escala evolucionária. Roddy McDowell e Kim Hunter visitaram o zoológico para estudar o comportamento dos chimpazés, sendo que o papel da Dra Zira foi inicialmente pensado para Ingrid Bergman, que recusou o papel e mais tarde teria se arrependido.

2)De Volta ao Planeta dos Macacos(Beneath the Planet of the Apes) 1970 Dir: Ted Post. Com James Franciscus, Linda Harrison, Kim Hunter, Maurice Evans, David Watson, Natalie Trundy, James Gregory. Pierre Boulld não considerava “Planeta dos Macacos” seu melhor trabalho, mas escreveu um roteiro para uma possível sequência entitulada “Planet of the Men” continuando a história 14 anos depois com Taylor liderando a raça humana a recuperar seu domínio. O roteiro de Paul Dehn a principio previa que Taylor (Heston), Brent (Franciscus) e  Nova (Harrison) conseguiriam estabelecer uma co-existência pacífica entre homens e macacos. O astro Charlton Heston estava relutante em voltar ao papel de Taylor, e sugeriu o desfecho utilizado (sem spoilers para os que nunca viram o filme). Roddy McDowell não trabalhou nesse segundo filme, pois estava rodando “The Ballad of Tam Lin” na Escócia, e foi substituído por David Watson no papel de Cornelius. O filme repete a perseguição aos humanos fugitivos acrescentando humanos mutantes que adoram a uma bomba de nêutrons.

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3)Fuga do Planeta dos Macacos. (Escape from the Planet of the Apes)1971. Dir: Don Taylor. Com Roddy McDowell, Kim Hunter, Bradford Dillman, Natalie Trundy, Sal Mineo, Ricardo Montalban. O terceiro filme é bem superior que o segundo invertendo a premissa original: Cornelius e Zira voltam à São Francisco do passado e com isso acabam dando início aos eventos que levariam no futuro ao declínio da raça humana. Foi o último filme de cinema do ator Sal Mineo. A atriz Natalie Trundy aparece interpretando a veterinária que ajuda Cornelius e Zira. A atriz veio a se casar com o produtor Arthur P.Jacobs.

4)A Conquista do Planeta dos Macacos.(Conquest of the Planet of the Apes)1972   Dir: J.Lee Thompson. Com Roddy McDowell, Natalie Trundy, Ricardo Montalban. Curiosa reentrada na saga símia focado na figura de Cesar, o filho de Cornelius & Zira, interpretado pelo mesmo Roddy McDowell. Foi esse filme que serviu de ponto de partida para o reboot de 2011. Extremamente violento e pessimista, chegando por isso a ter a sequência inicial do script não filmada por mostrar um macaco sendo violentamente morto. A atriz Natalie Trundy assume o papel da chimpazé Lisa, seu terceiro papel na saga. Curioso é o fato de que o filme tornou-se um sucesso em pleno ciclo da blackexploitation quando a comunidade afro descendente se identificou com a luta de Cesar para libertar sua raça.

5) A Batalha do Planeta dos Macacos (Battle for the Planet of the Apes) 1973  Dir: J.Lee Thompson. Com Roddy McDowell, Natalie Trundy, Claude Akins, John Houston. McDowell e Trundy retornam aos papeis de Cesar e Lisa uma década após os eventos do filme anterior quando uma guerra nuclear destruiu a civilização humana. O tom mais leve do filme é sentido a medida que Cesar busca a verdade de sua origem. O produtor Arthur P.Jacobs morreu dias depois do lançamento desse filme, que ainda traz o diretor John Houston na figura do Legislador. Com a morte de Jacobs, a atriz Natalie Trundy, herdeira deste, vendeu os direitos da saga para a Twentieth Century Fox. Esta viria a produzir um seriado de TV em 1974 com Roddy McDowell novamente por trás da maquiagem de macaco, mas como um personagem diferente. O seriado foi muito popular no Brasil mas teve vida curta, com apenas 14 episodios. Ainda haveria na década de 70 um seriado em animação produzido pelo estúdio De-Patie Frelang (o mesmo do desenho da Pantera Cor de Rosa) e com o traço de Doug Wildey, o criador do clássico Jonny Quest. A excelente dublagem dessa animação teve as belas vozes de Andre Filho e Juraciara Diacovo, que fizeram juntos o seriado do “Casal 20”.

