GRANDE ESTREIA: TURMA DA MÔNICA LAÇOS

     turma-da-monica-lacos-divulgacao_widelg.jpg            Era dezembro de 1976; e lembro muito bem que, aos 7 anos, foi marcante ver Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali falando pela primeira vez no curta “Natal da Turma da Mônica”, exibido nos comerciais de Tv com patrocínio da CICA, empresa de conservas alimentícias já extinta. Imagine então o impacto hoje, mais de 40 anos depois, de ver os maravilhosos personagens criados por Maurício de Souza vividos pelos atores mirins Giulia Benitte, Kevin Vechiatto, Gabriel Moreira e Laura Rauseo no filme de Daniel Rezende “Turma da Mônica: Laços”, produzido por Fernando Fraiha e Bianca Villar responsáveis por “Os Homens São de Marte… e É Para Lá que Eu Vou” (2014) e “Divinas Divas” (2017).

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                O roteiro de Thiago Dottori explora a exata sensação de nos fazer sentir no fictício bairro do Limoeiro, das páginas das hqs originais, e consegue despertar a criança interior de todos que, como eu, há décadas acompanhamos os planos infalíveis do Cebolinha, as invenções malucas do Franjinha e aquelas inocentes confusões envolvendo a dentuça brigona, a menina gulosa e todo um elenco de personagens cativantes. A história do filme é uma adaptação da hq homônima, publicada em 2012, escrito e desenhado por Victor & Lu Cafaggi, como parte de uma série de álbuns (Graphic MSP) dedicados à releitura do universo de Mauricio de Souza. A história dos irmãos Cafaggi foi premiada com o 26º Troféu HQ Mix e ganhou uma sequência três anos depois intitulada “Turma da Mônica – Lições”, sendo esta uma possível sequência nas telas em breve.

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               A história de “Laços” gira em torno do sumiço do Floquinho, o cão do Cebolinha, que reúne sua turma para procurá-lo, encontrando um grupo rival. O título da obra salta aos olhos pelo foco na amizade que une o quarteto, lembra à primeira vista histórias como “Conta Comigo” e “Goonies”, mas tem personalidade própria graças ao encanto imbuído nesses personagens desde sua criação em 1959,  a princípio nas tirinhas de jornal, e depois em uma revista em quadrinhos. O cão Bidu, inspirado no animal de estimação de Maurício, foi seu primeiro personagem, seguido de Franjinha, Horácio, Astronauta e outros. Cebolinha, o menino que troca o “R” pelo “L” estreou como coadjuvante do Franjinha, baseado em um dos amigos de infância do autor, ainda na fase das tirinhas de jornal publicado na “Folha da Manhã”, publicação onde Maurício iniciou sua carreira como repórter policial. Cebolinha foi durante um tempo o principal personagem das histórias até perder o posto para a Mônica, criada em 1963, e inspirada em uma de suas filhas. Cascão surgiu em 1961 inspirado no amigo de um irmão de Maurício, e Magali, apaixonada por Melancias, aparece em 1964 também baseada em uma de suas filhas. A partir de 1970, as revistas da turma passaram a ser publicadas pela Editora Abril, em parceria com seu próprio estúdio, competindo com vários personagens estrangeiros, principalmente os da Disney, pela atenção do público infantil. Na segunda metade dos anos 80, a Editora Globo deu continuidade às publicações que já havia se diversificado em vários títulos, sendo que a Magali só ganharia seu título próprio em 1989, começando com um concurso aberto aos leitores para batizar o gato angorá da adorável comilona, que veio a ser Mingau. Na Editora Globo, os títulos dos Estúdios Maurício de Souza ampliaram ainda mais a linha editorial com almanaques e especiais editados até 2007, quando a Panini tornou-se a nova casa desses queridos personagens vindo ainda a ganhar uma versão mangá, a “Turma da Monica Jovem” com versões mais velhas da turminha.

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             Na década de 80 Mônica e seus amigos invadiram as telas do cinema pela primeira vez no longa animado “As Aventuras da Turma da Mônica” de 1982 reunindo quatro histórias apresentadas pelo nosso Walt Disney brasileiro, alcançando a impressionante marca de mais de um milhão de espectadores. Dois anos depois, a turma estreia nas telas uma história de 90 minutos intitulada “A Princesa & O Robô”, com claras referências a Star Wars, ao levar a turminha para um planeta cenoura onde enfrentam Lorde Coelhão, versão infantil de Darth Vader saído dos doces sonhos de quem correu pelo bairro do Limoeiro, um universo próprio habitado pela inocência e pela diversão, de onde também temos o alucinado Louco, personagem de Rodrigo Santoro que rouba a cena no filme “Laços”, mas que não aparece na história original dos irmãos Cafaggi. O filme tem até uma rápida aparição do próprio Maurício, tal qual Stan Lee nos filmes da Marvel, e que fará a alegria de muitos marmanjos como eu, rever esse gênio que marcou a infância de várias gerações, além de nos presentear com Chico Bento, Turma do Penadinho, Piteco, Horácio, Pelezinho entre outros tantos.  É inevitável criar nossos laços não somente com o filme, mas com cerca de 60 anos de doces lembranças “fluto de uma adolável memólia afetiva”, como diria Cebolinha, fazendo rir e emocionando a todos.

(DEDICO ESSE ARTIGO A RUBENS EWALD FILHO QUE FOI INSPIRAÇÃO, MENTOR E MEU AMIGO PESSOAL. OBRIGADO POR ACREDITAR SEMPRE EM MIM.)

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IN MEMORIAM: RUBENS EWALD FILHO

Rubinho

                         DIFÍCIL PARA MIM DIZER O QUE SINTO. ESSE HOMEM SEMPRE FOI UM EXEMPLO PARA MIM. SOU MUITO GRATO A DEUS POR TÊ-LO CONHECIDO, AINDA QUE A DISTÂNCIA. EU SEMPRE SENTIA QUE ERAMOS COMO ELTON JOHN E BERNIE TAUPIN, QUE SEMPRE COMPUNHAM CANÇÕES SEPARADOS FISICAMENTE, CADA UM EM SUA CASA. ASSIM ÉRAMOS RUBENS E EU. DESDE 2003 EU FALAVA COM ELE POR E-MAIL E DESDE 2011 ELE PASSOU A PUBLICAR MEUS ARTIGOS SOBRE FILMES, INICIALMENTE NO PORTAL R7, E DEPOIS EM SEU BLOG, NO SITE DVDMAGAZINE E NO TRIBUNAONLINE. MESMO QUE NEM SEMPRE ELE CONCORDASSE COM ALGUNS DOS MEUS PONTOS DE VISTA, ELE NUNCA DEIXOU DE APROVEITAR MEUS TEXTOS POSTADOS A MEDIDA QUE OS GRANDES BLOCKBUSTERS CHEGAVAM ÀS TELAS. DURANTE A TEMPORADA DE PREMIAÇÕES QUE COMEÇA EM JANEIRO E CULMINA NO OSCAR, ERAM OS COMENTÁRIOS DELE, E SUA MEMORIA PRODIGIOSA QUE ME MOVIAM A ACOMPANHAR OS EVENTOS. ASSIM COMO ELE, E POR CAUSA DELE, COMECEI TAMBÉM A ANOTAR OS FILMES ASSISTIDOS EM UM CADERNO E A DAR NOTA A ELES, COISA QUE DEPOIS PASSEI A FAZER PELO COMPUTADOR.

             TUDO COMEÇOU PARA MIM NO INICIO DOS ANOS 80 QUANDO EU VIA O RUBENS NA TV CULTURA ONDE APRESENTAVA O PROGRAMA “ISTO É HOLLYWOOD”, E DEPOIS NA REDE GLOBO ONDE COMENTAVA AS ESTREIAS NAS TELAS NO JORNAL HOJE. RUBENS ERA UM APAIXONADO PELAS ARTES CÊNICAS, DIRIGIU PEÇAS, ATUOU, ESCREVEU, VIVEU UMA VIDA INTENSA COM GENEROSIDADE E INTEGRIDADE. ATRAVÉS DE E-MAILS CONHECI UM POUCO UM LADO MAIS PESSOAL DELE, E POR TUDO ISSO SOU GRATO A DEUS. RUBENS FOI UMA INSPIRAÇÃO DE PROFISSIONALISMO QUE FEZ DE UM GAROTO DE 13 ANOS PRESTAR ATENÇÃO E SE APAIXONAR PELO QUE CINEMA, PELO QUE AS ARTES CÊNICAS TRAZEM. MUITO OBRIGADO MEU QUERIDO AMIGO POR TUDO. QUE SUA PASSAGEM SEJA DE LUZ.

GRANDE ESTREIA: MIB – HOMENS DE PRETO INTERNACIONAL

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MIB INTERNACIONAL. EUA 2019. DIR: F. GARY GRAY. COM CHRIS HEMSWORTH, TESSA THOMPSON, LIAM NEESON, EMMA THOMPSON, REBECCA FERGUSON. FICÇÃO CIENTIFICA / COMÉDIA.

                Há 22 anos fomos apresentados a uma organização secreta que monitora a atividade extraterrestre no mundo. Os agentes J (Tommy Lee Jones) e K (Will Smith) foram os personagens centrais por três filmes MIB de 1997 a 2012, uma parceria de opostos, o sisudo Jones e o falastrão Smith defenderam o planeta de ameaças alienígenas em uma criativa mistura de comédia e ficção cientifica. Natural que a franquia necessitasse de novos rumos com o desinteresse dos astros originais em retornar para seus papeis. A principio, no entanto, era que ambos reprisassem os papeis de J & K em um quarto filme. Falou-se até em um possível cross-over com “Anjos da Lei”  que seria chamado MIB 23 até que o estudio Sony decidiu fazer um spin-off, com ares de reboot disfarçado, elevando a agência a uma grau de atividade mais global e com dois novos agentes interpretados por Hemsworth e Thompson, Thor e Valquiria dos filmes do Universo Cinematico Marvel. Em tempos de empoderamento feminino nada mais compreensível que a nova dupla de MIB tenha um homem e uma mulher, sendo esta não uma escada para a figura masculina mas alguem tão ou, talvez, ainda mais importante que ele.

