CLÁSSICO REVISITADO: OS 30 ANOS DE “HIGHLANDER”

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QUEM OUSA AMAR PARA SEMPRE ?

QUEM QUER VIVER PARA SEMPRE ?

(Who wants to live forever – Queen)

A imortalidade pode ser um devaneio humano ou um fardo terrível a se carregar através da passagem das eras. O autor Gregory Widen visitou um museu escocês e imaginou como seria se um guerreiro do passado estivesse vivo até hoje. Widen tinha 27 anos e ainda não tinha se graduado na Universidade da California quando escreveu a história que tornou-se sua tese, batizada de “Dark Knight”. Este foi vendido por US$500,000 para a Davis-Panzer Productions, que o adaptou para o cinema vindo a se tornar o filme hoje conhecido como “Highlander – O Guerreiro Imortal”, que esse ano completou 30 anos de seu lançamento original.

Em março de 1986 chegou aos cinemas americanos a história de Connor MacLeod, nascido no século XVI e ainda vivo na Nova York moderna. Membro de um antigo clã escocês, MacLeod é o principal suspeito de várias decapitações ocorridas na cidade. Tais mortes fazem parte dos embates entre a raça dos imortais, destinados a se degladiarem através da eternidade até cumprir a profecia que diz que só deve existir um. O filme foi marcante para a época com sua narrativa de videoclip, cortesia de seu diretor Russel Mulcahy que dirigira vários clips da banda Duran Duran. Mulcahy usou de cortes rápidos e trilha sonora pop marcada pelas canções da banda inglesa Queen. A principio esta faria apenas uma canção para o filme, mas depois de assistir uma cópia inacabada os membros da banda sentiram-se inspirados a compor mais. Assim o guitarrista Brian May fez “”Who wants to live forever ?”, o bateirista Roger Taylor compôs “A Kind of Magic” e Freddy Mercury escreveu “Princes of the Universe”.

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O papel de Connor MacLeod quase ficou com Kurt Russell (mas este preferiu fazer “Os Aventureiros do Bairro Proibido”), Mel Gibson, Richard Gere, Patrick Swayze, Michael Douglas e Marc Singer, entre outros, antes da contratação do ator Christopher Lambert, que apesar de ter nascido em Long island, Nova York, foi educado na Europa para onde se mudou aos dois anos já que seu pai era um diplomata da ONU. Lambert havia feito o papel de Tarzan em “Greystoke” (1984) quando mal falava inglês. Em “Highlander”, o ator já dominava melhor o idioma mas ainda precisou de um fonoaudiólogo para poder disfarçar melhor seu sotaque. No filme, MacLeod é auxiliado por um imortal mais experiente, Edgar Villar Boas Ramirez, interpretado pelo ex 007 Sean Connery. Este filmou suas cenas em uma única semana pois sua agenda estava lotada na ocasião. A atriz Roxanne Hart ficou com o papel de Brenda, o interesse romântico do imortal e o vilão Kurge foi entregue a Clancy Brown, que um ano antes fizera Viktor Frankenstein em “A Prometida” (The Bride). Conta-se que durante as filmagens, Brown não desligava seu personagem e deixava todos no estúdio com medo. Na cena em que duela com o personagem de Sean Connery, Brown teria ferido Connery com a espada inadvertidamente.

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UM SONHO, UMA ALMA, UM PRÊMIO, UM OBJETIVO
UM OLHAR PRECIOSO DO QUE PODERIA SER
ISSO É UM TIPO DE MÁGICA.

(A kind of Magic – Queen)

Há várias diferenças entre o filme e o roteiro originalmente escrito por Widen: No original, MacLeod usa vários tipos de espada e no filme, o herói usa a Katana que pertencia a Ramirez. No texto escrito por Widen os imortais podem ter filhos e MacLeod teve 37 ao todo, mas no filme decidiu-se fazer dos imortais estéreis. A luz emitida pelo corpos dos mortos depois da decapitação também foi criada diretamente para o filme.

O que poucas pessoas sabem é que o filme não foi nenhum sucesso de bilheteria, tendo custado US$ 16 milhões mas só lucrando US$5,900,000 em território americano. Dois fatores ajudaram a popularizar o filme: Primeiro a bilheteria internacional, e depois o sucesso nas videolocadoras que tornavam-se uma fonte relevante para o sucesso de um filme diante do público. Apesar disso a sequência “Highlander II – The Quickening” (1992) foi desastrosa mudando o foco da narrativa e transformando os imortais em alienígenas exilados na terra, o que foi ignorado no terceiro filme “Highlander III – The Sorcerer” (1994). Ao longo da década de 90, o filme foi adaptado para os games, HQs e gerou duas séries de Tv, em uma das quais Christopher Lambert fez participação especial introduzindo outro imortal, seu primo Duncan MacLeod (Adrian Paul). Ambos ainda estrelariam juntos no cinema “Highlander – Endgame” (2000) que serve como epilogo para a série.