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O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes) 2001.  A refilmagem de Tim Burton foi um equívoco na tentativa de recriar o filme de 1968, mesmo tentando se aproximar mais do final do livro de Pierre Boulle. Apesar do bom elenco reunido e da maquiagem, o filme falha em imprimir o impacto da narrativa e seu subtexto metafórico.

Planeta dos Macacos : A Origem (Rise of the Planet of the Apes) 2011 Dir: Rupert Wright. Com Andy Serkis, James Franco, John Lightgow. Promissor reinicio da franquia com referências ao lançamento da nave Icaro ao espaço. Um primor técnico da era digital, o macaco Cesar torna-se o centro da narrativa e o talento de Andy Serkis, o ator que dera vida ao Smegal de “O Senhor dos Aneis”.

Planeta dos Macacos : O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes) 2014 . Dir: Matt Reeves. Com Andy Serkis, Gary Oldman. O filme se aprofunda na história de Cesar e sua luta para libertar seus semelhantes, mas acreditando em uma co-existência pacífica com os humanos sobreviventes do extermínio causado por um vírus na atmosfera. É melhor que o filme anterior graças ao equilibrio alcançado por Matt Reeves na condução de ação e drama.

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      No Brasil, a saga dos macacos sempre foi bastante popular incluindo a publicação de quadrinhos publicado pela editora Bloch na década de 70. A TV teve a popularização da figura de Socrates, o macaco crítico criado pelo humorista Orival Pessini e até mesmo uma paródia “O Trapalhão no Planalto dos Macacos” de 1976 que reunia pela primeira vez Mussum ao grupo de Renato Aragão e Dede Santana. O novo filme “Planeta dos Macacos –  A Guerra” encerra uma trilogia, mas certamente não é o capítulo final da saga. Esta se deixou uma mensagem após todo esse tempo é a de nos fazer refletir nossa postura, nossas ações no mundo com nossos semelhantes e com as demais espécies. O planeta é de todos.

OS 120 ANOS DE “A MÁQUINA DO TEMPO”

 

“HÁ QUATRO DIMENSÕES CONHECIDAS PELO HOMEM, TRÊS DAS QUAIS DENOMINAMOS OS TRÊS PLANOS DIMENSIONAIS DE ESPAÇO, E UMA QUARTA É O TEMPO”
(WELLS, H.G – A MÁQUINA DO TEMPO)

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O homem do final do século XIX estava em um momento de transição na forma de se relacionar com o mundo a sua volta. Com a criação do automóvel aprendera a se locomover mais rápido, com o telefone pôde se comunicar entre as distâncias, substituiu o vapor pela eletricidade e vivia todas as transformações advindas do progresso. O homem ampliava o horizonte à sua frente e descobria novas possibilidades graças a esse avanço da ciência. A literatura não demorou a incorporar o impacto de novas descobertas à fértil imaginação de autores que desbravavam novas fronteiras. Na França, Jules Verne (1828 / 1905) nos levou ao redor do mundo, às profundezas submarinas à bordo do Nautilus, mas foi o inglês H.G.Wells (1866 /1946) quem ousou nos levar para o futuro. Há exatos 120 anos, Hebert George Wells publicou, aos 29 anos, seu primeiro livro que serviria de inspiração para diversas outras histórias do gênero, “A Máquina do Tempo” (The Time Machine).