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                     A história do novo MIB mostra o experiente agente H (Hemsworth) treinando a novata agente M (Thompson), que teve uma experiência com extraterrestres quando criança, às voltas com a descoberta de um traidor entre eles. Claro que a nova aventura vem com referências aos filmes originais: Frank, o pug faz uma rápida aparição, e os agentes J e K aparecem em uma pintura no escritório londrino numa clara alusão aos eventos do primeiro filme. Tornou-se marca registrada dos filmes apontar celebridades  como alienígenas residentes no planeta. Assim foi com Elvis Presley, Michael Jackson, Steven Spielberg e Sylvester Stallone, desta vez Donald Glover e até Sergio Mallandro entraram para a lista.

men-in-black-01.jpg               Toda essa inventividade é uma adaptação das histórias em quadrinhos. “Homens de Preto” foi publicado pela primeira vez em 1990 pela Aircel Comics, depois vendida para a Malibu Comics,  que seria adquirida pela Marvel Comics. Nas histórias originais, escritas por Lowell Cunnigham, a organização que mistura o visual dos Irmãos Cara de Pau com o clima de Arquivo X investiga todo tipo de fenômenos, não apenas os de origem alienígenas, mas também sobrenatural e paranormal. Nas hqs, vampiros, zumbis e fantasmas também estão na mira e os agentes não medem esforços, chegando até mesmo a usar meios questionáveis para atingir seu objetivo de manter a população à margem de tudo.  

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                 O filme ainda traz em seu elenco de apoio Emma Thompson, que no filme anterior já fazia o papel da líder da organização, Liam Neeson e a bela Rebecca Ferguson da franquia “Missão Impossivel”. Se você é fã desses divertidos agentes da lei intergalatica, divirta-se com a trivia abaixo:

  1. Na época do primeiro filme os papeis de J & K foram inicialmente oferecidos a Clint Eastwood e Chris O’Donell.
  2. O primeiro filme, 1997, recebeu o Oscar de melhor maquiagem.
  3. Esse quarto filme é o primeiro filme da franquia não dirigido por Barry Sonnefield.
  4. Quando o segundo filme foi lançado, 2002, cenas que mostravam de longe o World Trade Center foram editadas devido ao ataque de 11 de Setembro.
  5. A hq original também foi adaptada para a Tv em uma série animada e para jogos de computador.

GRANDE ESTREIA: X MEN FÊNIX NEGRA

          Este ano o gênero super herói teve um excelente encerramento com “Vingadores Ultimato”. Esse novo filme dos heróis mutantes, o sétimo da franquia da FOX iniciada em 2000, não trilha o mesmo caminho por muitos motivos: A compra da FOX pela Disney, as refilmagens e adiamentos seguidos, a condensação de uma saga que caberia em uma trilogia dentro de cerca de 1 hora e 53 minutos de projeção e o fato de que é uma segunda adaptação.

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           Em 2006 Bryan Singer trocou o terceiro filme da franquia pela oportunidade de fazer “Superman Returns” para a Warner. Brett Ratner assumiu o comando do terceiro filme da equipe mutante que mistura elementos da saga da Fênix Negra com o arco de história “Surpreedentes XMen” onde cientistas encontram uma possível cura para a mutação genética. Praticamente eram dois arcos que poderiam ser abordados em filmes separados e com seus respectivos atrativos diluídos de tal forma que o resultado acabou sendo desastroso. O curioso é que o roteiro desse capítulo 3, batizado “The Last Stand”, foi escrito pelo mesmo Simon Kinberg que agora assina a história e a direção de “Dark Phoenix”. Parece pouco sensato revisitar a mesma história, insistindo no mesmo erro de aproveitar uma pequena premissa de uma história maior, e uma das melhores vinda dos quadrinhos desses populares heróis criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby.

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        Para quem é leitor de longa data da Marvel sabe que a natureza dos personagens foi mudada em favor de estrategias do mercado cinematográfico. Mística aparece como a líder da equipe já que Jennifer Lawrence é uma estrela de primeira grandeza nas telas, e assim como a trilogia inicial, resta pouco ou quase nada para Ciclope ou Tempestade, até porque suas inserções no filme anterior “X Men Apocalipse” (2016) foram mal planejadas em um filme cheio de equivocos apesar de trazer no elenco James MacAvoy e Michael Fassbender, excelentes em seus papeis antagônicos de Xavier e Magneto.

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         Sophie Turner (que recentemente também se despediu de sua personagem de “Game of Thrones”) veste bem sua personagem, herdada de Famke Jansen, mas sofre com um roteiro que não aproveita nem 20 por cento da história original, uma saga com todos os elementos atrativos do gênero, que se fosse bem adaptada se iguala a saga de Thanos. Nos quadrinhos o arco começou quando Chris Claremont assume as histórias dos X Men em 1975, a principio com os desenhos de Dave Cockrum, e depois com o artista John Byrne. O que eles fizeram foi explorar todo o potencial de Jean Grey, a primeira heroína mutante, que a principio atendia pelo nome de Garota Marvel. Seus poderes mentais alcançam escala cósmica quando Jean salva os seus companheiros de equipe de uma aventura no espaço quando entra em contato com a força Fênix, uma entidade super poderosa. Transformada na Fênix, Jean salva o universo da destruição total por uma galáxia de neutrons, quando os mutantes são enviados à distante galáxia Shiar. Seu heroísmo acaba levando à premissa de que se o poder corrompe … bom, influenciada pelo Mestre Mental, membro do Clube do Inferno, uma sociedade secreta, Jean vai se tornando cada vez mais descontrolada até finalmente assumir-se como a Fênix Negra. Jean viaja para outra galáxia, mergulha em uma estrela consumindo-a, assim como toda a vida no setor. O que se segue é uma batalha épica aprofundada pelo dilema que questiona se a vida de um é mais importante que a vida de bilhões.

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             Impossível esquecer o impacto do arco de 1980 (Uncanny X Men #129 / #138)  que no Brasil chegou ao seu clímax nas páginas de “Grandes Heróis Marvel #7” , da Editora Abril em fevereiro de 1985. Lembro bem do choque em ver o corpo de Jean sem vida nos braços de seu amado Ciclope. Justamente por ter sido um arco longo os leitores se envolveram de tal forma que era impossível não sentir o pesar de Ciclope ou o desespero de Xavier para tentar salvar sua pupila, devidamente anunciada na época como a maior história de todos os tempos.

         No filme de Simon KInberg a trilha sonora ficou a cargo de Hans Zimmer, que foi responsável pelos temas de Batman, Superman, Homem Aranha e Mulher Maravilha. Zimmer já havia anunciado que não pretendia trabalhar mais com filmes de super herois mas foi convencido por Kinberg a voltar atrás. Curiosamente, o filme acontece no ano de 1992, mesmo ano de lançamento da série animada dos X Men, que fez melhor adaptação da saga da Fênix Negra. Não procurem por Wolverine pois o personagem não é usado já que Hugh Jackman já se aposentou oficialmente do papel depois de Logan (2017). Jessica Chastain faz o papel misterioso, aparentemente tentando influenciar Jean tal qual o Mestre Mental nas hqs originais. O filme será o último da franquia que certamente será rebootada pelo MCU dentro de alguns anos. Por isso, melhor se preparar para a despedida, para a morte de personagens, mas lembrando sempre que de acordo com a lenda, a Fênix renasce das cinzas.

GRANDE ESTREIA: ROCKET MAN

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          Mais de 300 milhões de discos vendidos no mundo, sete álbuns consecutivos em primeiro lugar nas paradas americanas, carreira premiada com Grammy, Brit Awards, Tony, Golden Globe, Oscar entre outras honrarias são tantos feitos e tantos sucessos que seu nome certamente há sempre de pairar alto como uma pipa, ou melhor dizendo como um foguete, nascido Reginald Kenneth Dwight mas seu talento o fez renascer como Elton John. O filme que estreia hoje nos cinema é um presente para seus fãs, mas também uma oportunidade para os que não são conhecerem a trajetoria desse ícone da música pop.

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          Depois do sucesso de “Bohemian Rhapsody”,  Dexter Fletcher – que finalizou o filme do Queen depois da saída de Bryan Singer – assumiu adaptar a vida de Elton John em um filme sem concessões, mostrando os baixos na vida pessoal e profissional do cantor, mesmo que com isso a classificação etária restringisse o alcançe do filme. O próprio Elton John garantiu que assim fosse, pois em suas própria palavras “Minha vida não foi aconselhável para menores”. Mesmo com cenas fortes mostrando sexo e drogas, o filme de Dexter Fletcher impressiona pelas cenas que mesclam fantasia e realidade na medida que mostra como um garotinho venceu a timidez, e outros obstáculos pessoais, para se tornar um artista de projeção internacional. No elenco de apoio Jamie Bell (Tintin) é Bernie Taupin, o parceiro de composições de Elton e Bryce Dallas Howard (Jurassic World) interpreta a mãe do músico que trazia um talento prodigio, iniciando sua carreira no final dos anos 60 e tornando-se uma estrelas ao longo da década seguinte, período em que o roteiro se concentra no recorte biográfico. A quantidade de hits preenche a tela e as cenas, assim como “Mamma Mia” fez com as canções do Abba, inserindo-as na representação de diversas passagens da vida do músico.

