ROBIN HOOD -A ORIGEM DO LENDÁRIO HERÓI NA HISTORIA, LITERATURA E FILMES

          Antes dos super-heróis, o cinema trazia aventureiros de capa, máscara, chapéu e espadas. Um desses ícones frequentemente revisitados é ladrão, rebelde, herói e bandido com aventuras foram imortalizadas na literatura, na Tv, no cinema e mesmo nos quadrinhos.

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FRAGMENTO DO POEMA PIERS PLOWMAN

         O personagem, que entrou para a história como aquele que rouba dos ricos para dar aos pobres, nasceu na época dos grandes trovadores que narravam grandes feitos em cantigas passadas de geração a geração, até que o poema Piers Plowman de 1377 tornou-se o primeiro registro escrito da lenda, de autoria de William Langand. A referência ao herói é breve, através de rimas, mas não o suficiente como prova de sua existência. O problema é que as várias versões que se seguiram divergem entre si, e isso dificulta o trabalho de historiadores em determinar o que é fato e o que foi ficção na história de Robert Locksley, um nobre privado de suas terras pelo Príncipe John que usurpou o trono do Rei Ricardo Coração de Leão, enquanto este participava das cruzadas. Na floresta de Sherwood adotou o nome de Robin Hood, sendo este uma referência a um tipo de chapéu com pena.

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BANDEIRA DE NOTTINGHAM

          Nottingham, a cidade inglesa em que se desenrola a história, hoje homenageia o herói com estátua, museu, passeio pelos locais citados pela lenda e até mesmo uma bandeira ostentando a silhueta do herói desde 2010. Na literatura, Alexandre Dumas (autor de “Os Três Mosqueteiros”) escreveu dois volumes intitulados “Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões” (de 1872) e “Robin Hood, o Proscrito” (de 1873).  Dez anos depois o escritor e ilustrador americano Howard Pyle publicou “The Merry Adventures of Robin Hood of Great Renown in Nottinghamshire”, revistando os vários feitos que entraram para o cânone da lenda como a luta de bastões com João Pequeno, o torneio de arco e flecha entre outras. Maid Marian, o interesse romântico do herói, não aparece em nenhuma das cantigas originais da lenda, aparecendo pela primeira vez em versões mais tardias, a partir do século XVII. Em 1820, Robin Hood ainda apareceu como um personagem menor na obra de Sir Walter Scott “Ivanhoe”, considerado primeiro romance histórico do romantismo. Nessa como em outras encarnações, Hood é retratado como elemento fundamental na guerra entre Saxões e Normandos na Inglaterra medieval.

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DOUGLAS FAIRBANKS

            Nos primórdios do cinema, começando em 1908, a lenda foi inicialmente adaptada no curta inglês “Robin Hood & His Merry Men” dirigido por Percy Stow, ainda no período silencioso. Em 1912, uma nova adaptação da lenda foi feita na America intitulada apenas “Robin Hood” com Robert Frazer no papel título. Ainda haveriam mais três versões entre 1912 e 1913, além de uma adaptação de “Ivanhoe” em 1913  até a versão mais famosa do período, de 1922 igualmente chamada “Robin Hood”  e estrelada por Douglas Fairbanks, que no período do cinema mudo incorporou vários heróis similares. Acreditava-se que esta pérola tivesse sido perdida mas foi redescoberto nos anos 60, sendo restaurado em 2009 pelo Museu de Arte Moderna.

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ERROL FLYNN

         No final dos anos 30 a Warner e a MGM disputavam realizar a primeira versão falada, mas foi a Warner quem acabou levando a cabo sua realização. Convidando Douglas Fairbanks Jr para o papel central, mas este não estava disposto a repetir os feitos de seu pai. Foi então que o papel ficou com Errol Flynn, então com 28 anos, vindo do sucesso estrondoso alcançado em fitas como “Capitão Blood” (1935) e “A Carga da Brigada Ligeira” (1936), ambos dirigidos por Michael Curtiz e co-estrelado por Olivia DeHavilland. Curtiz foi chamado pela Warner para concluir as filmagens de “As Aventuras de Robin Hood”, iniciadas por William Keighley cuja lentidão nas filmagens ameaçava inflar orçamento e atrasar seu lançamento que veio a acontecer em maio de 1938.

