ADILSON CINEMA: 1917

O filme intitulado com o penúltimo ano da Primeira Guerra começa em 6 de Abril, data em que os Estados Unidos entraram no conflito. Com várias premiações e indicações, o filme conta com 10 indicações ao próximo Oscar, incluindo melhor filme e direção para Sam Mendes. Com tanta badalação, facilmente podemos entender porque mesmo que não completamente original, “1917” consegue o mérito de mostrar as possibilidades quando um realizador tem talento para reunir uma equipe capaz de mostrar o que é a sétima arte, não o que se faz, mas como se faz.

1917

         O mérito do filme não é apenas técnico, pois os recursos narrativos estão a serviço de uma história bem elaborada que sabe evitar o ufanismo geralmente associado aos filmes do gênero. O filme de Mendes evoca na memória ecos de “Glória Feita de Sangue” (1957) e “Sem Novidades no Front” (1930) ambos também ambientados na Primeira Guerra (1914-1918) e expondo os horrores que a marcha belicista traz ao espírito humano. Mendes começa com um plano aberto no campo onde dois soldados britânicos descansam debaixo de uma árvore, e logo em seguida são despertados à medida que caminham para dentro de um labirinto de trincheiras que dividem o exército inglês dos alemães. Os soldados são incumbidos de levar uma mensagem até um batalhão inglês prestes a cair em uma armadilha que custará suas vidas. O patriotismo cego não move os passos dos jovens Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), é mais pessoal, emotiva.  O primeiro assume a missão pois seu irmão mais velho está entre os soldados sobreviventes e a um passo da emboscada, e o segundo é movido pela amizade e a promessa feita ao atravessar uma terra de ninguém. MacKay (Capitão Fantástico) conecta-se com o público, vive à flor da pele o significado de derramar sangue, suor e lágrimas. A travessia da terra de ninguém até o front ganha uma dimensão de incrível realismo graças à fotografia de Roger Deakins (Oscarizado em “Blade Runner 2049”) cujas imagens impactantes são o verdadeiro protagonista dessa história. Se a frase “esses são os horrores da guerra” já foi ouvida em outros filmes, o filme de Mendes as explora com precisão cirúrgica desde a mudança brusca de um idílico campo ao claustrofóbico ambiente de uma trincheira; ou da segurança desta para uma corrida desesperada com tiros e bombas sucessivas. A trilha sonora de Thomas Newman se mescla à ação de forma que corremos com o cabo Schofield e sofremos como se pudéssemos nos transportar para dentro da tela. Mesmo a rápida aparição de rostos conhecidos como Colin Firth, Mark Strong e Benedict Cumberbatch não nos distrai do principal na história, não o seu desenrolar, não é senso de patriotismo ou de dever cumprido, mas como o ser humano eclipsa em meio à destruição e morte, essas sim as únicas vencedoras de guerra.

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ENTRE FACAS & SEGREDOS

      O filme é entrecortado por vários depoimentos e flashbacks de uma família moralmente disfuncional onde a mentira e a dissimulação é regra vital para garantir interesses financeiros. Plummer, o Capitão Von Trapp do clássico “A Noviça Rebelde”, aparece pouco mas ganha a atenção sua cumplicidade e amizade com a enfermeira Martha Cabrera (Ana de Armas). Esta faz um papel chave, mas o roteiro é tão bem escrito que as cenas são bem distribuídas para que Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Tony Collete e Chris Evans tenham passagens muito bem inseridas no mistério que se desenrola em três atos. Primeiro o crime cometido e os interrogatórios de Benoit Blanc seguem a estrutura de histórias como “Assassinato no Expresso do Oriente” e “Morte no Nilo” até a primeira hora quando Johnson subverte a estrutura narrativa e revela o assassino. A partir daí o filme mistura o suspense hitchcockiano com o clima da tele série “Columbo”, onde o criminoso, revelado somente aos olhos do público, procura apagar seu rastro, sendo implacavelmente perseguido pelo detetive. A medida que essa segunda parte se desenrola, temos uma mudança brusca de rumo quando Rhan Johnson retoma o clima das novelas de Agatha Christie em um criativo plot-twist que exalta a capacidade do cinema de ainda ser criativo não por romper com os clichês, mas por justamente não negá-los, brincando com estes. Assim, Johnson conseguiu resultado superior ao seu trabalho atrás das câmeras em “Star Wars: O Ultimo Jedi” (2017), que dividiu opiniões.

