ESTREIAS DA SEMANA: 30 DE NOVEMBRO

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE

exp oriente

(Murder on the Orient Express) Reino Unido / 2017. Dir: Kenneth Brannagah. Com Kenneth Brannaagh, Johnny Depp, Penelope Cruz, Michelle Pfeiffer, Josh Gad, Daisy Ridley, Judy Dench, William Dafoe, Derek Jacobi. Suspense. 

Demorou para que o cinema redescobrisse as obras da Rainha do Crime (Vide matéria abaixo) graças a Kenneth Brannagah, herdeiro de Laurence Olivier que sempre equilibrou seus filmes entre adaptações teatrais como “Hamlet” (1996) ou “Henrique V” (1989) com trabalhos mais comerciais como “Thor” (2011) e “Cinderella” (2015). Tendo nas mãos o roteiro de Michael Green (roteirista de “Logan”, “Blade Runner 2049, da série “Sex & The City” e produtor da série “Heroes”), Brannagah traduz o engenhoso quebra cabeças da autora que se passa a bordo do luxuoso trem (Agatha Christie viajou no verdadeiro expresso do oriente para escrever sua obra) onde o detetive belga Hercule Poirot (um dos pilares do gênero policial, tão importante quanto Holmes) investiga os passageiros suspeitos da morte de um homem rico esfaqueado durante uma tempestade de neve). Poirot é tão genial quanto Holmes, e tão peculiar quanto este em suas deduções e modus operandi. Brannagah dirige e interpreta o personagem que protagonizou diversas obras da autora. Seu elenco multi-estelar é um espetáculo à parte (destaque para Michelle Pfeiffer) , cada um sendo uma peça inestimável com a qual Agatha Christie traça um painel da natureza humana, o que o diretor sabe como explorar mostrando que o cinema não precisa ser resumido a franquias de super herois e blockbusters. A Fox já anunciou oficialmente a volta de Brannagh como Poirot em “Morte no Nilo” em breve, mostrando que se na vida real o crime não compensa, ao menso na literatura e no cinema ele o faz brilhantemente.

 

THOR RAGNAROK & MAIS

                 O mais recente capítulo no universo compartilhado Marvel usa de humor e ação unindo dois heróis de peso, mas mistura duas narrativas diferentes das HQs.

RAGANAROK 2

           Ragnarok é o apocalipse da mitologia nórdica no qual os deuses (Thor, Loki, Odin etc…) perecem, o mundo é mergulhado em cataclismas encerrando um ciclo para depois renascerem e repovoarem o mundo. Já tendo sido objeto de estudos acadêmicos, o Ragnarok pode ser lido em poemas como o “Edda”, compilação datada do século XIII. Nos quadrinhos da Marvel, o apocalipse nórdico foi primeiro explorado por Stan Lee & Jack Kirby em “Thor” #157 (Outubro 1968). A chegada do demônio Mangog, quatro meses antes, colocou o filho de Odin diante da eminente destruição de Asgard, almejada por Hela, a deusa da morte, surgida em 1964. Nas historias de Lee & Kirby, Hela nunca foi a filha de Odin, mas segundo a tradição nórdica contada no “Edda” e outros textos históricos, ela é a filha de Loki. Em 1978, Roy Thomas e John Buscema voltaram a tratar do assunto (publicado no Brasil em “Herois da TV” #99).  Um dos melhores arcos a traçar o destino final dos deuses se deu, no entanto, na primorosa “Saga de Surtur”, escrita e desenhada por Walt Simonson em 1984, a primorosa narrativa explorar todos os elementos mergulhados na tradição das lendas nórdicas. Sendo um evento cíclico, embora adiado ao final de fase Simonson, o Ragnarok finalmente caiu sobre os deuses de Asgard no período em que os Vingadores foram reformulados por Brian Michael Bendis no arco “A Queda” (2004 3 2005). Lógico que pouco tempo depois os deuses renascem e um  novo título do deus do trovão é iniciado por J.M.Strancswiski (criador da serie de TV “Babylon 5”) e Oliver Coipiel.