A MAQUINA DO TEMPO ORIGINAL

FILME DE 1960 COM ROD TAYLOR

É verdade que antes de Wells já haviam histórias que falavam em viagens no tempo como “Um Conto de Natal” (A Christmas Carol) de Charles Dickens, em  e “Um Yankee na Corte do Rei Arthur” (A Yankee at King Arthur’s Court” de Mark Twain, em , mas nelas o deslocamento temporal se dava por efeito de mágica ou algum poder sobrenatural, sem qualquer base científica. Foi Wells quem deu à viagem temporal um apuro mais racional ao descrever, embora sem grande detalhes de seu funcionamento, uma ferramenta física capaz de transportar um homem através do corredor infinito das eras. Na história, um homem (cujo nome não sabemos) reúne seus amigos para anunciar sua invenção: uma máquina capaz de se deslocar não pelo espaço (através das três dimensões conhecidas) , mas através do tempo. Claro que seus amigos o recebem com ceticismo, apesar do brilhantismo de suas teorias. Decidido a provar seu intento, o homem se senta na poltrona diante do aparentemente simples painel de sua máquina, composto de duas alavancas e um cronômetro, e desaparece por uma semana. Ao retornar diante do olhar preocupado de seus amigos, ele narra sua incrível jornada ao ano 802.701, um futuro longínquo em que a humanidade foi resumida a duas raças: Os Elois, de porte pequeno e feições belas e os Morlocks, criaturas disformes e de hábitos canibalescos que vivem nos subterrâneos e se alimentam dos Elois. Estes são completamente indefesos e levam uma vida contemplativa e passiva. O viajante se revolta com os descendentes da raça humana e a total falta de perspectiva de evolução seja natural ou social.

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VERSÃO DE 2003 COM GUY RITCHIE

Apesar do impacto de tentar alertar os leitores do futuro sombrio ao qual a raça humana pode se condenar, H.G.Wells usou da ficção científica como metáfora para retratar as contradições da era vitoriana: O abismo entre burguesia e proletariado observado com a Revolução Industrial, a luta de classes preconizada pelas teorias marxistas, a evolução das espécies de Darwin formam um conteúdo de sub-leitura em “A Máquina do Tempo”, bem como em outras obras do autor, ecos de sua visão apurada capaz de questionar o presente falando do que está por vir. Wells usou do artifício da viagem ao futuro para tecer sua visão crítica de um processo de industrialização selvagem que ignora a condição humana.

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INSPIRAÇÃO PARA O FUTURO. É bem provável que H.G.Wells não tenha previsto que seu romance seria precursor das histórias sobre viagem no tempo, praticamente um sub´gênero dentro da literatura de ficção científica, da qual ele e o francês Jules Verne são os pais. Diversos autores ao longo do século passado criaram histórias desse mote. O renomado Isaac Azimov, por exemplo, publicou em 1955 “O Fim da Eternidade” (The End of Eternity) sobre uma organização que existe fora do tempo e composta de homens que se auto-denominam “Eternos”, embora não sejam imortais. O romance lida com os paradoxos da viagem temporal à medida que Asimov discorre sobre os perigos de intervenção no passado.  Cinco anos antes, Azimov já havia tratado da viagem no tempo no livro “827 Era Galáctica” (Peeble in the Sky) sobre um velho alfaiate transportado para um futuro em que o planeta está radiativo e é governado por um conselho de anciões que rege o mundo de forma opressora.

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Charlton Heston, Kim Hunter & Roddy McDowell em “O Planeta dos Macacos” de 1968

Uma das obras mais marcantes do gênero foi publicada em 1963, escrita pelo francês Pierre Boulle, entitulada “O Planeta dos Macacos” (La Planète des Singes) , uma obra distópica em que o autor usa do artifício da viagem no tempo para alertar as gerações de que a supremacia do homem no mundo não é eterna. Uma crítica social e uma curiosa análise da evolução darwiana invertida, o livro de Boulle foi adaptado por várias mídias (Tv, cinema, HQs) e continua instigante até hoje. Igualmente instigante é a série de nove livros, escrita pelo autor espanhol J.J.Benitez, “ Operação Cavalo de Tróia” (Caballo de Troya) lançada entre 1984 e 2011 onde um viajante temporal volta ao passado para comprovar a existência de Jesus Cristo. Os mais de 6 milhões de livros vendidos mundialmente parecem mostrar o interesse do público por histórias do tipo, apontando a infinidade de possibilidades narrativas. A norte-americana Audrey Niffenegger publicou em 2003 “A Mulher do Viajante do Tempo” (The Time Traveller’s Wife) sobre uma anomalia genética que faz um homem ricochetear para frente e para trás em seu período de vida. O livro de Niffenegger deixa o tom aventuresco da viagem para fazer um romance carregado de emotividade. O mesmo não pode ser dito do prolífico Stephen King que publicou em 2011 “Novembro de 1963” (11/22/63) em que um homem volta ao passado para evitar o assassinato de Kennedy, provocando uma mudança na linha temporal com graves consequências. O livro de King ganhou diversos prêmios, publicado no Brasil pela Suma de Letras.