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SEAN CONNERY & AUDREY HEPBURN “ROBIN & MARIAN”

              Curtiz e Flynn se odiavam e, segundo o renomado site imdb, certa vez Flynn teria se ferido superficialmente quando um dos dublês, em cena de duelo, teria lutado sem a proteção na ponta da espada, isso sob ordens de Curtiz. Os duelos foram exímios e coreografados com perfeição sob a supervisão do especialista Fred Cavens, que também teria treinado Flynn e Basil Rathbone em “Capitão Blood”. Apesar de Flynn ter corpo atlético e de notável elasticidade para o manejo da espada, Rathbone era um espadachim superior em cena. A bilheteria do filme encheu os cofres da Warner e, além do público, a crítica deu sua benção ao filme com 4 indicações ao Oscar, levando 3 (melhor edição, trilha sonora e direção de arte). O elenco de coadjuvantes também brilhou: Claude Rains foi um odioso Príncipe John; Alan Hale repetiu o papel de João Pequeno que também fizera na versão de Fairbanks, e que repetiria anos depois em “O Cavaleiro de Sherwood” (1950) e Olivia DeHavilland estava adorável como  Marian. O filme foi um prodigioso roteiro equilibrando momentos cômicos com pura ação. Nos diálogos do roteiro de Norman Reilly Raine e Selton Miller momentos memoráveis como Robin (Flynn) dizendo “Normandos ou Saxões não importa, o que odeio é a injustiça”. A Warner chegou a cogitar fazer uma sequência, mas acabou não acontecendo.

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ANIMAÇÃO DA DISNEY

            No entanto várias versões renovaram o ícone perante o público como Cornel Wilde, que interpretou Robert de Nottingham em “O Filho de Robin Hood” (The Bandit of Sherwood Forest) de 1946; John Hall em “Prince of Thieves” de 1948, adaptado do livro homônimo de Alexandre Dumas; e John Derek em “O Cavaleiro de Sherwood” (Rogues of Sherwood Forest) de 1950 com Derek também interpretando um descendente direto do lendário herói.

          Entre 1955 e 1960 Richard Greene viveu o herói na TV inglesa em “As Aventuras de Robin Hood” (The Adventures of Robin Hood) tornando-se a primeira série inglesa a fazer sucesso nos Estados Unidos. Em 1976, o ex-007 Sean Connery viveu um Robin Hood maduro ao lado de Audrey Hepburn como Maid Marian em “Robin & Marian”, com os personagens lidando com a inevitável passagem do tempo. Um ano antes o comediante Renato Aragão arrancou deliciosas risadas no filme “Robin Hood O Trapalhão da Floresta”. A Disney também fez sua versão animada personificando o herói como uma raposa em “Robin Hood”, segundo longa animado realizado após a morte de Walt Disney, trazendo em sua versão brasileira as vozes de Claudio Cavalcanti, Orlando Drummond e Juraciara Diacovo. Alguns anos antes o animador Ralph Bakshi realizou a versão futurista “Super Robin Hood” (Rocket Robin Hood), extremamente popular na Tv com 52 episodios.

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KEVIN COSTNER & MORGAN FREEMAN “ROBIN HOOD O PRÍNCIPE DOS LADRÕES”

       Em tempos mais recentes coube a Kevin Costner trazer a lenda para novas gerações em “Robin Hood o Príncipe dos Ladrões” (1991) em uma super produção com trilha pop de Bryam Addams. O efeito da câmera na flecha reproduzindo a visão do disparo desta causou sensação entre o público e o destacou de outra produção parecida lançada na mesma época chamada “Robin Hood o Heroi dos Ladrões” com Patrick Bergin e Uma Thurman nos papeis centrais. Ainda é digno de nota a parodia de Mel Brooks “A Louca História de Robin Hood” (1993) com Cary Elwes e “Robin Hood” (2010) com Russell Crowe e Cate Blanchet dirigido por Ridley Scott.