        O filme está merecidamente ganhando seu valor conquistando 3 indicações aos Globo de Ouro 2020, 3 indicações ao Critics Choice Award, além de outras honrarias. Dificil é imaginar quando poderíamos reencontrar Benoit Blanc já que uma segunda aventura seria bastante pertinente, bem vinda, e a prova que na literatura e no cinema o crime não apenas compensa, como diverte.

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ESTREIAS DA SEMANA: 30 DE NOVEMBRO

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE

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(Murder on the Orient Express) Reino Unido / 2017. Dir: Kenneth Brannagah. Com Kenneth Brannaagh, Johnny Depp, Penelope Cruz, Michelle Pfeiffer, Josh Gad, Daisy Ridley, Judy Dench, William Dafoe, Derek Jacobi. Suspense. 

Demorou para que o cinema redescobrisse as obras da Rainha do Crime (Vide matéria abaixo) graças a Kenneth Brannagah, herdeiro de Laurence Olivier que sempre equilibrou seus filmes entre adaptações teatrais como “Hamlet” (1996) ou “Henrique V” (1989) com trabalhos mais comerciais como “Thor” (2011) e “Cinderella” (2015). Tendo nas mãos o roteiro de Michael Green (roteirista de “Logan”, “Blade Runner 2049, da série “Sex & The City” e produtor da série “Heroes”), Brannagah traduz o engenhoso quebra cabeças da autora que se passa a bordo do luxuoso trem (Agatha Christie viajou no verdadeiro expresso do oriente para escrever sua obra) onde o detetive belga Hercule Poirot (um dos pilares do gênero policial, tão importante quanto Holmes) investiga os passageiros suspeitos da morte de um homem rico esfaqueado durante uma tempestade de neve). Poirot é tão genial quanto Holmes, e tão peculiar quanto este em suas deduções e modus operandi. Brannagah dirige e interpreta o personagem que protagonizou diversas obras da autora. Seu elenco multi-estelar é um espetáculo à parte (destaque para Michelle Pfeiffer) , cada um sendo uma peça inestimável com a qual Agatha Christie traça um painel da natureza humana, o que o diretor sabe como explorar mostrando que o cinema não precisa ser resumido a franquias de super herois e blockbusters. A Fox já anunciou oficialmente a volta de Brannagh como Poirot em “Morte no Nilo” em breve, mostrando que se na vida real o crime não compensa, ao menso na literatura e no cinema ele o faz brilhantemente.

 

BEST-SELLERS: ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE DE AGATHA CHRISTIE

           Há mais de 80 anos que um seleto grupo de passageiros embarcou em uma luxuosa composição ficando confinados nela por força de uma tempestade de neve. Durante dias, até que pudessem retomar sua viagem, um dos mais ilustres passageiros: Samuel Ratchett – um riquíssimo empresário – aparece morto em sua cabine onde foi esfaqueado 12 vezes. Para que o assassino fosse encontrado, seria necessário correr contra o tempo, já que assim que a tempestade parasse, e o trem chegasse à parada mais próxima, o assassino poderia escapar. O detetive belga Hercule Poirot, a bordo do trem, assume as investigações que remontam ao sequestro e morte de uma criança, caso este não resolvido na época e que ganhara as manchetes internacionais.