Recentemente tem sido divulgado um possível remake, que já teve o nome de Ryan Reynolds (Deadpool) atrelado ao projeto, mas este desistiu e nada de concreto foi anunciado além da certeza de que como um bom imortal, ele há de voltar.

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TRIVIA:

1) Durante as filmagens, Lambert e Connery se deram muito bem e na continuação de 1992 o personagem de Connery teve que ser ressucitado. Os dois atores costumavam se chamar pelo nome de seus personagens ,mesmo quando não estavam filmando.

2) Antes da banda Queen gravar a trilha sonora, Sting, David Bowie e a banda Marillion haviam sido cogitados.

3) Para as sequências de duelo, inspiradas no clássico “Os Duelistas” (1973) de Ridley Scott, as faíscas que saem das espadas foram produzidas ligando fios de baterias nas lâminas, que ao se chocarem tinham o positivo e o negativo se batendo.

4) Christopher Lambert teve aulas de esgrima com o campeão canadense Bobby Anderson.

5) Nick Nolte e Rutger Hauer foram pensados para o papel do vilão Kurgan.

6) A narração do filme foi gravada por Sean Connery no banheiro e enviada à produção já que foi acrescentada depois do fim de suas cenas.

 

 

 

 

 

IAN FLEMING – O ESPIÃO QUE TODOS AMAM

Ian Fleming

Ian Fleming

Fleming, Ian Lancaster Fleming nasceu em Londres, em 28 de Maio de 1908, o segundo filho , dos quatro, do Major Valentine Fleming,  seguiu uma educação conservadora, tendo estudado no Eton College, tradicional escola britânica, onde também estudaram os príncipes William e Harry, atuais herdeiros da coroa britânica. Depois de Eton, Ian entrou para a Real Academia Militar de Sandhurst, mas, contrariando a vontade da mãe, não seguiu a carreira militar e deixou Sandhurst para estudar idiomas na Suíça, aprendendo a falar, fluentemente, o Francês, o Alemão e o Russo, o que foi fundamental mais tarde para os passos que daria até chegar ao seu sucesso editorial. Fleming viveu – ele próprio – as intrigas do período da guerra fria, já que trabalhou para o Serviço de Informações da Marinha Britânica, durante a Segunda Guerra, onde empregou sua incrível habilidade com idiomas. Fleming chegou a alcançar a patente de Capitão-de-Fragata (Commander). Fleming também foi jornalista, tendo trabalhado na agência Reuters, por três anos, e, depois da guerra, chegou à editoria internacional da Kemsley Newspapers, dos mesmos donos do Sunday Times.

Albert Broccoli, Ian Fleming, Sean Connery e Harry Staltzman (Da direita para a esquerda)

Albert Broccoli, Ian Fleming, Sean Connery e Harry Staltzman (Da direita para a esquerda)

Casou-se, em 1952, com Anne Rothermere e, nesse mesmo ano, tiveram seu único filho, Caspar. Nessa ocasião, já com residência fixada na Jamaica, escreveu a primeira aventura de James Bond, em um período de dois meses. Reza a lenda que Fleming teria batizado seu super agente com o nome de um ornitólogo, cujo livro (Birds of the West Indies), favorito de sua  esposa, era mantido na cabeceira da mesma. Contudo, “Dr. No” não foi o primeiro romance do super espião. Bond nasceu nas páginas de “Cassino Royale”, que veio a ser publicado em 1953 e foi o único livro da série não adquirido pelos produtores Harry Saltzman e Albert Broccoli. Este livro,  que teve uma tiragem inicial de 4 mil exemplares, surpreendeu o editor Jonathan Cape quando, em um ano, alcançou a marca de 10 mil exemplares vendidos, levando –é claro- Fleming a escrever outros romances. Fleming, também, escreveu o livro infantil “Chitty Chitty Bang Bang”, dedicado ao seu filho, e que foi adaptado para o cinema em 1968 (O Calhambeque Mágico), com Dick Van Dyke, Sally Ann Howes e Gert Frobe (o intérprete do vilão Auric Goldfinger, da 7ª história de Bond). Lamentavelmente, o filho de Ian Fleming morreria, em 1974, de uma overdose de drogas.

