MULHER-MARAVILHA : DAS HQS PARA O MUNDO

            Poucos personagens dos quadrinhos se igualam ao histórico da Mulher-Maravilha, apesar dela não ter sido a primeira super-heroina das hqs. Já haviam aventureiras como “Sheena, a rainha da selva” (1937) do mestre Will Eisner e “Dale Arden”, a destemida namorada de “Flash Gordon” (1934) de Alex Raymond. Depois ainda viriam personagens como “Phantom Lady” da Quality Comics e “Black Cat” da Harvey Comics (ambas de Agosto de 1941). Contudo, estas embora tivessem tido um impacto em seu momento, não mantiveram uma repercussão contínua no meio. Muitas personagens femininas ficavam estereotipadas como a eterna moçinha em perigo, ou com um apelo apenas sensual para o público masculino. A mulher buscava uma papel mais relevante na sociedade: sufragistas defendiam seus direitos já nas primeiras décadas do século XX, em 1912 Jane Addams tornou-se a primeira mulher a ganhar o prêmio Nobel da Paz, e na década de 30 Amelia Earhart abriu os horizontes com seus feitos. O mundo clamava por um símbolo capaz de guiar gerações de mulheres, e mostrar aos homens do que elas são capazes.

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A DEUSA DA VERDADE

                         Era Outubro de 1940, o psicólogo norte-americano William Moulton Marston (1893-1947) escreveu um artigo na qual reconhecia que os quadrinhos tinham um potencial educativo. Esse artigo chamou a atenção de Max Gaines, dono da All-American Comics, editora que anos depois formaria a DC comics. A proposta de Gaines era que Marston, criador de um componente que levaria à criação do polígrafo (o detector de mentiras),  atuasse como consultor, o que daria prestígio às suas publicações. Além disso, Marston era um ferrenho defensor da superioridade da mulher, bem como defensor de ideias muito à frente de sua época, como o sexo livre e a poligamia, tendo ele mesmo vivido com duas mulheres. Marston aceitou o cargo, e usando o pseudonimo Charles Moulton,  apresentou a proposta de um novo personagem que seria a essência de suas crenças e de seu trabalho: Uma heroína representante de uma sociedade matriarcal, as lendárias amazonas da mitologia.  Na história, a deusa Afrodite dá vida à uma estatueta de barro, esculpida por Hipólita, a rainha das Amazonas. Estas se isolaram do mundo dos homens há séculos na ilha Paraíso. Quis o destino que o piloto norte-americano Steve Trevor chegasse acidentalmente à ilha onde homens não poderiam permanecer ou as amazonas perderiam sua imortalidade. É feito um torneio para decidir qual das amazonas ficaria incumbida de levar Steve Trevor de volta e defender o mundo do patriacardo de um grande mal que ameaça a todos, no caso a ascenção do nazismo. A estreia da personagem foi em uma história secundária de 8 páginas publicada no título bimestreal “All Star Comics” #8, datada de dezembro de 1941, mesmo mês e ano do ataque japonês a Pearl Habor. Na capa os heróis da Sociedade da Justiça, primeira superequipe de justiçeiros uniformizados. No mês seguinte, a Mulher Maravilha já ganhava mais evidência ao aparecer na capa de “Sensation Comics” #1, com a arte de H.G.Peter mostrando a princesa amazona desviando as balas com seus braceletes, trajando as cores da bandeira americana em seu uniforme sexy de corpete amarelo e vermelho ostentando o desenho de uma águia e uma longa saia azul estrelada.

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O TÍTULO PRÓPRIO EM 1941

                 A heroína, em quatro meses, ganhou seu título próprio, e ao longo das décadas seguintes expandiu sua importância para muito além das páginas da Hq. Durante o tempo em que esteve à frente deste, Marston usou suas teorias sobre a emancipação da mulher,  e suas ideias de liberdade sexual e da independencia feminina, inserindo esses elementos nas histórias, o que diferençiava as aventuras da Mulher Maravilha dos outros heróis publicados na época. Era a figura de uma mulher que salvava o homem (Steve Trevor) do perigo, desafiava a truculência masculina e libertava-se dos grilhões impostos às mulheres. Era comum naquelas histórias imagens de mulheres amarradas ou acorrentadas, o que deixava sugerido ideias sobre perversão e masoquismo. Ainda assim a maior arma da Mulher-Maravilha era o laço de Héstia, um artefato místico que obrigava aqueles nele envoltos a falar somente a verdade. A intenção de  Marston era provar a superioridade feminina, e o visual da arte de H.G.Peter explorava como podia a sensualidade da princesa Diana sem, no entanto, jamais cair na vulgaridade. As vendas eram altas e Marston continuou no título até o número 27, quando ele morreu.

