ALADDIN – MAIS QUE MIL & UMA NOITES

aladim animação

TEXTO DE AGATHA MATTOS DE CARVALHO SANTOS & ADILSON DE CARVALHO SANTOS

É COM MUITO ORGULHO QUE PUBLICO ABAIXO O PRIMEIRO ARTIGO ESCRITO A QUATRO MÃOS, COM A COLABORAÇÃO DE MINHA FILHA AGATHA. NÃO A TOA O TEMA DO FILME É A MÁGICA, AFINAL DE CONTAS ELA REALIZA MÁGICAS EM MINHA VIDA.

        “Dez mil anos ali dentro te deixam com um terrível torcicolo”, foi com essa frase bem irônica que um gênio azul se apresenta na fantástica animação da Disney de 1992. Um triunfo dirigido por John Musker e Ron Clements com auxilio de um time de animadores e técnicos que mesclaram as técnicas tradicionais do gênero com o melhor em computação gráfica disponível então. O apelo dessa história atravessa gerações, fixa em nosso imaginário valores de amor, lealdade e bravura como nas palavras de uma criança  :

      “A história de Aladim surgiu na antiga Pérsia mostrando um rapaz humilde que se apaixona pela princesa Jasmine, mas eles não podiam ficar juntos porque Jasmine era filha do Sultão, rica, e Aladim era plebeu. Ele encontra uma lâmpada mágica que trazia um gênio capaz de realizar três desejos. Assim, Aladim chama a atenção do Sultão, enfrenta o malvado Jafar e conquista o coração de Jasmine. Aladim é jovem e corajoso pois enfrenta todos os perigos da caverna das maravilhas, e ainda os planos do maligno Jafar para se apossar do reino. Jasmine não tinha liberdade para escolher seu destino, mas mesmo que triste não se permite ter medo de Jafar. O gênio é piadista, falante, divertido e como Aladim e Jasmine, também tem um sonho, a sua liberdade. Juntos esse trio vive mil e uma aventuras e, assim, é o melhor filme da Disney com melodia emocionante. Muito legal a mensagem de que precisamos acreditar em nossos sonhos, nossos desejos, mesmo não tendo na vida real um gênio de verdade ao nosso lado”.

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ANIMAÇÃO E LIVE ACTION

          Pois esta história compõe uma coletânea que remonta tempos imemoriais levadas ao ocidente pelo francês Antoine Galland por volta de 1704. Este reuniu diversas histórias atribuídas à figura da Rainha Sherazade, esposa do rei Shariar que matava todas as mulheres com quem casava desde que fora traído por sua primeira esposa. Ao casar-se com o rei, Sherazade passou a contar-lhe uma série de histórias (dentre elas Ali Babá e os 40 ladrões, Simbad o marujo entre outras) cuja inventividade e desenrolar mantiveram o rei entretido por mil e uma noites, ao final dos quais o rei abandonou sua sede de matança. Sherazade tornou-se um ícone como poder feminino já que usou o poder de suas palavras para mudar um reino. Sua façanha é mencionada em manuscritos datados do século IX e em diversas variações literárias reunindo contos folclóricos provenientes da Índia, do Oriente Médio e outras regiões próximas. A própria história original de Aladim se passa na China, e muitos historiadores acreditam que Galland modificou e acrescentou vários elementos por conta própria.

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O ALADDIN DO CINEMA MUDO COM ATORES INFANTIS

            A reconstrução do conto em uma cidade árabe já aparece em “Aladdin and the magical lamp”, adaptação de 1917. Nela, assim como no conto, a princesa não se chama Jasmine, mas Badr al-badur, e tanto ela quanto Aladim são interpretados por crianças. Em 1924, uma variação do mesmo conto das mil e uma noites gerou “O Ladrão de Bagda” (The Thief of Bagda) veículo para o estrelato de Douglas Fairbanks que impressionou as plateias do passado ao levitar sobre o tapete mágico. Em 1940, o mesmo foi refilmado com o ator indiano Sabu no papel do ladrão Abu que substitui Aladim como o bravo herói a desafiar o grão-vizir Jafar. O filme ganhou três Oscars: Melhor fotografia, direção de arte e efeitos especiais, estes de fato triunfantes ao mostrar Rex Ingram no papel do gênio. Em 1945, a Columbia Pictures realizou uma versão ainda mais livre do conto em “Aladim & A Princesa de Bagda” (A Thousand & One Nights) fazendo de Aladim um cantor sedutor que se apaixona pela princesa Armina (Adele Jergens). Entre as liberdades tomadas, o gênio é uma mulher (Evelyn Keyes) e Aladim ganha a companhia de um amigo trambiqueiro, Abdullah, interpretado por Phil Silvers, comediante de língua ferina extremamente popular nos anos 40 e 50. Silvers faz um personagem descolado e anacrônico portando óculos que ainda não tinham sido inventados e disparando a todo momento o irônico comentário de que nasceu mais de 1000 anos antes de seu tempo. Essa versão acabou se tornando uma pérola da antiga Hollywood.