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         Sua carreira sempre esteve identificada com uma união harmoniosa entre imagem e som, seja nos figurinos extravagantes que usou diversas vezes em suas apresentações nos anos 70, tal qual um Liberace renascido no cenário pop, Capitão Fantástico, Pato Donald ou Mozart, com plumas, paetês, óculos e rock saltando das teclas de seu piano, movido por canções como “Bennie & The Jets”, “Crocodile Rock” ou baladas poéticas como “Don’t Let the Sun Go Down On Me”, ou “Your Song”, esta escolhida como uma das mais belas canções de amor, seu primeiro grande sucesso nos Estados Unidos em 1970, essência de toda uma discografia, grande parte da qual composta junto a Bernie Taupin. Desde o começo Elton na música e Bernie como letrista fizeram o mundo bailar e se apaixonar até mesmo visitando e revisitando a sétima arte como quando criaram “Candle in the Wind”, melodiosa canção que fala da musa Marilyn Monroe, ou quando nos levaram de volta ao mundo de Oz em “Goodbye Yellow Brick Road”, seu sétimo álbum de estúdio lançado em 1973, presente na lista dos maiores álbuns no Rock and Roll Hall of Fame. Em 1975 Elton John fez sua primeira aparição como ator em um filme, parte do elenco da opera rock “Tommy”, dirigido por Ken Russell, transformando-se na figura delirante do Pimball Wizard na canção de mesmo nome composta por Pete Townshend da banda “The Who”.

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        O talento da dupla Taupin & John é tão imagético que seus clips trazem uma identidade cinematográfica como a história de amantes separados pela guerra de “I guess that’s why they call it the blues” (1984), o amor de um ocidental e uma comunista em tempos de guerra fria em “Nikita” (1985) ou a arquitetura retro no cenário de “Believe” (1995). Com um lirismo que evoca o romantismo de Cole Porter, Elton John cria suas melodias separado de seu parceiro de longa data, o letrista Bernie Taupin mostrando que a soma das partes leva a uma resultado admirável em que letra e música criam uma dimensão sonora viva e contagiante como a clássica “Rocketman” (1972), que dá nome a sua cinebiografia, escrita a partir de um conto de Ray Bradbury que integra o livro “The Illustrated Man”, em uma época em que canções com temática espacial eram populares.

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          Elton John colaborou com a trilha sonora de vários filmes: a balada “Daniel” toca em “Alice Não Mora Mais Aqui” (1974) de Martin Scorcese, “Tiny Dancer” em “Quase Famosos” (2001) de Cameron Crowe, “You Gotta Love Someone” em “Dias de Trovão” (1990) de Tony Scott além de séries de Tv como “Glee” (2010-2013) e “Californication” (2009-2014). O cantor passou por altos e baixos que são facilmente identificáveis em várias das fases de sua carreira, mas sempre apoiou causas humanitárias. Depois da morte de Lady Di, reverteu a canção “Candle in the Wind” para homenagear sua amiga, a princesa a quem chamou de “English Rose”, e que se tornou o single mais vendido da história. Em 1985, mesmo ano em que participou do Live Aid, participou da gravação de “That’s What Friends Are For” junto a Dionne Warwick, Stevie Wonder e Gladys Knight, que teve o lucro revertido para as pesquisas da “American Foundation For AIDS Research”. Sete anos depois o cantor deu seu nome para a criação da “Elton John AIDs Foundation”, organização que apoia além de diversas causas humanitárias.

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        Sempre muito pessoal em suas composições, ele fez sozinho a instrumental “Song for Guy” (1978) para um amigo que morrera tragicamente e em meio a seus acordes desperta uma experiência espiritual encerrada com versos que dizem “Life isn’t everything” ( A Vida não é tudo). Lançou “Empty Garden” dois anos depois da morte de John Lennon, de quem era grande amigo, além de ser padrinho do segundo filho do ex Beatle. O homem foguete da música pop chegou à década de 90 compondo, junto a Tim Rice, as canções “Circle Of Life” e “Can You feel The Love Tonight?” da trilha sonora da animação “O Rei Leão”, um dos maiores triunfos dos Estudios Disney, que lhe deu o Oscar da Academia. Alguns anos depois voltou a trabalhar com Rice para a trilha de “O Caminho para Eldorado” da Dreamworks, em que sua voz também serviu de narrador da história.  Com a própria produtora a “Rocket Pictures”, fez de suas canções o fio condutor da animação “Gnomeu & Julieta” (2011), que ganhou sequência em 2016 embalando uma nova geração com sucessos como “Don’t Go Breaking My Heart” , “Philadelphia Freedom” e “I’m Still Standing”. Em 2017, interpretou a ele mesmo em “Kingsman; Circulo Dourado”, curiosamente protagonizado por Taron Egerton, que interpreta Elton na cinebiografia “Rocketman”.

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             Esse prodígio que aos 4 anos já dedilhava no piano, que já foi dono de um time de futebol inglês, outra de suas paixões, sobreviveu a todos os excessos que um astro atravessa como drogas e álcool, além de ter lutado contra a bulimia durante vários anos. Também sobreviveu a tentativas de suicídio e com conflitos gerados por sua sexualidade, a princípio escondida e depois assumida. Hoje casado e feliz com o empresário David Furnish e com dois filhos, Zachary de 9 anos e Elijah de 6 anos, esse fantástico artista ainda esbanja vitalidade e criatividade, já tendo se apresentado no Brasil três vezes, anuncia sua aposentadoria após o final da atual turnê batizada de “Farewell Yellow Brick Road”. Elton é um sobrevivente, mas ainda de pé, depois de todo esse tempo conquistou uma vida plena com muitos fãs, incluindo este que escreve, que ao aprender inglês, traduziu como primeira canção a melodiosa “Skyline Pidgeon”, que no Brasil foi parte da trilha sonora da novela “Carinhoso” (1973). Foi amor a primeira vista, ou melhor à primeira audição, comprovando o que letra de “Sad Songs” diz, que canções romântica sempre tem muito a dizer, e certamente Elton sempre teve.

 

 

GRANDE ESTREIA: GODZILLA O REI DOS MONSTROS

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          Desde tempos imemoriais a crença em monstros tem feito parte do folclore de várias civilizações. Como a figura do Kraken (uma espécie de lula gigante) que aterrorizou os antigos gregos. Na época das grandes navegações, eram incontáveis os relatos de serpentes marinhas. E até hoje, turistas viajam a Escócia à procura de algum sinal do lendário monstro de Loch Ness. Por isso é lógico que a ideia de um animal de proporções colossais que destrói tudo por onde passa seja explorada pelo cinema.

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            A estreia da nova versão de Godzilla em 2014 coincidiu com os 60 anos do personagem. No filme original, um gigantesco lagarto pré-histórico cujo hálito pode cuspir fogo foi despertado pela ação de testes com armas nucleares que provocaram uma mutação em sua natureza jurássica. O rastro de destruição que acompanha seus passos acaba com Tóquio até que o sacrifício de um cientista põe um fim na marcha mortífera da criatura. Dirigido por Ishiro Honda, Godzilla representou para a terra do sol nascente um demônio a ser exorcizado: a radiação nuclear e a queda da bomba atômica em Hiroshima & Nagasaki eram como um flagelo incutido na memória coletiva do povo japonês e personificado na figura de Godzilla, ou no original Gojira, aglutinação de duas palavras nipônicas : Gorira (gorila) e Kujira (baleia). O filme da Toho Company chegou a ser indicado para melhor filme pela Japanese Academy Awards, mas perdeu o prêmio para Os Sete Samurais de Akira Kurosawa. Curiosamente, os efeitos especiais não receberam a mesma honraria, apesar da competência do técnico Eiji Tsuburaya, o mesmo que anos depois criaria o herói Ultraman para a TV. Tsuburaya se recusou a empregar a técnica de stop-motion (usada no clássico King Kong, por exemplo) e fez uso do que foi depois chamado de suitmotion, ou seja, um ator usa uma fantasia especial se movimentando com auxílio de aparatos mecânicos por um cenário de miniaturas e maquetes mescladas a cenas de multidão. A roupa de Godzilla pesava em torno de 90 kilos e o ator que a vestia, Haruo Nakajima, se movimentava com grande dificuldade pelos cenários, não conseguindo andar mais que 9 metros com a vestimenta.

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             A ideia de um universo compartilhado de monstros, que a Warner vem desenvolvendo, não é uma novidade exatamente, apenas há agora o investimento de uma superprodução e o melhor da tecnologia para dar vida a Godzilla, Mothra, Rodan, King Ghidorah e outras criaturas que tiveram filmes B extremamente populares, chegando até a enfrentar Godzilla.  Vejamos alguns: Em 1956, o mesmo Ishiro Honda dirigiu Rodan, o Monstro do Espaço (Sora no daikaju Radon) em que um pterosauro mutante aterroriza Tóquio. Primeiro filme japonês de monstro a cores, o pterosauro teve o nome modificado no ocidente, do original Radon (redução no Japão para puteranodon) para Rodan porque havia nos Estados Unidos um sabonete com o mesmo nome. Outra mudança na versão americana foi a voz do Professor Kashiwagi que foi redublado (embora sem ter sido creditado por isso) por George Takei, o Sr.Sulu de Jornada nas Estrelas. Mudanças como esta se tornaram comuns para a ocidentalização dos monstros japoneses. Sendo assim, a mariposa gigante Mosura do filme de 1961 virou Mothra, a Deusa Selvagem, novamente dirigida por Ishiro Honda, nesta altura já reconhecido em sua terra como um especialista em Kaiju Eiga ou Daikaiju Eiga como são chamados no Japão os filmes de monstros. Mothra foi o primeiro filme japonês de monstro em que a criatura surge não como um avatar do mal, mas com uma divindade idolatrada pelos habitantes da ilha Beiru, onde cientistas exploram a região e sequestram duas mulheres nativas, despertando assim a ira de Mothra que parte em seu resgate. Sua popularidade não demorou para que os produtores a colocassem em um mesmo filme que Godzilla. Não demoraria também para que além da Toho, outro estúdio se interessasse pelo gênero. Em 1965, os estúdios Daiei lançam Gamera, uma tartaruga gigantesca vinda do ártico para destruir Tóquio, último filme do gênero no Japão a ser filmado em preto e branco. O sucesso dele também seria seguido por uma série de outros filmes.