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CATHY LEE CROSBY NO PRIMEIRO PILOTO

              A personagem, no entanto, se manteve ininterruptamente publicada graças a uma cláusula no contrato de Marston com a National Periodic que determinava que se o título parasse de ser publicado, seus direitos reverteriam em definitivo para Marston e seus herdeiros. Em 1968, por exemplo, Diana foi privada de seus poderes divinos e tornou-se uma lutadora de artes marciais, mas 25 edições depois retomou seu status-quo. A heroína foi retratada em belíssimos traços pelo artista argentino Garcia Lopez nos anos 70, e na década seguinte o renomado George Perez que reinventou sua origem explorando a riqueza dos elementos da mitologia grega. Em seguida, vários artistas trabalharam com a personagem como John Byrne, o brasileiro Mike Deodato, Phil Jimenez, Greg Rucka, J.G.Jones e Brian Azzarello, cada qual mantendo vivo o legado de Marston.

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WILLIAM MOULTON MARSTON (SENTADO À ESQUERDA) – O CRIADOR

             Em 1967, o produtor William Dozier, que levou Batman para a Tv encomendou um piloto de 5 minutos entitulado “Who’s afraid of Diana Prince?”, com esta retratada como uma adolescente desajeitada, controlada pela mãe, e que se transforma em uma super-heroína, vivida pela desconhecida Ellie Wood Walker. O projeto não foi para frente, e os planos de uma versão live-action ficaram na geladeira até 1974 quando a ABC produziu “Wonder Woman”, estrelado por Cathy Lee Crosby e encenado no presente. Descaracterizada no piloto, a heroína não usa seu uniforme clássico, e nada em seu visual remete à personagem de Marston, sendo retratada apenas como uma espiã bem treinada (no estilo da fase marcial de Denny O’Neal publicada nas hqs no fim dos anos 60) e enfrentando o ameaçador Abner Smith (Ricardo Montalban).

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LYNDA CARTER – A MULHER MARAVILHA PERFEITA

    O fracasso do piloto não desanimou o produtor Douglas S. Cramer que em 8 meses fez um segundo piloto, “The New Original Wonder Woman”,  fiel às origens das hqs e estrelado pela ex Miss America Lynda Carter, que havia sido inicialmente recusada. Carter, então com 24 anos,  tinha os exatos traços da personagem das hqs e seu piloto agradou a audiência norte-americana.  A série ganhou 14 episódios pela ABC com a heroína vivendo suas aventuras durante a Segunda Guerra, e a partir de 1977, foi transferida para a CBS com as histórias passando para o presente. O sucesso durou até 1979, mas as reprises subsequentes fizeram a personagem extremamente popular, especialmente no Brasil onde a série da Mulher Maravillha foi inicialmente exibida pela Rede Globo, e depois TVS (atual SBT). A série teve vários momentos antologicos com passagens de astros de renome como o cowboy Roy Rogers, John Saxon, Robert Loggia, Roddy McDowell, Mel Ferrer e Debra Winger, que interpretou a Garota Maravilha, irmã de Diana, em dois episódios. Com o passar do tempo, o personagem Steve Trevor (Lyle Waggoner) foi ficando cada vez menos recorrente nas histórias, alimentando histórias de que este não mantinha uma relação amistosa com a atriz, embora Lynda Carter tenha sempre negado. Em 2011, uma tentativa de trazer de volta a Mulher Maravilha para a tv foi feita, sendo mal-sucedida, com a personagem vivida pela atriz Adrianne Palicki, e roteiro do renomado roteirista David E.Kelly.

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LYNDA CARTER & DEBRA WINGER

              A atriz Gal Gadot torna-se agora a nova responsável por mostrar a atual geração o ideal de uma personagem cuja importância já lhe conferiu, ainda que temporariamente, um cargo de embaixadora honorária das Nações Unidas, estampou a capa da revista feminista Ms por duas vezes, e ganhou  nos Estados Unidos um dia dedicado a ela, o “Wonder Woman Day” (3 de Junho).  Não há dúvida que o mundo está mais do que pronto para ela.

