PANTERA NEGRA:A COR DO HEROÍSMO

Na cerimônia de entrega dos Golden Globes deste ano Oprah Winfrey tornou-se a primeira atriz negra agraciada com o prêmio Cecil B DeMille, ocasião que aproveitou para lembrar do impacto da premiação em 1964 quando Sidney Poitier ganhou o Oscar de melhor ator por “Uma Voz nas Sombras”. Era a época da luta pelos direitos civis, um ano depois do histórico discurso “I have a dream” de Martin Luther King, nove anos depois da costureira Rosa Parks ousar dizer não a um ato de segregação racial, e um ano antes do assassinato do ativista Malcom X. Se esses representaram a luta pela igualdade racial no mundo real, faltava um símbolo que trouxesse a questão para o campo da ficção. Coube a Stan Lee e Jack Kirby a criação do Pantera Negra, primeiro super herói das HQs.

pantera negra

          É verdade que antes do Pantera Negra, já existia o Lothar, braço direito do mágico Mandrake (1934) de Lee Falk, mas a imagem era por demais estereotipada. Em 1947 foi publicado a revista “All-Negro comics” com os personagens Ace Harlem e Lion Man, mas esta ficou restrita ao numero um. Em 1954 ainda houve “Waku, Príncipe dos Batu”, da Timely Comics (Antecessora da Marvel), mas poucas histórias do personagem foram publicadas no título “Jungle Tales”. O Pantera Negra quebrou essas barreiras, pois mostrava um homem negro com super poderes e inteligência extraordinária, herdeiro do trono da fictícia nação africana de Wakanda. Sua primeira aparição foi na edição #52 do “Quarteto Fantástico”, de Julho de 1966, na qual somos apresentados ao príncipe T’Challa, um homem culto (foi educado nas melhores escolas da Europa e América) que precisou superar o desejo de vingança quando seu pai, o Rei T’Chaka foi morto pelo vilão Garra Sônica, que planeja se apoderar do valioso metal Vibranium, existente apenas em Wakanda.

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         Dois meses depois da criação do personagem foi fundado o Partido dos Panteras Negras, grupo extremista que por causa 20 anos confrontou a polícia e demais instituições na luta contra atos racistas. Temendo qualquer associação inicial Stan Lee chegou a rebatizar o personagem de “Black Leopard”, mas não demorou muito para reverter para o nome original. Depois de sua aparição inicial, o personagem ingressou nos Vingadores, levando a ganhar o título “Jungle Action featuring The Black Panther” a partir de 1973.

Pantera Negra no Brasil

    Em 1969 Pelé marcou seu milésimo gol pelo Santos derrotando o Vasco no Maracanã marcando 2 a 1. Era um negro alcançando um marco nos esportes, no mesmo ano em que Grande Otelo venceu como melhor ator no Festival de Brasília por seu papel em “Macunaíma”. Em meio a essas conquistas chegou a nossas bancas a revista “Homem de Ferro & Capitão América” #19 trazendo a história “The Claws of the Panther” originalmente publicada em “Tales of Suspense” #98. Foi o primeiro contato do leitor brasileiro com o príncipe T’Challa. Somente em 1974, a clássica história publicada originalmente no título do Quarteto Fantástico chegaria no Brasil na revista do “Homem Aranha” # 66, pela editora Ebal. Muitos anos depois, o personagem ganhou maior destaque no Brasil quando os heróis Marvel começaram a ser publicados pela Editora Abril a partir de “Superaventuras Marvel” #7 (Janeiro 1983). A Princesa Shuri, a irmã do Pantera Negra só seria conhecida a partir de 2005 quando o escritor Reginald Hudlin e o desenhista John Romita Jr assumiram um novo título para o heroi. Nos quadrinhos T’Challa é voltado para a ciência enquanto Suri é mais voltada para as crenças espirituais de seu povo. No filme os papeis foram invertidos fazendo de Shuri uma inventora e levando T’Challa a dimensão espiritual onde se comunica com seu pai falecido. Outro momento marcante do personagem no Brasil é a história do casamento do herói com a Tempestade dos X Men nas páginas de “Marvel Action” #8 (Agosto de 2007). Mais tarde, a Marvel reverteria tudo separando os personagens.