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           Todo esse intrigante enredo foi fruto da fértil imaginação de Agatha Mary Clarissa Miller, nascida em 15 de Setembro de 1890, que alcançou a eternidade usando o sobrenome de seu primeiro marido: Agatha Christie. O referido livro que viria a ser chamar “Assassinato no Expresso do Oriente” surgiu em sua mente quando a própria autora viajou a bordo do Expresso do Oriente durante uma viagem realizada em 1928. Além disso, o episódio do luxuoso trem preso durante uma tempestade de neve realmente ocorreu anos antes. O esmero da autora foi tamanho que ela incluiu detalhes sobre cada composição como a posição das maçanetas, a disposição das cabines e dos corredores inserindo em sua narrativa  precisão e realismo, dando aos seus leitores a sensação de também estar viajando junto aos magnatas e aristocratas, passageiros usuais do expresso.  A subtrama sobre o sequestro e a morte de um inocente foi retirada de um caso real: o dramático sequestro e assassinato do filho do aviador Charles Lindbergh que provocou comoção nos anos 30. Agatha escrevia movida por ideias surgidas de todas as formas e de todos os lugares. Durante sua estadia na Turquia,  hospedou-se no Pera Palas Hotel, onde escreveu o livro que seria publicado de forma seriada nas páginas do “Saturday Evening Post” em 1933, e com o título “Murder on the Calais Coach até ser publicado pela primeira vez como romance em 1º de Janeiro de 1934 pela Editora Collins, lar das imaginativas histórias da Rainha do crime,  e contendo 256 páginas. Nessa época, a viagem no Expresso do Oriente havia atingido seu ápice de glamour e sofisticação, antes que a Segunda Guerra interrompesse o serviço do transporte. Na época,  Agatha  já era um sucesso editorial com mais de 20 livros publicados, além de contos publicados em várias coletâneas. Era uma celebridade no mundo das letras e “Assassinato no Expresso do Oriente” alcançaria a impressionante marca de 3 milhões de cópias vendidas na época.

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A AUTORA

            Agatha Christie fez de seu detetive belga, Hercule Poirot, um dos maiores personagens do romance policial. Baixinho, com um indefectível bigode e sempre orgulhoso de suas pequenas células cinzentas, Poirot é até hoje a criação mais popular da autora britânica. Além de sua excentricidade e elegância europeias, Poirot é meticuloso em sua abordagem e nem um pouco modesto de sua capacidade dedutiva sendo comparável a Sherlock Homes. Tanto um quanto o outro dividem preferências, carregam uma legião de admiradores e estão no mesmo pódio entre os maiores investigadores da literatura.

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A JOVEM AGATHA CHRISTIE

               Poirot sempre foi apresentado de forma assexuada, nunca se envolvendo com mulheres exceto por uma ocasião em que demonstra sentimentos profundos pela Condessa Vera Rossakoff no romance “The Big Four” . Seu modus operandi analisa psicologicamente os suspeitos e deduz detalhes com um olhar clínico de admirável precisão. Sua baixa estatura contrasta com seu ego, este bem adequado ao seu primeiro nome derivado do semi-deus da mitologia grega. Poirot sempre se demonstra orgulhoso de suas “pequenas células cinzentas” , o modo como se refere ao cérebro privilegiado com o qual elucida os mistérios. Ocasionalmente, recebe a ajuda do Capitão Hastings, o bom amigo que se torna seu Watson na investigação criminal. Todas essas características garantiram ao personagem um lugar de honra no imaginário dos amantes de histórias policiais.

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ALBERT FINNEY COMO HERCULE POIROT (1974)

          Dois anos antes do falecimento de Agatha Christie, a autora autorizou a publicação de “Cai o Pano” (Curtain) em que o detetive belga morre em uma história escrita durante a Segunda Guerra Mundial e mantida em um cofre no banco durante décadas. Em Agosto de 1975, o renomado jornal New York Times publicou a morte do personagem na seção Obituário, marcando o fim de um ciclo no gênero que coroou Agatha como Rainha e fez de Poirot uma celebridade entre seus semelhantes. Poirot protagonizou 39 livros, sendo 33 romances policiais além de contos diversos reunidos depois. Agatha criou outros detetives como a abelhuda Miss Marple e o investigador Parker Pyne, mas Poirot sem dúvida ocupa uma posição privilegiada no imaginário popular dos amantes do gênero.