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Tunel do Tempo : Série Clássica de Irwin Allen

OUTRAS MÍDIAS.  Viajar no tempo tornou-se o argumento ideal para várias séries de TV. No final da década de 60 houve “O Tunel do Tempo” (The Time Tunnel) sobre dois cientistas americanos que ficam perdidos visitando aleatoriamente diversos períodos históricos. A série, criada por Irwin Allen e estrelada por James Darren e Robert Colbert, foi muito famosa no Brasil mas teve curta duração, com 30 episódios. Melhor sucedida e extremamente inventiva foi no final da ´década de 80 “Contra Tempos’ (Quantum Leap) onde um cientista desloca sua consciência para os corpos de diversas pessoas do passado, sem conseguir é claro controlar suas partidas ou chegadas à medida que interfere no curso de vidas. A série recebeu vários prêmios e foi produzida ao longo de 5 temporadas. Séries de antologia aproveitaram bem o tema e contaram histórias bem interessantes como a clássica “Além da Imaginação” (The Twilight Zone) que  transmitiu em Fevereiro de 1960 o episódio “The Last Flight” , roteirizado pelo renomado Richard Matherson. Nele, um piloto da Primeira Guerra Mundial atravessa um portal e chega a uma base aérea americana.  Ainda mais instigante foi o episódio “Soldier” da série de antologia “Quinta Dimensão” (The Outer Limits). Escrita por Harlan Ellison, o episódio mostrava um soldado de uma guerra futurística enviado ao passado da Terra em perseguição a um perigoso inimigo, em uma luta que pode mudar o curso da história. O conto de Ellison guarda uma incrível similaridade com a trama de “O Exterminador do Futuro” (The Terminator) sobre a viagem ao passado para corrigir o futuro, anunciando para Abril de 2011 o dia em que o computador Skynet se torna consciente e ordena o extermínio da vida humana no planeta. Ellison chegou a processar o diretor James Cameron por plágio, o que não impediu o filme de ser tornar um sucesso com várias sequências (a mais recente se chama “Terminator: Genysis” , lançada esse ano nas telas), além de produtos derivados em outras mídias como games, séries de TV e HQs.      A ideia de corrigir, violar ou desviar a linha temporal ainda gerou um roteiro engenhoso pelas mãos de Bob Gale e Robert Zemeckis, que gerou o filme “De Volta Para o Futuro” (Back to the Future) cuja data de 21 de Outubro de 2015 (mostrada no segundo filme) foi recentemente celebrada na mídia internacionalmente. Todas essas histórias explorando criativamente as teorias sobre paradoxos, e de como pode ser desastroso modificar o futuro alterando o passado também serviu na franquia “Star Trek” diversas vezes incluindo o recente reboot dirigido por J.J.Abbrams em 2009. Todas essas datas exploram dramaticamente o recurso temporal como justificativa narrativa para se criar uma grande aventura e encontram um enorme público que viaja junto em cada uma delas, ao menos na imaginação.