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           Alegorias da mente humana, defensores ou destruidores, essas criaturas ganharam imensa popularidade a medida que expurgavam os fantasmas da radiação atômica que atormentavam os japoneses. No ocidente a aparição dessas criaturas, bem como de alienígenas, espelhavam seus outros medos, mais adequados ao temor da guerra fria. Té a Inglaterra também embarcou no gênero e criou seu próprio lagarto gigante em Gorgo (1961) de Eugene Lourie, praticamente uma cópia britânica de Godzilla com Londres no lugar de Tokio. O mesmo diretor já havia filmado em 1953 O Monstro do Mar (The Beast from 20000 Fathoms) , baseado em uma história curta de Ray Bradbury, e que trazia a mesma premissa de Godzilla: a do monstro pré-histórico despertado por testes atômicos no Atlântico Norte e que vem a atacar a cidade de Nova York. Por ter sido feito um ano antes de Godzilla, muitos o consideram a inspiração para o filme de Ishiro Honda.

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          O sucesso e a popularidade de Godzilla sempre foi superior a dos demais tendo retornado em diversas continuações, e refilmagens em um total de 30 filmes, sendo que 7 deles tiveram a direção de Honda incluindo os curiosos King Kong vs. Godzilla(1962), Mothra vs. Godzilla (1964), Ghidrah, o Monstro Tricefálo (1964) que também trazia Rodan, A Guerra dos Monstros (1965) e Terror Contra Mechagodzilla (1975). Com exceção do primeiro Godzilla de 1954, o lagartão com barbatanas dorsais e pele cinzenta e áspera que deu vida aos pesadelos dos japoneses deixou de ser seu algoz para ser defensor da humanidade nas sequências feitas, entrando em combate com outros monstros, e até com alienígenas, para salvar a Terra. Dessa forma, Godzilla tornou-se um fenômeno popular tanto no oriente quanto no ocidente onde foi americanizado com uma nova versão dois anos depois de seu lançamento original. O filme de Ishiro Honda foi remontado para lançamento internacional e com acréscimo de um novo personagem, o repórter Steve Martin (Raymond Burr) que é enviado ao Japão para cobrir o ataque de Godzilla. O processo que incluía dublagem das vozes originais se repetiu constantemente com Mothra e os demais filmes do gênero que ganhariam lançamento internacional.

           Mesmo que na década de 70 e 80, o gênero já estivesse desgastado na América; no Japão o rei dos monstros é recriado para uma nova geração em The Return of Godzilla (1984), muito antes que o reboots se tornassem comum. Dirigido por Koji Hahimoto, esse filme recupera a figura da fera como vilão. O ator Akhiko Hirata, que no filme original interpretou o Dr. Serizawa, que cria a fórmula usada para matar Godzilla, foi quase incluído nesse novo filme, mas infelizmente um câncer de garganta o matou antes. O filme, contudo, não teve um impacto tão grande assim apesar de outros exemplares continuarem a ser feitos no Japão. Uma nova tentativa de  ocidentalizar o monstro foi feita em 1998 pelo diretor Rolland Emmerich, que havia realizado o blockbuster de sucesso Independence Day. Emmerich aceitou recriar Godzilla depois de garantir a liberdade de promover as mudanças que desejasse, incluindo no visual da criatura já que admitira na época nunca ter sido fã do personagem. Apesar do bom elenco que incluía Matthew Broderick e Jean Reno, o resultado foi insatisfatório com um roteiro que mais parecia um amálgama de toda a série Jurassic Park. A perseguição dos filhotes de Godzilla no estádio, por exemplo,  lembrava a perseguição dos velociraptores.  Embora em termos financeiros o filme não tenha sido ao contrário do que se pensou desastroso, não agradou ao público e muito menos a critica. As sequências de ação não empolgavam e abusavam demais do bom senso como Godzilla desfilando por entre os edifícios de Nova York , a perseguição na ponte suspensa ou a criatura cavando tuneis, todas extremamente exageradas para um animal de tais dimensões. A decepção com o resultado desestimulou os planos do estúdio para continuações. Em 2000, o Japão retomou o personagem ignorando o filme de Emmerich em Godzilla 2000, que teve lançamento internacional, mas não o impacto esperado. A fórmula do grande monstro, no entanto,  nunca se esgotou no cinema sendo ocasionalmente revisitada como J. J.Abraams em Cloverfield (2008) ou Guilhermo del Toro em Círculo de Fogo (2012).

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           O novo filme, que agora dá sequência ao filme de 2014, traz um elenco de nomes que inclui Vera Farmiga (de “Invocação do Mal”) e Milli Bobby Brown (a Eleven de “Stranger Things”), mas o elenco humano não tem muito o que fazer, por mais que haja a nítida intenção de dramatizar quando o que todos querem assistir é o embate de monstros já que é disto que se trata o gênero Kaiju, como é chamado na terra do sol nascente. Não espere, no entanto, que este seja o ultimo filme pois a Warner já planeja para o ano que vem “Godzilla Vs Kong“, e não saiam da sala antes de ver a cena pós-crédito. A popularidade de ambos os monstros sempre garantiu seu lugar na cultura pop, o que ganhou espaço em animações e HQs. No imaginário popular, todos aprendemos a temer e a adorar o monstrengo, e por isso mesmo justifica-se sua alcunha de “Rei dos Monstros”

ALADDIN – MAIS QUE MIL & UMA NOITES

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TEXTO DE AGATHA MATTOS DE CARVALHO SANTOS & ADILSON DE CARVALHO SANTOS

É COM MUITO ORGULHO QUE PUBLICO ABAIXO O PRIMEIRO ARTIGO ESCRITO A QUATRO MÃOS, COM A COLABORAÇÃO DE MINHA FILHA AGATHA. NÃO A TOA O TEMA DO FILME É A MÁGICA, AFINAL DE CONTAS ELA REALIZA MÁGICAS EM MINHA VIDA.

        “Dez mil anos ali dentro te deixam com um terrível torcicolo”, foi com essa frase bem irônica que um gênio azul se apresenta na fantástica animação da Disney de 1992. Um triunfo dirigido por John Musker e Ron Clements com auxilio de um time de animadores e técnicos que mesclaram as técnicas tradicionais do gênero com o melhor em computação gráfica disponível então. O apelo dessa história atravessa gerações, fixa em nosso imaginário valores de amor, lealdade e bravura como nas palavras de uma criança  :

      “A história de Aladim surgiu na antiga Pérsia mostrando um rapaz humilde que se apaixona pela princesa Jasmine, mas eles não podiam ficar juntos porque Jasmine era filha do Sultão, rica, e Aladim era plebeu. Ele encontra uma lâmpada mágica que trazia um gênio capaz de realizar três desejos. Assim, Aladim chama a atenção do Sultão, enfrenta o malvado Jafar e conquista o coração de Jasmine. Aladim é jovem e corajoso pois enfrenta todos os perigos da caverna das maravilhas, e ainda os planos do maligno Jafar para se apossar do reino. Jasmine não tinha liberdade para escolher seu destino, mas mesmo que triste não se permite ter medo de Jafar. O gênio é piadista, falante, divertido e como Aladim e Jasmine, também tem um sonho, a sua liberdade. Juntos esse trio vive mil e uma aventuras e, assim, é o melhor filme da Disney com melodia emocionante. Muito legal a mensagem de que precisamos acreditar em nossos sonhos, nossos desejos, mesmo não tendo na vida real um gênio de verdade ao nosso lado”.

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ANIMAÇÃO E LIVE ACTION

          Pois esta história compõe uma coletânea que remonta tempos imemoriais levadas ao ocidente pelo francês Antoine Galland por volta de 1704. Este reuniu diversas histórias atribuídas à figura da Rainha Sherazade, esposa do rei Shariar que matava todas as mulheres com quem casava desde que fora traído por sua primeira esposa. Ao casar-se com o rei, Sherazade passou a contar-lhe uma série de histórias (dentre elas Ali Babá e os 40 ladrões, Simbad o marujo entre outras) cuja inventividade e desenrolar mantiveram o rei entretido por mil e uma noites, ao final dos quais o rei abandonou sua sede de matança. Sherazade tornou-se um ícone como poder feminino já que usou o poder de suas palavras para mudar um reino. Sua façanha é mencionada em manuscritos datados do século IX e em diversas variações literárias reunindo contos folclóricos provenientes da Índia, do Oriente Médio e outras regiões próximas. A própria história original de Aladim se passa na China, e muitos historiadores acreditam que Galland modificou e acrescentou vários elementos por conta própria.