Sean Connery, Luciana Paluzzi e Adolfo Celi.

Sean Connery, Luciana Paluzzi e Adolfo Celi.

Os fãs mais novos de 007 talvez não saibam mas o novo filme do agente secreto (o 24º da série) coroa a volta de elementos literários que eram proibidos aos filmes. Tudo começou em 1959 quando o produtor Kevin McClory propôs uma história original para um filme de James Bond e que se chamaria “James Bond, Secret Agent” com Richard Burton no papel de 007. Um roteiro foi escrito por McClory, Jack Whittingham em conjunto com Fleming, e uma das ideias era que Bond deveria deixar de lado a SMERSH, a agência de contra-espionagem soviética (que aliás era baseada em uma agência real homônima), de forma a desvincular 007 da guerra-fria. McClory e Whittigham pensaram em uma organização apolítica, sem ligação direta com a antiga União Soviética, o que ampliaria o campo de ação das tramas. Assim nasceu a SPECTRE, como um adversário mais genérico em sua natureza, podendo se ajustar em qualquer contexto político global, mas com potencial destrutivo imenso. Seu líder seria o megalomaníaco Ernest Stravos Brofeld, criado para ser o nêmesis de Bond tal qual o professor Moriarty para Sherlock Holmes. Fleming aceitou a colaboração de McClory e Whittingham e interagiu com ambos durante um bom tempo, mas acabou mudando de ideia, assinando com Harry Saltzman e Albert Broccoli para a adaptação de todos os livros escritos por Fleming, deixando de fora do contrato apenas “Cassino Royale”, justamente o primeiro livro escrito por Fleming, e que havia sido adaptado para a Tv britânica em 1954 com Barry Nelson como 007 e Peter Lorre como o vilão Le Chiffre, um operativo da SMERSH.

Telly Savalas, uma das faces de Brofeld

Telly Savalas, uma das faces de Brofeld

Broccoli julgava a história meio parada, sem ação e por isso a ignorou, buscando no 5º livro escrito por Fleming, “Dr.No”, a história para a estreia cinematográfica de 007, ignorando também que o livro fazia menção a eventos ocorridos nos livros anteriores. A estreia de 007 nos cinemas aconteceu em Outubro de 1962 no Reino Unido e, somente sete meses depois nos Estados Unidos. No ano anterior, Fleming, contudo, utilizou as ideias de McClory (a organização SPECTRE substituindo os vilões comunistas e o vilão Brofeld, que foi batizado por Fleming com o sobrenome do pai de um amigo dos tempos de colégio etc…) para a história que passou a se chamar “Thunderball” e que publicou sem dar crédito a McClory e Whittingham.

Sean Connery em "Nunca Mais Outra Vez"

Sean Connery em “Nunca Mais Outra Vez”

A SPECTRE demonstrou-se tão funcional dentro das aventuras de 007 que os filmes de Broccoli passaram a mencioná-la em substituição a SMERSH, mas Brofeld nunca aparece completamente nos filmes, ficando como um manipulador de todos os eventos. Para os fans ele era apenas um vulto com um gato persa no colo (satirizado décadas mais tarde por Mike Myers e seu Dr.Evil) que era feito nos primeiros filmes por Anthony Dawson até que Donald Pleasance, Telly Savalas e Charles Grey vivessem o personagem respectivamente no 5º, 6º e 7º filme da série.

O sucesso de vendas do livro “Thunderball”, com uma tiragem de mais de 50 mil exemplares,  levou Broccoli a adaptá-lo como o quarto filme da série. No Brasil, o livro foi inicialmente batizado de “Operação Relâmpago” e editado pela Civilização Brasileira ainda em 1961, sendo rebatizado a partir de 1965 de “Chantagem Atômica” assim como o filme dirigido por Guy Hamilton. O filme deixaria de fora o passado de Brofeld, explicado no livro e troca o nome de uma das principais assassinas sob suas ordens, Fatima Blush, que no filme tornou-se Fiona, interpretado pela atriz Luciana Paluzzi. Dois anos antes da estreia do filme, um acordo feito fora dos tribunais deu a Fleming os direitos sobre o livro e a McClory o crédito de produtor ( no lugar de Broccoli & Saltzman) e escritor do texto original, além do direito de refilmar a história depois de um período de 10 anos.

