A VOLTA DOS FILMES CATÁSTROFES

TERREMOTO COM CHARLTON HESTON

TERREMOTO COM CHARLTON HESTON

A primeira vez que eu ouvi falar sobre a falha de San Andreas foi em “Superman – O filme” (Superman the movie) de 1978 quando o vilão Lex Luthor explica ao herói seus planos nefastos de jogar um míssel nuclear na citada geológica localizada no encontro de duas placas tectônicas, o que justifica os tremores na região da costa oeste americana, e que já causou um terremoto devastador que arrasou a cidade de San Francisco no início do século. O próprio cinema já retratou o fato em “São Francisco, A Cidade do Pecado” de 1936, estrelado por Clark Gable e Spencer Tracy, onde o terremoto só é mostrado no clímax do filme, logo um precursor do cinema catástrofe, como se convencionou chamar esse gênero popular e rentável, que se desenvolveu a plena força com o avanço dos efeitos especiais e que faz do cataclisma a principal linha narrativa.

BURT LANCASTER EM AEROPORTO

BURT LANCASTER EM AEROPORTO

O gênero, como tal,  é reconhecido como tendo nascido a partir do enorme sucesso de “Aeroporto” (Airport) de 1970, adaptação do romance de Arthur Hailey, dirigida por George Seaton. A história mostrava um homem bomba ameaçando explodir um avião prestes a pousar no fictício aeroporto Linconl. O elenco reunia Burt Lancaster, Dean Martin, Jacqueline Bisset e Van Heflin, este em seu último papel. As bases do gênero já aparecem: Elenco all-star representando papeis de pessoas comuns cujas vidas se entrelaçam por estar reunidos em um desastre iminente. O filme, último cuja trilha sonora foi assinada pelo excelente Alfred Newman, foi um campeão de bilheteria e elogiado pela crítica recebendo indicações ao Oscar, vindo a ganhar o de melhor atriz coadjuvante para Helen Hayes. O sucesso virou fórmula e de durante toda a década de 70, de tempos em tempos, os roteiristas de Holywood inventavam um novo desastre aéreo. Em “Aeroporto 75” (com o ano da sequência fazendo parte do título) Charlton Heston foi o piloto experiente que precisa ser transportado para dentro da cabine de um Boing 747 avariado depois da colisão com um jatinho particular. Dois anos depois, vem “Aeroporto 77” onde um Jumbo é sequestrado e jogado acidentalmente no mar, ficando todos os passageiros e tripulação a espera de um milagroso resgate ante que a pressão submarina esmague a fuselagem do avião e mate a todos. Em 1979, foi a vez de “Aeroporto 79 – O Concorde” explorando a então famosa aeronave que era considerada a mais avançada da engenharia aero-espacial. O único personagem comum a todos esses filmes era Joe Patroni, interpretado por George Kennedy, que no primeiro filme era o mecânico-chefe da Trans World Airlines e ao longo das sequências é promovido chegando a piloto e vice-presidente da empresa. Passando por tantos desastre, merecido.

GIGANTES EM CENA : PAUL NEWMAN & STEVE MCQUEEN EM "INFERNO NA TORRE"

GIGANTES EM CENA : PAUL NEWMAN & STEVE MCQUEEN EM “INFERNO NA TORRE”