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O ALADDIN DO CINEMA MUDO COM ATORES INFANTIS

            A reconstrução do conto em uma cidade árabe já aparece em “Aladdin and the magical lamp”, adaptação de 1917. Nela, assim como no conto, a princesa não se chama Jasmine, mas Badr al-badur, e tanto ela quanto Aladim são interpretados por crianças. Em 1924, uma variação do mesmo conto das mil e uma noites gerou “O Ladrão de Bagda” (The Thief of Bagda) veículo para o estrelato de Douglas Fairbanks que impressionou as plateias do passado ao levitar sobre o tapete mágico. Em 1940, o mesmo foi refilmado com o ator indiano Sabu no papel do ladrão Abu que substitui Aladim como o bravo herói a desafiar o grão-vizir Jafar. O filme ganhou três Oscars: Melhor fotografia, direção de arte e efeitos especiais, estes de fato triunfantes ao mostrar Rex Ingram no papel do gênio. Em 1945, a Columbia Pictures realizou uma versão ainda mais livre do conto em “Aladim & A Princesa de Bagda” (A Thousand & One Nights) fazendo de Aladim um cantor sedutor que se apaixona pela princesa Armina (Adele Jergens). Entre as liberdades tomadas, o gênio é uma mulher (Evelyn Keyes) e Aladim ganha a companhia de um amigo trambiqueiro, Abdullah, interpretado por Phil Silvers, comediante de língua ferina extremamente popular nos anos 40 e 50. Silvers faz um personagem descolado e anacrônico portando óculos que ainda não tinham sido inventados e disparando a todo momento o irônico comentário de que nasceu mais de 1000 anos antes de seu tempo. Essa versão acabou se tornando uma pérola da antiga Hollywood.

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NA VERSÃO DE 1945 O GÊNIO É A ATRIZ EVELYN KEYES MAS É O COMEDIANTE PHIL SILVERS QUEM ROUBA A CENA COM SEU HUMOR FALASTRÃO

                Ainda tivemos uma versão brasileira da lenda estrelada por Renato Aragão e Dedé Santana em 1974 e dirigido pelo saudoso J.B Tanko. Entitulada “Aladim & A Lâmpada Maravilhosa”, o filme foi gravado no Rio de Janeiro e São Paulo e alcançou uma das dez maiores bilheterias nacionais. Outra versão livre intitulada simplesmente foi “Aladdin” de 1986 que teve Bud Spencer (da hoje esquecida dupla Trinity) no papel do gênio e com a ação transferida de Badga para a Miami oitentista.

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RENATO ARAGÃO, DEDÉ SANTANA & MONIQUE LAFOND NA VERSÃO BRASILEIRA DE ALADDIN

               Foi, no entanto, a versão de Disney de 1992 que se beneficiou do talento de um dos astros mais queridos do cinema americano, o ator Robin Williams, que roubou a cena no papel do gênio. A presença de Williams, maior que a tela, fez do gênio um dos pontos mais altos da animação, improvisando a maior parte de suas falas. Ainda que o público brasileiro tenha ouvido a excelente dublagem de Marcio Simões para o gênio, a personalidade histriônica de Robin Williams é contagiante. O ator, infelizmente, teve problemas posteriores com a Disney devido ao uso de sua imagem no personagem, mas é inegável que os animadores Ward Kimball e Freddie Moore souberam explorar a figura de Williams adaptando seu talento com as cores e formas múltiplas que o gênio assume ao longo da história. Williams, falecido em 2014, deixou um enorme legado com sua capacidade de extrair emoção e risadas com sua presença em cena, e o gênio é um de seus maiores feitos. Para o desenho de Aladdin, os animadores usaram o rosto de Tom Cruise como inspiração e acrescentaram os trejeitos do então, igualmente popular, Michael J.Fox (De Volta Para o Futuro). O resultado, além de bilheteria milionária, foi a conquista do Oscar de melhor trilha sonora, e de melhor canção para “A Whole New World” .

Robin Williams dubla genio

ROBIN WILLIAMS O GÊNIO QUE FEZ UM GÊNIO

              A refilmagem que traz Will Smith no papel do gênio mostra a grande mágica dessa história que, há gerações, vem nos divertindo com uma mistura de ação, humor e emoção pois todos se sentem atraídos por histórias que exploram grandes desafios, lugares fantásticos perdidos no tempo e no espaço mas encontrados no imaginário popular, um lugar ideal onde a mágica nunca deixou de existir e tampouco ficou limitada a três desejos. Como nas palavras de Robin Williams, O gênio que fez UM gênio, “Sou história, não sou mitológico, não importa… ei sou livre !!!” Livre com o poder do talento e de uma imaginação que atravessa bem mais do que mil e uma noites.

DORIS DAY ETERNA

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É COM ESSE SORRISO QUE VOU ME LEMBRAR DELA. NADA A DIZER ALÉM SAUDADES DE UMA DAS MAIORES ESTRELAS DO CINEMA CUJA VOZ EMBALOU MINHA VIDA. RECENTEMENTE POSTEI EM 3 DE ABRIL UM TEXTO SOBRE MINHA DIVA QUE HOJE SE JUNTOU ÀS ESTRELAS.

GRANDE ESTREIA : CEMITÉRIO MALDITO

cemiterio maldito 2019

A ATUAL VERSÃO

                     Era obvio, desde o sucesso de “IT – A Coisa”, que Hollywood redescobriria o potencial de Stephen King, o prolífico escritor que desde a segunda metade dos anos 70 é recorrente em adaptações ora para o cinema ora para TV. Certamente que nem sempre o resultado dessas adaptações foi à altura da criatividade deste norte-americano de 71 anos, o que justifica até certo ponto que seja revisitado e refilmado ao gosto da nova geração.

                    “Cemitério Maldito(Pet Sematary) é o único livro que o próprio autor admitiu já tê-lo assustado. Escrito no curto período em que Stephen King alugou uma casa à beira de uma movimentada estrada onde morreu o gato de sua filha, Naomi;  King imaginou a história que veio a se tornar o livro, mas que demorou a publicar porque não acreditava na qualidade desta até que sua esposa o convenceu a publicá-lo. O livro acabou se tornando um campeão de vendas e um de seus trabalhos mais memoráveis, já tendo sido adaptado em 1989.

cemiteriio maldito 1989

O FILME ORIGINAL

                    A história é a de um casal que se muda com seus filhos para uma casa à beira de uma estrada. A floresta próxima guarda mistérios, como um antigo cemitério indígena onde quem é enterrado ressuscita, porém transformado em um ser maligno, sem alma ou coração. O filme de 1989 foi uma adaptação bem próxima do material original, com o terror criado a partir de uma premissa reflexiva, a de que há coisas piores que a morte. O livro fala da aceitação da brevidade da vida e de que se interferimos na ordem natural das coisas, pagamos um preço terrível por isso. Embalado pela trilha sonora que inclui a banda “Ramones”, a favorita do autor, “Cemitério Maldito” está entre as melhores adaptações de King, e entre as mais assustadoras obras do gênero. Difícil não tremer quando o menino Cage é subitamente atropelado por um caminhão. Essa e outras passagens da história criam um clima de angustia crescente tanto nas páginas do livro quanto nas cenas que se desenrolam à medida que a família Creed (Dale Midkiff e Denise Crosby) se desesperam e vão às últimas consequências para recriar sua família. Com orçamento modesto de cerca de US$11 milhões, o filme dirigido por Mary Lambert foi um sucesso quando lançado nos cinemas em outubro de 1989.

                 Na nova versão teremos algumas modificações além do elenco que inclui o sempre excelente John Lightgow no papel de Judd Crandall, o homem solitário que conhece os segredos do cemitério de animais. No filme de 1989, o papel foi vivido por Fred Gwynne, o Herman da clássica série “Os Monstros” da década de 60. O novo filme também mostra sequências que haviam sido cortadas da primeira versão mostrando o Wendigo, a criatura sobrenatural que habita as florestas e provoca sustos na narrativa do livro. Outro triunfo para quem curte as histórias do autor é a sua habilidade de conectar suas histórias. Muito antes que se falasse em universo compartilhado, King sempre que escrevia histórias novas incluía referências a outros de seus sucessos. Em “Cemitério Maldito”, o livro, encontra-se menções ao cão Cujo e à cidade de Jerusalem, respectivamente dos romances “Cujo” e “Salém’s Lot”. Este último, inclusive, ganhará nova versão em breve.

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           O filme de 1989 foi inclusive o primeiro de seus livros roteirizado pelo próprio King, que faz uma aparição em cena como um padre. Na nova versão os diretores Kevin Kolsh e Dennis Widmyer aproveitam detalhes deixados de lado no filme de 1989, faz algumas modificações mas mantém o clima das páginas que fizeram de Stephen King um rei do gênero. Sem spoilers, saibam que a nova versão não uma repetição quadro a quadro do filme original, mas uma releitura, recriando o final e acertando em não se render ao susto fácil, mesmo sem que seja um primor comparado a outras adaptações de King, o filme cumpre a promessa de assustar e provar que a morte não é um fim, mas seria melhor que fosse, ao menos nesse caso.

VINGADORES ULTIMATO – CHEGOU A HORA !!

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Quando o primeiro trailer de “Vingadores Ultimato” foi divulgado, este tornou-se o primeiro a alcançar 1000 likes em menos de 4 horas no You Tube. Também obteve visualização recorde, com mais de 289 milhões, superando o filme anterior da franquia “Vingadores Guerra Infinita”. Não resta dúvida que tais números servem de termômetro para a chegada do filme que serve de ápice a um planejamento cuidadoso iniciado há 11 anos, e depois de 21 filmes que prepararam o público, incluindo os que nunca leram um quadrinho, mas que passaram a admirar o universo desses heróis.

     Os heróis Marvel já vinham colecionando bons momentos nos cinemas no início dos anos 2000 com o sucesso do “Homem Aranha” de Sam Raimi pela Sony, e dos “X Men” pela Fox, mas criar um universo compartilhado, subdividido em fases, ao longo de todo esse tempo, foi uma aposta audaciosa dos estúdios Marvel. A cada cena pós-crédito o público vibrava com os desdobramentos que se seguiram a partir de “Homem de Ferro” (Iron Man) de 2008, que inclusive reascendeu a carreira de Robert Downey Jr, hoje figura central nas aventuras dos Vingadores.