Fleming voltou a citar a SPECTRE nos livros escritos na sequência : “O Espião que me Amava” (1962), “A Serviço de Sua Majestade” (1963), e “A Morte no Japão” (You Only Live Twice), mas a saúde do autor havia debilitado muito e o processo judicial movido por McClory lhe garantiu uma indenização de 50 mil libras de indenização. Para Fleming, o desgaste emocional da peleja legal contribuiu para o ataque cardíaco fatal que sofrera em 12 de Agosto de 1964.

James Bond livros

As adaptações de seus livros se seguiram, mas a relação entre McClory e a EON Productions de Albert Broccoli se deteriorou ainda mais com o primeiro vetando qualquer menção a SPECTRE e Brofeld nos filmes que se seguiram após “007 Os Diamantes São Eternos” (Diamonds are Forever)   de 1970, onde Brofeld foi interpretado por Charles Grey. Broccoli, por sua vez, usou de todos os recursos a sua disposição para impugnar os direitos de refilmagem de “Thunderball” concedidos a McClory. Em 1981, como uma resposta a McClory de que 007 era maior que sua contribuição, Broccoli produz “007 Somente Para seus Olhos” (For Your Eyes Only”) onde Bond (Roger Moore) mata Brofeld, sem que seu nome seja mencionado e sem que seu rosto seja visto.

O novo filme: A volta da Spectre

O novo filme: A volta da Spectre

McClory eventualmente conseguiu fazer sua refilmagem em 1984, se associando ao produtor Jack Schwartzman e rebatizando o filme de “Nunca Mais Outra Vez” (Never Say Never Again) trazendo Sean Connery de volta ao personagem e justificando o título escolhido (Connery havia prometido antes nunca mais interpretar Bond) depois que Broccoli conseguiu proibir judicialmente que McClory usasse o nome “James Bond” ou o código famoso 007 no nome de sua versão. Também não poderia usar a célebre sequência em que Bond atira na direção da câmera, nem usar o clássico tema musical de Monty Norman e John Barry. Curiosamente, a EON pictures lançou pouco antes de MacClory seu filme tido como oficial “007 Contra Octopussy” (Octopussy) com Roger Moore que se saiu melhor na bilheteria que a refilmagem de MacClory. Depois de anos sem ouvir falar da SPECTRE ou Brofeld novamente em qualquer filme, todos os fans foram pegos de surpresa quando foi anunciado o nome do novo filme com Daniel Craig, uma vez que MacClory já havia falecido, permitindo a EON Pictures negociar com os herdeiros dele a utilização desses elementos que comprovam a ideia inicial de que Bond deveria estar acima da guerra fria, livre das amarras da contextualização em que foi inicialmente criado, mas ainda a serviço do equilíbrio de forças em um mundo em que, mais de 50 anos depois de sua criação, ainda precisa de 007 para lutar contra as forças do mal.

BOND 13 1/2 : NUNCA MAIS OUTRA VEZ

nunca mais poster

Para entender melhor como um filme de 007 pôde ser feito sem nenhum vinculo com a série oficial é necessário volta ao final dos anos 50, quando o interesse pelos livros de Ian Fleming despertou o interesse de Hollywood.  O produtor irlandês Kevin McClory procurou Fleming com a proposta de desenvolverem juntos uma história então inédita, sem conexão com os livros já editados. O roteiro original seria a primeira produção de cinema com o personagem de James Bond. McClory e Fleming se juntaram com o roteirista Jack Whittigham e criaram o conceito da SPECTRE (Special Executive for Counter-Intelligence Terrorism Revenge & Extortion) – uma organização criminosa internacional oposta ao que representa o MI6 liderada pelo maléfico Ernest Stravos Brofeld. Na história, Largo é o segundo em comando e tem a seu serviço duas belas mulheres: A fatal Fatima Blush, assassina fria e Domino, sua protegida. A ideia de McClory era desconectar os vilões do perfil caricatural representado pela SMERSH nos primeiros livros, que prendia as tramas ao convencionalismo da guerra fria onde a União Soviética era o Império do mal.

