MEMÓRIAS DE UM CINÉFILO : A REVISTA CINEMIN

Cinemin Capas I

Entre novembro de 1982 e outubro de 1993 circulou no Rio de Janeiro a melhor revista sobre cinema desse país. Em suas páginas aprendi tanto que esse período, durante o qual fui fiel leitor dela, foi como se eu tivesse um curso superior completo de artes cinematográficas. Foi meu primo quem me apresentou a revista Cinemin, edição nº9 de Abril de 1984. No centro da capa o anuncio de “No Limite da Realidade”, filme em que Steven Spielberg, John Landis, Joe Dante e George Miller retomavam a clássica série de Tv “Além da Imaginação” (The Twilight Zone), criada por Rod Serling e que eu adorava assistir. Como o título em Português era diferente, não tinha percebido que era uma adaptação. Foi a Cinemin que me informou não apenas disso como também apontando quais episódios estariam refilmados. Na época, com 13 anos e tendo a TV como babá, eu descobria também quem tinha sido a atriz Frances Farmer, como tinha sido a vida do astro Gary Cooper e do maior dos intérpretes de Tarzan (herói de minha infância), o ator Johnny Weissmuller, que havia falecido no México em Janeiro daquele ano. As páginas da Cinemin eram bastante diversificadas equilibrando o amor pelo passado clássico da sétima arte com as atualidades da época. Lembrando que na época não existia internet, redes sociais ou programas de TV por assinatura que hoje colocam a informação ao alcance da palma de nossas mãos. Assim sendo, a Cinemin também informava sobre os lançamentos de “O Dia Seguinte”, polêmico na época ao falar de uma catástrofe nuclear e o divertido “Jogos de Guerra” que apresentava ao público o talentoso Matthew Broderick.

cinemin 9

A CINEMIN NASCE & RENASCE. Na verdade a Cinemin, que conheci então, era a 5ª série publicada pela editora Ebal, do saudoso Adolfo Aizen. A revista começou a ser editada em Novembro de 1951 trazendo a quadrinização de grandes filmes, tendo sido a primeira o musical “Quando fala o coração” com Jane Powell e Ricardo Montalban. Essa série teve 100 edições mensais em formato americano, publicada em uma média de 36 páginas em preto e branco. Em fevereiro de 1960 a revista zerou sua numeração e seguiu por mais 35 edições, sendo que até o número 24 era mensal e a partir daí até o fim permaneceu bimestral. Em Janeiro de 1964, a terceira série da Cinemin recomeçou com regularidade mensal, mas com um formato estranho, comprido, difícil de manusear sem rasgar as páginas, o que desagradou ao público leitor. Logo, a partir do numero 7 datado de Julho de 1964, a Ebal retornou ao formato americano. Outra mudança nessa fase foi que ocasionalmente, em vez de trazer a quadrinização de clássicos do cinema, trouxe em suas páginas a versão em HQ de episódios da popular série “Além da Imaginação”. 24 edições depois a revista foi descontinuada, e só foi brevemente retomada em Março de 1975 por 5 edições mensais coloridas que publicou as HQ humorísticas de Francis, a mula falante, licenciadas da editora americana Dell Comics. Curiosamente, a capa estampava que esta era a 3ª série demonstrando que os editores da Ebal se confundiram com a numeração.

cinemin 1ª serie

A REVISTA DA SÉTIMA ARTE. A revista Cinemin que eu conheci, trocou as versões em quadrinhos por um trabalho jornalístico sério voltado para a divulgação do cinema contemporâneo e capitaneado pelo jornalista e crítico de cinema Fernando Albagli, que trabalhara durante um bom tempo no Jornal do Brasil. A primeira edição dessa nova encarnação da revista Cinemin chegou às bancas em Novembro de 1982, anunciada como “a revista da sétima arte”. Foi o ano em que o Brasil perdeu a copa da Espanha, a Inglaterra venceu a Argentina na guerra das Malvinas e o nosso país açoitado por dívidas com o FMI vivia a primeira eleição direta para governador marcando o início de uma redemocratização. Para mim, em plena adolescência alimentada por filmes na TV e nos cinemas,  o mais importante era ter contato com todo um universo que me encantava.