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NA VERSÃO DE 1945 O GÊNIO É A ATRIZ EVELYN KEYES MAS É O COMEDIANTE PHIL SILVERS QUEM ROUBA A CENA COM SEU HUMOR FALASTRÃO

                Ainda tivemos uma versão brasileira da lenda estrelada por Renato Aragão e Dedé Santana em 1974 e dirigido pelo saudoso J.B Tanko. Entitulada “Aladim & A Lâmpada Maravilhosa”, o filme foi gravado no Rio de Janeiro e São Paulo e alcançou uma das dez maiores bilheterias nacionais. Outra versão livre intitulada simplesmente foi “Aladdin” de 1986 que teve Bud Spencer (da hoje esquecida dupla Trinity) no papel do gênio e com a ação transferida de Badga para a Miami oitentista.

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RENATO ARAGÃO, DEDÉ SANTANA & MONIQUE LAFOND NA VERSÃO BRASILEIRA DE ALADDIN

               Foi, no entanto, a versão de Disney de 1992 que se beneficiou do talento de um dos astros mais queridos do cinema americano, o ator Robin Williams, que roubou a cena no papel do gênio. A presença de Williams, maior que a tela, fez do gênio um dos pontos mais altos da animação, improvisando a maior parte de suas falas. Ainda que o público brasileiro tenha ouvido a excelente dublagem de Marcio Simões para o gênio, a personalidade histriônica de Robin Williams é contagiante. O ator, infelizmente, teve problemas posteriores com a Disney devido ao uso de sua imagem no personagem, mas é inegável que os animadores Ward Kimball e Freddie Moore souberam explorar a figura de Williams adaptando seu talento com as cores e formas múltiplas que o gênio assume ao longo da história. Williams, falecido em 2014, deixou um enorme legado com sua capacidade de extrair emoção e risadas com sua presença em cena, e o gênio é um de seus maiores feitos. Para o desenho de Aladdin, os animadores usaram o rosto de Tom Cruise como inspiração e acrescentaram os trejeitos do então, igualmente popular, Michael J.Fox (De Volta Para o Futuro). O resultado, além de bilheteria milionária, foi a conquista do Oscar de melhor trilha sonora, e de melhor canção para “A Whole New World” .

Robin Williams dubla genio

ROBIN WILLIAMS O GÊNIO QUE FEZ UM GÊNIO

              A refilmagem que traz Will Smith no papel do gênio mostra a grande mágica dessa história que, há gerações, vem nos divertindo com uma mistura de ação, humor e emoção pois todos se sentem atraídos por histórias que exploram grandes desafios, lugares fantásticos perdidos no tempo e no espaço mas encontrados no imaginário popular, um lugar ideal onde a mágica nunca deixou de existir e tampouco ficou limitada a três desejos. Como nas palavras de Robin Williams, O gênio que fez UM gênio, “Sou história, não sou mitológico, não importa… ei sou livre !!!” Livre com o poder do talento e de uma imaginação que atravessa bem mais do que mil e uma noites.

ESTREIAS DA SEMANA: 4 DE JANEIRO DE 2018

JUMANJI: BEM VINDO À SELVA

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(Jumanji: Welcome to the Jungle) EUA 2018. Dir: Jake Kasdan. Com Dwayne Johnson, Jack Black, Kevin Hart, Karen Gilian. Aventura.