Sean Connery & Barbara Carrera

Sean Connery & Barbara Carrera

Contudo, Fleming fechou acordo com Albert Broccoli & Harry Saltzman para adaptar seus livros e abortou o compromisso verbal com McClory. Isso não o impediu de utilizar as ideias desenvolvidas em conjunto com McClory e Whittigham (sem creditá-los) em um novo romance entitulado “Thunderball” publicado em 1961 e adaptado por Broccoli em 1965. McClory entrou com um  processo judicial que levou três anos para se resolver, concluindo com um pagamento de indenização aos co-criadores excluídos por Fleming, os direitos dos personagens por estes idealizados, o credito de produtor associado em “007 Contra a Chantagem Atômica” e a garantia de refilmá-lo depois de 12 anos do lançamento deste. Ao longo das duas décadas seguintes, a relação entre McClory e Broccoli se deteriorou, com diversas negociações frustradas que impediam Broccoli de usar nos filmes de Bond os elementos criados por McClory. Este por sua vez esbarrava em diversos obstáculos para seguir com sua refilmagem, o que só começou a se concretizar quando o produtor Jack Schwartzman, da Warner Brothers, entrou no projeto que deveria se chamar – a princípio – “James Bond of The Secret Service”, mas a EON Pictures impugnou o título por ser muito semelhante a “On Her Majesty’s Secret Service”, filmado em 1969. A EON Pictures conseguiu impor também as seguintes restrições : McClory não poderia usar o nome do personagem no título do filme, nem mesmo o código 007, não poderia também usar a clássica sequência de tiro na direção da câmera empregada no início de todos os filmes de 007. De forma a se distanciar ainda mais, o roteirista contratado por McClory, Lorenzo Semple Jr (o mesmo da série clássica de “Batman”) se baseou no roteiro original de McClory,  e não no roteiro filmado em 1965 para “007 Contra a Chantagem Atômica”.

Bond encontra o futuro Johnny English

Bond encontra o futuro Johnny English

Apesar de pensarem primeiro em George Lazenby para voltar ao papel de James Bond, os produtores conseguiram o impossível: Convenceram Sean Connery a voltar ao papel, que dissera doze anos antes, que jamais interpretaria novamente. Connery aceitou com a condição de que seu Bond deveria ter a mesma idade que ele (na época 52 anos) e por isso, o filme começa com seu personagem aposentado do serviço secreto, mas tendo que voltar à ativa depois de um atentado contra sua vida. Connery contribuiu com várias ideias para o roteiro e fez diversas sugestões na escalação do elenco como o premiado ator austríaco Klaus Maria Bandauer para o papel de Largo e Max Von Sydow (ator de diversos filmes de Ingmar Begrman) como Brofeld. As filmagens ocorreram em Monte Carlo, no sul da França, em Nassau e na Inglaterra com direção de Irving Keshner (do excelente “O Império Contra Ataca”) depois da recusa de Richard Dooner (Máquina Mortífera, Superman o Filme ) . Na sequência submarina filmada nas Bahamas a equipe passou por perigos reais como o surgimento de tubarões e uma imensa caverna submersa que poderia ameaçar a segurança de elenco e membros da equipe de filmagem. O compositor francês Michel Legrand (duas vezes Oscarizado) ficou responsável pela trilha sonora do filme que veio a ser batizado por sugestão da esposa de Sean Connery como “Never Say Never Again” , em vista da recusa de Connery em voltar ao papel que lhe dera fama e para o qual estava afinal de volta. O elenco ainda traria Rowan Atikinson (o Mr.Bean) em seu primeiro papel no cinema e a ex modelo Kim Basinger (Batman, Los Angeles Cidade Proibida) em um de seus primeiros papéis na telona. Um dos papéis de grande destaque no filme ficou com Barbara Carrera, a atriz nicaraguense que foi uma das modelos mãos bem pagas do mundo recusou o papel de Octopussy para trabalhar com Sean Connery, ficando com o papel da assassina Fatima Blush. Conta-se que a atriz teria dispensado a necessidade de dublê de corpo para filmar as cenas de amor com Connery.

Connery & Kim Basinger

Connery & Kim Basinger

O filme estreou no circuito quatro meses depois de “007 Contra Octopussy”, anunciado como a volta do verdadeiro James Bond, uma batalha de marketing que nunca foi vista, nem mesmo quando a primeira versão de “Cassino Royale” chegou aos cinemas em 1967, na mesma época que “Com 007 Só Se Vive Duas Vezes”, já que o primeiro era praticamente uma paródia. A mídia, em 1983, anunciava como “Bond vs Bond”, um duelo de produções rivais na qual o filme de BRoccoli se saiu melhor, rendendo internacionalmente em torno de $187 milhões contra $163 milhões do filme de McClory. Este chegou aos cinemas brasileiros em 30 de dezembro de 1983, sendo a última vez que os nomes James Bond e Spectre foram usados em uma mesma produção, até agora com o novo filme anunciado com Daniel Craig que retoma esses elementos, finalmente adquiridos pela EON Pictures depois da morte de Kevin McClory em 2006.