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      O primeiro filme da equipe, chamada nos quadrinhos de “os maiores heróis do mundo”, chegou às telas em 2012 depois de filmes solos bem-sucedidos com Thor, Capitão América e Homem de Ferro; assim como aconteceu quando Stan Lee inovou a nona arte lançando esses personagens ao longo da década de 60, e depois reunindo-os em uma equipe de pesos pesados para enfrentar a ameaça de Loki, o meio-irmão de Thor. O grande vilão Thanos só viria a surgir em 1973, criado não por Lee, mas pelo autor norte-americano Jim Starlin, que o concebeu como um personagem menor na revista “Iron Man” #55. Starlin desenvolveu as origens e motivações de Thanos ao longo dos anos seguintes confrontando-o com outros heróis como “Homem Aranha”, “Quarteto Fantástico” e “Capitão Marvel” até finalmente envolver os Vingadores. Nos quadrinhos, a derrota de Thanos veio nas mãos de Adam Warlock, um ser artificial criado por cientistas renegados.

      No cinema Thanos ficou um longo tempo como um observador oculto nos bastidores tramando se apoderar das jóias do infinito. Joss Whedon dirigiu o filme dos Vingadores e sua sequência “Vingadores: A Era de Ultron”, de 2015 onde os heróis enfrentam o robô Ultron, criado nos quadrinhos em 1968 por Roy Thomas e John Buscema. O vilão foi uma experiência frankensteniana do Dr.Hank Pym, mergulhado em complexo de Édipo. No filme, no entanto, essa essência se perdeu, e o personagem foi resumido a uma criação mal-sucedida de Tony Stark.

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      Nesse meio tempo, a Marvel teve seus altos e baixos: Aproveitou bem personagens menos conhecidos como “Guardiões da Galáxia” (2014 e 2017) e “Homem Formiga” (2015 e 2018), cada qual com características próprias funcionando perfeitamente, vistos isolados ou como parte de um plano maior. Mesmo com sucesso comercial nem tudo funcionou com perfeição na passagem das hqs para as telas: o vilão Mandarim foi mal aproveitado em “Homem de Ferro 3” (2012) , e o Hulk foi reduzido a coadjuvante da luxo nos filmes sem protagonizar uma aventura solo à altura de décadas de excelentes histórias, apesar de duas tentativas em 2003 e 2008.

      Contrabalançando tudo os resultados foram triufantes em “Capitão América Soldado Invernal” (2014) e “Capitão América Guerra Civil” (2016), flertando com tramas conspiratórias e de espionagem que mostram que o gênero podia ter um conteúdo além da simplória luta entre o bem e o mal. Os filmes da Marvel acertaram em buscar representatividade e lançaram “Pantera Negra” (2018) e “Capitã Marvel” (2019), explorando valores que já eram diferenciais quando Stan Lee deu vida a todo um universo, e o fez com talentos do quilate de Jack Kirby, John Buscema, Jim Steranko, Roy Thomas, Len Wein, Don Heck, Steve Englehart, Steve Dikto entre outros. O produtor Kevin Fiege, o homem forte do estúdio, conseguiu trazer o Homem Aranha para os filmes compartilhados, fez do “Dr.Estranho” (2017) um sucesso explorando elementos místicos em um contexto em que a linguagem da ficção cientifica trata de universos, dimensões paralelas e alienígenas. Personagens como Nick Fury (Samuel L.Jackson), Viúva Negra (Scarlett Johanson), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e outros tornaram-se conhecidos pelo público em geral, não apenas pelos aficionados, que se importam com o destino dos personagens.

          Com “Guerra Infinita” ano passado, a Marvel reuniu um multi-elenco de  mais de 30 personagens desfilando pela tela em uma história apocalíptica. Resta saber como os heróis sobreviventes reagirão ao estalar de dedos que, há um ano, vem criando uma gigantesca expectativa, fazendo fãs evitarem spoilers com o mesmo empenho com o qual vem acompanhando passo a passo a jornada desses heróis, uma verdadeira odisseia que se transformou em objeto de adoração e culto na cultura pop, ícones de um moderna mitologia que começou, na verdade, quando Stan Lee – imaginamos – disse algo como “Tenho uma ideia!” Assim se fez a luz, com papel e nanquim e agora em cenas digitais de um jogo que não chega exatamente a um fim, mas a um novo começo.

ESTREIAS DA SEMANA: 18 DE ABRIL DE 2019

A MALDIÇÃO DA CHORONA

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(The Curse of the Llorona) EUA 2019. Dir: Michael Chaves. Com Linda Cardellini, Raymond Cruz, Patricia Velasquez. Terror.

O filme adapta uma lenda mexicana, do século XVI, a de uma mulher que afogara os próprios filhos em um lago, se afogando logo em seguida. Chorando pela eternidade, a entidade volta do além à meia noite para pegar crianças que substituam seus filhos. No filme, uma assistente social (Cardellini, a Velma do filme “Scooby Doo”) se vê assombrada pelo espírito da chorona que ameaça levar seus dois filhos. Há várias vertentes dessa lenda urbana, mas o que importa são os sustos que vamos levar nesse novo exemplar do gênero “jump scare” que integra o universo iniciado por James Wan em “Invocação do Mal” e que inclui “Annabelle” e “A Freira”.

O GÊNIO & O LOUCO

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(The Professor & The Mad Man) IRL 2019. Dir: Farhad Safiria. Com Sean Penn, Mel Gibson, Ioan Gruffudd, Jeremy Irvine, Natalie Dormer.  Drama.

Filme biográfico retratando a criação do dicionário Inglês de Oxford envolvendo duas figuras singulares, o professor James Murray (Gibson) e o esquizofrênico mas genial W.C. Minor (Penn). O filme além de mostrar um fato histórico que guarda muitas coisas curiosas é centrado em dois ótimos atores, ambos já tendo tido seus momentos de genialidade e loucura, seja em suas vidas pessoais ou profissionais.

CÓPIAS – DE VOLTA À VIDA

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( Replicas) EUA / CHI 2018. Dir: Jeffrey Nachmanoff. Com Keannu Reeves, Alice Eve, Amber Rivera. Ficção Cientifica.

Cientista traz de volta da morte a família que perdera em um acidente de carro, para isso as clona ignorando qualquer restrição científica ou moral. Curiosamente o filme foi filmado em 2016, e só chega agora em nossos cinemas. Apesar de uma trama interessante, bem ao sabor dos subtemas do gênero fantástico, o filme não está despertando muito interesse, tendo sido um fracasso em territorio americano.

 

SHAZAM ! A VOLTA DO CAPITÃO MARVEL ORIGINAL

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               Todos conhecem a palavra mágica: SHAZAM, mas poucos sabem que ele já foi mais popular dos heróis, que ficou no limbo após perder uma longa batalha judicial e que ele foi o primeiro a se chamar Capitão Marvel, muitos antes que a editora Marvel existisse. Ele renasceu nos quadrinhos, migrou para outras mídias e volta em um blockbuster para nos lembrar que é fácil virar um super-herói, basta estar ao alcance de um raio mágico.

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                 Foi com o lançamento de “Action Comics #1” pela National Periodics (atual DC Comics) que se iniciou a era de ouro dos quadrinhos. Talvez seja difícil para as pessoas de hoje, acostumados a tantos super-heróis, imaginarem o impacto daquelas páginas, iniciadas com um imponente homem erguendo carros por sobre a cabeça. Entre os vários personagens surgidos no rastro de vendas do Superman, disputando um lugar na fértil imaginação das crianças, o único que conseguiu rivalizar e superar nasceu da mente do roteirista Bill Parker e do desenhista C.C.Beck, estampando a capa de “Whiz Comics #2”, da editora Fawcett. Também arremessando um carro longe, o novo personagem não era um visitante de outro planeta, mas um menino transformado em um super-herói ao pronunciar o nome de um mago, que é o acrônimo de seis imortais e seus dons (a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio). Era fevereiro de 1940, um ano depois que Martin Goodman fundasse a Timely Comics (futura Marvel Comics), meses depois de iniciado o conflito na Europa. Billy Batson trabalha como locutor de rádio, e ao ser guiado por uma figura misteriosa até o mago Shazam torna-se seu escolhido para ser um campeão da justiça intitulado “Capitão Marvel”, depois que os editores descartaram a ideia inicial de chamá-lo “Capitão Trovão”. Em 1941, o Capitão Marvel tornou-se o primeiro super-herói a ser adaptado para o cinema, antes mesmo de “Superman” e “Batman”, vivido pelo ator Tom Tyler em “The Adventures of Captain Marvel”, um seriado dividido em 12 capítulos. Não demorou muito para que o herói, cujo rosto desenhado foi inspirado no ator Fred MacMurray, ganhasse mais espaço em novos títulos “Captain Marvel Adventures”, “Wow Comics”, “Marvel Family” e “America’s Greatest Comics”, e logo uma periodicidade quinzenal no auge de sucesso do personagem, vendendo tiragens muito superiores às do Superman.

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              Claro, que todo esse sucesso despertaria incômodos na concorrência, e a National Periodics processou a Fawcett por plágio. Afinal, haviam semelhanças inegável entre o homem de Krypton e o Capitão Marvel. Ambos com força e habilidades sobre-humanas (embora a princípio o Superman não voasse como o Capitão Marvel, apenas saltava grandes distâncias), o maior inimigo de ambos eram cientistas loucos, Lex Luthor contra o Superman e o Dr.Silvana contra o Capitão Marvel. Ainda assim, a popularidade do Capitão era inegável e seu apelo com o público leitor era uma afronta para a editora do Superman. Em dezembro de 1941 surgiu o Capitão Marvel Jr (Whiz Comics #25) e um ano depois Mary Marvel (Captain Marvel Adventures #18), que teve as feições inspiradas no rosto de Judy Garland, ampliando o conceito inicial para a formação da “Família Marvel”, e outros coadjuvantes chegaram ora como aliados ora como vilões como o Sr.Malhado (o tigre falante), o Sr.Cérebro, o Adão Negro (versão maligna do Capitão) entre outros. Em 1946, um milhão e meio de exemplares vendidos eram uma afronta para a concorrência e uma vitória para a Fawcett Comics, que ganhou o processo movido pela National Periodics.