Primeiro permitam-me expressar meu amor pelo filme de 1995, e por Robin Williams, astro do filme original. Com relação a essa mania de Hollywood revisitar antigos sucessos para recriar uma franquia, na maioria das vezes resulta em filmes fracos demais, destituídos da magia que marcou o primeiro filme. Assim foi com “Ghostbusters”, “Robocop” entre outros. No caso de “Jumanji: Bem Vindo à Selva” temos um filme divertido que consegue ser uma sequência digna, criando personalidade própria ao dividir o protagonismo entre quatro ótimos personagens: O jovem nerd Spencer (Alex Wolff) vira o herculeo Dr.Smolder Bravestone (Dwayne Johnson), a jovem cdf Martha (Morgan Turner) vira a corajosa Ruby (Karen Gillian, a Nebulosa de “Guardiões da Galaxia”), o atleta Anthony vira o covardão Moose (Kevin Hart) e a patricinha mimadinha Bethany (Madison Iseman) ganha os contornos rechonchudos de Jack Black. Cada personagem veste a figura de um avatar, cada um tem seu brilho, seu tempo em cena em meio a movimentadas cenas de ação. O diretor, de 43 anos,  é filho de Lawrence Kasdan, roteirista dos filmes de Indiana Jones, e diretor de filmes como “Silverado” (1985) e “Corpos Ardentes” (1981). O ritmo que este imprime explora bem o humor e a ação, como era no filme de 1995, mostrando como é possível recriar algo que funcionou antes e reapresentá-lo para as novas gerações, sem descaracterizar ou negar o que era. O novo filme faz uma ponte com o original logo no começo quando o jogo de tabuleiro ressurge no mesmo lugar em que foi deixado e evolui para se tornar um video game. A história do jogo mágico vem na verdade da literatura, do livro escrito por Chris Van Allsburg e lançado em 1981, e que ganhou a sequência “Zathura”, publicado em 2002, e também adaptado para o cinema. Ainda houve uma série animada feita para a TV em 1996, mas o que marcou muitos mesmo foi o filme de Robin Williams, a quem essa sequência é dedicado e que nos fez ver que crescer é chato se não cultivarmos a nossa criança interior.

VIVA – A VIDA É UMA FESTA

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(Coco) EUA 2017. Dir: Adrian Molina, Lee Unkrich. Vozes: Alanna Ubach, Gael Garcia Bernal, Benjamin Bratt. Animação.

O menino Miguel desagrada sua familia de sapateiros pois sonha em ser cantor, mesmo sabendo que no passado seu bisavô abandonou a esposa para ser cantor. Por meio de uma canção mágica, ele e seu cão vão parar na terra dos mortos. A Disney-Pixar é feliz em abordar a cultura mexicana (com direito à menção à artista Frida Kahlo) e espiritualidade de uma forma admirável, sem se render à visão maniqueísta de bem e mal, céu e inferno. Miguel descobre que a terra dos mortos não é um lugar triste, faz amizade com um esqueleto, encontra com os espírito de seu ídolo (o cantor Ernesto de la Cruz) e até mesmo de seus familiares falecidos. Sua viagem, no entanto, o leva ao seu sonho de mostrar a sua familia o quanto a música é importante. Indicado ao Globo de Ouro de melhor filme de animação e melhor canção (Remember me), essa nova produção da Disney-Pixar é dirigida pelo mesmo responsável por Toy Story 3. Apesar da aparente semelhança com “Festa no Céu” (The Book of Life), temos uma agradável animação para as férias, guardando a curiosidade de tratar de uma tradição da cultura mexicana. Ainda a tempo: O Brasil é o unico país em que o nome do filme sofreu alteração do original “Coco” para o nada criativo título.

CLÁSSICO REVISITADO : AO MESTRE COM CARINHO – 50 ANOS

Este texto é dedicado ao meu amigo Professor Antonio Carlos Gomes de Mattos, meus colegas de trabalho que sempre apoiam minhas pretensões jornalísticas, meus ex-professores e especial o falecido amigo Altair Monteiro dos Santos. Aos meus mestres  … com  carinho.  

 

                Aproveitando o clima da volta às aulas, lembro da figura do professor no cinema, já mostrada em filmes maravilhosos como Sociedade dos Poetas Mortos”, “O Preço do Desafio”, “Escritores da Liberdade”, e – em especial – o clássico “Ao Mestre Com Carinho” (To sir with Love) que completa esse ano 50 anos de seu lançamento. O filme, escrito e dirigido por James Clavell, é parcialmente baseado em fatos reais, no caso as experiências vividas por E.R. Braithwaite (1912 – 2016), falecido em dezembro passado. Eustace Edward Ricardo Braithwaite deu baixa na força aérea, pela qual foi piloto na segunda guerra, e matriculou-se na Universidade de Cambridge, alcançando um doutorado em física. Em seguida, Braithwaite foi lecionar em uma escola do East End Londrino. Sua experiência docente, ele registrou em um livro auto-biográfico publicado em 1959. O livro foi devidamente elogiado e premiado, chegando à adaptação para o cinema filmada sete anos depois trazendo Sidney Poitier. Seu personagem foi rebatizado de Mark Tackery, um engenheiro desempregado que aceita um posto como professor na North Quay, uma escola no subúrbio operário inglês que recebera alunos indesejáveis, os rejeitados socialmente. Tackery aceita o emprego como forma temporária enquanto não é chamado por um grande empresa.