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AUSTIN TREVOR – O PRIMEIRO POIROT DO CINEMA

            Já foi vivido por diversos atores, tendo sido o desconhecido Austin Trevor o primeiro Hercule Poirot das telas, no filme “Alibi” (1931), adaptação de “O Assassinato de Roger Ackroyd”. Trevor retornou ao papel em “Black Coffee” (1931) e  “Lord Edgware Dies” (1934). Tony Randall foi o segundo ator a interpretar Poirot em “The Alphabet Crimes” (1965), adaptação de “Os Crimes ABC” , que traz a curiosidade de ser o único encontro entre Poirot e Miss Marple (Margareth Rutherford). Em 1974, Albert Finney conquistou uma indicação ao Oscar por sua personificação de Poirot em “Assassinato no Expresso do Oriente”, chegando ainda a ganhar o BAFTA, o Oscar do cinema britânico. No entanto, o  mais recorrente ator a viver o personagem foi Peter Ustinov que fez 6 filmes entre 1978 e 1988, três deles para o cinema e três deles para a Tv. Em tempos mais recentes, o inglês David Suchet personificou Poirot em uma série da Tv inglesa que começou a ser produzida em 1989 e seguiu até tempos recentes.

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PETER UISTNOV COMO POIROT (1978)

              Além do teatro, o cinema e a Tv constantemente revisitam as obras de Agatha Christie. Há 40 anos estreou a melhor versão de um livro de Dame Agatha, título de nobreza que lhe foi concedido pela Rainha da Inglaterra em 1971. Em 24 de Novembro de 1974 chegou às telas “Assassinato no Expresso do Oriente” (Murder on The Orient Express) dirigido por Sidney Lumet, que demorou para convencer a autora a permitir a adaptação que se tornou a melhor sucedida de um livro da Rainha do Crime. A produção recriou o requinte e o luxo dos vagãos do Orient Express nos famosos Estudios Pinewood em Londres, já que a composição original não mais existia. O filme reuniu um super elenco encabeçado pelo ator inglês Albert Finney (então com 38 anos) no papel de Hercule Poirot. Finney, que na época se apresentava no teatro em horário próximo ao das filmagens, seguia de ambulância para o estúdio e no caminho tinha a maquiagem, que o transformava em Poirot, aplicada em seu rosto enquanto o ator ainda dormia. Na lista de passageiros / suspeitos investigados pelo detetive belga estavam personagens interpretados por Sean Connery, Anthony Perkins, Martin Balsam, Michael York, Sir John Gieguld, Vanessa Redgrave, Jaqueline Bisset, Jean-Pierre Cassell, Lauren Bacall e Ingrid Bergman, tendo esta última ganhado por seu papel o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Sua grande cena no filme, no entanto, se restringe a uns cinco minutos em cena, durante o interrogatório de Poirot. Curiosamente, Ingrid Bergman contracena com Lauren Bacall que na vida real era viúva de Humphrey Bogart, par romântico de Bergman no clássico “Casablanca”. O roteiro de Paul Dehner manteve o elemento envolvente da obra de Agatha e fez mudanças mínimas no material original como mudança nos nomes de personagens menores na trama, além da nacionalidade do diretor da linha férrea que de francês virou italiano. O filme foi indicado para um total de 6 Oscars, além da honraria de ser indicado para o BAFTA, o Oscar Inglês.  Na mesma época, Agatha já era a autora mais lida do mundo, e aos 84 anos aprovou a atuação de Finney como Poirot. Ela  compareceu à estreia do filme, satisfeita pela primeira vez com uma adaptação de uma obra sua para o cinema.  Essa seria sua última aparição pública antes de falecer de causas naturais em Janeiro de 1976. “Assassinato no expresso do Oriente” ainda seria refilmado para a Tv em 2001 com Alfred Molina como Poirot. Essa adaptação subaproveitou a trama reduzindo o número de suspeitos e incluindo o interesse amoroso de uma mulher por Poirot, o que não existe no livro. Em 2010 uma nova adaptação , também para a TV, com David Suchet em elogiada atuação na série britânica que leva o nome do personagem. Entre dezembro de 1992 e Janeiro de 1993 ainda houve uma adaptação para a rádio BBC, dividida em 5 partes, com Poirot na voz de John Moffatt.