Thor_Vol_1_157

ARTE DE JACK KIRBY

         Se o filme fosse adaptar com seriedade o Ragnarok, deveria de aparecer o Lobo Fenris, o nobre Balder, a Serpente de Midgard e outros elementos ligados ao profético fim dos asgardianos. Além disso o evento é de uma dimensão que não caberia em um filme preocupado em se conectar com o anunciado “Vingadores: Guerra Infinita”. Não há humor nas histórias mencionados, uma vez que o personagem sempre foi mais sisudo que sua representação por Chris Hemsworth iniciada em um pálido filme inicial em 2011, continuado com uma sensível melhora em 2013 e, depois da participação em dois filmes dos Vingadores, chegamos ao terceiro filme solo do personagem.

PLANETHULK

PLANETA HULK – A HQ

           Diluindo ainda mais o impacto do que seria de fato o Ragnarok, Thor divide a cena com o “Hulk”, um riquíssimo personagem relegado ao status de coadjuvante nos filmes do Marvel Studios já que a Universal, detentora dos direitos do personagem, não autoriza a realização de um filme solo do herói verde. Nos quadrinhos, Thor e Hulk se enfrentaram em diversas ocasiões começando com a clássica edição “Thor” #112 (Janeiro de 1965) anunciada como a batalha épica do ano com a arte maestra de Jack Kirby, este sendo co-criador do universo Marvel (Sim, Stan Lee NÂO É o único pai dos heróis da editora), Pouco divulgado é o fato de que nos anos 50, Kirby havia criado uma versão de Thor para a concorrente DC Comics. O herói que conhecemos hoje e popularizado pelos filmes do universo cinemático Marvel/Disney estreou  em Agosto de 1962 na 83ª edição da revista “Journey Into Mystery“. A partir da edição #97, Lee & KIrby exploram toda a riqueza da cultura nórdica em histórias curtas batizadas ‘”Contos de Asgard”. Nesse período Thor era um entre outros personagens publicados em “Journey into Mystery”, um título de antologias. A partir do número #104 o herói passa a ostentar seu nome abaixo do nome da revista, ganhando destaque cada vez maior até que na edição #126 passa a se chamar apenas “The Mighty Thor”. No Brasil o personagem chegou em 1967 pela editora Ebal que o publicou nas páginas de “Album Gigante”, enquanto na TV, o personagem teve seu próprio desenho animado produzido pelo estúdio canadense Grantray-Lawrence Animation , e popularizado pelo programa do saudoso Capitão Aza na antiga Tv Tupi.

THOR E HULK

A VOLTA DO INCRÍVEL HULK DE 1988

        O filme atual também não é a primeira vez que os heróis se enfrentam em um filme compartilhado. Em 1988, o telefilme da NBC “A Volta do Incrivel Hulk” trazia Bill Bixby & Lou Ferrigno interpretando a popular versão de carne e osso do dicotômico herói verde da Marvel. Nele, o Dr. Banner luta ao lado de Thor, invocado pelo Dr.Donald Blake (sua identidade secreta criada por Lee & Kirby) a cada vez que este grita “Odin” e ergue o martelo do herói. Levado ao em Maio de 1988, e pouco depois exibido pelo SBT no Brasil, a intenção inicial era fazer deste o piloto de uma série do Thor, nos mesmos moldes da estrelada por Bixby/Ferrigno, o que acabou não acontecendo.

       O Hulk aliás aparece no filme “Thor Ragnarok” como um coadjuvante de luxo com elementos enxertados no filme extraído do popular arco “Planeta Hulk”, escrito por Greg Pak (2006) onde o herói foi exilado em um outro planeta, tornou-se gladiador e depois grande líder daquele povo. Misturar elementos de “Planeta Hulk” e “Ragnarok” foi uma jogada da Marvel para satisfazer os fans do Hulk, interligando-o aos eventos de sua atual fase anunciada para terminar no mais distante “Vingadores 4” e, assim como o Ragnarok nórdico traçar um fim para um ciclo para começar um outro com renovação de personagens e elenco. Afinal, o fim apontará um novo começo.