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          Na escola, Tackery é recebido com hostilidade pelo alunos liderados por Denham (Christian Roberts) e Pamela Dare (Judy Geeson) que rejeitam qualquer tentativa do professor de lhes ensinar. O que se segue é um cabo de guerra entre o professor e os demais alunos: Potter (Christopher Chitel), Williams (Michael Des Barres) e a carismática Barbara Pegg (Lulu). Gradativamente, Tackery conquista a atenção a medida que transforma suas aulas em lições de vida, levando os alunos a passeios no museu, conversando com eles sobre seus medos e esperanças, e ensinando – os a ter respeito próprio ainda que a realidade social e familiar de cada um seja desfavorável. Mesmo o brigão Denham acaba se rendendo à humanidade e boa vontade de Tackery.

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        O filme demorou quase um ano para ser lançado pelo estúdio da Columbia, devido ao seu conteúdo anti-racial em plena época de luta pela igualdade dos direitos civis nos Estados Unidos. Martin Luther King era então a figura real que sintetizava essa luta. Em 1963 sua marcha pela igualdade culminou com o clássico discurso “I Have a Dream” (Eu tenho um sonho), em 1964 King recebera o Nobel da paz, e ainda assim os conflitos raciais ainda eram assustadores. Apesar disso, o filme foi bem recebido, e era um negro afinal quem trazia a luz do conhecimento e a educação para uma escola predominante branca. Esse discurso racial tornou-se o tom principal do filme, principalmente quando a mãe de um aluno de cor morre e os colegas se sentem intimidados a comparecer no funeral devido ao sentimento racista imposto socialmente. É Tackery quem lhes inspira a quebrar com essa atitude estúpida e a demonstrar respeito e amizade.

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          O autor do livro não ficou muito contente com a abordagem do roteiro que considerava sentimental demais, e com a decisão da Columbia de cortar o romance inter racial, contido no livro, entre o professor negro e uma professora branca. No filme, Tackery (Poitier) e Gilliam (Suzy Kendall) compartilham uma afeição platônica, uma forte amizade e nada mais. No rastro do sucesso de livro e filme, Braithwaite realizou trabalho social com crianças de cor, chegou a visitar a África do Sul que na época era regida pelo Aparthaid  escreveu outros livros (romance e contos) chegando a tornar-se consultor e embaixador das Nações Unidas.

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          O filme de Clavell marcou uma geração com sua mensagem de tolerância e igualdade étnica. A sequência final em que os alunos homenageiam Tackery em sua despedida fez muita gente chorar. A canção tema “To sir with love” foi um sucesso nas paradas musicais, cantada pela atriz e cantora, de origem escocesa, Lulu. Em 1996 houve uma sequência “Ao Mestre com Carinho 2” (To sir with love 2), feita para TV, com Sidney Poitier reprisando seu papel, além de rápidas aparições de Lulu e Judy Geeson.

       Lamentável o fato de que no Brasil, nós professores tenhamos perdido tanto do respeito e do valor de outrora. Esqueceram que antes de alguém se tornar médico, engenheiro ou advogado, todos tiveram um professor a lhes guiar pela escuridão da ignorância. Como a letra da canção diz “nos levar do giz ao perfume, escrever no céu com letras garrafais o amor” e, como os Portugueses sabiamente batizaram esse clássico em terras lusitanas “O Ódio que gerou o Amor”. Assim ainda fosse, não haveriam barreiras que não poderíamos derrubar. Graças a Deus, no entanto, pude fazer parte deste abençoado grupo de profissionais que vivem cada dia defendendo a mais nobre das causas: Transmitir o conhecimento. Não é fácil, mas tentamos.= It isn’t easy, but I ‘ll try

GALERIA DE ESTRELAS: UM ANO SEM ROBIN WILLIAMS

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Em 1993, quando Steven Spielberg filmava “A Lista de Schindler’ (Schindler’s List), muitas vezes o clima no set de filmagem era deprimente. Para animar elenco e equipe técnica, Spielberg pediu ao amigo Robin Williams que, por telefone, contasse piadas, colocados nos alto falantes do estúdio que instantaneamente ganhava uma nova luz. Assim era Robin McLaurin Wiliams capaz de humor contagiante, envolvente e imprevisível. Foi assim que, no início de sua carreira,  foi escolhido para o papel do alienígena Mork: Williams se apresentou para a entrevista e se sentou de cabeça para baixo. O produtor Gary Marshall, tempos depois, declararia “Williams foi escolhido porque foi o único alienígena que apareceu”.