BOND 007 – OS DIAMANTES SÃO ETERNOS

DIAMONDS ARE FOREVER

Na virada da década de 60 para 70, Albert Broccoli & Harry Saltzman estavam em um impasse: George Lazenby não era mais opção viável, apesar de ter havido uma tentativa de fazê-lo retornar apesar da rejeição dos fans, já que a bilheteria de “007 A Serviço de Sua Majestade” fora altíssima. Os nomes de Burt Reynolds e Adam West (o Batman do seriado de TV) foram cogitados, mas os produtores conseguiram convencer Sean Connery a retornar uma última vez, com um salário milionário para a época (em torno de $1,25 milhão de dólares).

Com locações em Las Vegas, Londres, Los Angeles e Frankfurt, o 7º filme do agente secreto 007 chegou às salas de exibição do Reino Unido em Dezembro de 1971, e no em Janeiro do ano seguinte no Brasil. A história foi adaptada do 4º livro escrito por Ian Fleming, publicado originalmente em 26 de Março de 1956. A história já começa com Bond confrontado por Brofeld e movido por instinto de vingança pela morte de Tereza no filme anterior. Bond mata Brofeld e volta a Londres onde o MI6 o envia para uma nova missão: Descobrir o que há por trás do contrabando de diamantes. Bond aceita a missão com relutância e desinteresse, trocando de identidade e entrando em contato com uma das contrabandistas, a bela Tiffany Case (Jill St.John, a primeira Bond Girl americana) que acaba ajudando Bond contra Brofeld, ainda vivo e o mentor por trás da construção de um potente canhão laser, criado com os diamantes roubados, e que planeja usar contra os Estados Unidos.

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A adaptação apenas aproveita superficialmente a trama dos diamantes do livro de Fleming já que o vilão do livro é um milionário megalomaníaco nos moldes de Goldfinger. Pensou-se, inclusive, de torná-lo o irmão de Goldfinger em busca de vingança, mas no final o roteiro, assinado por Richard Maibaum e Tom Mankiewics transformou a história em uma sequência dos eventos do filme anterior, embora tudo seja sutilmente abordado. Brofeld justifica seu retorno mostrando a Bond que sempre usa sósias de forma a confundir seus inimigos e escapar ileso. Assim justifica-se inclusive a troca de interpretes dos filmes anteriores. O ator inglês Charles Gray veio a ser o 4º ator a interpretar o vilão que o arqui inimigo de Bond.  Seria a última vez que Brofeld e a Spectre poderiam ser usados abertamente pois Kevin McClory, co-criador destes conseguira proibir judicialmente seu uso por Broccoli, na falta de um acordo que o satisfizesse. O filme foi dirigido por Guy Hamilton, o mesmo diretor de Godlfinger e a canção tema ficou a cargo de Shirley Bassey, também interprete de Goldfinger.

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Jill St John ficou com o papel de Tiffany Case que foi cogitado para Jane Fonda ou Faye Dunaway. O filme teve o orçamento de $ 7,2 milhões de dólares, lucrando seis vezes mais do que custou. Analisando a história revista por mim recentemente, Connery deixa visível seu cansaço e descontentamento com o personagem e o roteiro deixa margem para um excesso de piadinhas para disfarçar as fraquezas do roteiro. Jill St John é bonita, mas não mostra a mesma química que suas antecessoras como Bondgirl. De qualquer forma, o filme abriu a década de 70 para a milionária franquia, mas deixava no ar a pergunta: quem iria ser o substituto de Connery, que deixava bem claro que não continuaria.

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Connery ainda provaria que nunca se deve dizer nunca pois voltaria ao personagem de James Bond mais uma vez, mas isso é outra história para contar daqui a algum tempo.

BOND RETORNA AO BLOG SEMANA QUE VEM COM A ESTREIA DE ROGER MOORE NO PAPEL EM “COM 007 VIVA & DEIXA MORRER”.