Luke Cage 1

Outros Herois Negros

       Com o caminho aberto pelo Pantera, outros super heróis negros seriam lançados: Em 1969 Sam Wilson, o Falcão tornou-se o parceiro do Capitão América, chegando a substituí-lo recentemente. Em meio a Blackexplotation (série de filmes com elenco e equipe essencialmente com artistas negros) surgiu o icônico detetive Shaft, interpretado por Richard Roundtree em 1971, e revivido por Samuel L.Jackson em 2000. Em 1972 a Marvel publicou “Luke Cage Hero For Hire”, que chegou ao Brasil um ano depois pela editora Górrion. Nesta ocasião, enquanto Luke Cage tinha o poder de ser incrivelmente forte e de pele indestrutível, na vida real o boxeador Muhammed Ali suportou 12 assaltos com o maxilar quebrado em luta contra Ken Norton. Em 1979, a DC Comics chegou a publicar a icônica história “Superman Vs Muhammed Ali”. A mesma editora contribuiu com dois personagens de peso: Em 1972 surgiu John Stewart o primeiro Lanterna Verde negro (extremamente popular na animação da “Liga da Justiça”) e em 1977 surgiu Raio Negro que viria mais tarde a ingressar na Liga da Justiça. Entre as heroínas, a Marvel tinha a mutante Tempestade (1975) e a rival DC tinha Vixen (1978) capaz de mimetizar as habilidades de vários animais. Nos anos 80 estrearam a “Capitã Marvel” (1982) e Cyborg (1980) que originalmente fazia parte dos Titãs, e depois foi reformulado para a Liga da Justiça. Um dos personagens mais populares nos anos 90 foi o “Super Choque” (Static), criado pelo roteirista Dwayne McDuffie em 1993, e que chegou a ter uma animação de sucesso na TV. McDuffie juntou-se a vários artistas afro-americanos e criou um universo de personagens negros na editora Milestone.

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          Os quadrinhos contribuíram com uma respeitosa representação étnica, mas devemos nos lembrar que o meio reflete os esforços de artistas desbravadores como a atriz Hattie MCDaniel que foi a primeira negra a ganhar um Oscar (atriz coadjuvante) em 1939 por “E O Vento Levou”, a gravadora Motown quer abriu espaço para artistas como Michael Jackson, Isaac Hayes, Marvin Gaye, ou em tempos mais recentes atores como Samuel L.Jackson, Morgan Freeman, Viola Davis, Idris Elba, Whopi Goldberg, Halle Berry, Denzel Washington entre outros. Sua voz e a nossa são uma só, a de nos lembrar que seja na ficção ou na vida real somos iguais, humanos, e precisamos ser super heróis para vencer o racismo e fazer todo o mundo lembrar que se ébano ou marfim, o equilíbrio real é conviver com as diferenças.

CLÁSSICO REVISITADO : AO MESTRE COM CARINHO – 50 ANOS

Este texto é dedicado ao meu amigo Professor Antonio Carlos Gomes de Mattos, meus colegas de trabalho que sempre apoiam minhas pretensões jornalísticas, meus ex-professores e especial o falecido amigo Altair Monteiro dos Santos. Aos meus mestres  … com  carinho.  

 

                Aproveitando o clima da volta às aulas, lembro da figura do professor no cinema, já mostrada em filmes maravilhosos como Sociedade dos Poetas Mortos”, “O Preço do Desafio”, “Escritores da Liberdade”, e – em especial – o clássico “Ao Mestre Com Carinho” (To sir with Love) que completa esse ano 50 anos de seu lançamento. O filme, escrito e dirigido por James Clavell, é parcialmente baseado em fatos reais, no caso as experiências vividas por E.R. Braithwaite (1912 – 2016), falecido em dezembro passado. Eustace Edward Ricardo Braithwaite deu baixa na força aérea, pela qual foi piloto na segunda guerra, e matriculou-se na Universidade de Cambridge, alcançando um doutorado em física. Em seguida, Braithwaite foi lecionar em uma escola do East End Londrino. Sua experiência docente, ele registrou em um livro auto-biográfico publicado em 1959. O livro foi devidamente elogiado e premiado, chegando à adaptação para o cinema filmada sete anos depois trazendo Sidney Poitier. Seu personagem foi rebatizado de Mark Tackery, um engenheiro desempregado que aceita um posto como professor na North Quay, uma escola no subúrbio operário inglês que recebera alunos indesejáveis, os rejeitados socialmente. Tackery aceita o emprego como forma temporária enquanto não é chamado por um grande empresa.