Robin Williams jovem

São muitas as histórias a serem contadas que dão um lampejo de um dos atores mais amados, da recente história de Hollywood, e para mim um ídolo cuja energia em cena sempre foi maior que nossas debilidades mundanas, ou que os demônios pessoais que Williams carregava dentro de si. Nascido em Chicago, Illinois em 21 de Julho de 1951, filho de uma modelo e um executivo da Ford. Robin Williams deixou a faculdade de ciências políticas para estudar teatro na Julliard School onde ficou amigo de Christopher Reeve (o Superman) , guiado por seu espírito inquieto e uma habilidade de encontrar o humor no cotidiano. Logo após concluir o curso, começou a se apresentar em stand-up comedies em clubes noturnos. Foi nessa fase de sua vida que foi escalado para o papel de Mork, a principio como convidado na série de Tv “Happy Days”, em dois episódios, e em seguida estrelando sua própria série “Mork & Mindy” (1978-1982) ao lado de Pam Dawber. Já mostrava então ser uma força irrefreável de humor pois improvisava em cima do texto o tempo todo, admitindo tempos depois que seguia os passos de seu ídolo, o comediante Jonathan Winters.

MORK & MINDY

MORK & MINDY

Williams era uma energia indomável e imprevisível em cena:  Bebía com o dedo mergulhado no copo, flutuava  e cumprimentava usando os dedos da mãos na horizontal abertos em V (Williams era fã de Star Trek e copiou a saudação orkana da saudação vulcana) e dizendo “Nano Nano”. O sucesso da série e a atuação incontrolável de Williams levaram os produtores a reservar partes dos scripts dos episódios sem nada escrito para que Williams improvisasse. Muitas das vezes era tão inesperado que a atriz Pam Dawber quase não conseguia controlar a risada.

BOM DIA VIETNA

BOM DIA VIETNA

Nos cinemas, Williams estreou sob a batuta de Robert Altman na adaptação de “Popeye” em 1980, massacrada pela crítica e mal recebido pelo público. Transitando entre um filme e outro, Robin ganhou projeção internacional e sua primeira indicação ao Oscar quando interpretou o DJ Adrian Cronauer em “Bom Dia Vietnã” (Good Morning Vietnã) em 1985. Apesar de baseado em fatos reais, o verdadeiro Adrian Cronauer declarou posteriormente que ele tivesse feito metade das coisas que aparecem no filme, ele certamente teria ido a Corte Marcial. O fato é que a personalidade irreverente de Williams se sobrepôs ao papel, o que não é nenhum demérito ao filme dirigido por Barry Levinson que deixou marcada a cena em que o ator toca “What a Wonderful World” de Louis Armstrong. Alguns anos depois, veio a segunda indicação ao Oscar e um dos papeis mais emblemáticos de sua carreira, dirigido por Peter Weir, como o professor John Keating que muda a vida de seus pupilos em “Sociedade dos Poetas Mortos” (Dead Poets Society), um filme que quase chegou a ser dirigido e protagonizado por …. Dustin Hoffman. Mais contido em sua atuação, muito em função do doloroso divórcio que o ator atravessava na época, Williams firmou em nosso imaginário uma figura cativante e romântica, incorporação de seu próprio lema “Carpe Diem”.

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

No inicio da década de 90, ele veio a contracenar com Dustin Hoffman em “Hook – A Volta do Capitão Gancho” (Hook) de Steven Spielberg. Foi o próprio Spielberg quem declarou, na época, que Robin Williams foi o escolhido para o papel de Peter Pan porque possuía um ar de criança. O mesmo fez Coppola que colocou Williams no papel de “Jack”, a história de um menino acometido de uma estranha doença que o fazia envelhecer fisicamente mais rápido. Ainda em 1995, Robin veio em “Jumanji” o papel de Alan Parrish, um menino de 10 anos preso em um jogo de tabuleiro por décadas. Em todos esses papéis Robin parecia encarnar a essência de uma criança que não cresceu, manteve  essa característica sabendo ser convincente e contagiante. O sucesso do ator não foi livre de problemas em sua vida pessoal, já que o uso de álcool e cocaína o levaram a uma crise superada após um período em clínica de desintoxicação. Apesar disso, na frente das câmeras, Robin era a antítese de suas mazelas pessoais, sempre pronto a testar novos desafios: Em 1993, se transvestiu para “Uma Babá Quase Perfeita” (Mrs. Doubtfire) – um de seus maiores sucessos comerciais  agraciado com o Oscar de melhor maquiagem, em 1991 deu vida e sua personalidade histriônica ao gênio da lâmpada na animação da Disney “Alladim”, se conteve mais uma vez em um papel dramático inspirado no Dr.Oliver Sachs  em “Tempo de Despertar” (Awakenings) e ainda encontrou espaço na agenda para fazer papéis menores em filmes dirigidos por Woody Allen (Desconstrunido Harry) e Kenneth Baragah (Hamlet).