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GALERIA DAS ESTRELAS : O CENTENÁRIO DE ANTHONY QUINN

ONE- MAN TANGO

Anthony Quinn

Segundo a auto-biografia do ator Anthony Quinn, o ator de diretor Orson Welles (que também completa seu centenário esse ano e de quem falarei aqui em breve) o teria apelidado de “One Man Tango”, pois sua auto confiança era tamanha que ele poderia dançar um tango sozinho e ainda assim impressionaria. A alcunha parece justa pois imaginem um mexicano com uma habilidade camaleônica tamanha capaz de ser convincente como um árabe, um italiano ou um grego. Seu olhar e postura o torna um revolucionário, um papa ou um deus grego. Estou falando de Antonio Rudolfo Oaxaca Quinn, que se vivo estivesse acrescentaria a esse invejável currículo a marca admirável de 100 anos, uma longevidade não alcançada por meros mortais, mas alcançada e superada ao menos pelas estrelas de cinema.

Nascido em 21 de Abril de 1915 em Chihauhua, México, filho de Manuela e Francisco Quinn que trabalhara como assistente de cameraman para um estúdio cinematográfico de Los Angeles naquele início de século. O pai chegou a fazer parte do exercito do revolucionário Pancho Villa. Antonio trazia no sangue o espírito de um guerreiro. Sua infância foi modesta e antes de ser ator, Antonio foi açougueiro e boxeador graças a um físico invejável que ele soube usar para atuar em papéis que o exigiam como de piratas ou gangsters, sempre como um coadjuvante talentoso capaz de roubar a cena. Lembro de Anthony Quinn, por exemplo, aos 25 anos,  como o vilão de “Cisne Negro” (The Black Swan) de 1940 antagonizando Tyrone Power, com quem também trabalhou em “Sangue & Areia” (Blood & Sand) de 1941, embora tenha feito um papel menor.  Havia já ali uma pretensão, uma ambição que instigava o ator a buscar algo mais. Contratado pela Paramount,  ficou um longo tempo colecionando papéis menores em filmes de outros astros, e sempre em papéis que exploravam mais seu biótipo do que suas habilidades interpretativas. Decepcionado, ele trocou Hollywood pelos palcos da Broadway onde teve elogiado desempenho como Stanley Kowalski na adaptação de “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennesse Williams, e ainda estudou arquitetura por um período. Nessa fase de sua vida, Anthony estava casado com Katherine De MIlle,  a filha do mítico diretor Cecil B.De Mille, com quem aliás não nutria um relacionamento muito amistoso.

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ANTHONY QUINN & A PRIMEIRA ESPOSA KATHERINE DE MILLE

Demorou, mas logo Anthony Quinn foi redescoberto por Hollywood e em 1947 já havia se naturalizado americano. Contudo, quando a peça de Williams foi adaptada para o cinema por Elia Kazan, o papel de Kowalski foi para Marlon Brando. Kazan, no entanto, reconhecia que havia um talento que não deveria ser desencorajado ali, e escalou Anthony Quinn para um outro papel de destaque, curiosamente, o de irmão de Marlon Brando em “Viva Zapata” (1952), cinebiografia do revolucionário mexicano Emiliano Zapata. Esse foi o momento da virada para o ator que conquistou o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel que veio a impulsionar sua carreira, e tornando-o o primeiro ator de origem mexicana a ganhar a cobiçada estatueta de ouro da Academia. Repetiu o feito cinco anos depois quando interpretou o pintor francês Gauguin no excelente “ Sede de Viver” (Lust for Life), dirigido por Vincent Minelli, que conta a história de vida do pintor Vincent Van Gogh (Kirk Douglas).