         Robin Hood também foi a fonte de inspiração para Mort Weisinger criar o herói das hqs “Arqueiro Verde” em 1941, que originou a série de sucesso “Arrow” que já está em sua sétima temporada. Tamanha popularidade mostra que o mito sobrevive a várias reinterpretações e que não reste dúvida de que Taron Egerton não será o último a apontar aquela flecha no coração dos amantes da aventura pois esse alvo continua na mira dos que se identificam com um rebelde que decide se erguer contra as injustiças de seu tempo. Nada mais atual!

GALERIA DE ESTRELAS : O CENTENÁRIO DE OLIVIA DE HAVILLAND

Fazer o bem não importando a quem ou sem esperar nada em troca. Se já houve um personagem no cinema que simbolizou sacrifício e dedicação é Melaine Wilkes em “E O Vento Levou”. Sua intérprete, no entanto, foi muito além em sua carreira se tornando uma lenda viva que em 1º de Julho passado completou 100 anos. Parabéns mais do que merecido para Olivia de Havilland.

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Quando nasceu em Tokyo, Japão em 1916, o mundo ainda vivia as agruras da Primeira Guerra Mundial. e o cinema ainda era mudo, permanecendo assim por mais onze anos até que Al Jolson anunciasse que ainda não havíamos ouvido tudo. Com onze anos, Olivia Mary de Havilland vivia com sua mãe e irmã mais nova Joan na California depois que seus pais se divorciaram. Depois de terminar o ensino médio, Olivia se apaixonou pela atuação e estreou no cinema em 1935 com um contrato com o estúdio da Warner Brothers onde filmou o clássico “Capitão Blood” (Captain Blood) ao lado de Errol Flynn, hoje um clássico filme de piratas que na época foi o primeiro filme falado adaptando o então popular autor italiano Rafael Sabatini.

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E O VENTO LEVOU AO LADO DE HATTIE MACDANIEL E VIVIAN LEIGH

Ao lado de Flynn, Livvie, como era conhecida também fez mais oito filmes incluindo filmes como “A Carga da Brigada Ligeira” (The Charge of the Light Brigade) em 1936 e “As Aventuras de Robin Hood” (The Adventures of Robin Hood) de 1938, neste último interpretando Maid Marian, a heroína romântica, papel que marcaria toda essa primeira fase de sua carreira, chegando ao ápice em 1939 como foi emprestada a MGM para o papel de Melaine Wilkes, contracenando com Clark Gable e Vivian Leigh em “O Vento Levou” (Gone With the Wind). Conseguiu então sua primeira indicação ao Oscar como atriz coadjuvante, prêmio que perdeu para Hattie MacDaniel, sua colega de elenco em “E O Vento Levou”. Seu um metro e sessenta e três e traços suaves do rosto a tornava o tipo ideal para o papel de moçinha vulnerável, namoradinha da América. Em 1941, foi indicada pela segunda vez pelo papel de Emmy Brown em “A Porta de Ouro” (Hold Back the Dawn) , mas perdeu novamente, e desta vez, para sua irmã mais nova, a atriz Joan Fontaine de “Suspeita” (Suspicion). O resultado foi demais para Olivia que nunca teve um relacionamento amigável com Joan, e a estatueta dourada se tornou a gota final entre as duas.

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O OSCAR AFINAL

A atriz, contudo, queria muito mais,e começou a pressionar a Warner para obter papéis mais desafiadores. Como retaliação, o estúdio a suspendeu afastando-a de qualquer filme que quisesse fazer. Era a época do “star system”, no qual os estúdios se auto entitulavam donos dos atores e Olivia sofreu todos os revezes possíveis, ao ponto de mesmo com o contrato chegando ao final ver a Warner exigindo que ela indenizasse o estúdio que alegava ter sido prejudicado pela suspensão da atriz. Olivia foi até a justiça e ganhou o processo abrindo, em 1944, o precedente conhecido como “A Decisão de Havilland”, que reduziu o poder dos estúdios sobre os astros.