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           Na início da década de 50, a publicação de quadrinhos de super heróis foi prejudicada pela caça às bruxas iniciada em meados da década anterior pelo psicólogo Dr.Fredrich Wartham, autor de “The Seduction of the Innocents” e os lucros caíram muito quando várias editoras, para sobreviver, se voltavam para outros nichos como histórias de guerra, policiais, cowboys e terror. A National recorreu e a Fawcett se viu com baixas vendas e sem recursos para continuar a se defender. Em 1953, a editora desistiu do Capitão Marvel, interrompendo sua publicação e pagando US$400.000 à editora do Superman. Curiosamente, no Brasil a RGE continuava publicando as aventuras do Capitão Marvel, e na falta de material novo produziu histórias novas com artistas brasileiros, incluindo um encontro não oficial entre o herói da Fawcett e o tocha Humana Original publicado no “Almanaque do Globo Juvenil” de 1964. Essa história é item raro de colecionador.

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          Em 1973, a agora renomeada DC Comics licenciou o Capitão Marvel junto a Fawcett relançando-o nas bancas. Contudo, Stan Lee havia criado um novo personagem com esse nome em “Marvel Super Heroes #12” (Dezembro de 1967) e, embora o nome pudesse ser usado no interior das histórias, o título da nova revista passou a ser apenas “Shazam”, publicado no Brasil pela editora Ebal. O material trazia os roteiros de Denny O’Neill para os desenhos do próprio C.C.Beck, e já começava com uma irônica capa que trazia o Capitão Marvel ao lado do Superman. A história revelava que nos últimos 20 anos (período em que os personagens não foram publicados) todos estavam congelados por uma invenção descontrolada do Dr.Silvana. À publicação desse material, a Ebal acrescentou nas páginas várias histórias originais dos anos 40. A Ebal ainda publicou em 1980 “Superman Vs. Shazam!”, levando para a fantasia a rivalidade que se instaurou entre as editoras de ambos. Essa rivalidade seria revivida muito mais tarde na mini-serie “O Reino do Amanhã” (Kingdom Come) de Alex Ross e Mark Waid onde Superman e o Capitão Marvel…digo Shazam, travam uma batalha de vida e morte.

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          Durante os anos seguintes o personagem voltou à mídia televisiva no seriado “Shazam!” com Michael Grey no papel de Billy Batson enquanto o Capitão Marvel foi vivido por John Davey, e depois Jackson Bostwick. O seriado, no entanto, nada tinha a ver com os quadrinhos, sem super vilões a combater, mas sempre com uma mensagem moralizante ao final. A Filmation produziu a série, que no Brasil foi exibida pela Globo e SBT. Recentemente foi divulgado que a série será relançada no serviço de streaming “DC Universe”. Ainda houve uma animação também da Filmation realizada em 1981.

           O personagem voltou a ser deixado de lado depois que a DC Comics reformulou seu universo em 1985. Seis anos depois a Dc comprou em definitivo os direitos do personagem e o relançou em 1995 na série “The Power of Shazam” com roteiros de Jerry Ordway que evocavam todo a glória do passado, mas que ainda o deixava como um anacronismo em meio à fase que a editora passava com tragédias como a morte do Superman, a queda do Morcego ou a transformação do Lanterna Verde em Parallax. A revista foi descontinuada após 50 números, mas o personagem ainda recebeu tratamento digno nos especiais “Shazam – O Poder da Esperança” (2000) e “Shazam e a Sociedade dos Monstros”(2003) . Só em tempos recentes com Geoff Johns o personagem foi reformulado na linha “Os Novos 52”. Foi esse material, que deixou de lado em definitivo o título “Capitão Marvel”, e que foi usado como base para o filme estrelado por Zachary Levi. A magia do personagem continua a encantar uma nova geração de leitores, que aprende a descobrir o herói que existe em cada um de nós, crianças e adultos, transformados ao som de um relâmpago mágico.

HAPPY BIRTHDAY, DORIS DAY

doris-day-ca-1960s-everett                    Foi paixão a primeira vista, essa loira virginal de sorriso maior que a vida sabia cantar e encantar como ninguém. A primeira que a vi foi no papel de Jo MacKenna cantando “Que será será” ao piano no desfecho do clássico de Alfred Hithcock “O Homem que Sabia Demais” (The Man who Knew Too Much) de 1956. Doris estava maravilhosa como a mãe desesperada para salvar a vida do filho sequestrado, com uma canção de ninar.

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                      Doris Mary Ann Kappelholf é uma lenda viva completando 97 anos nesse dia 3 de Abril. Nascida em 1922 em Cincinnati, filha de uma dona de casa e um professor de música. E a música foi sua vida, Doris ingressou na orquestra de Les Brown, nos início dos anos 40, época a que se referiu posteriormente como a melhor de sua vida. Doris tinha sonhos de ser dançarina, mas um acidente de carro aos 14 anos destruiu esse sonho, mas não a derrotou. Doris jamais se sentiu derrotada, ou ao menos jamais se deixou levar por esse sentimento. Fez carreira solo quando deixou a banda de Les Brown e com a gravação, em 1945, de “Sentimental Journey” alcançou a fama,  e nunca mais deixou de fazer brilhar seu nome.

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              Nos anos que se seguiram gravou mais de 600 canções, e foi escolhida para assinar um contrato com a Warner em 1948 para atuar em “Romance em Alto Mar” (Romance on The High Seas). Da Warner, foi mais tarde para a Metro e para a Universal, filmando todos os tipos de filmes. Doris, no entanto, sempre foi muito subestimada, ainda que tenha sido indicada ao Oscar de 1959 por seu papel de Jan Morrow em “Confidências à Meia Noite” (Pillow Talk), primeiro dos três filmes que fez com Rock Hudson, e que deu o pontapé inicial em uma amizade que durou até o fim da vida de Hudson. Doris colecionou apelidos zombeteiros como “senhorita requeijão” ou “virgem profissional” (este último lhe foi atribuido por Groucho Marx), mas Doris sempre foi uma dama, ignorando a zombaria e fazendo papeis diversos embora ficasse marcada como a namoradinha da América Eisenhower, adentrando os anos 60 com uma aura virginal que lhe acompanhou em vários papeis, mesmo que não estivesse interpretando uma senhorita.

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            Foi muito elogiada no papel da cantora Ruth Etting em “Ama-me ou esqueça-me” de 1955, experimentou o suspense não apenas com o filme de Hithcock mas também em “A Teia de Renda Negra” (Midnight Lace) de 1960. Trabalhou ao lado de astros como Clark Gable (Um Amor de Professora), James Garner (Tempero do Amor), Ronald Reagan (Dilema de uma Consciência), Cary Grant (Carícias de Luxo), David Niven (Jamais Fomos Tão Felizes) etc.  Versátil como era se divertiu fazendo um papel de mulher masculina, a lenda do velho oeste Jane Calamidade em “Ardida como Pimenta” (Calamity Jane) em 1953 e conquistou o Oscar de melhor canção por “Secret Love”, hino do romantismo cinquentista, que embalou vários namoros.

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         Doris casou-se quatro vezes e teve um filho, Terry Melcher, e mesmo que nunca tenha tido um “felizes para sempre” digno de alguém que cantou o amor como ela, Doris exerceu o maior amor, o amor pela vida dos animais, causa que a motivou quando deixou Hollywood no final dos anos 60 e a Tv em 1973, quando foi a estrela de sua própria série de tv “The Doris Day Show”. A estrela ainda fez uma mulher atrapalhada confundida com uma espiã no divertido “A espiã de Calçinhas de Renda” (The Glass Bottom Boat) de 1966, do mestre Frank Tashlin. Em 1989, recebeu um prêmio Cecil B.De Mille por sua luta em defesa dos animais.

        Hoje ela vive reclusa, mas ainda apoia a causa dos animais através da “Doris Day Animal Foundation” e sua voz é ainda ouvida nas gravações que deixou, redescoberta sempre como no lançamento em 1º de Abril de “Doris Day Imagination”, mostrando que uma nova geração poderá se encantar com a estrela que gravou em meu coração “Whatever will be will be”. Doris Forever. I, We all love you!!

GRANDE ESTREIA : DUMBO

             A Disney vem sendo bem-sucedida em suas transposições da animação para o live-action. Embora já tivesse feito uma tentativa com “101 Dálmatas” (1990) foi mais recentemente que a casa de Mickey Mouse passou a explorar efetivamente o filão. Foram mais de $200 milhões com “Cinderela” em 2015, mais de $300 milhões com “Mogli” em 2016 e mais de $500 milhões com “A Bela & A Fera” em 2017, e isso em termos de bilheteria doméstica (território americano) de acordo com o site “boxoffice mojo”. Só esse ano ainda já temos programado “Aladim”, “Rei Leão” e estreando agora “Dumbo”, reunindo Michael Keaton e Danny DeVito com Tim Burton, além de Eva Green, Colin Farrell e Alan Arkin.