O SEGUNDO OSCAR, TAMBÉM, COMO COADJUVANTE

O SEGUNDO OSCAR, TAMBÉM, COMO COADJUVANTE

Aparecendo por pouco tempo em cena, Anthony Quinn conseguiu brilhar mesmo contracenando com um visceral Kirk Douglas, em atuação igualmente impactante. Aliás, na vida real Anthony Quinn era um pintor auto-didata, tendo se interessado pela arte durante sua adolescência, e depois de adulto chegou a conquistar elogios do crítico de arte Donald Kuspit e a ter seus quadros exibidos em galerias de arte no México, Los Angeles, Nova York e Paris. Quinn voltou a contracenar com Kirk Douglas como seu antagonista em filme apropriadamente batizado “Duelo de Titãs” (Last Train for Gun Hill) de 1959, faroeste em que Anthony Quinn interpreta um barão do gado que se recusa a entregar seu filho, que cometera um crime, ao homem da lei (Douglas) que já foi um dia seu melhor amigo. Ao longo da década de 50 diversos convites surgiam e o versátil ator foi morar na Itália onde, na época, várias produções internacionais eram rodadas pois os incentivos fiscais barateavam os custos de produção. Nessa época teve a oportunidade de trabalhar com Federico Fellini em “Estrada da Vida” (La Strada) de 1954. Sua figura já havia alcançado prestígio mundial quando apareceu ao lado de nomes de peso como Peter O’Toole e Omar Shariff em “Lawrence da Arábia” (Lawrence of Arabia), de David Lean, e esteve junto de Gregory Peck e, David Niven em “Os Canhões de Navarore” (The Guns of Navarone). Entre esses, me encantei com sua performance em “As Sandálias do Pescador” (The Shoes of The Fisherman), adaptação da obra de Morris West sobre um papa de origem ucraniana eleito em meio a uma crise mundial. Anthony Quinn transmite equilíbrio e uma humanidade tão acima dos padrões normais que, mesmo se tratando de uma história de forte contextualização política, suas ações parecem compor uma fábula moderna. A sabedoria e humildade espelhada nas telas fazem um curioso contraponto com os traços rudes de seu rosto. Este é o meu filme favorito dentre os estrelados por Anthony Quinn, devo dizer.

AS SANDALIAS DO PESCADOR

AS SANDALIAS DO PESCADOR

Em todos esses filmes, mesmo que em meio a  um elenco estelar, Anthony Quinn sempre conseguia se fazer notar, se destacando com notável desembaraço. Ele conseguia transmitir credibilidade não importando em que papel alcançou  impressionante resultado protagonizando “Barrabás” (1961) e “Zorba o Grego” (Zorba the Greek) (1964). No primeiro, uma superprodução realizada no auge dos épicos Hollywoodianos. viveu o atormentado ladrão que foi perdoado e salvo da crucificação no lugar de Jesus Cristo. Do sofrimento pungente de seu personagem no filme de Richard Fleischer, saltamos para uma catarse contagiante como o grego Zorba no filme dirigido por  onde Anthony Quinn ganha a tela com uma atuação maior que a própria vida, dando uma lição de simplicidade e generosidade para um milionário incapaz de perceber o valor da vida. Novamente, a rudeza de seus traços servem de tempero para uma atuação inspirada, capaz de lavar a alma e contagiar o espectador. Foi também um índio (O Intrépido General Custer de 1941 e Bufffalo Bill de 1944), um marinheiro árabe (Simbad o Marujo de 1947), o corcunda Quasímodo da obra de Victor Hugo (O Corcunda de Notre Dame de 1957), um esquimó (Sangue sobre a Neve de 1960), o imperador chinês Kublai Khan (Marco Polo o magnífico de 1965) entre outros.  Todos facetas múltiplas de um ator cuja versatlidade não tinha limites. Na vida pessoal também era um homem de muitos papeis: Estudou arquitetura, casou outras duas vezes, foi pai, escritor, muitos em um único homem.

zORBA O GREGO

zORBA O GREGO

Na década de 60, sua vida pessoal teve grandes mudanças quando ele se divorciou de Katherine, com quem teve cinco filhos e se casou com Jolanda Addolori , uma estilista que Quinn conhecera na Italia e que veio a se tornar sua segunda esposa. Anthony Quinn, em uma entrevista à revista LIFE, dizia que o tempo todo procurava fugir da estereotipação dos papeis que lhe eram oferecidos. Ainda assim aparecia em papéis assim como um milionário grego inspirado na figura de Aristoteles Onassis em “O Magnata Grego” (The Greek Tycoon) de 1978, o profeta mulçumano em “Maomé – o Mensageiro de Deus” (Mohammed – Messenger of God) de 1977. A chegada da idade lhe dificultou o acesso aos bons papeis, mas o ator encontrou na TV novas possibilidades. Na década de 90, veio o papel de Zeus, o senhor do Olimpo em uma série de telefimes estrelados por Kevin Sorbo como o semi deus “Hercules”. Personagens marcantes fizeram sua carreira memorável e este ano celebramos tal multiplicidade com a certeza única de que poucos atores conseguiram marcar sua estirpe tendo contra si tantos estereótipos imputados a si, e a a favor toda essa energia que fez de Anthony Quinn um ídolo como poucos.