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AO LADO DE ERROL FLYNN EM AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD

O Oscar tão desejado eventualmente veio em 1947, aos 30 anos,  pelo papel de uma mãe solteira levada a desistir de seu filho no melodrama “Só Resta Uma Lágrima” (To Each His Own), uma atuação densa e sofrida que mostrava que ela podia ir muito além da imagem de delicada que transmitia. Repetiu o feito em 1950 no papel de herdeira enganada em “Tarde Demais” (The Heiress) contracenando com Montgomery Cliff. Livvie mudou-se para Paris na metade dos anos 50, mas seguiu sua carreira, trabalhando na Tv ou filmes como “Aeroporto 77” (Airport 77) e “O Enxame” (The Swarm) em 1978 já uma senhora de idade em papeis menores longe dos grandes desafios que no passado marcaram sua carreira. Aposentou-se em 1988, mas antes disso já havia ganhado o Globo de Ouro pelo filme de TV “Anastasia: The Mystery of Ana”, ganhou sua estrela na Calçada da Fama em 1960, e tornou-se a primeira mulher a ser presidente do Festival de Cannes. Já se recusara a dar depoimento sobre ser a única sobrevivente do elenco do clássico “E O Vento Levou” (Gone with the Wind) mas já aceitou ser homenageada pelo conjunto de sua obra, uma carreira admirável que chega a mais uma marca impressionante de talento e determinação. Parabéns, lenda viva !!!

ESTREIAS DA SEMANA : 10 DE JUNHO

TRUQUE DE MESTRE: o 2º ATO (Now you see me: The Second Act. EUA 2016. Dir: Jon M.Chu. Com Mark Ruffalo, Jesse Eisenberg, Lizzy Caplan, Woody Harrelson, Dave Franco,Michael Caine, Morgan Freeman, Daniel Radcliff. Aventura.

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Confesso que sou um dos que adoraram o filme original. Era surpreendente como um grupo de mágicos agia como modernos robin hoods, ludibriando polícia e público como em um perfeito truque de ilusionismo. Apesar de um grau de exagero, a química entre os quatro cavaleiros e, incluindo,  os coadjuvantes valorizavam a trama. A bilheteria  milionária assegurou essa sequência. Sai o diretor Louis Leterrier (que continua como produtor) e entra Jon M.Chou (G.I.Joe Retaliação) que trabalha em uma trama de  vingança pelas ações dos quatro mágicos no filme anterior. Enquanto que no filme anterior o passado deles não era explorado já que se centrava na figura de Dylan Rhodes, o perseguidor que se revela ao final como algo mais, o grande truque da história. Nesse segundo ato, os quadtro cavaleiros granham um passado e um novo antagonista na figura de Daniel Radcliffe, o Harry Potter, escolha irônica mas agradável para um filme sobre ilusionistas. Como sempre há aqueles que vão preferir o primeiro filme e aqueles que gostarão das novidades dessa sequência, que perdeu a atriz Isla Fisher (a Henley Reeves) que estava grávida e foi substituida por um novo personagem feminino, papel de Lizzy Caplan. Não vejo grande coisa em Jesse Eisenberg, mas seu papel tem relevância e o ator fica melhor como o mágico auto confiante do que como super vilão no recente “Batman vs Superman”. De qualquer forma, mesmo que não supere o primeiro, é uam aventura empolgante e bem indicada para o fim de semana, além de um bom aquecimento para um terceiro filme prometido para breve.

INVOCAÇÃO DO MAL 2 (The Conjuring 2) EUA 2016. Dir:James Wan. Com Patrick Wilson, Vera Farmiga, Gioachinno Cuffaro. Terror.

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Outra sequência de um filme se sucesso a estreiar nesse fim de semana. Podemos considerar James Wan (diretor do vindouro filme do Aquaman) o mestre do terror dessa geração. Tendo assistido “Sobrenatural” (Insidious) e o primeiro “Invocação do mal” (The Conjuring) vejo que Wan consegue conduzir a história para além do susto fácil e gratuito. Nesse segundo filme o casal Warren viaja para a Inglaterra para investigar outro caso de casa mal assombrada. Igualmente basaeada em fatos reais, a mansão inglesa visitada pelos Warren foi foco de investigação pelos fenômenos sobrenaturais manifestados. Claro que cinema é cinema, e muita coisa é inventado em cima do fato para tornar tudo um espetáculo digno do ingresso e de um gênero que já foi mais inventivo.