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A PRIMEIRA VERSÃO DE “ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE” DE 1974 : SUSPEITOS REUNIDOS

              Tanto sucesso não significa que Agatha não tivesse seus detratores. Alfred Hithcock dizia desprezar seu estilo de narrativa que convencionou-se chamar pejorativamente de “whodunit” (quem fez isso?) . Contudo, inegável é o fato que Agatha Christie tornou-se sinônimo do gênero literário que escreveu. Sua narrativa serviu de inspiração para diversos imitadores. Novas adaptações de seus livros são frequentes na mídia e indicam sem sombra de dúvida que se o crime não compensa, certamente ele cria seguidores, e entre tantos autores notórios Agatha Christie se destaca como uma excelente analista da natureza humana, nossas fraquezas e ambições que há décadas alimentam a imaginação de gerações de leitores.

 

ESTREIAS DA SEMANA : 18 DE MAIO

REI ARTHUR – A LENDA DA ESPADA MÁGICA

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(King Arthur) EUA 2008. Dir: Guy Ritchie. Com Charlie Hunnam, Jude Law, Djimon Honsou, Eric Bana. Ação

“Uma espada forjada por um Deus, profetizada por um mago e destinada a um rei”. Essa belíssima chamada pertence a “Excalibur”, filme de 1981 que é a melhor adaptação do ciclo arturiano, em meio a mais de 140 adaptações para Tv e cinema. Curioso por se tratar de um lenda que desafia historiadores e se populariza no imaginário popular há séculos desde a era dos trovadores medievais. Guy Ritchie, o homem que readaptou Sherlock Holmes com Robert Downey Jr, tenta fazer o mesmo com o mito do Rei que unificou a Gra-Bretanha. Mas não espere pelo Santo Graal, triângulo amoroso com Lancelot e Guinevere. O filme segue um direcionamento diferente, aproveitando muito pouco do que se tornou cânone na saga, em ritmo frenético com cortes rápidos e fazendo de Arthur um homem cheio de defeitos, mulherengo, capaz de atitudes nada nobres, criado em um bordel de uma Londres medieval, mística, quando descobre ser o predestinado da profecia, vindo a investir o poder recém descoberto para matar Vortgen (Law), que usurpou o trono de Uther Pendragon, pai de Arthur. A pretensão é fazer este o primeiro de uma nova franquia, mas a estreia retraída de 17 milhões para uma orçamento de mais de 170 milhões dificilmente convencerá a Warner a continuar.

REDESCOBRINDO MORTADELO & SALAMINHO

Nem só de Marvel & DC vivem as histórias em quadrinhos. As décadas de 70 e 80 foram riquíssimas na variedade de títulos e personagens disponíveis nas bancas de jornal, que minha geração devorava. Entre eles lembro como morria de rir com dois agentes secretos atrapalhados que divertiam a criançada, e que hoje são nada conhecidos do grande público. Mortadelo & Salaminho estão em uma animação 3D que chega aos nossos cinemas com o prestígio de ter sido premiado com o Goya 2105 (o Oscar da Espanha) como melhor animação e melhor roteiro. Mas será que no Brasil poderá reacender o interesse por esses personagens que já divertiram toda uma geração ?