Quem ganhou o status de rei do gênero na década de 70 foi o produtor Irwin Allen (que na TV foi o criador de séries cult como “Perdidos no espaço” e “Viagem ao Fundo do Mar”). Allen foi muito bem sucedido ao produzir “O Destino do Poseidon” (1972) sobre um navio que é virado de cabeça para baixo depois de atingido por um tsunami e “Inferno na Torre” (1974) sobre um enorme arranha-céu destruído por um terrível incêndio. Ambos foram grandes sucessos na época de seus lançamentos. Cada qual com uma constelação de astros e estrelas, mesclando veteranos e jovens talentos. “O Destino do Poseidon”, por exemplo, trazia Ernest Borgnine, Gene Hackman, Shelley Winters e Arthur O’Connell. Já “Inferno na torre” trazia Fred Astaire, Robert Wagner, Jennifer Jones, William Holden, Faye Dunaway e no centro das atenções os astros Paul Newman e Steve McQueen. O filme foi fruto da união de dois roteiros idênticos, adaptados de livros diferentes  com mesma temática : The Tower, de Richard Martin, comprado pela Fox e The Glass Inferno, de Thomas Scortia, comprado pela Warner. O projeto foi desenvolvido pelos dois estúdios com o roteirista Stilling Sillphant mesclando situações e personagens de ambos os livros. O maior desafio, no entanto, foi conter egos inflados, no caso de Steve McQueen, que vinha de uma longa rivalidade com Paul Newman. Projetos para que ambos atuassem juntos haviam sido engavetados ou tocados com outro elenco devido às exigências de Steve McQueen. Este só aceitou fazer “Inferno na Torre” desde que seu personagem, o chefe dos bombeiros tivesse o mesmo número de falas do personagem de Newman, que o nome de ambos aparecem no letreiro do filme ao mesmo nível, sem mencionar que o personagem de McQueen ficou com o destaque como o salvador da pátria. De qualquer forma, todos os estúdios exploraram o filão na década de 70 e assim a todo momento a mãe natureza tornava-se a vilã, responsável por um cataclisma de maior ou menor proporção: abelhas assassinas, avalanches, inundações, meteoros, tudo era motivo para se transformar em um espetáculo épico.

ELENCO REUNIDO EM "O DESTINO DO POSEIDON"

ELENCO REUNIDO EM “O DESTINO DO POSEIDON”

Em 1974 chegou às telas “Terremoto” (Earthquake) dirigido por Mark Robson mostrando Los Angeles destruída e tendo Charlton Heston à frente do elenco que inclui até mesmo George Kennedy, o Joe Patroni de “Aeroporto”, no papel de um policial. Em sua estreia nas salas americanas o filme empregou o sistema “Sensurround”, onde nos momentos em cena em que os tremores ocorrem, as cadeiras tremem como em um simulador.

A década de 80 trouxe a supremacia dos filmes de ação estilo exército de um homem só e os filmes catástrofes foram perdendo força. Mas, na década seguinte seriam logo retomados graças ao avanço dos efeitos digitais: vulcões explodiram em “O Inferno de Dante” e “Volcano a fúria”, meteoros e cometas colidiram com a terra em “Impacto Profundo” e “Armageddon” e até Sylvester Stallone misturou o gênero ação com filme catástrofe em “Daylight”, com resultado inferior no entanto. Quem na década de 90 tomou de Irwim Allen o posto de rei dos desastres foi o diretor de origem alemã Rolland Emmerich. Dele são os filmes “Independence Day” (Invasão Marciana), “O Dia Depois de Amanhã” (Inversão térmica global) e “2012” (O Apocalipse previsto pelos Maias). Em todos um esmero técnico impressionante graças ao avanço dos efeitos digitais, mas sem o o glamour do qual o gênero gozou outrora.

O DIA DEPOIS DE AMANHÂ

O DIA DEPOIS DE AMANHÂ

A vida real provou que é mais assustadora que qualquer filme catástrofe quando um ataque terrorista sem precedentes destruiu as torres gêmeas do World Trade Center em Setembro de 2001. Pouco tempo depois, o cinema retratou o fato em dois filmes: “WTC” (2006) e “Võo UNited 93″  (2006) trágico e emocionante é a história mostrada em “O Impossível” , também baseada em fatos reais, sobre uma família que luta pela sobrevivência na Tailândia quando atingida por um tsunami. A sequência da onda gigantesca invadindo o local é um primor técnico e assustadora constatação de que não importa toda a tecnologia e intelecto humano, a natureza é o poder supremo. A mesma constatação deve ser observada agora com a chegada de “Terremoto : A Falha de San Andreas” (San Andreas) que concretiza nas telas previsões de que um dia a Califórnia e toda a costa oeste americana afundará no mar como resultado em um tremor assustador. O cinema se antevê com a segurança de que quando as luzes se acenderem voltamos ao conforto da realidade, por si só já por demais desastrosa.