Fernando Albagli, a alma da Cinemin

Fernando Albagli, a alma da Cinemin

A principio, a revista oscilava entre uma periodicidade ora bimestral ora trimestral até maio de 1985 (edição número 14 trazendo Fred Astaire & Ginger Rogers na capa) quando passou a mensal, ainda que eventualmente motivos de força maior a fazia pular um mês, mas voltando sempre a regularidade de mês a mês. Cinemin foi pioneira em seu trabalho, teve concorrentes na sua área de atuação, mas nenhuma que fizesse um trabalho tão bem feito informando, divulgando, fazendo história já que a Cinemin testemunhou o nascimento do mercado de home-video com a chegada do vídeo-cassete, que levou a magia do cinema para uma nova geração. Fernando Albagli editava a revista com a paixão impressa em cada página e acompanhada de um time de ouro que dividia com ele o mesmo amor : Antonio Carlos Gomes de Mattos (que eu já conhecia da revista “Amigão”, encarte da Amiga Tv Tudo que tratava de cinema e TV) , João Lepiane,  Luiz Saulo Adami, Gil Araujo, Salvyano Cavalcanti entre outros.

cinemin fantastic

POR DENTRO DA REVISTA.  Eu devorava a “Galeria das Estrelas” que mês a mês trazia a vida dos artistas que pertenciam ao meu panteão de admiração e adoração : James Stewart, Spencer Tracy, Cary Grant, Barbara Stanwyck, Greta Garbo, Tyrone Power, Ingrid Bergman e muitos outros. Para mim, era como se eu estivesse temporariamente transportado para Hollywood, visitando a calçada da fama. Outra seção que eu adorava era “Isto não é fita… é fato” que trazia diversas curiosidades sobre os bastidores dos filmes e sobre as personalidades (atores, diretores e produtores) fora dos holofotes. A revista jamais ficava restrita a um único assunto, sendo assim além de Hollywood, a Cinemin falou de Neo Realismo, Novelle Vague, festivais nacionais (Riocine, mostra São Paulo, festival de Brasilia), expressionismo alemão, coadjuvantes notáveis, os seriados do cinema, enfim a lista é grande. Várias entrevistas foram publicadas e o Gil Araújo fazia uma ponte entre o leitor e a revista respondendo tudo o que perguntassem. Lembro de alguns artigos que considero os melhores (e olha que a escolha é difícil) : Os maiores espadachins das telas, os grandes seriados da TV, Hitchcock & Stewart : A essência do suspense, os maiores cowboys das telas, galeria do horror etc.. Ocasionalmente, a Ebal também publicou a edição especial “Cinemin Fantastic” centrada no universo dos filmes de terror e ficção científica (outro pioneirismo imitado depois por outras editoras). A primeira edição trazia uma painel da ficção cientifica no cinema e a melhor reportagem sobre os filmes de 007 até o último então que marcava a despedida de Roger Moore.

cinemin hithc

O FIM. Uma vez que a Cinemin reverenciava o passado sem nunca virar as costas para o presente ou o futuro, por volta do número 63 ou 64, quando a revista voltou a circular bimestralmente,  começou uma série de artigos entitulada “Stars 90” falando da carreira de Julia Roberts, Demi Moore entre outros talentos que despontavam nas telas. Lamentavelmente, a revista deixou de circular depois da edição 86, datada de outubro de 1993, depois de cerca de 70 mil exemplares vendidos sem ter o luxo de anunciantes que patrocinassem a revista, um feito e tanto no mercado editorial brasileiro. Tenho várias, mas sucessivas mudanças de endereço e empréstimo a algumas pessoas diminuíram meu acervo. Frequentemente releio minhas Cinemins e o que encontro nela, site nenhum ou livro nenhum consegue se igualar. Saudades ficaram e a esperança de que um dia uma publicação (real ou virtual) consiga fazer pela nova geração de cinéfilos o que a Cinemin soube fazer pela minha, pois o show deve continuar. Obrigado, Fernando Albagli e equipe ! Obrigado Adolfo Aizen !

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5 comentários em “MEMÓRIAS DE UM CINÉFILO : A REVISTA CINEMIN

  1. A Cinemin também causou esse mesmo impacto em mim, e mesmo hoje não encontramos uma revista impressa com comparável qualidade.

    O nome do meu blog, Cineminweb (www.cineminweb.com.br), é uma homenagem à turma de Fernando Albagli.

  2. Foi com essa maravilhosa revista que aprendi muito sobre cinema. Sinto saudades desses bons tempos ! Excelente matéria, gratidão!

  3. Possuo todas as edições da última etapa (86 revistas) todas devidamente encadernadas com capa dura e tal. Adorava elas. Muito boa mesmo.

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