BOND 6 – 007 A SERVIÇO DE SUA MAJESTADE

O sexto filme de James Bond tem duas estreias : O diretor Peter Hunt e o sucessor de Sean Connery, o australiano George Lazenby. Ambos a serviço de uma das melhores aventuras de 007, ao contrário do que se convencionou falar. Hunt, era diretor de segunda unidade e montador de todos os filmes anteriores do agente secreto criado por Ian Fleming. A historia foi adaptada do 11º livro de Fleming e mostra Bond salvando a vida de Tracy Draco (Diana Rigg), filha de um chefão do crime internacional, que tenta cometer suicídio. Em gratidão, Marc Draco (Gabrielle Ferzetti) revela a Bond o esconderijo de Brofeld (Telly Savalas) nos Alpes Suiços e, com sua ajuda, descobre que os planos do líder da Spectre apontam para uma arma biológica capaz de eliminar a vida animal e vegetal, obrigando os governos mundiais a se dobrarem a seus pés. Em um desdobramento impensável, Bond se casa com Tracy, mas não há “felizes para sempre” pois Brofeld mata Tracy a sangue frio na frente de Bond. A adaptação segue fielmente o livro de Fleming.

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Até o lançamento de “Cassino Royale” em 2006, “007 A Serviço de Sua Majestade” era o filme mais longo de James Bond (142 minutos) e, ao contrário do que se pensa não foi um fracasso de bilheteria apesar da rejeição do público ao substituto de Connery.  O ex vendedor de carros e ex modelo  George Lazenby, então com 29 anos (o ator mais novo a interpretar o personagem já que Sean Connery tinha 33 anos quando começou) assinou um contrato para vários filmes, mas a rejeição do público não foi a única coisa que abreviou sua carreira no papel. Lazenby não se sentiu à vontade no papel e admitiu em entrevistas concedidas muito tempo depois que achava o papel pouco interessante comparado à produção cinematográfica da época. Se medirmos sua atuação, isento de favoritismo, percebemos que fisicamente seu Bond é convincente, apesar do carisma zero do ator. Também tornou-se notório os desentendimentos entre o novato Lazenby e os produtores. As diferenças envolviam também Lazenby e Rigg, sua co estrela. O próprio diretor muitas vezes se comunicava com Lazenby através de seu assistente.  Contudo, a história se sustenta apesar disso com movimentação frenética equilibrada com o inesperado romance entre Bond e Tracy. O papel de Tracy Draco, a única Bond girl que levou 007 para o altar quase ficou com Brigitte Bardot ou Catherine Deneuve, mas foi Diane Rigg que vinha da série de Tv inglesa “The Avengers” (nada a ver com os Vingadores dos quadrinhos Marvel) quem ficou com o papel e fez uma Bond girl no ponto certo, adequado à trama que se desenrola. Telly Savalas está maravilhosamente odiável como o antagonista, vestindo a pele de um Brofeld mais físico na trama. O ator, que anos mais tarde ganharia a fama na Tv no papel do detetive “Kojak”, da série de TV, se tornou o segundo rosto do vilão nas telas (Anthony Dawson não mostrou o rosto como Brofeld, apenas as mãos e Donald Plesance viveu o personagem de corpo inteiro no filme anterior “Com 007 Só se Vive Duas Vezes” . A luta contra Brofeld, ao final do filme, é eletrizante culminando com uma excelente perseguição na neve.

TELLY SAVALAS COMO BROFELD ANTES DE KOJAK

TELLY SAVALAS COMO BROFELD ANTES DE KOJAK

A trilha da abertura ficou na belíssima voz rouca de Louis Armstrong (mais lembrado pela comovente “What a Wonderful World”). O tema de Armstrong para o filme dá o tom de emotividade e fatalidade ao romance de Bond e Tracy e sua belíssima melodia está entre as melhores da série, sendo a última gravação na voz de Louis Armstrong, que morreu dois anos depois.

TODO O TEMPO DO MUNDO NÃO É O BASTANTE

TODO O TEMPO DO MUNDO NÃO É O BASTANTE

O filme teve um custo estimado em torno de 7 milhões de dólares, rendendo surpreendentemente quatro vezes mais internacionalmente. O filme foi lançado em uma movimentada premiere em 18 de dezembro de 1969, chegando aos cinemas brasileiros em Janeiro do ano seguinte. Um resultado muito bom considerando que Lazenby era um intérprete desacreditado. Chegaram a considerar incluir no roteiro a justificativa de que Bond teria feito cirurgia plástica para passar incógnito em suas novas missões, mas logo foi deixado de lado. Contudo, os produtores incluíram uma piadinha logo depois dos créditos iniciais quando Bond se vira e diz “This never happened to the other fellow “ (Isto nunca aconteceu com o outro cara). Necessário dizer algo mais ?