UMA BABA QUASE PERFEITA

UMA BABA QUASE PERFEITA

Tanta versatilidade não o livrou de detratores que o acusavam de se repetir muitas vezes como um efeito Mrs.Doubtfire. O ator seguiu em frente:  Não conseguiu viver um vilão dos filmes de Batman, como queria, sendo quase escalado para o papel do Charada; mas conseguiu o papel de robô que quer ser humano na adaptação do conto “O Homem Bicentenário” (Bicentennial Man) de Isaac Azimov, de quem era grande fã. Também teve sucesso na refilmagem de Mike Nichols para “A Gaiola das Loucas” (The Birdcage) fazendo o papel que havia sido de Ugo Tognazzi no filme original. Em 1998, ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante em “Gênio Indomável” (Good Will Hunting), uma atuação mais intimista mas igualmente envolvente. Em 2001, deu uma divertidíssima entrevista para James Lipton no “Inside the Actor’s Studio” onde demonstrou sua tour-de-force como habilidoso one man show disparando piadas na mesma medida que falava de sua vida e carreira, contou inclusive que começou a fazer humor quando criança contando piadas para sua mãe como forma de chamar sua atenção. Seu estilo demolidor e elétrico transformou o programa em um standup comedy.

HOMEM BICENTENARIO

HOMEM BICENTENARIO

No início dos anos 2000 foi a um extremo oposto  vivendo o assassino de “Insomnia” ao lado de Al Pacino com direção de Christopher Nolan e um psicopata em “Retratos de uma Obsessão” (One Hour Photo). Quando seu amigo de juventude Christopher Reeve sofreu o acidente que o deixou tetraplégico (O filho mais velho de Williams chegou a dizer que ambos pareciam irmãos), Robin incorporou o papel que vivera em “Patch Addams – O Amor é contagioso” (1998) entrando no quarto de Chris disfarçado de médico e despejando toda sua comicidade, fazendo Chris rir pela primeira vez. Esse aspecto de sua personalidade era inspirador, pois apesar de enfrentar seus próprios demônios, incluindo se separar de sua segunda esposa em 1999, Robin era uma irrefreável força da natureza disposto sempre a tornar o mundo melhor através de seu senso de humor. Não a toa, Ben Stllier o convidou para o papel de Ted Roosevelt em “Uma Noite no Museu” (A Night At The  Museum) onde roubava a cena constantemente. Apesar de tantos prêmios como Oscar, Golden Globe, Screen Actors Guild, Emmy e até mesmo o Grammy, o ator sofreu quando sua volta a TV na serie “The Crazy Ones”, onde contracenava com Sarah Michelle Gellar, foi cancelada após uma temporada entre 2013 e 2014. Seu estado depressivo  se intensificara muito. Estava casado pela terceira vez com Susan Schneider e tinha ao todo três filhos quando se suicidou em sua casa na California em Agosto de 2014, pouco depois de ter completado 63 anos. Irônico fim se lembramos que o ator protagonizou  o emotivo  “Amor Além da Vida” (What Dreams May Come) que trata do suicídio e da vida após a morte de forma poética, seguindo os preceitos espíiritas. A melhor forma de celebramos seu nome é através de seus filmes, um legado impresionante cujo epitáfio aqui no blog são as palavras abaixo de poema de Henry Thoreau recitado em “Sociedade dos Poertas Mortos”:

AMOR ALEM DA VIDA

AMOR ALEM DA VIDA

“Fui a floresta porque queria viver deliberadamente e sugar toda a essência da vida, … para que quando minha morte chegasse, eu não descobrisse que não vivi”

Com Você Robin, todos fomos à floresta. Descanse em paz, o meu Capitão”