CLÁSSICO REVISITADO :OS 32 ANOS DE “OS CAÇA-FANTASMAS”

Caça Fantasmas.jpg                    Eu tinha 15 anos quando meu primo mais novo chegou do cinema gritando entusiasmado “Caça-Fantasmas!”, “Caça-Fantasmas!”. Quando perguntei do que se tratava, ele me contou do filme que estreara em dezembro daquele distante ano de 1984. Bastou isso para que eu deixasse todo o mais de lado para também assistir ao filme de Ivan Reitman cuja trilha sonora cantada por Ray Parker Jr dominava as transmissões em FM. Como o cinema atual tem seguido uma tendência de revisitar grandes filmes do passado e lhes conferir uma repaginada para a nova geração (Star Wars,, Terminator Genesys), a Sony decidiu trazer de volta o time caçadores do paranormal que na década de 80 era formado por Ray (Dan Ackroyd), Egon (Harold Ramis), Winston (Ernie Hudson) e Peter Venkman (Bill Murray). Ótima oportunidade para lembrar quem foram e, à nova geração conhecer como tudo começou.

ghostbusters team

Dan Ackroyd era fascinado por paranormalidade, tendo feito parte da Sociedade Americana da Pesquisa Psíquica”, escreveu um roteiro que a principio seria estrelado por John Belushi, amigo de Ackroyd, seu companheiro no programa Saturday Night Live e com quem estrelara “Os Irmãos Cara de Pau” (1978). A história, inspirada nos antigos filmes da dupla Abbot & Costelo, seria centrada nos personagens de Ackroyd e Belushi, principais membros dos Spook Busters, uma espécie de Swat futurista dedicada a caçar monstros e criaturas sobrenaturais. O filme incluiria viagens ao passado e futuro e vários monstros além do homem de Marshmallow gigante. Quando apresentou seu roteiro ao diretor Ivan Reitman, este convenceu Ackroyd a reescrever o roteiro pois o orçamento ficaria impraticável para qualquer estúdio. Com a morte de John Belushi em março de 1982, Ackroyd se juntou ao co roteirista Harold Ramis (velho conhecido do diretor) fazendo os ajustes que levariam ao filme que todos viemos a conhecer. Foi ideia de Ivan Reitman fazer do time estudiosos de fenômenos paranormais que são expulsos da universidade sem dinheiro ou destino certo tornando-os mais reais e fáceis para o publico se relacionar. O roteiro oferecido pela Columbia foi de US$ 30 milhões, mas dois ajustes ainda tiveram que ser feitos. Eddie Murphy foi inicialmente contatado para o papel de Winston, cuja participação na equipe seria maior. Murphy preferiu protagonizar “Um Tira da Pesada” (Beverly Hills Cop) e o papel foi reduzido com a contratação de Ernie Hudson. Louis Tully, o contador vizinho de Dana Barret (Sigourney Weaver), a primeira cliente dos Caça Fantasmas, foi oferecido a John Candy que acabou recusando e o papel foi para Rick Moranis. Embora Sigourney Weaver, na época, já fosse conhecida do público (Alien), Reitman não estava convencido de que ela fosse a melhor escolha para o papel, isso até que a atriz que estava ansiosa para fazer comédia, se atirasse no sofá do diretor e … começasse a latir !!

sigourney weaver e rick moranis

As filmagens foram feitas nos estúdios da Columbia e na cidade de Nova York, com o QG da equipe usando os exteriores da estação dos bombeiros da rua Varrick em Manhattan, que ficou famosa após o lançamento do filme.As filmagens terminaram em Fevereiro, ficando os efeitos especiais a cargo do especialista, e Oscarizado, Richard Edlund (Star Wars, E.T, Poltergeist) que só tinha cerca de quatro meses para terminar o filme que estava previsto para Junho de 1984. O sucesso foi gigantesco com indicações para o Golden Globo, Oscar e BAFTA (tendo este ultimo premiado a canção tema de Ray Parker Jr). O clip desta foi  exibido com sucesso na MTV tendo participação especial de vários artistas da época como Chevy Chase, Carly Simon, Peter Falk, e Danny DeVito.