BOND RETORNA AO BLOG EM ALGUNS DIAS COM “007 OS DIAMANTES SÃO ETERNOS”

BOND 5: COM 007 SÓ SE VIVE DUAS VEZES

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“You only live Twice: Once when you are born, and once when you look death in the face”

 A Quinta Missão: Bond forja sua própria morte ao viajar para o Japão e com o auxílio do agente Tanaka investiga quem está roubando foguetes americanos e soviéticos para provocar um conflito entre o ocidente e o oriente. O responsável é o próprio Brofeld, o homem forte da Spectre, que trama o conflito de sua base secreta no pé de um vulcão.

Bond Vive Bem Mais de Uma Vez : Quando o quinto filme chegou aos cinemas brasileiros em 2 de Outubro de 1967, quase quatro meses depois da premiere britânica, Sean Connery já estava saturado com o personagem. Na coletiva para a imprensa no Japão, Connery estava visivelmente descontente, principalmente com as constantes e insistentes comparações feitas entre o ator e o personagem. Em determinado momento, Connery e sua esposa Diane Cilento foram bombardeados com perguntas dirigidas a ele como se ele fosse James Bond, e não Sean Connery. Vestido para a coletiva em roupas informais, Connery foi indagado por um dos repórteres se aquela seria a maneira adequada para James Bond se vestir. Irritado, Connery teria respondido “Não sei. Meu nome não é James Bond, é Sean Connery e gosto de me vestir de forma a ficar confortável”. Além disso, Connery foi excessivamente assediado pela imprensa e teve uma suposta foto sua no banheiro publicada por um jornal em Tokio. Bond recebeu uma proposta de 1 milhão de dólares para continuar por mais um filme, mas se recusou e anunciou sua saída da série.

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O filme, adaptado do 12º livro escrito por Ian Fleming, foi dirigido por Lewis Gilbert e trazia Nancy Sinatra na canção-título. O roteiro, escrito pelo renomado autor Roald Dhal (que escreveu o clássico “A Fantástica Fábrica de Chocolate”), se distanciou completamente da obra original de Fleming. No livro, que se passa depois dos eventos de “A Serviço de Sua Majestade” – que ainda não havia sido adaptado – Bond começa a história deprimido e desacreditado depois que a única mulher que amara foi assassinada por Brofeld. O agente aceita a missão no Japão para se esquecer de sua dor e recebe a incumbência de convencer os japoneses a lhe dar acesso a transmissão de rádios soviéticas, mas estes só o farão se Bond encontrar e matar o Dr. Guntram Shatterhand que não é outro senão Brofeld disfarçado. Clamando por vingança, Bond invade o covil do vilão, um castelo onde cultiva um jardim repleto de plantas carnívoras e outras venenosas. Bond enfrenta o vilão no jardim da morte onde o mata, mas ao final da história Bond recebe o impacto de uma explosão que o deixa desmemoriado e vivendo como um pescador, uma nova vida que dá sentido ao título do filme, uma frase retirada de um haiku (poema japonês) por Fleming, que diz  que “Só se vive duas vezes: uma ao nascer e outra ao encarar a morte”.

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As filmagens, com orçamento em torno de 9 milhões e meio de dólares, foram em parte realizadas nos Estúdios Pinewood em Londres (como a base de Brofeld no vulcão) e em parte em locações no Japão. As atrizes que faziam as Bond Girls Akiko Wakabashi e Mia Hama não sabiam falar quase nada em inglês. Mesmo tendo seus papéis invertidos pois Mia tinha mais dificuldade com o idioma, as atrizes tiveram que ser dubladas. Mia também não sabia nadar e teve que ser substituída por Diane Cilento, a mulher de Connery que usou uma peruca preta e foi filmada de longe. O filme de Lewis Gilbert foi a primeira vez que Brofeld mostrava seu rosto. O visual do ator Donald Plesance foi tão impactante que ficou no imaginário popular e foi a inspiração, muitos anos depois, para que o comediante Mike Kyers criasse o vilão Dr. Evil, inimigo do agente Austin Powers.

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Foi a primeira vez que uma adaptação de Bond se distanciou tanto do material original de Fleming, o que se tornaria comum depois. Na época, auge da corrida ao espaço, os produtores preferiram pegar carona no clima e produzir uma história com tais elementos. Eram seis anos depois do vôo histórico do russo Yuri Gagarin em órbita ao redor da Terra e dois anos antes da missão da Apollo XI que levou o homem à lua.  No mesmo ano que “Com 007 Só se vive duas vezes”, chegou ao cinema a primeira adaptação de “Cassino Royale”, único livro de Fleming que não havia sido comprado por Albert Broccoli. Mas isso já é outra história.

JAMES BOND VOLTA AO BLOG NA PRÓXIMA SEMANA COM “CASSINO ROYALE”