CAPA CLÁSSICA PELA RGE

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Criados em 1958 por Francisco Ibañez, ainda vivo hoje e com 80 anos, Mortadelo é o magrelo narigudo que é mestre dos disfarces aparecendo  como qualquer pessoa, objeto ou animal. Salaminho, baixinho e careca, é o chefe mas sempre sofre os revezes das ações de Mortadelo. Os personagens foram criados como uma paródia de Sherlock Holmes e Watson, mas também das agências de espionagem, e dos destemidos agentes secretos. Suas aventuras, curtas até 1969, são carregadas de ironia nas histórias como o nome da agência para a qual os heróis trabalham que se chama T.I.A (Técnicas de Investigações Avançadas), sátira óbvia da C.I.A, bem como da U.N.C.L.E  da popular série americana “O Agente da Uncle”. As histórias resvalam no surreal como os disfarces mirabolantes de Mortadelo como uma flor,uma bicicleta, bombeiro, violão, enfim sem limites físicos. Antes de publicá-los pela primeira vez na revista espanhola “Pulgarcito” , edição número 1394, Ibañes pensou em batizá-los de Mr.Cloro e Mr. Yesca, Ocarino e Pernales, Lentejo e Fideíno, até chegar aos nomes Mortadelo e Salaminho batizados pela editora Bruguera. A primeira história também tinha sub-título “Mortadelo & Filemón – Agencia de Información”, também acrescentado depois de cogitado possibilidades como “Agentes Especiales” e “Agentes Detestivescos”. É a partir de 1969 que as histórias agora desenvolvidas em uma narrativa mais longa abandona as referências a Holmes e Watson e abraça ao espírito de sátira à espionagem mais próxima da série de Tv “Agente 86” (Get Smart), extremamente popular na Espanha e no Brasil. Outros personagens vieram a se juntar à dupla como o Professor Saturnino Bactério que colocava os heróis nas situações mais absurdas causadas pela ineficácia dos aparelhos inventados pelo cientista abilolado, paródia do Q dos filmes de 007. Ainda aparecia Ofélia, uma secretária que era apaixonada por Mortadelo, da mesma forma que Moneypenny para Bond.

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No Brasil a série foi publicada pela Cedibra na coleção Ases do Humor entre 1969 e 1978 com 29 edições publicadas, e entre Janeiro de 1974 e Janeiro de 1983 pela RGE (atual Editora Globo) chegando a um total de 91 edições mais três almanaques. Em 2003 houve a produção live-action “Mortadelo & Salaminho : Agentes Quase Secretos” (La Gran Aventura de Mortadelo & Filemón” , de Javier Fesser com Benito Pocino e Pepe Viyuela nos papeis centrais e Janfri Topera como Professor Bacterio. A produção com orçamento de 7,500 euros foi bem recebida nas bilheterias da Espanha, mas no Brasil passou desapercebido. Lamentável que a dupla criada por Ibañez tenha se juntado a outros personagens que caíram no ostracismo no Brasil embora tenham sido extremamente populares no passado. Quem sabe não tenha chegado a hora da nova geração descobrir o prazer e a diversão desses personagens ? Nem só de heróis de ação vive o mundo imaginário dos quadrinhos.

 

CLASSICO REVISITADO : OS 30 ANOS DE “O ENIGMA DO PIRÂMIDE” 

o ENIGMA DA PIRAMIDE                   Todos reconhecem a figura de Sherlock Holmes e ninguém duvida que o personagem está mais popular do que nunca : Dois filmes dirigidos por Guy Ritchie estrelados por Robert Downey Jr, série de sucesso da BBC estrelada por Benjamim Cumberbatch, além da versão americana “Elementary” estrelada por Johnny Lee Miller e Lucy Liu. Há 30 anos, antes de jovens bruxos ou revolucionários em distopias, houve um Sherlock Holmes adolescente produzido por ninguém menos que Steven Spielberg.

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Nicholas Rowe em foto recente

Em 4 de Dezembro de 1985 quando o filme “O Enigma da Pirâmide” (Young Sherlock Holmes) estreou nos Estados Unidos, o célebre detetive ainda não era de domínio público. O filme reuniu os talentos de Steven Spielberg (produtor executivo), Chris Columbus (roteirista) e Barry Levinson (direção). Columbus, que dirigiu os dois primeiros filmes da franquia Harry Potter, e mais recentemente, “Pixels” com Adam Sandler, foi extremamente respeitoso à obra de Conan Doyle. O roteiro imagina como Holmes e Watson teriam se conhecido mais jovens já que em “Um Estudo em Vermelho” (A Study in Scarlett), primeira aventura literária de Holmes, o detetive e seu fiel escudeiro já são homens adultos.