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             A história do filhote de elefante com orelhas enormes se conecta com um mundo onde estamos constantemente debatendo temas como bullying e intolerância com o que é diferente. A história, no entanto, data de um livro infantil publicado em 1939 e escrito pelo casal Helen Aberson e Harold Pearl. Reza a lenda que a história já havia sido usada no formato “rool-a-book”, espécie de livro com slides, mas nenhuma cópia deste existe. O filme de Tim Burton se baseia mais no livro do casal Aberson-Pearl que na clássica animação de 1941, o que significa algumas diferenças serão observadas, como a falta de animais falantes. Assim como Dunga em “Branca de Neve & Os Sete Anões” (1938) ou Gideon o gato de “Pinoquio”, o simpático elefantinho não verbaliza, mas é mais humano em seus sentimentos que os homens que exploram os animais no circo. O pequeno elefante recebe seu nome como um trocadilho de Jumbo com “Dumb”, que em inglês significa “Estúpido”. Mesmo com o dom de vôo graças a suas orelhas, o animal conhece a indiferença e, depois, a ganância do homem que explora os animais do circo e que tem na figura de Michael Keaton a personificação da vilania. Fica claro, à medida que a história segue, que o que nos faz ser atacados também pode ser transformado em superação e força.

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         Quando o próprio Walt Disney tomou conhecimento do livro não se interessou a princípio, mas foi convencido e, assim, viu a oportunidade de transpor para as telas a belíssima mensagem por trás de seu protagonista, além de se recuperar financeiramente dos altos gastos que tivera com “Fantasia” um ano antes. A época de sua realização o mundo estava atravessando a Segunda Guerra e a indústria do entretenimento não poderia arcar com grandes gastos já que o governo pressionava os estúdios em nome do “esforço de guerra”. Com um orçamento inferior, em relação aos outros lançamentos do estúdio, “Dumbo” foi um feliz sucesso de bilheteria com bilheteria acima da alcançada com “Pinoquio” (1940) e “Fantasia” (1940) somados. Percebe-se que o desenho é de fato mais simples, tendo os animadores do estúdio estudado os movimentos dos animais, e o fundo de várias cenas chegou a usar cores de aquarela (sim, computação gráfica não existia na época). Custou cerca de US$ 813 mil dólares e arrecadou US$1,6 milhões, mesmo depois de vários obstáculos para sua realização. O estúdio Disney foi pressionado por uma greve de cinco semanas dos cartunistas, que estourou durante a realização da película, destruindo a atmosfera amistosa que era marca do estúdio. Outra luta de bastidores se deu quando a RKO Radio Pictures, que distribuía as produções do estúdio, tomou conhecimento da metragem de 64 minutos, e forçou Disney a filmar mais material que o aumentasse ou reduzi-lo como um curta, mas ele se recusou a ambos e conseguiu garantir seu lançamento.

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          A animação de “Dumbo” tornou-se o 4º trabalho do estúdio no gênero e foi também o menor em termos de duração, contando apenas 64 minutos de projeção original. O Rato Timotheo rouba as cenas várias vezes como fiel companheiro de Dumbo, e foi criado pelo estúdio já que no livro original é um pássaro quem ajuda o herói de quatro patas. A escolha de um rato funcionou já que a sabedoria popular sempre coloca que elefantes temem ratos.

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         Público e crítica apaixonaram-se pela história do elefantinho voador quando sua estreia em outubro de 1941, chegando aos jornais e revistas especializadas como a “Variety” e o “New York Times”.  Meses depois, o personagem chegou a ser escolhido como capa da revista “Time”, que escolhia a cada ano uma foto que representasse o personagem do ano. Contudo, o ataque a Pearl Harbor mudou o rumo dos eventos, levando os Estados Unidos a ingressar no conflito e com Dumbo sendo substituído pelo General McArthur, comandante das forças americanas. A edição da Time, todavia, publicou em suas páginas internas a imagem do elefante. No ano seguinte, a belíssima canção “Baby Mine”, ouvida quando a mãe de Dumbo usa sua tromba através das grades da jaula para ninar o pequeno filhote, perdeu o Oscar de melhor canção, mas ao menos a produção triunfou como melhor trilha sonora para Frank Churchill e Oliver Wallace.

          “Dumbo” está entre os trabalhos mais apreciados pelo estúdio Disney, e o próprio pai de Mickey e Donald dizia que era um de seus favoritos. Na segunda metade dos anos 2000 John Lasseter, homem forte da Disney, chegou a considerar fazer uma sequência da animação, que acabou não acontecendo. O filme de Burton vem com a missão de trazer esta comovente história para a nova geração, e nisso reside o encanto dessas refilmagens. Em 2017, a animação original foi escolhida pela Biblioteca do Congresso Americana para ser preservado como um Tesouro Nacional. O filme de Burton, assim sendo, tem como missão resgatar um espirito nostálgico, reforçado pela ambientação logo após o final da Primeira Guerra, e a inocência de um personagem que voa com suas orelhas mas nos encanta com seu coração.

           Em breve, falarei de “Aladim” !!!

NÓS – OS DOPPLEGANGERS

                  O filósofo alemão Friedrich Nietzche dizia que o inimigo mais perigoso sempre será você mesmo. Na literatura, como no cinema, essa visão pode ser levada ao pé da letra. É assim que Jordan Peele nos assusta em “Nós”, explorando possibilidades narrativas que já despertaram o interesse em áreas tão diversas como a filosofia e a psicologia.

Nós

NÓS – DE JORDAN PEELE, ESTRELANDO LUPITA N’YONGO

                  A noção de uma réplica distorcida de nosso próprio “eu” alimentou a imaginação de Edgar Allan Poe no conto “William Wilson” (1839) onde o protagonista do título, um homem descente e nobre, conhece um homônimo com sua exata aparência e nascido no mesmo dia, 19 de Janeiro (também aniversário de Poe). William fica obcecado não apenas devido à semelhança física, mas também pelo comportamento de seu duplo, com quem antagoniza conduzindo-o pelo caminho da insanidade. Em 1968, a obra de Poe integrou a antologia cinematográfica “Histórias Extraordinárias” dirigida por Roger Vadim, Frederico Fellini e Louis Malle. Foi este último quem transpôs a adaptação do conto de Poe com Alain Delon vivendo o duplo protagonismo do segmento. Histórias sobre o encontro de um sósia perfeito, no entanto, são encontradas em culturas tão distintas quanto os egípcios e os nórdicos. Coube aos alemães a criação do termo “doppleganger”, algo como um “duplo que anda”, assumindo ao longo do tempo uma conotação negativa, como um fantasma ou assombração. Inicialmente a lenda germânica apontava uma criatura capaz de mimetizar quem escolhesse não só na aparência exterior como também em suas características emocionais.

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JESSE EISENBERG EM “O DUPLO” DE DOSTOIEVSKI

                Duplicatas tornam-se ameaçadoras no campo da ficção, como o escritor russo Fiodor Dostoievski em seu romance “O Duplo” (1866) sobre um funcionário que vê sua identidade, sua vida roubada por um sósia. Na época de sua publicação a obra não foi devidamente compreendida pelo público, mas recentemente Jesse Eisenberg assumiu o papel na adaptação “The Double”, dirigido por Richard Ayoade em 2013. As implicações da existência de um doppleganger são muito apreciadas pelas plateias atuais em diversas formas de mídia. Nos quadrinhos, Superman enfrentou Bizarro, sua cópia distorcida, o Flash já correu contra o Flash Reverso entre outros personagens. O mito do duplo já foi usado em animes (Hunter x Hunter), séries de Tv (Supernatural, Supergirl, The Flash, Arquivos X) e games (Dark Pit, Sonic The Hedgehog, The Legend of Zelda) e a lista é ainda maior se contabilizarmos outros filmes e animações.

               Fora do campo do entretenimento, a própria ciência já debateu acerca da variedade de traços genéticos, se esta é limitada ou não, como forma a justificar cientificamente a incrível semelhança entre pessoas sem nenhum laço sanguíneo. O renomado Sigmund Freud, pai da psicanálise, divagou sobre o assunto e chegou a atribuir ao médico e escritor austríaco Joseph Schnitzer o papel de seu doppleganger dada a incrível proximidade do trabalho de ambos com relação ao inconsciente e o comportamento humano. Freud escreveu cartas para Schnitzer, mas se recusava a encontrá-lo pessoalmente.

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ALÉM DA IMAGINAÇÃO – EPISODIO “MIRROR IMAGE”

            Há uma espécie de mau presságio associado ao encontro de uma pessoa com seu duplo, como se indicasse a personificação da morte, entrelaçando lendas e superstições em um leque infinito de possiblidades para análises filosóficas ou para o mero entretenimento escapista. O prolífico escritor Stephen King se rendeu ao tema em seu livro “A Metade Negra” (The Dark Half) de 1989. Nele, King usa o mito da réplica maligna estimulado por uma experiência pessoal, o período em que usava o pseudônimo de Richard Bachman para escrever anonimamente, o que descoberto algum tempo depois. O autor de “It” e “O Iluminado” provoca calafrios ao estipular que seu pseudônimo ganha “vida” independente e desejos vingativos.

           Impossivel não lembrar também da clássica série de Tv “Alem da Imaginação” (The Twilight Zone) que em “Mirror Image”, seu 21º episodio (1ª temporada) mostrando Vera Miles como uma secretária, presa por uma noite de tempestade em uma rodoviária, sendo atormentada por seu doppleganger, o que só ele vê, fazendo todos duvidarem de sua sanidade. O diretor e autor Jordan Peele, inclusive, está à frente de uma nova versão desse seriado clássico, que estreia em breve.

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         Desesperadora e inquietante dicotomia sobre nossa própria natureza, os duplos provocam angustiante análise sobre o que somos e o que gostaríamos de ser, o que trazemos em nossa essência e o que reprimimos. Já advertia Nietzche para que sejamos cautelosos ao combater nossos nêmesis pois ao olhar muito tempo para o abismo, este olha para dentro de você, de mim, de nós mesmos.