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Christopher Lloyd & Michael J.Fox em “De Volta Para o Futuro”

AS ADAPTAÇÕES. O romance de H.G.Wells foi levado às telas duas vezes: Primeiro em 1960, dirigido por George Pal e estrelado por Rod Taylor e Yvette Mimieux. Essa versão de “A Máquina do tempo” (The Time Machine) deu ao viajante um nome (coisa que no livro foi omitido pelo autor) , curiosamente H. George Wells, conforme mostrado, no filme, na placa colocada no painel da máquina. O filme dá a data de 12 de Outubro como a chegada de George no futuro, uma metáfora para a chegada em um novo mundo, já que foi esta a data de chegada de Colombo na América. O filme ganhou na época o Oscar de melhor efeitos especiais, além de ter sido indicado para o Hugo Awards (prêmio dado a obras de fantasia e ficção cientifica). A obra de Wells teve nova adaptação em 2003, dirigido pelo neto do próprio H.G.Wells, Simon Wells. Novas mudanças foram feitas no material original como forma de dinamizá-la para a nova geração: o viajante foi rebatizado de Alexander Hartdegen e sua história pessoal, inexistente no livro de Wells, foi adicionada com um amor trágico para servir de impulso para sua busca pelo tempo. Os vilões, os Morlocks, ganharam a figura de um líder inteligente, interpretado pelo ator Jeremy Irons. Outra adaptação que merece menção é o roteiro, escrito por Nicholas Meyer e dirigido pelo próprio, que imagina uma perseguição de H.G.Wells a Jack o estripador transportando-o da Inglaterra Vitoriana a São Francisco do final da década de 70. O filme entitulado “Um Século em 43 Minutos” (Time After Time) trouxe Malcolm McDowell no papel de H.G. Wells e Mary Steenburgen como seu interesse romântico do futuro, Amy Robbins, nome da segunda esposa do autor de “A Máquina do tempo”, na vida real.

“A possibilidade de viajar no tempo permanece em aberto. Mas não quero apostar nisso. Meu adversário na aposta talvez tenha a vantagem injusta de saber o futuro” (Stephen Hawkings)

A CIÊNCIA & A FICÇÃO. Mas,  afinal de contas, é possível se mover através do tempo ? Conseguiremos um dia vencer as barreiras que limitam nossa existência involuntariamente linear ? Para Isaac Newton o tempo era único e absoluto, sem possibilidade de nos mover para frente ou para trás. Quando Albert Einstein desenvolveu sua teoria da relatividade jogou uma luz sobre o assunto. Se pudéssemos nos mover próximo à velocidade da luz, poderíamos avançar no tempo, mas nunca houve um meio físico, tal qual pensamos em uma máquina, pois nossa engenharia não é avançada o suficiente para isso. De acordo com Einstein, em trabalho publicado originalmente em 1905, se alguém se afastasse do planeta Terra o tempo para ele correria mais devagar que para um observador em nossa superfície. Quando o viajante retornasse para a Terra, seria de fato como se ele tivesse viajado para o futuro. Einstein  refinou as teorias de Newton e Galileu mostrando que a passagem do tempo não é um valor absoluto e imutável. Contudo, nada pode viajar mais rápido que a velocidade da luz, grandeza essa que, se vencida, permitiria o deslocamento temporal. Outro trabalho que enriqueceu as hipóteses em torno do tema foi a noção de “buraco de minhoca”       (em inglês: wormhole) desenvolvida pelo físico norte-americano John Archibald Wheeler em 1957. Este trata-se de uma forma de dobrar o espaço, criando um túnel ou atalho entre dois pontos do espaço-tempo, dois lados da mesma moeda. O que matematicamente se torna provável, no entanto, é um desafio que nossa mecânica e engenharia não conseguem concretizar, ou seja, transportar um individuo para o passado ou para o futuro. As teorias ganharam mais impulso na mídia depois do trabalho do astro-físico inglês Stehen Hawkings em seu livro “Uma breve história do tempo”, publicada originalmente em 1984. Nele, Hawkings divaga sobre essas possibilidades e admite que há vários buracos de minhoca ao nosso redor, ao nível sub-atômico, portanto invisível ao nossos olhos e impossíveis de serem acessados. O físico adianta que é necessário que a ciência e a tecnologia se desenvolvam mais de forma a superar as limitações físicas para se dobrar o espaço-tempo. Ao mesmo tempo, o autor ratifica a impossibilidade de visitar o passado, se referindo à ausência de visitantes vindos do futuro que comprovassem a volta no tempo. Outra barreira aparentemente intransponível para a viagem no tempo é o chamado “paradoxo do vovô”: Se alguém voltasse no tempo e impedisse que seu avô casasse com sua avó, então você não nasceria. Logo, se não nasceu, você não existe e, portanto, não poderia viajar no tempo. A contradição representada pelo pensamento lógico parece apontar que, em vez de viajar para seu passado, você estaria criando uma realidade paralela resultante de sua intervenção no passado, conforme explicado pelo personagem Spock (Zachary Quinto / Leonard Nimoy) no filme “Star Trek” de 2009 e, ainda mais inventivamente no filme “Efeito Borboleta” (The Butterfly Effect) de 2004, onde cada interferência no curso do passado, provoca uma mudança ainda mais drástica e imprevisível, conforme fundamentado pela conhecida teoria do caos e em noções matemáticas desenvolvidas em 1963 por Edward Lorenz, matemático e filósofo norte-americano. Mesmo restrito à imaginação de escritores e sonhadores, a viagem no tempo é ainda tão fascinante hoje quanto foi há 120 anos, quando H.G.Wells lançou seu livro, adiantando em plena era vitoriana que o que está por vir não é fixo, mas sim volátil,  mutável e questionável. Quem sabe assim esse autor possa um dia provar que a mente humana pode visitar e revisitar o que já foi e acrescentar um novo parágrafo a esse artigo de que a ficção de outrora se tornou o fato do presente, reescrevendo o futuro como se fosse um artigo como tal faço.