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O filme, que estreou em dezembro de 1985, é narrado por um Watson recém chegado a um colégio interno de prestígio na Londres Vitoriana e conhece seu colega de quarto, Sherlock Holmes, um estudante brilhante mas considerado arrogante demais. Ambos são mostrados como se estivessem entre seus 15 e 18 anos, sendo Holmes um jovem que embora seja capaz de brilhantes deduções, ainda se permite sentir emoções e mantém um namoro com Elizabeth Hardy (Sophie Ward), sobrinha do renomado Professor Waxflatter (Nigel Stock). Seu grande rival na escola é o almofadinha Dudley (Earl Rhodes) que divide as atenções de Elizabeth e que está constantemente desafiando Holmes. Contudo, a maior aventura deste seria vivida além dos muros da escola quando o jovem suspeita que há uma bizarra ligação entre mortes misteriosas de figuras de respeito na sociedade londrina. Apesar de ter seu raciocínio desprezado pelo Sargento Lestrade (futuro Inspetor da Scotland Yard nos livros de Conan Doyle), Holmes e Watson investigam as pistas e descobrem que as mortes são causadas pelo Rami Tap, um culto egípcio que busca vingança de uma expedição arqueológica que no passado profanou a tumba de princesas egípcias. A medida que a investigação se aprofunda vários elementos das histórias Sherlockianas (o chapéu, o cachimbo etc…) são introduzidos, sempre seguindo os cânones escritos por Conan Doyle, tudo precisamente … elementar.

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Nada é o que parece 

Mesmo a abertura do filme com sombras caminhando nas ruas vitorianas é uma homenagem aos filmes estrelados por Basil Rathbone ao longo da década de 40. O desenrolar da trama (que não ousarei estragar aqui apesar de ser um filme já reprisado bastante na TV) revelará vários traços das histórias do personagem: As razões para sua personalidade fria e distante, a cumplicidade com Watson e, sobretudo, a gênese de seu arquiinimigo o Professor Moriarty. No Brasil, o filme chegou em Maio de 1986, e causou surpresa com a primeira imagem em CGI usada no cinema : O cavaleiro medieval saído do vitral da igreja na alucinação do padre Duncan Nesbitt (Donald Eccles). O efeito foi desenvolvido depois de quatro meses pelo talentoso John Lasseter que anos depois viria a se tornar um dos homens fortes da Pixar, e responsavel por “Toy Story”. Foi o primeiro filme de cinema produzido pelo ator Henry Winkler (o Fonzie da clássica série de tv “Happy Days” e co-produtor da igualmente clássica “MacGyver”), o filme foi premiado com o “Saturn Awards” e indicado ao Oscar de melhor efeitos. O orçamento de $18.000.000 não se tornou nenhum fenômeno de bilheteria e chegou a ser criticado por muitos como uma versão menor de “Indiana Jones e o templo da perdição”, já que Holmes enfrenta uma seita profana bem similar.

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Nicholas Rowe, o Sherlock, era escossês e tinha 19 anos na época. O ator se afastou do circuito Hollywoodiano apesar de alguns papeis de menor proporção como recentemente em “Mr. Holmes” em que o grande detetive é interpretado por Sir.Ian Mckellan. Já Watson foi vivido, aos 15 anos,  por Alan Cox, filho do ator Brian Cox (A Supremacia Bourne, REDS Aposentados & Perigosos), se tornou produtor e ator em várias produções de TV.

Em meio a vários filmes protagonizados por jovens ou adolescentes heroicos como em franquias milionárias do tipo “Maze Runner”, “Jogos Vorazes” ou “Harry Potter”, o público poderia ter tido sequências desse Sherlock juvenil, aprovado na época pela própria Jean Conan Doyle, filha do criador do detetive que alcançou uma importância indelével no imaginário popular.