ghostbusters cartoon

Nas bilheterias o filme foi tão impressionante que se tornou a melhor abertura de um filme da Columbia, chegando a US$ 240 milhões só nos Estados Unidos. O filme agradou também à crítica especializada, arrancando elogios até mesmo do renomado Roger Ebert que se referiu ao filme como um caso raro em que os efeitos especiais colaboravam com a historia, e não a enfraqueciam. A repercussão do filme também conquistou o público infantil, principalmente com as aparições do fantasma Geléia (Slimer) ao qual  Dan Aykroyd sempre se referia como sendo “o fantasma de John Belushi”. O filme gerou uma sequência em 1989, a qual os atores resistiram inicialmente em fazer e mais três séries animadas além de brinquedos, revistas e jogos. Com a morte de Harold Ramis em 2014, o projeto de um terceiro filme reunindo o grupo, o que Bill Murray durante muito tempo dizia não ter interesse em fazer, acabou deixado de lado.

geleia

Eleito 28ª melhor comédia do cinema pelo AFI (American Film Institute), escolhido como uma das comédias mais engraçadas do cinema por revistas especializadas como Empire, Total Film, e Entertainment Weekly. Não há dúvida que o filme tem seus fâs, como eu, e que o novo time, composto por atrizes, terá  dificuldade em substituir um time que marcou mais de 30 anos na memória coletiva do público, que assim como eu adoraria vestir uma mochila de prótons e sair por aí capturando fantasmas malvados. Eu não tenho medo de fantasmas, e você ?

ESTREIA : NO CORAÇÃO DO MAR

no coracao do mar

NO CORAÇÃO DO MAR (IN THE HEART OF THE SEA) EUA 2015. DIR: RON HOWARD, COM CHRIS HEWSWORTH, BENJAMIM WALKER, TOM HOLLAND, BEN WINSHAW.  

Todo mundo conhece a história do capitão com perna de pau que atravessa os mares a caça de uma gigantesca baleia branca. O que muitos não sabem é que o livro em questão, um clássico da literatura mundial escrito por Herman Melville (1819 -1891), foi inspirado em fatos reais: O naufragio do navio Essex nos idos de 1820, depois de ter encontrado uma enorme baleia. “No Coração do Mar” (In the Heart of the Sea) de Ron Howard adapta o livro homônimo escrito por Nathaniel Philbrick que narra o fato por trás da ficção, logo não espere ver a mesma história, não há Ahab nem Ismael mas logo no começo do filme você verá o próprio Melville, interpretado por Ben Whishaw (o Q de “007 contra Spectre”) entrevistando Thomas Nickerson, o último sobrevivente do Essex,  (Brendan Gleeson) para colher dados para o livro que viria a ser “Moby Dick”. Passado o prólogo, o filme nos conduz à história verídica do navio e seus três personagens principais: O Capitão George Pollard (Benjamim Walker de “Abbraham Lincon Caçador de Vampiros”), Owen Chase (Chris Hemsworth de “Thor”) e o próprio Nickerson (Tom Holland, o futuro Homem Aranha) que faz o papel de narrador da história.

no coracao do mar2

O roteirista Charles Leavitt (o mesmo de “Diamantes de Sangue”) e o diretor Ron Howard (“O Código DaVinci” e “Rush – No Limite da Emoção”) não fazem da enorme cachalote branca a protagonista, mas sim a luta pela própria sobrevivência no mar, onde não apenas a baleia como as intempéries do meio guiam os rumos dos personagens. Tanto este quanto a obra literária de Melville fazem  da baleia a expressão personificada da própria natureza humana, suas ambições, suas obsessões e sua fragilidade diante da hostilidade do meio e das limitações impostas por este. Enfim, um curioso estudo que faz deste não um filme de ação, nem uma aventura, mas a possibilidade de observar o que nos faz animais, seja a gigantesca baleia ou a nossa postura diante de um destino implacavel.

Na próxima postagem vou trazer curiosidades a respeito da obra de Melville, aguardem.