 

ENPE – PROGRAMA 8 : PLANETA DOS MACACOS

AMIGOS DO BLOG, JÁ CHEGOU MAIS UM PROGRAMA DOS AMIGOS LEONARDO BUSSADORI & ROOSEVELT GARCIA DO “ENPE” (E NO PRÓXIMO EPÍSODIO). CADA PROGRAMA SUPERA O ANTERIOR PELA DIVERSÃO, O CLIMA DESCONTRAÍDO COM O QUAL ELES RELEMBRAM ANTIGAS SÉRIES E DESENHOS DE TV. DESTA VEZ O TEMA DO PROGRAMA É O “PLANETA DOS MACACOS”, A FANTÁSTICA OBRA LITERÁRIA DE PIERRE BOULLE QUE DESDE 1968 NUNCA FOI ESQUECIDO POR HOLLYWOOD. AL´´EM DE DOS 5 FILMES ORIGINAIS, JÁ TEVE UMA MÁ SUCEDIDA REFILMAGEM FEITA POR TIM BURTON E UMA NOVA FRANQUIA QUE JÁ SE ANUNCIA PARA 2017 UM NOVO FILME QUE SERÁ ENTITULADO “WAR OF THE PLANET OF THE APES” (PLANETA DOS MACACOS – A GUERRA). OS AMIGOS ROOSEVELT & LEONARDO RELEMBRAM A SÉRIE DE TV E O DESENHO ANIMADO DA DÉCADA DE 70 QUE NO BRASIL FORAM EXIBIDAS COM RELATIVO SUCESSO NA TV GLOBO, EMBORA NO SEU PAÍS DE ORIGEM AMBAS TENHAM TIDO VIDA CURTA. A HISTÓRIA DESSES BASTIDORES ELES CONTAM AQUI NO PROGRAMA. ASSISTAM.

NOVIDADES

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Foi divulgado pela Fox o título do novo filme da franquia “O Planeta dos Macacos” :  “War of the Planet of the Apes” , ou seja, “Planeta dos Macacos – A Guerra”, previsto para estrear em 29 de Julho de 2016, novamente dirigido por Matt Reeves.

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Primeiras imagens do mais novo filme de 007 foram  divulgadas. Daniel Craig veste a pele de James Bond pela 4ª vez em 007 Spectre. Ainda não dá para dizer nada da história ou de como a cena acima se encaixa no roteiro, o que acirra ainda mais a curiosidade dos fans.