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          Na escola, Tackery é recebido com hostilidade pelo alunos liderados por Denham (Christian Roberts) e Pamela Dare (Judy Geeson) que rejeitam qualquer tentativa do professor de lhes ensinar. O que se segue é um cabo de guerra entre o professor e os demais alunos: Potter (Christopher Chitel), Williams (Michael Des Barres) e a carismática Barbara Pegg (Lulu). Gradativamente, Tackery conquista a atenção a medida que transforma suas aulas em lições de vida, levando os alunos a passeios no museu, conversando com eles sobre seus medos e esperanças, e ensinando – os a ter respeito próprio ainda que a realidade social e familiar de cada um seja desfavorável. Mesmo o brigão Denham acaba se rendendo à humanidade e boa vontade de Tackery.

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        O filme demorou quase um ano para ser lançado pelo estúdio da Columbia, devido ao seu conteúdo anti-racial em plena época de luta pela igualdade dos direitos civis nos Estados Unidos. Martin Luther King era então a figura real que sintetizava essa luta. Em 1963 sua marcha pela igualdade culminou com o clássico discurso “I Have a Dream” (Eu tenho um sonho), em 1964 King recebera o Nobel da paz, e ainda assim os conflitos raciais ainda eram assustadores. Apesar disso, o filme foi bem recebido, e era um negro afinal quem trazia a luz do conhecimento e a educação para uma escola predominante branca. Esse discurso racial tornou-se o tom principal do filme, principalmente quando a mãe de um aluno de cor morre e os colegas se sentem intimidados a comparecer no funeral devido ao sentimento racista imposto socialmente. É Tackery quem lhes inspira a quebrar com essa atitude estúpida e a demonstrar respeito e amizade.

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          O autor do livro não ficou muito contente com a abordagem do roteiro que considerava sentimental demais, e com a decisão da Columbia de cortar o romance inter racial, contido no livro, entre o professor negro e uma professora branca. No filme, Tackery (Poitier) e Gilliam (Suzy Kendall) compartilham uma afeição platônica, uma forte amizade e nada mais. No rastro do sucesso de livro e filme, Braithwaite realizou trabalho social com crianças de cor, chegou a visitar a África do Sul que na época era regida pelo Aparthaid  escreveu outros livros (romance e contos) chegando a tornar-se consultor e embaixador das Nações Unidas.

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          O filme de Clavell marcou uma geração com sua mensagem de tolerância e igualdade étnica. A sequência final em que os alunos homenageiam Tackery em sua despedida fez muita gente chorar. A canção tema “To sir with love” foi um sucesso nas paradas musicais, cantada pela atriz e cantora, de origem escocesa, Lulu. Em 1996 houve uma sequência “Ao Mestre com Carinho 2” (To sir with love 2), feita para TV, com Sidney Poitier reprisando seu papel, além de rápidas aparições de Lulu e Judy Geeson.

       Lamentável o fato de que no Brasil, nós professores tenhamos perdido tanto do respeito e do valor de outrora. Esqueceram que antes de alguém se tornar médico, engenheiro ou advogado, todos tiveram um professor a lhes guiar pela escuridão da ignorância. Como a letra da canção diz “nos levar do giz ao perfume, escrever no céu com letras garrafais o amor” e, como os Portugueses sabiamente batizaram esse clássico em terras lusitanas “O Ódio que gerou o Amor”. Assim ainda fosse, não haveriam barreiras que não poderíamos derrubar. Graças a Deus, no entanto, pude fazer parte deste abençoado grupo de profissionais que vivem cada dia defendendo a mais nobre das causas: Transmitir o conhecimento. Não é fácil, mas tentamos.= It isn’t easy, but I ‘ll try